sexta-feira, 6 de março de 2026

A nossa vinha não é nossa


6ª feira – II semana da Quaresma

. Havia um proprietário que plantou uma vinha.

. Cercou-a com uma sebe.

. Cavou nela um lagar.

. Levantou uma torre.

. Arrendou-a.

. Mandou os seus servos receber os frutos.

. Tornou ele a mandar outros servos.

. Mandou-lhes o seu próprio filho.

. Que fará àqueles vinhateiros?

. Fará perecer esses malvados.

. Arrendará a vinha a outros vinhateiros.

 

Tudo isto para mostrar de quem é a vinha:

. A vinha não é terra sem dono.

. A vinha tem dono, tem governo.

. A vinha do Senhor, não é nossa.

. Não são os vinhateiros a mandar, mas a obedecer.

. Os vinhateiros não podem fazer o que querem, mas devem querer o que fazem.

 

Nós somos a vinha do Senhor.

A nossa vinha não é nossa.

 

Ver também:

Jesus é pedra angular

A vinha do Senhor é..

A nossa alma é uma vinha

José do Egito e Jesus

Parábola autobiográfica

O homem dos sonhos

Virtudes gémeas

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

A indiferença cria abismos


5ª feira – II semana da Quaresma

- Quem são estes dois homens, Lázaro e o rico epulão?

- São personagens de uma Parábola de Jesus (Lc 16,19-31).

 

- Que significam os seus nomes?

- Lázaro significa = Aquele que Deus ajuda. Não se conhece o nome do rico. Ficou apenas conhecido como epulão - Aquele que dá um banquete e come regaladamente (Epulão=Sacerdote que na Roma antiga presidia aos festins dos sacrifícios)

 

- O que é que Jesus disse sobre o homem rico e o pobre Lázaro?

- Jesus fala sobre dois homens que passaram por grandes mudanças nas suas vidas.

 

- Será que esta história realmente aconteceu?

- Não. Jesus contou esta parábola para ensinar uma lição.

 

- Será que Jesus estava a falar sobre a vida após a morte?

- Não. Jesus queria falar da vida aqui na terra.

 

- Será que esta história apoia a doutrina do inferno de fogo?

- Não. A lição que Jesus quer deixar é outra.

 

- Qual é o significado da história do homem rico e Lázaro?

-  A parábola está relacionada com dois grupos de pessoas que passaram por grandes mudanças nas suas vidas.

Estes homens representam dois grupos de pessoas: (1) os orgulhosos líderes religiosos judaicos nos dias de Jesus, e (2) as pessoas humildes, mas sinceras, que aceitaram a mensagem de Jesus.

 

- Que podemos concluir para a nossa vida?

- Que a indiferença cria abismos. Experimentamos um grande pecado de raiz, que a todos nos envenena: a cultura da indiferença. O pobre necessitado não é alguém que possamos escolher; ele aparece junto à porta de nossas vidas... Nós, discípulos de Cristo, devemos ser ilhas de compaixão num mar de indiferença.

 

Ver também:

Mãos limpas, mas vazias

Destinos diferentes

Nem pobres, nem ricos

O pecado da indiferença

Pobres Lázaros somos nós

A pobreza do rico

A riqueza da humildade

Mini-sermão

Epulão

O rico e o pobre

O fardo da pobreza e o da riqueza

Saber ver

Abraão e o rico epulão

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Quem gosta de ser servido


4ª feira – II semana da Quaresma

Quero que os meus dois filhos se sentem, um à tua direita, outro à tua esquerda, no teu Reino Glorioso.


Quem é que não gosta de ser bem servido?

Quem é que não gosta que lhe façam todas as vontadinhas?

Quem é que não gosta de descansar sentado?

Todos gostam.

Foi esse o sonho da mãe de João e de Tiago, filhos de Zebedeu.

Foi esse o ciúme dos outros dez discípulos.

E é essa também a nossa vontade.

 

Jesus diz simplesmente que não devemos imitar uns aos outros nestas coisas, mas devemos imitá-lo a ele.

