sexta-feira, 4 de abril de 2025

Quem ama nunca está longe


6ª feira – IV semana da quaresma

Em geral nós dizemos que num momento de angústia e de sofrimento aproximamo-nos mais de Deus. Há quem se lembre de Deus só nesses momentos.

Mas isso não é verdade.

Não são os atribulados que se aproximam de Deus, mas é Deus quem se aproxima dos atribulados.

É por isso que o salmo 34 diz:

O Senhor está perto dos corações atribulados.

É certo que Deus está perto de todos, mas está mais perto dos atribulados porque estes estão também mais perto de Deus.

 

"Onde te ouviu o Senhor? – Dentro de ti.

Onde está o teu Deus? – Dentro de ti.

Aí oras – aí te escuta, aí te santifica.

Se orares serás ouvido e santificado.

Entra no teu coração;

Limpa-o de tudo o que é velho;

Eleva os olhos para Deus e ele ouvir-te-á.

Não peças nada além de Deus.

Pede-o a ele mesmo e escutar-te-á."

(Santo Agostinho)

 

De facto, quem ama nunca está longe.

Não pode estar longe quem está dentro de mim!

 

Ver também:

Deus é sempre pontual

Jesus em segredo

Jesus é o segredo

A hora de Jesus

Em segredo

 

quinta-feira, 3 de abril de 2025

À volta do Bezerro de Ouro


5ª feira – IV semana da quaresma

O bezerro de ouro foi feito porque o povo não teve paciência para esperar por Moisés… O povo foi precipitado, ansioso, enquanto Moisés se demorava no alto do Sinai. Não foi Moisés que se atrasou. O povo é que não teve paciência e se precipitou.

 

Tudo isto para chamar a atenção à paciência de Deus ao ver a facilidade do povo em se desviar do seu caminho e em esquecer que fora ele quem os libertou da escravidão do Egito.

Deus teve de controlar a sua paciência e desistir do castigo com que tinha ameaçado o seu povo.

 

O poeta Péguy põe na boca de Deus este desabafo:

- Os homens prepararam tais horrores e monstruosidades que eu próprio, Deus, me admirei. Não pensava supor tal ideia. Tive de perder a paciência; e, no entanto, eu sou paciente porque sou eterno. Mas não me pude conter.

 

Conclusão – todos temos memória curta e precipitados. Só Deus é paciente porque é eterno. Copiemos o seu exemplo porque somos criados à sua imagem e semelhança.

 

Ver também:

As ações falam mais alto

Rezar com o coração

Manual de oração

Dura cerviz

 

À margem

Midrash sobre o bezerro de ouro, da Tradição Judaica

Antes de subir ao Sinai para receber as tábuas da Lei, Moisés assegurou ao povo:

- Eu retornarei dentro de quarenta dias, antes do meio-dia.

Entrementes, apontou o seu irmão Aarão e o filho de Miriam, Chur, para encarregarem-se do povo de Israel.

Agora já era o décimo-sexto dia de Tamuz, o último dos quarenta dias, e o meio-dia já havia passado. Onde poderia estar Moisés?

De acordo com os cálculos do povo, os quarenta dias já haviam passado. Eles incluíram, erroneamente, na sua contagem o dia da partida de Moisés. Na verdade, porém, ele deveria regressar somente no dia seguinte.

O povo judeu, um povo formado por seiscentos mil homens, sem contar mulheres, crianças e bebês, encontrava-se no enorme e terrível deserto, habitat de animais ferozes, cobras e escorpiões, sem o seu grande líder que servia de ligação entre eles Deus.

Satanás apareceu perante o povo, inquirindo:

- Onde está Moisés?

- Está no Céu, no alto da Montanha, respondeu o povo judeu.

- Mas o meio dia já passou e ele ainda não regressou, desafiou-os.

As suas palavras foram ignoradas.

- Moisés faleceu! zombou Satanás.

O povo, porém, não deu atenção as suas palavras.

