Memória de São Carlos Borromeu (+1584)
Os santos são os verdadeiros reformadores da Igreja.
No século XVI, a Igreja viveu uma das mais profundas crises espirituais e
morais dos seus dois mil anos de história.
O papado renascentista atravessava um dos seus períodos mais negros,
atingindo um ponto crítico durante o pontificado de Alexandre VI (1492–1503).
Muitos bispos e abades, agindo mais como príncipes do que como pastores, não
residiam nas suas próprias dioceses ou abadias, preferindo a corte papal em
Roma ou noutras cidades onde pudessem desfrutar de um estilo de vida mais
confortável. Os sacerdotes, carentes de uma formação humana, teológica e
espiritual adequada, reduziam muitas vezes a religião a um conjunto de práticas
mais próximas da superstição do que da verdadeira fé. …
Em 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, publicou as suas 95
Teses, que contestavam a prática da venda de indulgências e a corrupção no
interior da Igreja. Ao questionarem a autoridade do Papa, estas teses
desencadearam a Reforma, provocando uma dolorosa e dramática rutura no tecido
tanto da Igreja como da sociedade civil daquela época.
Deus, que na sua providência vela constantemente pela caminhada dos seus
filhos ao longo da história, suscitou um despertar das consciências, conduzindo
a uma profunda renovação espiritual e moral na Igreja.
O Papa Paulo III (1534–1549) convocou, em 1545, o Concílio de Trento
(1545–1563), que visava promover uma reforma profunda da Igreja Católica. É
verdadeiramente notável o número de santos que o Espírito Santo suscitou na
Igreja durante este período para contribuir para a sua renovação. Entre os mais
célebres contam-se Santo Inácio de Loyola, São João da Cruz, Santa Teresa de
Ávila, São Filipe Néri e São Carlos Borromeu, considerado um dos maiores
reformadores da Igreja.
Carlos Borromeu, oriundo da nobre família Borromeu de Milão, nasceu em
1538. Ordenado sacerdote e consagrado bispo, foi enviado em 1566 com apenas 28
anos de idade pelo seu tio, o Papa Pio IV, à Arquidiocese de Milão.
Repleto do Espírito Santo e de zelo pela Igreja, a Esposa de Cristo, o
jovem bispo dedicou toda a sua vida à glória de Deus e à salvação das almas;
notavelmente, conseguiu realizar três visitas pastorais completas por um
território tão vasto. Preocupou-se profundamente com a formação do clero e com
o bem-estar dos fiéis. Fundou seminários, estabeleceu hospitais e casas de
acolhimento, ao mesmo tempo que doava todos os seus bens pessoais aos pobres.
Reorganizou as estruturas da Igreja, assegurando a sua independência de
interferências externas, uma missão que lhe trouxe calúnias, hostilidades e até
mesmo uma tentativa de assassinato. Durante a peste que assolou Milão em 1576,
enquanto as autoridades civis fugiam da cidade, permaneceu para cuidar
pessoalmente dos doentes. Apoiou a criação de vários institutos e fundações
religiosas, dedicando todas as suas forças ao seu ministério episcopal,
orientado pelo lema que escolheu: "Humilitas" (Humildade). Faleceu a
3 de novembro de 1584, com 46 anos, exausto devido aos seus imensos esforços.
À margem
O português Bartolomeu dos Mártires e o italiano Carlos Borromeu foram
colegas no episcopado, companheiros no Concílio de Trento, amigos íntimos, conselheiros
um do outro e mutuamente reconhecidos como santos.
Em geral os colegas da mesma profissão ou da mesma área de saber fazem
questão de manter uma certa distância. Há uma espécie de ciúme ou de inveja.
Não abrem muito o jogo um ao outro para não se sentirem ultrapassados. Não
querem ficar para trás, para saberem, possuírem ou ter mais poder do que os
outros semelhantes.
Entre os santos não é assim. Não há inveja nem ciúme entre eles.
Foi o que aconteceu entre estes dois personagens Carlos e Bartolomeu.
Os santos autênticos conhecem-se mutuamente e tornam-se almas gémeas.
Ajudaram-se mutuamente a viver na santidade e integridade de vida.
Podemos confirmar isto com o seguinte facto. Carlos Borromeu sentindo-se
bastante atraído pela vida monástica e contemplativa, pensou seriamente em
renunciar a seu cargo à frente da arquidiocese. Porém Frei Bartolomeu dos
Mártires, então arcebispo de Braga, conseguiu dissuadi-lo dessa ideia. Frei
Bartolomeu o ajudou a perceber que, naquele século, repleto de maus exemplos
dados pelo alto Clero, seria melhor que Carlos Borromeu, um nobre, vindo de
família milionária e sobrinho do Papa, desse um exemplo de vida pobre, humilde
e santa como arcebispo. São Carlos Borromeu viu neste conselho a vontade de
Deus e acatou, permanecendo arcebispo de Milão.
Os santos ajudam-se mutuamente no mesmo caminho de santidade.
Borromeu considerava o arcebispo bracarense um exemplo vivo de santidade e
chegou a afirmar que o tomava como modelo a imitar.









