Uma vez no final da minha caminhada ao fim da
tarde encontrei um casal a discutir num cruzamento.
A mulher queria ir por uma rua e o homem
insistia em ir por outra. E cada um queria levar a sua avante.
- Por que não queres ir por aqui?
- Hoje eu não vou por aí e ponto final.
E assim continuavam a repetir as mesmas
coisas:
- Vamos por aqui…
- Não vou, não vou, não vou – respondia
batendo o pé no chão.
Não diziam as razões da recusa, nem outras
explicações. Só não queriam ir pelo mesmo caminho.
Seria por ser mais longo ou demoroso? Mas
afinal estavam ali a sofrer e a perder o tempo naquele impasse.
Ao fim e ao cabo não queriam ir pelo mesmo caminho, mas
não queriam separar-se.
Fiquei a pensar que nunca terei semelhante
impasse, pois caminho habitualmente sozinho. Mas mesmo assim às vezes hesito,
volto atrás, deito sortes para seguir o caminho certo.
Não sei como ficou resolvida a situação
daquele casal, pois apressei-me a chegar a casa para rever o Cântico Negro do
poeta José Régio, que abrevio aqui e que pode resumir tal experiência:
“Vem por aqui - dizem-me alguns com olhos
doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: vem por aqui!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: vem por aqui?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí
Ninguém me diga: vem por aqui!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou
Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!”
De facto, apesar de eu não ter discussões
destas, a minha vida é um constante discernimento para saber por onde vou. Mas
isso parece de menor importância. Às vezes desvalorizo por onde vou, desde que
não perca de vista para onde vou.
O mais importante não é ir por aqui ou por
aí, desde que se chegue ao destino ou à meta. É que todos os caminhos vão dar a
Roma…






