quarta-feira, 1 de abril de 2026

Caminhando com Santiago

Na minha caminhada de hoje assumi o desfio de escolher um patrono para essas mesmas caminhadas diárias.

Não bastava escolher à sorte um santo para invocar. Era preciso confirmar com uma evidência ou manifestação especial.

Pensei primeiro no próprio Jesus, Caminho, Verdade e Vida, mas ele já era tudo para todos.

Talvez o patriarca Abraão, o primeiro a deixar a sua casa e a peregrinar. Ou então Moisés que guiou o povo através do deserto. 

Os discípulos de Emaús que caminharam na companha de Jesus ou então São Paulo que mais quilómetros percorreu como apóstolo não seriam maus patronos. São Francisco Xavier que o total dos seus passos daria três voltas à Terra, ou São João Paulo II que foi chamado de Papa Léguas pelo mesmo motivo, podia ser uma boa escolha. Ou então optar pelos Santos Anjos da Guarda, mas eles já são a nossa companhia de noite e de dia.

Quanto mais caminhava, mais pensava em tudo isto. De repente senti algo a ser pisado pelos meus sapatos. Era uma concha vieira que abunda por estes lados, na praia, nas dunas e nas matas. Exclamei alto e bom som:

- Encontrei quem vai ser o patrono das minhas caminhadas! Será Santiago de Compostela.

De facto, este santo é identificado por uma concha ou vieira, quer no chapéu, quer no bordão e no caminho.

Ele fez o caminho com Jesus e com os outros apóstolos, sendo do primeiro grupo a deixar tudo e a segui-lo

Ele veio de tão longe até à Península Ibérica.

Foi também o primeiro a ir a caminho do céu, ou seja, primeiro a ser martirizado.

Ele continua hoje o seu percurso inspirando os seus devotos a peregrinarem até Compostela onde tantos caminhos vão dar.

Está decidido: vou invocar como patrono das minhas caminhadas o Apóstolo do Caminho seguindo o Caminho do Apóstolo Santiago.

Ao chegar a casa, mostrei aos meus colegas uma concha de peregrino e depressa concluíram quem escolhera para patrono dos caminhantes. Mesmo assim alguém fez lembrar que eu nunca tinha feito o caminho de Santiago. E é verdade. Mas a partir de agora basta que Santiago me acompanhe como patrono nas minhas caminhadas e isso será o suficiente para fazer o seu caminho.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Passemos à outra margem

Hoje não tive disposição para a minha caminhada como sempre. O calor excessivo, a humidade pesada ou a preguiça fez-me sair com um livro na mão e sentar-me à sombra de uma árvore, junto ao Guadiana. Aí podia contemplar a outra margem, as terras de Espanha ali em frente. Li algumas páginas do livro de François Xavier Bustillo: Passemos à outra margem (por uma vida religiosa renovada):

- Passar para a outra margem não é fugir de uma dura realidade ou procurar uma margem mais suave, mas sim recentrar o foco.

- A outra margem é lugar de surpresa, de descoberta, de novidade, de outros mares, outros montes, outros desertos.

- Às vezes, ao chegar à outra margem, há surpresas. Nem tudo é melhor ou mais fácil, há outros desafios, tempestades, ventos.

Fechei o livro e fiquei a olhar para a outra margem. Mas o que ocupou o meu pensamento foi uma fábula de Fernando Pessoa.

“O BURRO E AS DUAS MARGENS

É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem.

O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem.

Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.

O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efetivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.

Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.

Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também…

Moralidade: A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes… Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.”

Na minha caminhada de hoje fui até à outra margem, sem sair do mesmo lugar. E aprendi a não desistir.

 


segunda-feira, 30 de março de 2026

Caminho diurno ou noturno

Costumo fazer as minhas caminhas ao fim da tarde, às vezes de manhã, mas nunca à noite. Não é por falta de segurança no percurso ou por medo do escuro. Prefiro a luz natural, as cores vivas, o movimento normal do dia.

Mas tenho um amigo, a quem por brincadeira chamo ‘Nicodemos’, que faz as suas caminhadas só de noite escura.

