terça-feira, 24 de março de 2026

Quando levantamos Jesus


3ª feira – V semana da Quaresma

 

Perguntaram a Jesus:

- Quem és tu?

Respondeu-lhes Jesus:

- Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que Eu Sou…

E perguntamos nós:

- Quando é que o levantamos?

Chegaremos à conclusão de que Jesus, como Filho do homem, é levantado em três situações especiais:

- No Calvário foi erguido na cruz.

- Depois da Ressurreição foi elevado ao Céu.

- Sempre que celebramos a Eucaristia em sua memória nós levantamos a Hóstia Consagrada que é o Corpo de Jesus.

Para sabermos quem é Jesus é preciso contemplá-lo nestes três momentos:

Na cruz, na Ressurreição e na Eucaristia.

No altar ao levantar a Deus na Eucaristia olhemos para Jesus porque ele olha para nós.

- Que é que nós vimos aí levantado?

- Ao levantar a Deus, no momento da consagração, nós vimos a Hóstia Santa, o Pão do Céu, o Círculo perfeito sem começo nem fim.

- Também o Corpo de Cristo ao ser elevando para nos ser apresentado como Cordeiro de Deus, nós podemos vê-lo em várias perspetivas.


Um coração

É o Coração de Jesus que nos ama e dá a sua vida por nós


O alimento

Jesus fez-se pão para o nosso sustento. É Pão partido e partilhado para chegar a todos.


A Cruz

Jesus derramou o seu sangue na Cruz e dá-nos a beber no cálice da salvação.


O sol nascente

A metade da Hóstia consagrada faz-nos lembrar que Jesus ressuscita como sol para iluminar e orientar a nossa vida.

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

As amendoeiras em flor

No percurso das minhas caminhadas ao fim da tarde encontro muitas amendoeiras, típicas da região do Algarve. Antes da primavera aparecem todas floridas. É um espetáculo que enche os olhos da cara e da alma.

Aprendi nessa ocasião a história da amendoeira, a árvore que enganou o Diabo. Ele viu-a florescer nos fins de janeiro e, julgando que não tardariam os frutos, sentou-se debaixo dela à espera. E lá ficou até setembro, altura em que se fartou de esperar e foi espreitar as outras árvores. Não sabia que nesse mês é que são recolhidos os seus frutos tal como os das outras árvores.  Aborrecido, voltou para junto da amendoeira e viu que, entretanto, as amêndoas também já tinham sido apanhadas. Bem enganado foi.

Mas eu nunca vi nenhum Diabo debaixo destas amendoeiras em flor. Vi sim a beleza dessa árvore em flor, que aponta para a vida e ressurreição. De facto, há quem identifique na amendoeira a figura de Cristo.

A amendoeira é uma das primeiras árvores a florescer, rompendo a longa noite invernal e anunciando a primavera. Por isso, tornou-se símbolo de renovação e esperança.

Também encontrei amêndoas na Bíblia. Jeremias (1,12), ao contemplar um ramo de amendoeira que floresce, percebe o nascimento do Messias; o Eclesiastes (12,5), na “amendoeira que abre em flor”, vê a ressurreição após a morte na cruz; e, em Números (17,23), na vara de Aarão, florindo e produzindo amêndoas, reconhece a força redentora da Cruz como vara florida.

Tal como a amêndoa guarda um fruto saboroso atrás de duas cascas, uma amarga e outra rija, a Cruz revela, a princípio, sofrimento e aflições, mas depois amparo e fortaleza, até se revelar suave e saborosíssima no seu fruto redentor.

Os povos antigos envolviam as amêndoas em mel. A partir do século XVI, com a chegada do açúcar os conventos começaram a produzir amêndoas cobertas de açúcar.

Seja na vida que brota após a aridez do inverno ou nas tradições dos doces conventuais, as amêndoas da Páscoa continuam a dizer-nos que há um fruto escondido dentro das cascas amargas da vida, promessa de ressurreição.

