5ª feira – IV semana da quaresma
O bezerro de ouro foi feito porque o povo não teve
paciência para esperar por Moisés… O povo foi precipitado, ansioso, enquanto
Moisés se demorava no alto do Sinai. Não foi Moisés que se atrasou. O povo é que
não teve paciência e se precipitou.
Tudo isto para chamar a atenção à paciência de Deus ao
ver a facilidade do povo em se desviar do seu caminho e em esquecer que fora
ele quem os libertou da escravidão do Egito.
Deus teve de controlar a sua paciência e desistir do
castigo com que tinha ameaçado o seu povo.
O poeta Péguy põe na boca de Deus este desabafo:
- Os homens prepararam tais horrores e monstruosidades
que eu próprio, Deus, me admirei. Não pensava supor tal ideia. Tive de perder a
paciência; e, no entanto, eu sou paciente porque sou eterno. Mas não me pude
conter.
Conclusão – todos temos memória curta e precipitados.
Só Deus é paciente porque é eterno. Copiemos o seu exemplo porque somos criados
à sua imagem e semelhança.
Ver também:
As ações falam mais alto
Rezar com o coração
Manual de oração
Dura cerviz
À margem
Midrash sobre o bezerro de ouro, da Tradição Judaica
Antes de subir ao Sinai para receber as tábuas da Lei,
Moisés assegurou ao povo:
- Eu retornarei dentro de quarenta dias, antes do
meio-dia.
Entrementes, apontou o seu irmão Aarão e o filho de
Miriam, Chur, para encarregarem-se do povo de Israel.
Agora já era o décimo-sexto dia de Tamuz, o último dos
quarenta dias, e o meio-dia já havia passado. Onde poderia estar Moisés?
De acordo com os cálculos do povo, os quarenta dias já
haviam passado. Eles incluíram, erroneamente, na sua contagem o dia da partida
de Moisés. Na verdade, porém, ele deveria regressar somente no dia seguinte.
O povo judeu, um povo formado por seiscentos mil
homens, sem contar mulheres, crianças e bebês, encontrava-se no enorme e
terrível deserto, habitat de animais ferozes, cobras e escorpiões, sem o seu
grande líder que servia de ligação entre eles Deus.
Satanás apareceu perante o povo, inquirindo:
- Onde está Moisés?
- Está no Céu, no alto da Montanha, respondeu o povo
judeu.
- Mas o meio dia já passou e ele ainda não regressou,
desafiou-os.
As suas palavras foram ignoradas.
- Moisés faleceu! zombou Satanás.
O povo, porém, não deu atenção as suas palavras.
Satanás começou então a lhes mostrar visões terríveis,
fazendo aparecer o caixão de Moisés. O povo judeu viu o corpo de Moisés
suspenso entre o Céu e a Terra. Era uma imagem tão nítida e real que eram
capazes de apontar para ela com seus dedos.
A explicação verdadeira para aquela visão foi que
Moisés, como resultado da sua estadia no Céu, foi transformado em um ser
espiritual. Satanás mostrou para o povo a vestimenta física da qual se despira.
Então exclamaram:
- Quem sabe se Moisés retornará? Deus pode tê-lo feito
permanecer no Céu para discutir de Torá com ele, ou talvez os anjos o mataram!
Os egípcios convertidos aproximaram-se de Aarão, Chur
e dos setenta anciãos, reivindicando:
- Já que Moisés desapareceu nas alturas, a congregação
inteira está destinada a morrer! Dá-nos um substituto!
A maioria dos membros do povo de Israel não tencionava
usar a imagem como ídolo. Supunham que a Divindade pousaria na imagem, e que
esta os ajudaria a aproximar-se de Deus, assim como Moisés sempre se acercara
deles. Porém, foi um erro. Nos Dez Mandamentos, Deus ordenava:
- Não se pode venerar imagens nem mesmo com o
propósito de servir Deus.
- Queremos um líder que nos garantirá um estatuto
igual ao dos judeus de nascença!
Chur, o filho de Miriam e sobrinho de Moisés e de
Aarão ficou de pé e exclamou:
- Será que esta é a gratidão que possuem por todos os
milagres que Deus realizou para vós? Apenas por que Moisés não está aqui
desejam fazer esta imagem? Moisés voltará! Mas mesmo que não volte, não vos
está permitido fazer imagens! Não os deixarei fazê-la!
- Seus pescoços deveriam ser cortados por uma
exigência como essa! trovejou.
Chur explicou para o povo que era desnecessário
procurar por algo no qual a presença Divina pairasse, pois, o povo de Israel,
diferentemente de todas as outras nações, era guiado pessoalmente por Deus.
O povo agitou-se ante as palavras de Chur. Alguns
começaram a lutar com ele, e finalmente o mataram.
Deus disse:
- Chur, destes a vida para santificar o meu nome.
Mereces uma grande recompensa por isso! Teus filhos serão grandes homens e
príncipes do povo judeu.
E assim aconteceu. O neto de Chur, Betsalel, foi
designado construtor do Tabernáculo, e de entre os seus descendentes estariam o
rei David e outros reis.
Os convertidos egípcios viraram-se para os anciãos,
exigindo um novo líder, porém estes negaram.
Os convertidos egípcios finalmente foram ter com Aarão
exigindo:
- Dá-nos um líder, pois nós não sabemos o que
aconteceu com esse homem Moisés.