Pergunto-lhe qual o motivo dessa preferência e ele diz-me ser uma espécie de ave noturna.

Eu vejo-o mais parecido com o Nicodemos do Evangelho que gostava de caminhar à noite para se encontrar com Jesus.

As más-línguas dizem que Nicodemos tinha medo de ser reconhecido, que não tinha coragem de assumir a admiração para com Jesus, ou então por vergonha ou por ser fariseu…

As boas-línguas dizem que ele procurava separar a fé pessoal da sua vida pública, que todos os caminhos iam dar a Jesus fossem percorridos de dia ou de noite.

Sei também que é assim que os judeus contam o tempo – A noite não é o fim do dia, mas o começo de um novo dia. Não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. Assim Nicodemos dava a Deus as primeiras horas da sua jornada.

O que nos diz Nicodemos?

- É uma declaração de fé em Cristo Luz do mundo – Na noite da minha vida quero encontrar-me com a Luz. É à noite que a luz brilha mais e posso caminhar melhor à luz de Cristo.

O que diz Jesus?

- Nicodemos vem à noite porque vem em busca da luz, porque quer nascer de novo. 

O que podemos nós dizer?

- Jesus acolhe-nos a todos, a todas as horas do dia ou da noite.

Os dias fê-los Deus para nós, as noites para si, disse o P. António Vieira, num sermão do século XVII. Os dias para as ocupações do corpo, as noites para os retiros da alma. Os dias para o exterior e visível, e por isso claros, as noites para o interior e invisível, e por isso escuras. Nicodemos dava os dias às obrigações do ofício, como pessoa pública, e para satisfazer às mesmas obrigações com acerto e bom sucesso, gastava as noites com Deus.

Faço as minhas caminhadas de dia, porque já estou jubilado enquanto o meu amigo ‘Nicodemos’ caminha de noite porque durante o dia está ocupado com os seus compromissos profissionais.

O que interessa é que todas as caminhadas, sejam elas diurnas ou noturnas, sejam feitas com Deus.

 

domingo, 29 de março de 2026

O amor tem forma de cruz


Ano A – Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

O Domingo de Ramos não é um desfile de vitória, mas um triunfo da vulnerabilidade.

Não há cavalos armados, mas um jumentinho.

Não há escoltas armadas, mas crianças com flores.

Jesus é o príncipe da paz que entra na cidade da paz.

A sua única arma é o amor.

 

Hoje o Domingo de Ramos não é uma simples evocação histórica.

É a nossa entrada em cena no mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Contemplemos e sigamos o seu amor e a sua paixão.

 

O amor tem a forma de uma cruz.

A paixão tem a forma de um coração.

 

sábado, 28 de março de 2026

Um prego no caminho

Ontem, na minha caminhada ao fim da tarde encontrei um prego no chão. Nada de especial, algo banal num local normal. Fiquei parado a olhar para o prego e lembrei que era sexta-feira e ainda por cima da Quaresma. E algo providencial surgiu no meu pensamento. Não seria este o prego perdido da lenda do poeta cigano Spatzo (Vittorio Mayer Pasquale)?

 

OS QUATRO PREGOS

 

Quatro pregos eram forjados

para fazer morrer o Redentor.

 

Viu-os uma filha do vento

que atravessava a colina

no seu caminhar pelas estradas do mundo.

 

Um apenas subtraiu,

que o soldado não percebeu.

 

E Ele assim foi crucificado,

com três pregos somente.

 

O quarto prego comungou a dor

dos Sintos ao Redentor.

 

Diz a lenda que o roubo deste prego não foi crime, mas alívio do sofrimento do Crucificado. Não foi pecado, mas bênção para quem o roubou.

Vemos Jesus cravado na cruz com três pregos desenhando um triângulo de ponta para baixo, sugerindo assim a Santíssima Trindade – Um prego em cada uma das mãos e o terceiro nos dois pés juntos.

E fiquei a olhar para o prego no chão como se fosse aquele que tinha sido subtraído para poupar mais uma dor ao Redentor ou para confirmar o mistério da Trindade.