Hoje fiz a minha caminhada com uma amêndoa doce na boca, para não esquecer que estou a caminho da Páscoa.



domingo, 22 de março de 2026

Jesus dá-nos um novo ânimo


Ano A – V domingo da Quaresma

Uma correção

Dizemos que Jesus ressuscitou Lázaro, mas com toda a propriedade não foi uma ressurreição, mas uma reanimação. De facto, depois deste episódio Lázaro passou outra vez pela morte até participar na ressurreição prometida a todos os filhos de Deus. Ele ‘ressuscitou’ para voltar a morrer… Então vem vez de chamarmos ressurreição de Lázaro devemos dizer reanimação, pois só Cristo é que ressuscitou para nunca maias morrer.

 

Uma prefiguração

Este episódio aconteceu para apontar para um mistério ainda maior, para manifestar a Glória de Deus que é a Ressurreição de Jesus. A reanimação de Lázaro aponta e prefigura a Ressurreição de Jesus que nos dá a garantia que nele todos havemos de ressuscitar.

 

Uma identificação

Assim como Lázaro voltou à sua casa reanimado, assim todos nós voltamos para a nossa casa reanimados. O que aconteceu com Lázaro acontece connosco, amigos de Jesus.

Há apenas uma diferença: No caso de Lázaro, Jesus foi até ele. No nosso caso, somos nós a ir até Jesus, mas com o mesmo objetivo – ser reanimados, receber um espírito novo, uma alma restaurada, um novo ânimo. É isso que sempre acontece quando alguém se encontra com Jesus.

 

Ver também:

Reanimação de Lázaro

Lázaro sou eu

Espelho de Lázaro

Ser reeditado

 

sábado, 21 de março de 2026

O que me trouxeste da feira?

Nestes dias tem decorrido uma grande feira aqui na cidade onde vivo de modo que tenho de atravessá-la para fazer a minha caminhada ao fim da tarde.

Tenho visto grande animação pelas ruas, muita agitação nas compras e vendas e muita alegria ou euforia que a todos contagia mesmo a quem como eu, passa alheio ou indiferente a essa azáfama.

Tenho-me cruzado com muitas pessoas carregadas com vários sacos e mercadorias.

Imagino então essas mesmas pessoas a chegarem às suas casas.

- O que é que trouxeste da feira?

De facto, quem vem de alguma feira é suposto trazer alguma coisa ou então prestar contas. É preciso avaliar a nossa ida à feira, as compras que fizemos, como nos divertimos, o que poupámos, o que ganhámos. Esta pergunta é válida tanto para quem foi comprar como para quem foi vender:

- O que é que trouxeste da feira?

Faço a mesma pergunta a mim mesmo ao regressar a casa no fim da minha caminhada ao fim da tarde:

- O que é que trouxeste hoje da tua caminhada?

E não é só para saber ou avaliar quantas calorias queimei, quantos quilómetros percorri, a boa disposição que alcancei.

É preciso também dar conta daquilo que interiormente trouxe, as reflexões, compromissos e decisões que tomei.

Depois de uma caminhada devíamos carregar outras mercadorias interiores mais saudáveis e igualmente benéficas para quem ficou em casa. Enfim, é preciso saber e dar a conhecer o que trouxemos da caminhada, porque ninguém regressa de mãos vazias e todos ficam a ganhar com isso.

Por fim, esta será também a pergunta que um dia Deus nos fará quando regressarmos da feira desta vida.

Ser-nos-á perguntado:

- O que é que trouxeste?

Jesus garante no evangelho que um dia Deus pedirá contas a esta geração.

E que poderemos nós responder?

Que mercadorias apresentaremos?

Assim pregava o Pe. António Vieira no século XVII:

Sabei, ó cristãos, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita conta do que deixastes de fazer.

Pelo que fizeram, se hão de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos.

E por que Deus nos pedirá contas?

Ele pede-nos contas, para saber quanto ele vai continuar a pagar por cada um de nós, por todos.

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O coração preferido de Deus


6ª feira – IV semana da Quaresma

O Senhor está perto dos corações atribulados.

É o refrão do salmo responsorial de hoje que é Sl 33 (34), 17-23.

O Senhor escuta a oração dos simples e torna-se próximo dos seus sofrimentos, ensina-lhes a sabedoria, sacia-lhes a fome e defende-lhes a vida.

Por isso, nada falta aos que o procuram e seguem os seus passos.

Ele é a paz e a salvação dos justos.

