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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Carlos de Áustria escritor


Memória litúrgica do beato Carlos de Áustria

A) O livro que o Santo Imperador não escreveu

Sabemos que Carlos de Habsburgo queria escrever um livro de impressões colhidas na Madeira e das suas gentes. (168)

Parece que o seu sonho não se concretizou por causa da sua morte prematura.

Este sonho não se realizou porque um “sonho mais alto se levantou”.

Não foi o imperador Carlos a escrever um livro sobre o povo da Madeira, mas sim o povo da Madeira é que escreveu e continua a escrever sobre as impressões colhidas do imperador na Madeira.

É um livro feito de gestos e palavras, de paz, humildade e confiança em Deus.

O povo continua a escrever esse livro através da devoção, testemunho e intercessão do Beato Carlos de Áustria.

 

B) O livro que o santo Imperador escreveu

Pensando melhor, afinal o Beato Carlos escreveu um livro cuja edição transcende esta terra, pois é lido também no céu. É o livro da sua vida de santidade.

Entre tantas, assinalamos apenas duas realidades que podemos ler no livro que o Imperador nos deixou, que é a sua vida e santidade:

- Nenhuma missão tem concorrido tão eficazmente para reavivar a Fé na minha diocese como o exemplo da paciência heroica e da morte santa do ‘seu imperador’. É um livro de espiritualidade e de santidade.

- Referindo-Se à régia personalidade, o ex-imperial exilado da Madeira, Carlos da Áustria-Hungria, que nenhuma propaganda podia dar melhor resultado do que a sua permanência aqui. Nem com três mil contos tanto se poderia conseguir. (83) É um livro de promoção a todos os níveis.

 

C) O livro que o Imperador queria escrever

Se alguém quiser assumir o desafio de completar o Livro que o imperador Carlos não chegou a escrever, aqui vão algumas impressões que ficaram registadas e que deverão integrar esse tal livro:

- Na sua vinda para o Funchal como exilado, ao dobrar a Ponta do Garajau, olhou para a montanha e viu a Igreja e as torres de Nossa Senhora do Monte que de longe se assimilavam às Igrejas do Tirol Austríaco. Logo prometeu à sua esposa que ali viriam como peregrinos.

- Estamos encantados com a Ilha da Madeira e mais ainda com a forma carinhosa como o povo nos saudou à nossa passagem. É um povo deveras hospitaleiro. (33)

- Sabemos que os ex-imperadores de Áustria se encontram altamente penhorados pela maneira como foram tratados a bordo do cruzador inglês estando também muito satisfeitos por ser a Madeira a terra escolhida para o seu exílio. (38)

- Sabemos, por informação segura, que Carlos de Habsburgo e Zita de Bourbon, os ex-soberanos da Hungria, que se encontram exilados nesta ilha, continuam manifestando o seu agrado pela nossa terra. (56)

- O Século publicou os seguintes telegramas: O ex-imperador Carlos e a ex-imperatriz Zita mostram-se satisfeitos pelo acolhimento e atenções que lhes têm sido dispensadas pelos madeirenses e estão encantados com o panorama da ilha. (61)

- O Diário de Notícias da capital publicou o seguinte telegrama: O Ex-imperador Carlos recebeu em audiência particular o Sr. António Vieira Castro. Mostrou-se muito satisfeito com a escolha do lugar de exílio e fez votos pela felicidade de Portugal.

- S.S.M.M. saíram anteontem do seu aprazível chalet Vitória pela uma hora da tarde, em automóvel até à Ribeira Brava, mostrando-se em todo o percurso bastante admirados com os acidentes naturais

- Carlos de Habsburgo ficou agradavelmente impressionado, tanto pela hospedagem que lhe foi oferecida pelo proprietário sr. Augusto de Gouveia, como pela forma agradável como foi recebido pelas populações rurais. (90)

- Os ex-imperadores d’Áustria estiveram na fortaleza de S. João Baptista (Pico) na noite do dia 31, admirando os lindos fogos de artifício que se queimaram nesta cidade e arredores, para solenizar a passagem do ano velho para o ano novo.

