sexta-feira, 20 de março de 2026

O coração preferido de Deus


6ª feira – IV semana da Quaresma

O Senhor está perto dos corações atribulados.

É o refrão do salmo responsorial de hoje que é Sl 33 (34), 17-23.

O Senhor escuta a oração dos simples e torna-se próximo dos seus sofrimentos, ensina-lhes a sabedoria, sacia-lhes a fome e defende-lhes a vida.

Por isso, nada falta aos que o procuram e seguem os seus passos.

Ele é a paz e a salvação dos justos.

Quem o bendiz a toda a hora e o procura, será atendido.

 

Afinal, Deus não está perto de todos os corações?

Ele não faz aceção de pessoas.

Ele está perto de todos, dos atribulados e de todos os outros.

Então como se diz que ele está perto dos corações atribulados?

Ele está mais perto destes do que dos outros.

Já sei.

Deus está mais perto dos corações atribulados porque os corações atribulados estão mais perto de Deus.

 

Ver também:

Quem ama nunca está longe

Deus é sempre pontual

Jesus em segredo

A hora de Jesus

Em segredo

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Encarregado de Educação


Solenidade de São José

Nunca houve encarregado de educação com tamanha responsabilidade como São José.

Qual foi a sua missão mais difícil?

Ninguém o ensinou isso, nem houve nenhum manual de instruções para tal.

Então como é que ele conseguiu?

São José cumpriu a sua missão por meio de ações paternas comuns:

- Ensinando a Jesus o seu ofício.

- Sustentando a sua família.

- Mostrando-lhe como ser um homem.

As mãos que um dia seriam pregadas na madeira aprenderam primeiro a moldar essa madeira numa oficina em Nazaré.

Há um profundo mistério aqui. Deus escolheu experimentar as limitações humanas, incluindo a limitação de ser ensinado. São José não tinha um manual para criar o Messias. Só pôde estudar na escola da vida e na escuta de Deus. Simplesmente viveu com integridade e confiou que o seu exemplo de fidelidade seria suficiente.

São José mostra-nos que as palavras mais importantes de um pai podem ser aquelas que nunca dizemos em voz alta, mas sim o testemunho diário de como amamos, como trabalhamos, como oramos, como perdoamos, como reagimos quando a vida não sai como planificamos.

Este foi o método de São José como o encarregado de educação de Jesus em Nazaré.

 

Em geral os homens confiam os seus filhos à proteção de Deus.

Deus confiou o seu Filho à proteção de um homem chamado José.

É por isso que São José é um pai para todos

E o modelo para todos os pais.

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Deus também passeia e corre

Gosto de variar a hora da minha caminhada diária, conforme a disponibilidade, ambiente, clima e oportunidade. Mas prefiro o fim da tarde. E não é só por gostar do pôr-do-sol. Em Gn 3, 8 encontro a principal razão: “Ouviram, então os passos do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim…”

Para mim é esta a confirmação de que Deus sabia muito bem quão bela e boa tinha sido a sua Criação. Ele deleitava-se passear pelo jardim pela brisa da tarde, no sossego das horas e no ambiente aliciante do jardim.

Muitas vezes penso que nessa hora de caminhada eu faço companhia a Deus e ele a mim.

O Deus em quem acredito não está fechado, isolado, mas gosta de sair e de caminhar. Prefere os passeios pela criação, em contacto com a natureza, encontrando-se com as pessoas e contemplando o pôr-do-sol. Confirma que tudo o que criou é muito bom e é a sua delícia.

Se Deus é assim, e nós que fomos criados à sua imagem e semelhança, não podíamos preferir outra coisa.

Se é certo que Deus gosta de caminhar, também é capaz de correr. É o que Jesus nos refere na parábola dos dois filhos, em Lc 15, 11-32.

A figura do Pai neste relato de Jesus é o retrato de Deus seu e nosso Pai.

O filho mais novo estava ao regressar à casa paterna, depois de uma vida de aventuras “quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos… (Lc 15, 20-21).

É este Deus em quem acredito que é capaz de correr ao encontro de quem precisa da sua companhia e do seu abraço.

É um Deus que corre. No mundo antigo, um patriarca não corria; era considerado indigno. Um homem da sua posição caminhava devagar, com autoridade e distância. Mas nesta parábola Jesus diz que um pai corre. Deus como Pai corre. Corre ao encontro de um filho que o abandonou, que o humilhou e que desapareceu durante anos. Se Deus é assim, então os seus filhos não podem ser diferentes.

São estes os meus pensamentos ou os meus sonhos ou compromissos quando acompanho a Deus e ele me acompanha a mim na nossa caminhada pelo jardim pela brisa da tarde.

 

 

terça-feira, 17 de março de 2026

Formigas por companheiras

Não sei se foi por causa da mudança do tempo ou do calor, mas hoje, na minha caminhada ao fim da tarde, encontrei formigas por toda a parte. Pequenas, grandes, em carreiro, isoladas, voadoras ou sem asas, pretas, castanhas, vermelhas, poucas com carga e a maior parte apenas a fazer carreiro. Para não as pisar fiz figura de parvo como dançarino com os pés no ar. Foi um regresso à minha infância, pois cresci brincando no chão entre formigas.