Satanás começou então a lhes mostrar visões terríveis, fazendo aparecer o caixão de Moisés. O povo judeu viu o corpo de Moisés suspenso entre o Céu e a Terra. Era uma imagem tão nítida e real que eram capazes de apontar para ela com seus dedos.

A explicação verdadeira para aquela visão foi que Moisés, como resultado da sua estadia no Céu, foi transformado em um ser espiritual. Satanás mostrou para o povo a vestimenta física da qual se despira.

Então exclamaram:

- Quem sabe se Moisés retornará? Deus pode tê-lo feito permanecer no Céu para discutir de Torá com ele, ou talvez os anjos o mataram!

Os egípcios convertidos aproximaram-se de Aarão, Chur e dos setenta anciãos, reivindicando:

- Já que Moisés desapareceu nas alturas, a congregação inteira está destinada a morrer! Dá-nos um substituto!

A maioria dos membros do povo de Israel não tencionava usar a imagem como ídolo. Supunham que a Divindade pousaria na imagem, e que esta os ajudaria a aproximar-se de Deus, assim como Moisés sempre se acercara deles. Porém, foi um erro. Nos Dez Mandamentos, Deus ordenava:

- Não se pode venerar imagens nem mesmo com o propósito de servir Deus.

- Queremos um líder que nos garantirá um estatuto igual ao dos judeus de nascença!

Chur, o filho de Miriam e sobrinho de Moisés e de Aarão ficou de pé e exclamou:

- Será que esta é a gratidão que possuem por todos os milagres que Deus realizou para vós? Apenas por que Moisés não está aqui desejam fazer esta imagem? Moisés voltará! Mas mesmo que não volte, não vos está permitido fazer imagens! Não os deixarei fazê-la!

- Seus pescoços deveriam ser cortados por uma exigência como essa! trovejou.

Chur explicou para o povo que era desnecessário procurar por algo no qual a presença Divina pairasse, pois, o povo de Israel, diferentemente de todas as outras nações, era guiado pessoalmente por Deus.

O povo agitou-se ante as palavras de Chur. Alguns começaram a lutar com ele, e finalmente o mataram.

Deus disse:

- Chur, destes a vida para santificar o meu nome. Mereces uma grande recompensa por isso! Teus filhos serão grandes homens e príncipes do povo judeu.

E assim aconteceu. O neto de Chur, Betsalel, foi designado construtor do Tabernáculo, e de entre os seus descendentes estariam o rei David e outros reis.

Os convertidos egípcios viraram-se para os anciãos, exigindo um novo líder, porém estes negaram.

Os convertidos egípcios finalmente foram ter com Aarão exigindo:

- Dá-nos um líder, pois nós não sabemos o que aconteceu com esse homem Moisés.

Aarão encontrava-se em posição difícil. Se dissesse: Não posso permitir, como Chur o fizera, alguns da turba poderiam matá-lo também. Aarão raciocinou: Se eles me assassinarem também, não terão perdão pelo seu crime. O pecado de fabricar uma imagem é menor se comparado com um crime tão hediondo!

Se Aarão não ficasse à frente do povo, as coisas poderiam ficar piores.

Portanto Aarão decidiu:

- Não me resta outro remédio: É melhor aceitar. Porém demorarei muito para fazer uma imagem. Espero que Moisés volte antes de terminar.

Deus sabia que Aarão consentiu porque, graças ao seu grande amor para o povo de Israel, queria salvá-los da destruição.

Para protelar e atrasar o plano, Aarão ordenou:

- Tragam-me os brincos das vossas esposas e crianças.

Ele presumiu que as mulheres recusariam em compartilhar suas joias. Poderiam surgir discussões entre marido e mulher, e com isto, tempo precioso seria ganho.

As mulheres, realmente, recusaram-se a compartilhar as suas joias, não por estarem ligadas a elas, mas porque recusaram-se a dedicá-las para a formação de uma imagem.

A sua fidelidade a Deus foi recompensada; as mulheres receberam o Rosh Chôdesh como um dia festivo especial para si mesmas, para ser celebrado por elas através das gerações.

É costume das mulheres absterem-se de trabalho específicos em Rosh Chôdesh, como lavar roupas e costurar.