- Consta-nos que Suas Majestades ficaram muito agradavelmente impressionados com os belos espetáculos que se desenrolam aos seus olhos. (93)

- Sua Majestade voltou encantado com estas serras, que são deslumbrantes, na verdade. (93)

-  Os madeirenses consagram aos seus reais hóspedes, um interesse profundo, feito de respeito admirativo por suas grandes virtudes e ilustração invulgar, e de carinho amoroso para com as suas augustas pessoas (121)

- A imperatriz recebeu várias pessoas manifestando o seu reconhecimento pelo carinhoso acolhimento que lhe tem sido dispensado pelos madeirenses. Espera que o Arquiduque Roberto parta muito em breve para a Madeira, a fim de completar a sua convalescença no maravilhoso clima dessa ilha. (128)

…/…

 

D) Título para o Livro do Imperador

Já que o Imperador Carlos queria pôr em livro as impressões colhidas na Madeira, e tendo em conta o seu testemunho divulgado pelos jornais, proponho que o livro tenha por título: GRATIDÃO E RECONHECIMENTO.

De facto, gratidão e reconhecimento, são virtudes próprias dos santos.

Que não nos faltem ainda hoje os mesmos sentimentos de gratidão e de reconhecimento.

 

E) A vida é como um livro

A vida é como um livro e o livro é como a vida.

Cada dia uma página nova.

Cada hora uma vírgula.

Mas nem o lápis pode escrever o futuro nem a borracha apagar o passado.

E chega um momento em que Deus nos tira o lápis e escreve FIM.

É este o livro que cada um deve escrever.

 

(Advertência – por uma questão prática as citações apresentadas neste texto foram abreviadas, constando apenas o número da página. São todas do livro de Duarte Mendonça: Carlos e Zita de Habsburgo, crónica de um exílio imperial na cidade do Funchal, antologia anotada de textos da imprensa regional, Município do Funchal, setembro 2013).

A fotografia é da autoria da Maria da Paz Mendonça, Monte 3 de outubro de 2024.)

 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Beatificação de um leigo

Ao comemorar hoje o 20º aniversário da beatificação do Imperador Carlos de Áustria, começamos por assinalar a sua condição de leigo. Não são muitos os leigos que são beatificados ou canonizados e ainda menos os membros da realeza.

Ele sempre amou a Deus, a Igreja e ao povo.

E Deus pronunciou-se a favor da sua santidade através de um milagre por sua intercessão.

A Igreja pronunciou-se através da sua beatificação.

E o povo pronuncia-se através da sua invocação.

 

Apesar da traição pessoal do Cardeal Piffl de Viena (que instou os austríacos a se unirem à república e persuadiu a maioria dos outros bispos austríacos a se juntarem a ele em oposição ao imperador) Carlos de Áustria nunca perdeu o seu amor pela Igreja nem a sua veneração pelo Papa e pelo clero.

Alguns bispos, no entanto, permaneceram fiéis ao Imperador-rei exilado, mas a maioria não o fez.

Ao seu lado destacam-se o Cardeal Mindszenty, mas também o beato húngaro Zoltán Meszlényi.

O seu maior admirador, em termos humanos e espirituais, foi São João Paulo II, cujo pai atribui-lhe o nome de Karol em homenagem ao Imperador, e que, ao conhecer a Imperatriz, viúva de Carlos, a serva de Deus Zita, declarou que era uma honra finalmente conhecer a ‘minha Imperatriz’.

Numa época em que muitos leigos se sentem postos à parte, ignorados e até mesmo vitimizados por parte da hierarquia, o exemplo da intercessão do Beato Carlos de Áustria e sua consorte, nunca foram tão necessários e importantes. Embora o relacionamento entre os poderes leigos e clericais da Igreja em quase todos os países hoje possa ser muito diferente do que era – e o da cristandade foi até mesmo condenado por muitos teólogos nas últimas décadas – o último sistema produziu e foi endossado por muitos santos, entre os quais encontramos o Beato Carlos.

Precisamos hoje, mais do que nunca, ver leigos beatificados ou canonizados.

Os tempos modernos podem ser uma fonte abundante de santos leigos.

 

Precisamos de mais leigos santos

e de mais santos leigos.

 

Beato Carlos de Áustria,

Rogai por nós.