Revivi tantas lições que as formigas nos dão como persistência, cooperação, planificação, resiliência, trabalho de equipa, eficiência e organização.

De facto, as formigas estão por todo o lado e são mestras de sabedoria.

Até encontramos formigas na Bíblia. No Livro dos Provérbios 6, 6-11 podemos ler: “Vai, ó preguiçoso, ter com a formiga, observa o seu proceder e torna-te sábio. Ela não tem guia, nem capataz, nem mestre; no verão, faz as suas provisões; até quando dormirás tu, ó preguiçoso?”

Quantas história sabemos acerca delas, mas também quantas preocupações nos dão quando invadem um ambiente!

Nessa tarde a minha caminhada foi feita na companhia das formigas, tanto no chão como no meu pensamento.

A mais recente história com formigas aprendi de um rapazinho dos nossos dias, num apartamento urbano.

Regressando da escola, o garoto, logo que entrou em casa, correu para a varanda. A mãe, de balde e vassoura, foi até lá e disse:

- Vai para a sala, enquanto eu lavo esta varanda.

O miúdo começou logo a chorar e pediu:

- Deixa-as viver…

A mãe não compreendeu nem essas palavras nem a atitude do filho e pediu-lhe explicações. Ele voltou a implorar:

- Não mates estas formigas…

- E por que queres que elas continuem vivas?

- Porque elas são a minha companhia.

Desta vez foi a mãe que ficou com lágrimas nos olhos.

Ela reconhecia que o seu filho único, com o pai distante e a mãe super-ocupada precisava de companhia. Por isso não quis privá-lo da companhia das formigas.

De facto, não interessa o tamanho dos nossos amigos. O que interessa é que o nosso coração seja grande e mostre gratidão pela sua companhia.

Até as formigas não gostam de andar sozinhas.

 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Praganas e amores-de-burro

Hoje na minha caminhada ao fim da tarde tive de atravessar um jardim abandonado ou mal cuidado. Ao regressar ao calçadão senti umas picadas na barriga das pernas. Tive de me sentar e retirar um a um os conhecidos amores-de-burro que se tinham pegado nos meus sapatos, meias e calças.

Não sei porque chamamos amores-de-burro ou carrapichos (no Brasil) a essas plantas herbáceas cujas sementes, pelos ou espinhos se prendem à roupa e aos animais que as roçam. Não me senti incomodado por isso, mas antes pelo contrário, senti-me feliz por colaborar no processo de fertilização dessa planta. Elas apegam-se a quem passa para serem levadas mais longe e aí semeadas num novo terreno. Foi o que fiz para que pudessem reproduzir-se em vários lugares.

Também já me aconteceu enfiar uma pragana pelas calças adentro. E lembrei-me de um sermão de meu pai costumava da eira cheia de espigas de trigo.

Ele era muito divertido, tocava sanfona, machete, gaita de beiços, cantava ao desafio e bailava. E brincava com tudo, às vezes até de maneira irreverente.

Recordo duas quadras (no original com uma palavra mais ordinária ou grosseira) que ele cantava com uma melodia popular, quando alguém chorava por alguma situação desagradável ou dolorosa:

 

Maria Joana

do Pico do Vento

Meteu uma pragana

pela manga adentro.

 

Maria Joana chorava

e a pragana entrava.

Maria Joana ria

e a pragana saía.

 

A lição era clara: Se choras, pioras a situação. Se ris, alivias a situação.

E se mesmo assim continuava a chorar, meu pai continuava a cantar, desta vez: pela calça adentro ou então pela terceira vez: pela saia adentro… até que a criança se calasse.

É preciso encarar a realidade com naturalidade e sem dramatismos. Antes pelo contrário, é uma boa oportunidade para colaborar com a natureza a cumprir a sua missão. Em vez de chorar pelo incómodo da invasão de uma pragana ou de um amor-de-burro, devemos alegrar-nos pela colaboração dada a essas plantas. A natureza agradece.

Não há como enfrentar os supostos incómodos com meiguice e calma, sem estresse nem revolta. Só assim aliviamos a situação.

domingo, 15 de março de 2026

Os meus olhos são pequenos


Ano A – IV domingo da Quaresma

A)

O evangelista não apresenta o nome do cego curado porquê?

1º porque pode ser eu ou podes ser tu. Cada um pode pôr o seu nome próprio nessa personagem.

2º porque o objetivo deste episódio não é dar a conhecer o cego curado, mas sim apresentar Jesus como a luz do mundo, ou luz da vida. A cura do cego converte-se então num sinal que revela a identidade de Jesus, que proclama: «Eu sou a luz do mundo».