Senti vontade de me baixar e apanhar essa relíquia para a minha devoção, mas optei por deixá-lo lá para que outros pudessem por sua vez animar o seu espírito ou a sua imaginação.

Com um simples prego podemos apresentar a vida e obra de Jesus. Ele pregou de várias maneiras:

- Como profeta, como carpinteiro e como homem de oração.

Pregar é anunciar uma mensagem ou evangelizar. É também fixar ou segurar com prego. Tanto num como noutro sentido ajusta-se à ação de Jesus:

- É profeta que prega e anuncia a palavra de Deus e é também carpinteiro que prega a madeira.

Prega-nos a sua palavra e prega-nos à sua palavra.

Prega-nos à sua cruz e a prega-nos a cruz.

Para além disso, no latim, a palavra PREGARE significa rezar ou orar.

Assim Jesus não só sabe pregar como carpinteiro, pregar como profeta, mas também pregar como orante.

Tudo isto a propósito de um simples prego encontrado no chão, durante a caminhada de um humilde discípulo do mesmo Jesus.

 

sexta-feira, 27 de março de 2026

Caminhando numa via-sacra

Durante o tempo da Quaresma, nas minhas caminhadas ao fim da tarde, costumo fazer a via-sacra. Copiei o exemplo do Pe. Dehon que deixou no seu diário – “Quando eu era seminarista em Roma, todos os dias fazia a via-sacra que era a minha recreação da tarde”. E ainda “Tenho o costume de, durante as viagens de comboio, recitar com frequência o terço do rosário.”

É caso para perguntar se a via-sacra era divertida ou se o terço era rezado à velocidade do comboio. Tenho a certeza de que essas práticas de devoção foram muito piedosas e agradáveis a Deus.

Medito, em andamento, nos passos ou estações da via dolorosa de Jesus contemplando os sinais de trânsito. Procuro identificar analogias, significados ou evidências entre uma estação da via-sacra e um determinado sinal de trânsito.

Por exemplo, vejo Jesus a ser condenado à morte e a seguir o caminho do Calvário como sentido obrigatório.

As quedas de Jesus são anunciadas pelos sinais de proibido estacionar, piso escorregadio ou queda de pedras.

O encontro de Jesus com a sua mãe é sugerido pelo sinal de proximidade de escola e a estação de Simão de Cirene pode ser identificada com o trânsito nos dois sentidos, pois é dando que se recebe.

O sinal de posto de primeiros socorros apresenta o encontro de Jesus com Verónica que lhe limpa o rosto.

Para a estação em que Jesus morre na cruz escolho o sinal de STOP, paragem obrigatório, momento de silêncio, ficar em sentido perante o momento tão misterioso ou simplesmente parar para contemplar aquele que trespassaram…

Além disso encontro outros sinais, nas fachadas de algumas casas, que servem de inspiração para a minha via-sacra como cruzes de todos os feitios, Senhor Santo Cristo dos Milagres com a coroa de espinhos, A imagem do Coração de Jesus etc.

Durante a minha caminhada fico atento aos sinais de trânsito, aos sinais dos tempos, aos sinais de orientação que o Senhor continua a colocar na minha vida para que o possa seguir, pois só ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Não sei se é o Senhor que me aponta para os sinais de trânsito ou se são estes que me apontam para Jesus.

Já que a via-sacra é uma autêntica caminhada, quero fazer da minha caminhada uma sincera via-sacra.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Um povo, um chão, uma fé


5ª feira – V semana da Quaresma


Promessas de Abraão, realizações de Jesus.

O sonho de Abraão é realizado em Jesus.

Deus faz três promessas a Abraão:

- Uma descendência

- Uma terra

- Um Deus

 

- Bens afetivos (um povo)

- Bens temporais ou materiais (um chão)

- Bens espirituais ou religiosos (uma fé)

 

Jesus veio completar, aperfeiçoar e realizar essas promessas:

- Bens afetivos (todos irmãos, família humana, comunidade divina)

- Bens temporais e eternos (um novo céu e uma nova terra)

- Bens espirituais (fez-se homem como nós para sermos como Ele)