(texto adaptado de autor desconhecido)

 

terça-feira, 2 de abril de 2024

Um Santo Madeirense


Da Madeira para o Céu – Beato Carlos de Áustria – um santo da nossa terra

No dia 1 de abril de 1922 partiu do Monte para a eternidade o Imperador Carlos de Áustria.

É de verdade um santo madeirense, por vários motivos:

 

1º argumento

Se São Pedro e São Paulo são considerados santos romanos, apesar de terem nascido na Terra Santa ou Médio oriente;

Se Santo António é chamado de Pádua, embora tenha nascido em Lisboa;

Se São Francisco Xavier é conhecido como o santo do Oriente e das Índias, embora seja de Navarra;

Se a Rainha Santa Isabel é designada como de Portugal embora tenha nascido em Aragão;

Porque é que o Beato Carlos, Imperador, não é chamado o Santo da Madeira, embora nascido em Áustria?

De facto, foi na Madeira que o Beato Carlos nasceu para o Céu e, portanto, é com toda a propriedade um santo madeirense.

 

2º argumento

Parafraseando o Pe. António Vieira, podemos dizer que Deus lhe deu para nascer um grande e nobre mundo, mas para morrer Deus lhe deu esta pequena e humilde terra que é a Madeira. Não é o lugar de chegada que dita a nossa terra, mas o local da nossa partida.

 

3º argumento

É habitual que o dia do falecimento de um santo seja considerado o Die Natalis in caelum, ou seja, o dia do nascimento para o céu. Então também o local onde viveu esse dia deve tornar-se a sua terra natal.

 

4º argumento

Carlos de Áustria considerava-se um madeirense, filho dessa terra que o acolheu e o adotou como verdadeiro filho. Ele considerava esta terra como sua e a Madeira considerava-o como seu.

 

5º argumento

Carlos da Áustria veio para a Madeira para partir e para ficar. Veio para partir daqui para a eternidade. Mas veio também para ficar aqui sepultado, para fazer parte deste chão. Ele não está apenas nesta terra. Ele faz parte desta terra.

 

Por tudo isto, o Beato Carlos de Áustria é com toda a propriedade um verdadeiro SANTO da MADEIRA. Não um santo de madeira, mas um santo autêntico, de carne e osso, um santo madeirense.

 

sábado, 21 de outubro de 2023

Bom homem e homem bom


Memória litúrgica do Beato Carlos de Áustria

 

Carlos, Imperador da Áustria e Rei da Hungria, foi beatificado, pois foi um bom homem e um homem bom.

Foi um bom homem porque sempre foi:

- um bom filho

- um bom marido

- um bom pai

- um bom cristão

- um bom cidadão

- um bom militar

- um bom companheiro

- um bom rei

- um bom imperador

- um bom amigo

 

Foi um homem bom porque sempre foi:

- um homem caridoso

- um homem pacífico

- um homem humilde

- um homem paciente

- um homem justo

- um homem crente

- um homem íntegro

- um homem digno

- um homem tolerante

- um homem santo

“Era um homem de uma segura integridade moral e de uma fé sólida, que sempre procurou o melhor para os seus povos. Foi um cristão, um marido, um pai, um monarca exemplar.” (CF. João Paulo II, aquando da proclamação das virtudes heroicas de Carlos de Áustria).

“Nenhuma missão tem concorrido tão eficazmente para avivar a Fé em minha Diocese como o exemplo da paciência heroica e da morte santa do seu Imperador…” (CF. D. António Pereira Ribeiro, bispo do Funchal aquando da morte do Beato Carlos).

“Tendo subido ao trono em 1916, serviu o povo com justiça e caridade. Procurou a paz, ajudou os pobres, cultivou com empenho a sua vida espiritual… Foi sustentado pela Fé desde a sua juventude e principalmente no período da primeira Guerra Mundial e no exílio da Madeira onde morreu santamente.” (CF. Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, aquando da beatificação de Carlos de Áustria).

“Uma das prioridades do meu pai era ensinar-nos tolerância. Tolerância entre as pessoas, entre as nacionalidades.” (CF. Otto de Habsburgo, filho mais velho do Beato Carlos, recordando o legado paterno).