B)

O cego representa o ser humano que deseja ver e compreender, mas não pode alcançar por si mesmo a plenitude de Cristo e encontrar a verdadeira luz. Jesus é a luz de que todos precisamos.

C)

Ao longo do relato produz-se um processo de revelação progressivo. O cego foi descobrindo pouco a pouco quem é Jesus: primeiro ele chama “esse homem”, depois “profeta”, mais tarde reconhece que vem de Deus e finalmente conhece que é o Filho de Deus e se prostra diante dele com fé, dizendo – Eu creio, Senhor.

D)

O gesto de Jesus ao misturar a terra e a saliva para fazer barro evoca o relato da criação do homem no Génesis, formado pelo pó da terra e animado pelo sopro divino. Aplicando o barro sobre os olhos do cego, Jesus realiza simbolicamente uma nova criação.

E)

Depois Jesus manda o cego lavar-se na piscina de Siloé, cujo nome significa Enviado. O evangelista salienta esse significado para indicar que a verdade enviada é o próprio Cristo. O cego recupera a vista ao obedecer a esta palavra, antecipando assim o caminho da fé. A água converte-se num sinal do batismo, que abre os olhos do crente à luz de Cristo.

F)

Na Igreja primitiva, este sacramento chamava-se precisamente “iluminação”, porque introduzia o homem na vida nova da fé. Os batizados, que antes eram trevas, são chamados ao caminho como filhos da luz.

 

À margem:

Não são os olhos grandes ou pequenos, azúis ou castanhos, com ou sem óculos que veem bem.

O essencial é invisível aos olhos, pois só se vê bem com o coração.

Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração

Quando eu era criança os meus amigos gozavam comigo dizendo que eu tinha os olhos pequeninos. De facto, ainda hoje são pequenos. Eu então respondia:

-  Os meus olhos são pequenos, sim senhor, mas vejo melhor do que muitos de vocês que precisam de usar óculos para verem bem.

Foi aqui em Vila Real de Santo António, onde atualmente resido, que encontrei a melhor e mais poética resposta para os meus olhos pequeninos.

Uma quadra de António Aleixo, nascido nesta cidade em 1899, na sua obra Este Livro que vos Deixo, dá-me uma explicação eloquente:

 

Embora os meus olhos sejam,

os mais pequenos do Mundo

O que importa é que eles vejam

O que os homens são no fundo.

 

Obrigado, poeta Aleixo.

De facto, o que interessa é ver mais fundo, é ver com os olhos do coração, é ver como Deus, é ver o coração.

 

Ver também:

Os olhos do coração

Curar a cegueira

Ver como Deus

Ser cego

O cego e a onça

 

sábado, 14 de março de 2026

Caminhar é sair da sacristia

Quando atravessava um jardim na minha caminhada ao fim da tarde ouvi uma menina dizer:

- Mãe, olha o padre que vem aí.

O pai tentou corrigir:

- Filha, fala mais baixo. E é SENHOR padre que se deve dizer…

Por sua vez a mãe interveio, e falando de modo que eu ouvisse, sentenciou:

- É assim mesmo – o pastor vem onde se encontram as suas ovelhas, para lembrar que as ovelhas devem ir onde se encontra o seu pastor.

Foi tal e qual eu ouvi e fiquei satisfeito. Cumprimentei-os com um sorriso e continuei a minha caminhada com a convicção que ela virara pregação, dada e recebida.

Lembrei-me então das palavras do Papa Francisco:

É preciso que os pastores tenham o cheiro das suas ovelhas.

Os padres devem ficar perto de Deus sem ficar longe dos homens ou ficar perto dos homens sem ficar longe de Deus.

Afinal, não era apenas o pastor que com a sua presença pregava, mesmo sem palavras. Aqui o próprio pastor teve oportunidade de ser também formado e evangelizado.

O cheiro das ovelhas passava para o pastor, mas também o cheiro do pastor passava para as ovelhas.

E senti-me grato por esta mútua interação.

Lembrei-vos também do Pe. Leão Dehon, fundador do Instituto Religioso a que pertenço. Ele repetia o convite do Papa de então, Papa Leão XIII – é preciso sair da sacristia… e ir ao povo.

Fiquei com a sensação de que ao fazer as minhas caminhadas, estava eu a obedecer ao mandato do Pe. Dehon.

Sair da sacristia, hoje, é também fazer as suas caminhadas ao fim da tarde.

Isto foi adotado pelo Papa Francisco ao sonhar uma Igreja de Saída. É preciso sair de si mesmo, sair da área de conforto, sair em direção às periferias.

De facto, não há evangelização de poltrona.

A evangelização é sempre de saída, de estrada, de caminho, de avanço, de etapas e de metas.

É preciso fazer do caminho uma evangelização e fazer da evangelização um caminho. Ou então evangelizar caminhando e caminhar evangelizando.

É preciso anunciar Jesus pelo caminho para que o anúncio seja o caminho que nos leva a Jesus.

Foi isto que experimentei na minha caminhada de hoje.