Aarão encontrava-se em posição difícil. Se dissesse:
Não posso permitir, como Chur o fizera, alguns da turba poderiam matá-lo
também. Aarão raciocinou: Se eles me assassinarem também, não terão perdão pelo
seu crime. O pecado de fabricar uma imagem é menor se comparado com um crime
tão hediondo!
Se Aarão não ficasse à frente do povo, as coisas
poderiam ficar piores.
Portanto Aarão decidiu:
- Não me resta outro remédio: É melhor aceitar. Porém
demorarei muito para fazer uma imagem. Espero que Moisés volte antes de
terminar.
Deus sabia que Aarão consentiu porque, graças ao seu
grande amor para o povo de Israel, queria salvá-los da destruição.
Para protelar e atrasar o plano, Aarão ordenou:
- Tragam-me os brincos das vossas esposas e crianças.
Ele presumiu que as mulheres recusariam em
compartilhar suas joias. Poderiam surgir discussões entre marido e mulher, e
com isto, tempo precioso seria ganho.
As mulheres, realmente, recusaram-se a compartilhar as
suas joias, não por estarem ligadas a elas, mas porque recusaram-se a
dedicá-las para a formação de uma imagem.
A sua fidelidade a Deus foi recompensada; as mulheres
receberam o Rosh Chôdesh como um dia festivo especial para si mesmas, para ser
celebrado por elas através das gerações.
É costume das mulheres absterem-se de trabalho
específicos em Rosh Chôdesh, como lavar roupas e costurar.
Fora as mulheres, toda a tribo de Levi absteu-se de
contribuir com qualquer ouro para fazer o bezerro, e assim também fizeram os
líderes das tribos e os justos do povo de Israel.
Apesar da recusa das mulheres, o plano de Aarão falhou
porque os homens estavam ávidos em contribuir com ouro. Eles arrancaram os
brincos rapidamente e Aarão jogou o ouro no fogo para derretê-lo e mais tarde
moldá-lo e esculpi-lo com uma ferramenta. Aarão usou o processo mais lento
possível para a formação do metal, esculpindo-o com uma ferramenta em vez de
colocá-lo num molde.)
Agora os magos egípcios puseram-se a trabalhar. Com a
sua magia, converteram a imagem num bezerro. Subsequentemente, um bezerro vivo
emergiu do fogo, balindo e andando.
Apontando para ele, os egípcios convertidos gritaram:
- Estes são os vossos deuses, Israel, que vos tiraram
do Egito!
As reações do povo de Israel diante do bezerro foram
variadas. Alguns consideraram-no um intermediário sobre o qual a presença
Divina pairaria. Outros tiveram a intenção de servir o próprio bezerro. Alguns
o acolheram como uma oportunidade de abandonar a estrita disciplina moral da
Torá e usar esta imagem como um pretexto para licenciosidade.
O povo quis construir um altar no qual oferendas
poderiam ser sacrificadas, e tinham a intenção de rezar para Deus pedindo que
um fogo celestial descesse sobre ele. Aarão, porém, exigiu que a construção do
altar fosse deixada a cargo dele, proclamando:
- Será uma honra maior para o altar se eu construí-lo
sozinho!
Na verdade, os seus pensamentos eram outros: Se eles o
construírem, cada um trará uma pedra e ele logo ficará pronto. Eu, porém,
demorarei na sua construção até o anoitecer, para que nenhum sacrifício seja
oferecido até amanhã. Até lá, Moisés já terá regressado.
Ele concordou em construir este altar pois preferia
ser pessoalmente culpado a deixar que o povo judeu fosse punido mais tarde pelo
pecado de construí-lo.
Aarão declarou numa voz triste:
- Amanhã terá um festival para Deus! Ele frisou
claramente que o festival era em honra de Deus, e não do bezerro.
Na manhã seguinte, os egípcios convertidos despertaram
cedo. Beberam vinho, e naquele estado de embriaguez, serviram ao bezerro como
se fosse um deus, oferecendo-lhe a maná que caíra naquele dia. Assim, eles
contrariaram o Altíssimo com a maior bondade que Ele lhes outorgara.
(Isto não nos surpreenderá se considerarmos que nós,
frequentemente, agimos desta mesma maneira incongruente, ao empregarmos o nosso
cérebro e membros, ambos presentes Divinos, para desafiar a Sua vontade.)
Ao mesmo tempo em que o povo estava praticando
idolatria, Deus, nos Céus, estava ocupado gravando os Dez Mandamentos para eles
nas duas tábuas de safira, como um presente para o Seu povo, que garantiria a
eles vida eterna.
Os egípcios convertidos induziram os primogénitos do
povo judeu a também fazer sacrifícios para o bezerro. Os primogénitos, por
causa disso, perderam o seu direito de realizar o serviço Divino. Este
privilégio foi transferido para a tribo de Levi.
A idolatria do bezerro levou à libertinagem e
obscenidade.
Apesar de terem sido os egípcios convertidos quem
idolatraram o bezerro, todo o povo de Israel foi incluído no veredito culposo
de Deus, já que eles fracassaram em protestar contra os pecadores.
Deus poderia ter destruído todo o povo de Israel nesta
ocasião, se não fosse a memória de Abraão, Isaque e Jacob.