 

sábado, 19 de novembro de 2022

Peanha do Santo Imperador

A Ilha da Madeira foi o pequeno espaço escolhido por Deus para servir de peanha ou pedestal do Santo Imperador, Carlos de Áustria. Parece não haver terra mais grandiosa, escada mais alta, viagem mais longínqua.

Carlos de Áustria tendo viajado pelo seu império e por toda a Europa, chegou à Madeira para aí iniciar a sua viagem mais transcendente.

A Madeira, desde 19 de novembro de 1921 foi-se transformando e elevando pouco a pouco a sua vocação de sacrário de santidade.

Começou por ser nomeado como um simples lugar de internamento, de residência de exílio ou permanência forçada.

Depois foi-se afirmando como local privilegiado de acolhimento, de habitação familiar e corte imperial.

Passou ainda por espaço de purificação e de ascese como subida ao monte Calvário.

Finalmente a ilha tornou-se antecâmara do paraíso, porta do céu e lugar de repouso eterno.

Agora na Madeira, o Monte tornou-se em altar onde é venerado o santo Imperador, a peanha da sua imagem, o pedestal da sua figura de santidade. Partilha com a Senhora do Monte o mesmo santuário, a mesma peanha ou pedestal. E nós podemos também partilhar com e como eles o mesmo altar e o mesmo destino de eternidade.

Por causa do Santo Imperador a Madeira ficou mais parecida com o Paraíso e o Céu ainda mais perto da nossa terra.

 

Lição a guardar:

Façamos do lugar onde estamos, quer de passagem quer permanente, quer desterrados ou acolhidos, quer na saúde ou na doença, quer na alegria ou na tristeza, quer na esperança ou na angústia, quer na vida ou na morte, uma peanha de santidade e um pedestal de eternidade, a exemplo do Beato Carlos de Áustria.

Acompanhemos o percurso do Imperador Carlos da Madeira para a eternidade, da terra ao céu:

 

INTERNAMENTO

01 de novembro de 1921 in Diário da Madeira

A Inglaterra propôs às nações aliadas que seja internado na ilha da Madeira o imperador Carlos da Áustria.

 

RESIDÊNCIA

04 de novembro de 1921 in O Comércio da Madeira

Foi concedido autorização aos imperadores de Áustria para residirem na ilha da Madeira.

 

EXÍLIO

05 de novembro de 1921 in Diário de Notícias

O governo português aceitou a proposta dos Aliados para ser exilado na ilha da Madeira o ex-imperador Carlos da Áustria.

 

HÓSPEDAGEM

09 de novembro de 1921 in Diário da Madeira

Os ex-imperadores da Áustria serão considerados pelo governo português como hóspedes, sendo-lhes dispensadas todas as deferências e atenções

 

HABITAÇÃO

11 de novembro de 1921 in O Comércio da Madeira

Está definitivamente assente o ex-imperador Carlos de Habsburgo e sua esposa habitarem a Villa Vitória anexa ao Reid’s Palace Hotel.

 

PRISÃO DE ELEVADA CATEGORIA

12 de novembro de 1921 in Diário da Madeira

Segundo nos informou o sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros o ex-imperador da Áustria, Carlos de Habsburgo e sua família, que muito em breve virão residir na ilha da Madeira serão considerados não como prisioneiros, mas como hóspedes do nosso governo que terá para eles todas as atenções e deferências que competem à sua elevada categoria social

 

PERMANÊNCIA FORÇADA

18 de novembro de 1921 in Diário da Madeira

A conferência dos embaixadores, reunida em Londres, ficou o subsídio e o quantitativo das restantes despesas com a permanência forçada na Madeira dos ex-soberanos austríacos.

 

POVO HOSPITALEIRO

20 de novembro de 1921 in O Comércio da Madeira

O cruzador inglês Cardiff fundeou, ontem às 11 horas na baía do Funchal, trazendo os ex-imperadores Carlos e Zita. O desembarque foi marcado para as 15 horas o que aconteceu. O povo, à passagem dos ex-soberanos, descobria-se respeitosamente, a que eles correspondiam sorridentes e com a maior cordialidade.

“Estamos encantados com a beleza da Ilha da Madeira e com a forma carinhosa como o povo nos saudou à nossa passagem. É um povo deveras hospitaleiro” – disse ao Comércio da Madeira S.M. Carlos de Habsburgo.

