Ao regressar da minha caminhada ao fim da
tarde contei aos meus colegas que no caminho tinha sido ultrapassado por um homem
que não tinha uma perna.
Todos se riram de mim, comentando:
- Estás mesmo a ficar velho, caquético e
ultrapassado.
- Andas cada vez mais devagar.
- Qualquer dia até um caracol te ultrapassará…
E fui alvo de chacota.
Alguém, por fim, questionou:
- Mas como é que é possível um homem só com
uma perna te poder ultrapassar?
- Atenção – esclareci – Não disse que ele tinha
só uma perna. Eu disse que ele não tinha uma perna, o que é diferente. Ele não
tinha uma, tinha duas pernas!
Todos se calaram e aí é que comecei a rir a
bandeiras despregadas.
A sabedoria popular diz que quem ri por último
ri com mais vontade.
Foi o que aconteceu.
Mas a história não terminou aqui.
No dia seguinte, ao iniciar a minha caminhada
deparei-me, por coincidência, com um homem que só tinha uma perna e caminhava
com a ajuda de duas muletas.
Lembrei-me da conversa do dia anterior e então tive um ataque de riso.
Fiquei aflito, tentei disfarçar para ninguém pensar
que estava a rir do homem deficiente, mas não me consegui controlar. Virei-me
contra a parede, tapei o rosto, transpirei, fiquei sem respirar… e continuei a
rir sem controlo.
O homem já ia longe da minha vista quando me recompus,
com o rosto encharcado de lágrimas e a respiração ofegante.
Cá se fazem, cá se pagam.
Afinal, quem se ri por último não ri melhor.
Apenas ri mais tarde ou tarde demais, como foi este meu caso.
As pessoas riem de coisas que parecem
absurdas ou ridículas, principalmente quando se estão dispostas a rir dos seus
próprios absurdos.
O humor consiste em ver o aspeto ridículo das
coisas sérias e ver o aspeto sério das coisas ridículos.
Caminhar é também aprender a rir.
Afinal, não estou assim tão velho, caquético e ultrapassado, pois ainda tenho a capacidade de rir.
Ninguém para de rir porque envelhece.
Envelhece porque para de rir.