Quem o bendiz a toda a hora e o procura, será atendido.

 

Afinal, Deus não está perto de todos os corações?

Ele não faz aceção de pessoas.

Ele está perto de todos, dos atribulados e de todos os outros.

Então como se diz que ele está perto dos corações atribulados?

Ele está mais perto destes do que dos outros.

Já sei.

Deus está mais perto dos corações atribulados porque os corações atribulados estão mais perto de Deus.

 

Ver também:

Quem ama nunca está longe

Deus é sempre pontual

Jesus em segredo

A hora de Jesus

Em segredo

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Encarregado de Educação


Solenidade de São José

Nunca houve encarregado de educação com tamanha responsabilidade como São José.

Qual foi a sua missão mais difícil?

Ninguém o ensinou isso, nem houve nenhum manual de instruções para tal.

Então como é que ele conseguiu?

São José cumpriu a sua missão por meio de ações paternas comuns:

- Ensinando a Jesus o seu ofício.

- Sustentando a sua família.

- Mostrando-lhe como ser um homem.

As mãos que um dia seriam pregadas na madeira aprenderam primeiro a moldar essa madeira numa oficina em Nazaré.

Há um profundo mistério aqui. Deus escolheu experimentar as limitações humanas, incluindo a limitação de ser ensinado. São José não tinha um manual para criar o Messias. Só pôde estudar na escola da vida e na escuta de Deus. Simplesmente viveu com integridade e confiou que o seu exemplo de fidelidade seria suficiente.

São José mostra-nos que as palavras mais importantes de um pai podem ser aquelas que nunca dizemos em voz alta, mas sim o testemunho diário de como amamos, como trabalhamos, como oramos, como perdoamos, como reagimos quando a vida não sai como planificamos.

Este foi o método de São José como o encarregado de educação de Jesus em Nazaré.

 

Em geral os homens confiam os seus filhos à proteção de Deus.

Deus confiou o seu Filho à proteção de um homem chamado José.

É por isso que São José é um pai para todos

E o modelo para todos os pais.

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

Deus também passeia e corre

Gosto de variar a hora da minha caminhada diária, conforme a disponibilidade, ambiente, clima e oportunidade. Mas prefiro o fim da tarde. E não é só por gostar do pôr-do-sol. Em Gn 3, 8 encontro a principal razão: “Ouviram, então os passos do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a mulher logo se esconderam do Senhor Deus, por entre o arvoredo do jardim…”

Para mim é esta a confirmação de que Deus sabia muito bem quão bela e boa tinha sido a sua Criação. Ele deleitava-se passear pelo jardim pela brisa da tarde, no sossego das horas e no ambiente aliciante do jardim.

Muitas vezes penso que nessa hora de caminhada eu faço companhia a Deus e ele a mim.

O Deus em quem acredito não está fechado, isolado, mas gosta de sair e de caminhar. Prefere os passeios pela criação, em contacto com a natureza, encontrando-se com as pessoas e contemplando o pôr-do-sol. Confirma que tudo o que criou é muito bom e é a sua delícia.

Se Deus é assim, e nós que fomos criados à sua imagem e semelhança, não podíamos preferir outra coisa.

Se é certo que Deus gosta de caminhar, também é capaz de correr. É o que Jesus nos refere na parábola dos dois filhos, em Lc 15, 11-32.

A figura do Pai neste relato de Jesus é o retrato de Deus seu e nosso Pai.

O filho mais novo estava ao regressar à casa paterna, depois de uma vida de aventuras “quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos… (Lc 15, 20-21).

É este Deus em quem acredito que é capaz de correr ao encontro de quem precisa da sua companhia e do seu abraço.

É um Deus que corre. No mundo antigo, um patriarca não corria; era considerado indigno. Um homem da sua posição caminhava devagar, com autoridade e distância. Mas nesta parábola Jesus diz que um pai corre. Deus como Pai corre. Corre ao encontro de um filho que o abandonou, que o humilhou e que desapareceu durante anos. Se Deus é assim, então os seus filhos não podem ser diferentes.

São estes os meus pensamentos ou os meus sonhos ou compromissos quando acompanho a Deus e ele me acompanha a mim na nossa caminhada pelo jardim pela brisa da tarde.