 

ESTADIA EM HOTEL

20 de novembro de 1921 in Diário de Notícias

Os ex-reis da Hungria são desde ontem nossos hóspedes. Desembarcados seguiram para a Vila Vitória anexa ao Reid’s Palace Hotel onde ficam residindo. É a primeira vez que a hospitaleira ilha serve de residência a soberanos exilados.

 

NOVA CORTE IMPERIAL

22 de novembro de 1921 in Diário da Madeira

Na sé, à entrada e à saída dos ex-imperadores, alguns membros do clero e bem assim algumas pessoas do povo beijavam a mão de Carlos de Habsburgo em sinal de cortesia devida aos soberanos.

 

RESIDÊNCIA DE VERÃO

26 de novembro de 1921 in Diário de Notícias

Os ex-imperadores da Hungria foram ontem ao Monte, pelas 2 horas da tarde, no automóvel do sr. António Vieira de Castro, visitando a Quinta Rocha Machado, que será a sua residência de verão.

 

SEM GUARDA NEM VIGILÂNCIA

01 de dezembro de 1921 in Diário de Notícias

O Ministro dos Estrangeiros em entrevista à Capital disse – o imperador Carlos e sua esposa foram residir para a Madeira não como prisioneiros, mas como soberanos exilados. O governo português não tem responsabilidade alguma, perante as potências, pela sua guarda. Nós não fomos chamados a exercer nenhuma vigilância. O imperador habita no Funchal como qualquer soberano exilado e não guardado pelo governo português.

 

SOBERANO EM TODO O LUGAR

23 de março de 1921 in Diário de Lisboa

Quando foram, pela primeira vez ouvir missa à Sé do Funchal, um desconhecido, que se achava no meio da multidão, exclamou em húngaro: Viva o rei Carlos!

Trataram se se informar da sua identidade e souberam que era um comerciante de Budapeste que tendo de ir para o México, se dirigira primeiro ao Funchal, para ver os seus antigos soberanos. Esta prova de dedicação enterneceu-os profundamente. A soberania era agora exercida no Funchal.

 

ENFERMARIA

27 de março de 1921 in Diário de Lisboa

Encontra-se gravemente enfermo, na Ilha da Madeira o ex-imperador Carlos.

A desgraça não o deixa repousar pois até no exílio o persegue. Aliada a uma terrível depressão nervosa, a doença (dupla pneumonia) debilita-lhe agora a sua resistência.

 

ANTECÂMARA DO PARAÍSO E VIÁTICO

02 de abril de 1921 in Correio da Madeira

O defunto exilado recebia todos os dias o S.S. Sacramento e só como Sagrado Viático o recebeu na 2ª feira, tendo-lhe nesse dia sido ministrada a Extrema Unção, a seu pedido.

 

ESPELHO DA SUA PÁTRIA

02 de abril de 1921 in Correio da Madeira

D. Carlos de Habsburgo estava escrevendo um livro, de impressões colhidas na Madeira. Ele comparava trechos da nossa ilha a pedaços da sua pátria… O ex-imperador falava da sua pátria, que muito amava, com uma saudade pungente do seu povo, que ele considerava como filhos, e pensava nos seus destinos como um verdadeiro pai.

Os correspondentes dos jornais da capital e do estrangeiro telegrafaram ontem comunicando o desenlace fatal.

 

LEITO DE MORTE

02 de abril de 1921 in Correio da Madeira

Às 12 hora do dia de ontem, na Quinta do Monte, para onde fora residir com sua família e comitiva imperial, faleceu, confortado com os sacramentos da Santa Madre Igreja, Sua Majestade Imperial Apostólica Calos V de Habsburgo… Quando se avizinhava a morte, disse o ex-imperador: Ofereço a minha vida ao meu bom Povo.

 

CÂMARA ARDENTE

04 de abril de 1921 in Correio da Madeira

O quarto, onde a doença prostrara o ex-imperador, é o mesmo que serve de câmara ardente. O ex-imperador ‘dorme’ sobre o leito com a farda de marechal de campo.

A ex-imperatriz Zita olhando para os seus filhos, disse-lhes: O vosso pai não dorme; está acordado e vive junto de Deus.