Fora as mulheres, toda a tribo de Levi absteu-se de contribuir com qualquer ouro para fazer o bezerro, e assim também fizeram os líderes das tribos e os justos do povo de Israel.

Apesar da recusa das mulheres, o plano de Aarão falhou porque os homens estavam ávidos em contribuir com ouro. Eles arrancaram os brincos rapidamente e Aarão jogou o ouro no fogo para derretê-lo e mais tarde moldá-lo e esculpi-lo com uma ferramenta. Aarão usou o processo mais lento possível para a formação do metal, esculpindo-o com uma ferramenta em vez de colocá-lo num molde.)

Agora os magos egípcios puseram-se a trabalhar. Com a sua magia, converteram a imagem num bezerro. Subsequentemente, um bezerro vivo emergiu do fogo, balindo e andando.

Apontando para ele, os egípcios convertidos gritaram:

- Estes são os vossos deuses, Israel, que vos tiraram do Egito!

As reações do povo de Israel diante do bezerro foram variadas. Alguns consideraram-no um intermediário sobre o qual a presença Divina pairaria. Outros tiveram a intenção de servir o próprio bezerro. Alguns o acolheram como uma oportunidade de abandonar a estrita disciplina moral da Torá e usar esta imagem como um pretexto para licenciosidade.

O povo quis construir um altar no qual oferendas poderiam ser sacrificadas, e tinham a intenção de rezar para Deus pedindo que um fogo celestial descesse sobre ele. Aarão, porém, exigiu que a construção do altar fosse deixada a cargo dele, proclamando:

- Será uma honra maior para o altar se eu construí-lo sozinho!

Na verdade, os seus pensamentos eram outros: Se eles o construírem, cada um trará uma pedra e ele logo ficará pronto. Eu, porém, demorarei na sua construção até o anoitecer, para que nenhum sacrifício seja oferecido até amanhã. Até lá, Moisés já terá regressado.

Ele concordou em construir este altar pois preferia ser pessoalmente culpado a deixar que o povo judeu fosse punido mais tarde pelo pecado de construí-lo.

Aarão declarou numa voz triste:

- Amanhã terá um festival para Deus! Ele frisou claramente que o festival era em honra de Deus, e não do bezerro.

Na manhã seguinte, os egípcios convertidos despertaram cedo. Beberam vinho, e naquele estado de embriaguez, serviram ao bezerro como se fosse um deus, oferecendo-lhe a maná que caíra naquele dia. Assim, eles contrariaram o Altíssimo com a maior bondade que Ele lhes outorgara.

(Isto não nos surpreenderá se considerarmos que nós, frequentemente, agimos desta mesma maneira incongruente, ao empregarmos o nosso cérebro e membros, ambos presentes Divinos, para desafiar a Sua vontade.)

Ao mesmo tempo em que o povo estava praticando idolatria, Deus, nos Céus, estava ocupado gravando os Dez Mandamentos para eles nas duas tábuas de safira, como um presente para o Seu povo, que garantiria a eles vida eterna.

Os egípcios convertidos induziram os primogénitos do povo judeu a também fazer sacrifícios para o bezerro. Os primogénitos, por causa disso, perderam o seu direito de realizar o serviço Divino. Este privilégio foi transferido para a tribo de Levi.

A idolatria do bezerro levou à libertinagem e obscenidade.

Apesar de terem sido os egípcios convertidos quem idolatraram o bezerro, todo o povo de Israel foi incluído no veredito culposo de Deus, já que eles fracassaram em protestar contra os pecadores.

Deus poderia ter destruído todo o povo de Israel nesta ocasião, se não fosse a memória de Abraão, Isaque e Jacob.

 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Dimensão maternal de Deus


4ª feira – IV semana da quaresma

Deus é Pai e é Mãe.

Não há pai sem mãe,

nem mãe sem pai.