 

CAPELA TUMULAR

04 de abril de 1921 in Diário da Madeira

Realizam-se amanhã à tarde os funerais, saindo da Quinta do Monte para a Igreja paroquial, onde está sendo levantado um mausoléu.

 

O MELHOR TESOURO

01 de junho de 1922 in A Esperança

No final de maio ancorava no Funchal o moderno transatlântico barcelonense Infanta Isabel de Bourdon que vinha expressamente pela Madeira para transportar a Cádis a Imperatriz viúva Zita e seus filhos. Ao despedir-se do Revmo. Pe. José Marques Jardim, Pároco do Monte, a Imperatriz disse: Deixo-vos o meu melhor tesouro. Deixo o meu coração nesta ilha. Parto com saudade da Madeira e do seu bom povo, mas vou satisfeita por deixar o cadáver do Imperador confiado à guarda duma população generosa… Custa-me deixar o melhor do meu ser, nesta terra, mas deixo-o no meio de corações amigos. O meu coração também fica nesta ilha.

 

NOVA CAPELA FUNERÁRIA

12 de janeiro de 1968 in Jornal da Madeira

A Imperatriz Zita e seus filhos assistiram à santa missa no Monte e à inauguração da nova capela mortuária do Imperador Carlos de Áustria.

 

PEANHA OU PEDESTAL DO SANTO IMPERADOR

16 de outubro de 2004 in Jornal da Madeira

A 3 de outubro de 2004 foi proclamado Beato o Bem-aventurado Carlos de Áustria, por sua santidade o Papa João Paulo II, na praça de São Pedro em Roma. Beatificado na presença de uma representação madeirense presidida pelo Bispo do Funchal D. Teodoro de Faria (que formulou o pedido de beatificação ao Papa João Paulo II por ser o bispo da Diocese onde se encontram os restos mortais do Beato), Presidente do Governo Regional da Madeira, Secretário Regional do Turismo e Cultura, Presidente da Câmara Municipal do Funchal, Pároco do Monte com um grupo de paroquianos e outros devotos. … Estavam presentes de vários filhos e familiares do novo Beato, nomeadamente o seu filho primogénito Otto de Habsburgo.

 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Um percurso de santidade


Memória do Beato Carlos de Áustria

Neste dia contemplemos 5 expressões do quotidiano de um santo ou da santidade na vida quotidiana.

 

1º - Retiro de preparação para o casamento

O casamento de Carlos com Zita ficou marcado para 21 de outubro de 1911 em Schwarzau, na casa de família dos Bourbon-Parma. Os noivos prepararam-se com afinco. Carlos fez um retiro com o Pe. Andlau, que mais tarde virá a testemunhar como ficou edificado pela sua franqueza de caráter, a simplicidade, a firmeza, a retidão e a seriedade com que encarava os seus novos deveres. Zita por seu lado, preparou-se também (CF Elizabeth Montfort, Carlos e Zita de Habsburgo itinerário espiritual de um casal, Edição Lucerna, 2022).

Preparando-se com um retiro para o casamento não esqueceu o principal…

 

2º - Primeiras e últimas palavras de uma união

Na manhã do dia do casamento Carlos disse a Zita: Agora, devemos ajudar-nos mutuamente a ir para o Céu.

Na manhã da sua morte disse: Amo-te infinitamente. Encontrar-nos-emos no Coração de Jesus.

Estas expressões constituem a dupla chave de ouro que abriram e encerraram o itinerário de um casal.

O amor conjugal é ícone do amor de Deus.

 

3º - Desejar boa noite com uma cruz na testa

Todas as noites ao despedir-se dos seus filhos antes de se retirarem para a cama Carlos de Áustria tinha o hábito de lhes fazer o sinal da cruz na testa como bênção. Herdou esse gesto da sua mãe Maria Josefa da Saxónia. De facto, era assim que ela lhe desejava as boas noites, quando criança, recitando também uma oração muito popular austríaca: Louvado seja Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

Os filhos são uma bênção de Deus para seus pais e estes uma bênção de Deus para os seus filhos. Deus abençoa os pais através dos filhos e abençoa os filhos através dos pais.

 

4º - Perder uma pátria para ganhar outra

O cardeal húngaro Jozsef Mindszenty, nas suas memórias, lembrava – quando estava bom tempo, eu olhava para o voo das andorinhas e dizia para comigo: elas chegam na primavera e partem no outono. O destino deu-lhes duas pátrias. Em vez disso, nós só temos uma e ficámos sem ela. Mas talvez não para sempre! Carlos perdeu-a para sempre, mas encontrou imediatamente uma outra, aquela que sempre tinha amado e desejado mais ardentemente – a pátria celeste.

É nessa pátria que podemos encontrar o Imperador. A Arquiduquesa Maria Teresa, numa das cartas que enviou à sua família, com a data de 6 de abril de 1921, escreveu: Zita procura o imperador no sítio onde ele deve repousar – no seio de Deus.

Perder é ganhar aos olhos de Deus, até mesmo uma pátria.

 

5º - Ao rei mártir

Nas exéquias o caixão do Imperador Carlos de Áustria estava coberto por um mar de flores. Uma das coroas tinha a seguinte inscrição em português – Ao rei mártir.

Sem dúvida, era o testemunho de um habitante da ilha.

Carlos de Áustria foi mártir da paz, foi mártir por ter sido submetido a tantas provas, foi mártir na totalidade da sua vida.

Foi mártir, mas foi feliz por ter oferecido o melhor de si mesmo a Deus.

 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Crónica de um santo (20)


Crónica de um santo na Madeira

Epílogo

Na homilia da beatificação de Carlos da Áustria, a 03 de outubro de 2004, o Papa São João Paulo II referiu: “A tarefa decisiva do cristão consiste em buscar, reconhecer e seguir a vontade de Deus em tudo. O homem de Estado e cristão Carlos da Áustria enfrentava este desafio quotidianamente. Aos seus olhos, a guerra manifestava-se como "algo horrível". Durante os tumultos da primeira guerra mundial, ele procurou promover a iniciativa de paz do meu predecessor Bento XV.

Desde o início, o Imperador Carlos concebeu o cargo que ocupava como um serviço sagrado aos seus povos. A sua principal preocupação consistia em seguir a vocação do cristão à santidade também na sua ação política. Por este motivo, o seu pensamento estava orientado para a assistência social. Que ele constitua um exemplo para todos nós, sobretudo para aqueles que hoje ocupam lugares de responsabilidade política na Europa.”

De facto, o Beato Carlos da Áustria morreu como viveu, no fiel cumprimento da vontade de Deus – Sempre me esforcei por reconhecer e fazer a vontade de Deus, tão bem quanto possível…

Para ele, tudo foi dom de Deus, tanto as alegrias como as adversidades, repetindo com frequência: Encontramo-nos nas mãos da Divina Providência. Tudo o que nos acontece está bem. Apenas confiemos.

O Imperador Carlos procurou a vontade de Deus em tudo quanto fez. Esta era a regra mais importante da sua vida e das suas ações.

No seu leito de morte, disse à Imperatriz Zita: Zangar-se? Lamentar-se? Quando se conhece a vontade de Deus, tudo está bem.

Maior milagre não pode haver.

Milagre não é Deus fazer a nossa vontade, mas sim nós fazermos sempre a vontade de Deus.

Ser santo é isto mesmo, é conformar a nossa vida à vontade de Deus.

01 de abril de 1922 – sábado

Às nove horas, como habitualmente, o Pe. Paul Zsamboki trouxe ao enfermo Carlos da Áustria a Sagrada Comunhão; depois, expôs o Santíssimo Sacramento num ostensório, à vista do moribundo. “Vem sentar-te ao pé de mim e ajuda-me! – pediu o Imperador a Zita. E ela permaneceu sentada à beira da cama, durante quatro horas, apoiando o marido com a mão esquerda; ele poisava-lhe a cabeça no ombro.

O Imperador entrou em agonia e ordenou que chamassem Otto, “para ver como é que um cristão regressa aos braços do seu Criador”.