Deus pai e mãe. João Paulo I dizia que Deus é mãe. As feministas suprimem da Bíblia as formas "machistas". Por outro lado, a Bíblia não será talvez tão radical na sua supremacia masculina, e João Paulo II falava de «reciprocidade e complementaridade» dos sexos, apoiando-se nas Sagradas Escrituras. Então não há de ter medo de dizer que Deus é pai e mãe.

Tomemos dois exemplos do livro de Isaías: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria» (49, 15); «Como a mãe consola o seu filho, assim Eu vos consolarei» (66, 13). O Antigo Testamento atribui regularmente a Deus «entranhas maternais», sinal de amor espontâneo, instintivo, absoluto.

Exteriormente Deus mais se parece com um Pai, mas interiormente se parece com uma mãe.

Pode legitimamente falar-se de uma dimensão maternal de Deus, não esquecendo que se trata sempre de um antropomorfismo, de um símbolo, como a dimensão paternal, para exprimir o mistério divino inefável e representar a realidade do Incognoscível.

Palavra de Deus incarnada, a Bíblia privilegia o rosto paternal de Deus aos olhos dos condicionalismos culturais onde se manifestou.

O mundo moderno, sensível «à reciprocidade e à complementaridade» dos sexos, mencionadas várias vezes pelo papa João Paulo II, encorajou esta interpretação dos textos bíblicos.

Goethe afirmava muito acertadamente que «nós podemos falar de Deus de forma antropomórfica (sobre o modo humano) porque somos teomórficos (em forma divina)».

(Adaptado de Gianfranco Ravasi, Cardeal)

 

Ver também:

Deus nunca se esquece

Não é homem feito Deus

Critérios de avaliação

Levar a sério

Pai nosso ou mãe nossa

 

terça-feira, 1 de abril de 2025

Junto à Porta das Ovelhas


3ª feira – IV semana comum

Jesus não engana

Já tive oportunidade de visitar a piscina dos Cinco Pórticos de que fala o trecho do Evangelho de hoje. Recordo vagamente que era preciso descer por degraus íngremes e que, de facto, só havia lugar para uma pessoa. Além disso, lá no fundo a água era pouca de modo que não dava para muita gente. Por isso diziam, que um anjo vinha agitar ou despejar água com propriedades curativas nesse poço.

Escavações arqueológicas trouxeram à luz a piscina de Betsatá ou Betesda (em hebraico = casa das azeitonas), perto da porta das Ovelhas, na antiga Jerusalém. Foi descoberto também que havia uma falcatrua: o que movimentava a água não era um anjo do céu, mas um sistema enganoso subterrâneo. As águas medicinais eram acumuladas e a determinada altura, por si próprias vazavam-se no pequeno tanque. Assim, os doentes eram iludidos pensando na ação de um anjo. Jesus, por sua vez, não ilude ninguém. Ouviu as queixas daquele homem e lhe curou por pura compaixão. Deus não mente, não iludiu ninguém, por isso, nele podemos confiar.

 

Jesus recompensa a persistência

Um homem paralítico estava nessa piscina há 38 anos. É de facto muito tempo. Jesus foi um anjo ou mensageiro de esperança para esse homem. Não sei o que mais tenho de admirar, se a iniciativa de Jesus ou a persistência do paralítico.

 

Jesus entra pela porta das ovelhas

Era por ocasião de uma festa. Jesus entrou pela Porta das Ovelhas. Não entrou pela porta principal por que não buscava pompas. Entrou como cordeiro pela Porta das Ovelhas. Esta era uma porta secundária, destinada aos animais a serem sacrificados. Além disso, era um espaço onde se aglomerava os mais pobres e que precisavam de ajuda e não se podiam misturar com os ricos.

Jesus entrou pela Porta das Ovelhas como cordeiro a ser sacrificado na festa da Páscoa.
Jesus entrou pela Porta das Ovelhas, na humildade e simplicidade, mas também por que era aí que estavam aos pobres e humildes a quem queria servir.

 

Ver também:

Um milagre na piscina

A culpa é dos outros

Carregar a cruz

A cura de um preguiçoso

Paralisias várias

Diálogo

Os 5 pórticos

Toma a tua enxerga

Curar o corpo e a alma