A pulsação abrandou. Carlos estava lúcido e reuniu as últimas forças que lhe restavam para dizer: “Amo-te muito. Amo muito os meus filhos. O que vamos nós fazer com os pequeninos? Vamos para casa…”

O seu rosto começou a perder cor. Restava-lhe apenas oferecer a morte. Um derradeiro pensamento para os seus: “Bom Salvador, protegei os nossos queridos filhos Otto, Adelaide, Roberto, Félix, Carlos Luís, Rodolfo, Carlota e o pequenino…” Em seguida, deixou cair a cabeça sobre o ombro de Zita; minutos depois murmurou: “Jesus, vem, vem!

A Imperatriz não conseguiu conter um grito de dor: “Carlos, que vai ser de mim sozinha?” Depois conteve-se e rezou em voz alta: “Senhor, faça-se a vossa vontade.” O Imperador arquejou e voltou a dizer: “Meu Jesus, quando quiseres.” E após um momento de silêncio: “Jesus.” E calou-se para sempre.

Morreu às 12H18, conforme a certidão de óbito. Tinha 34 anos e meio.

Nesse dia, a Imperatriz envergava um vestido encarnado. Foi a última vez que se vestiu de cor.

Minutos depois da morte do Imperador, Zita dirigiu-se a Otto: “O teu pai dorme o seu sono eterno. A partir deste momento, és tu o Imperador e Rei.” E esboçou uma pequena vénia diante do filho de nove anos.

Pio XI (papa havia dois meses) e Afonso XIII de Espanha foram avisados por telegrama da morte do Imperador. O bispo do Funchal foi rezar diante dos restos mortais de Carlos, propôs que a inumação tivesse lugar na igreja do Monte. O Governador Civil Coronel Nobre da Veiga foi ao Monte apresentar condolências.

À noite foi embalsamado o cadáver do Imperador, pelos médicos assistentes, através de injeções. O coração do Imperador foi extraído do corpo para ser posteriormente encerrado num cofre de prata.

 

02 de abril de 1922 – domingo

A condessa Kerssenbrock encarregou-se do defunto, a quem vestiu o uniforme de marechal, não faltando a insígnia do Tosão de Ouro no dólman.

O povo do lugar acorreu em massa e, por horas, passara, ao lado de seu esquife na capela preparada em casa, tocando aí terços e objetos de piedade em sinal de devoção. Eles não choravam um último Imperador, mas o bom Carlos, que na tribulação do exílio, tanto soubera edificá-los com o seu comportamento humano e cristão.

 

03 de abril de 1922 – segunda-feira

 

04 de abril de 1922 – terça-feira

O artista Henrique Franco tirou o molde da máscara do Imperador Carlos com o intuito de fazer um busto do mesmo, a pedido da Imperatriz Zita.

 

05 de abril de 1922 – quarta-feira

O Henrique Franco foi à Quinta do Monte para executar a máscara mortuária do Imperador Carlos pelo molde que lhe havia tirado no dia anterior.

As autoridades da ilha decretaram um dia de luto. Neste dia 5 de abril as bandeiras estiveram a meia haste no Funchal, as lojas fechadas e o Comboio do Monte fez viagens eventuais para a freguesia.

O funeral, a cargo da Agência Gama, realizou-se pelas 16H00 para a igreja do Monte, assistindo largos milhares de madeirenses, presididas pelo Bispo do Funchal, ficando provisoriamente o ataúde na Capela do Santíssimo Sacramento para depois ser transladado para a Capela do Imaculado Coração de Maria, após as respetivas obras de adaptação.

O esquife foi transportado numa carreta da Câmara Municipal do Funchal, empurrada por homens, de acordo com o costume local atravessando a rua das Tílias até à igreja paroquial.  O conde Josef Karolyi levava uma almofada com as decorações do Imperador e atrás seguiam Zita e Otto, depois a arquiduquesa Maria Teresa com Adelaide e Roberto, a condessa Mensdorff, a condessa Kerssenbrock e as restantes crianças. Os criados levavam coroas de flores. No final do cortejo seguiam as individualidades locais, bem como os cônsules de Espanha, de França e de Inglaterra.

Dos fortes do Funchal foram lançados cento e um tiros de canhão.

Sobre o catafalco estava o estandarte imperial e duas coroas de flores: uma com as cores da Áustria, outra com as cores da Hungria. Uma outra coroa encomendada de Viena pelo general Arz “em nome dos oficiais, sub-oficiais e soldados do exército imperial e real.