Procuremos então aprender a servir e não a ser servidos.

Procuremos fazer a vontade de Deus e não  querer que Deus faça a nossa vontade.

Procuremos segui-lo, ir em frente e não marcar passo no mesmo lugar.

 

Ver também:

A paciência de Jesus

As cinco ilusões de Salomé

O sonho de qualquer mãe

Um pedido absurdo

O cálice de Jesus

A mãe dos filhos de Zebedeu

Servir

 

terça-feira, 3 de março de 2026

Ó feliz atraso que me salvou

Ó feliz atraso que me salvou

 

Não sei se não gosto de esperar porque não gosto de atrasos ou se não gosto de atrasos porque não gosto de esperar. Sinto-me incomodado, para não dizer revoltado, nas duas situações.

Há dias combinei com um amigo fazer juntos a caminhada ao fim da tarde e depois sentarmo-nos numa determinada esplanada para tomar um refresco.

À hora marcada nem via a sombra do meu amigo. Esperei impaciente, mas quando chegou não comentei o seu grande atraso.

Por fim quando chegámos à esplanada escolhida, com uma hora de atraso, fomos surpreendidos com uma agitação anormal. Um carro descontrolado tinha invadido esse local, ferindo alguns utentes, precisamente uma hora antes. A minha amargura pelo atraso desvaneceu-se imediatamente e declarei:

- Ó feliz atraso que nos valeu poupar-nos de um susto.

E foi este o tema da nossa conversa durante o resto da tarde. Recordamos, por exemplo o 11 de setembro de 2001 em que centenas de pessoas sobreviveram aos ataques às Torres Gémeas porque estavam simplesmente atrasadas: Uma chávena de café derramada, um engarrafamento, uma bolha nos pés por causa de sapatos novos. Estas pequenas frustrações salvaram vidas.

As pessoas que trabalhavam no World Trade Center deveriam estar lá nessa hora e não estavam por causa de corriqueiros atrasos.

Estes não foram atos heroicos ou dramáticas. Foram irritações ou frustrações que os fizeram praguejar baixinho e olhar para o relógio ansiosamente.

Para centenas de pessoas naquele dia 11, os atrasos significaram tudo. Não faziam ideia de que foram salvas por causa deles.

No fim, o meu colega lembrou-me:

- Estás a ver? Não vale a pena sofrer por causa dos atrasos. Às vezes são eles que nos salvam.

E eu respondi:

- Com certeza também alguém ainda estava naquele local por causa de algum atraso. Infelizmente não está aqui para testemunhar a consequência disso.

O que interessa é que Deus nos encontre na hora e no lugar onde ele quer que estejamos.

Quanto a nós, porque é que não estamos no local e na hora que combinámos?

Deus não se atrasa nem se adianta.

Nós é que não sabemos a quantas andamos.


segunda-feira, 2 de março de 2026

Aprender a escutar os outros

Aprender a escutar os outros

 

Hoje na minha caminhada no fim da tarde segui o modelo de Fernando Pessoa, para escutar as pessoas, qual espião das suas conversas.

“Um dos meus passeios prediletos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.

E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... “E então ela disse...” e o tom diz da intriga dela. “Se não foi ele, foste tu...” e a voz que responde ergue-se no protesto que já não ouço. “Disseste, sim senhor, disseste...” e a voz da costureira afirma estridentemente “A minha mãe diz que não quer...”

Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer – não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse – o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos…

“O gajo estava tão grosso que nem via a escada.” Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque quem descreve esquece-se de si.

A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da importância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.” (Fernando Pessoa in Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, nº 62.)

Uma caminhada é sempre oportunidade para ouvir a Natureza, para ouvir o ambiente envolvente, para ouvir a si mesmo como também para ouvir os outros.

Hoje, foi sobretudo ocasião para escutar quem nem imaginava que estava a ser escutado.

Caminhar é também aprender a escutar.


domingo, 1 de março de 2026

Cada caminhada é um Tabor

Cada caminhada é um Tabor


No domingo da Transfiguração do Senhor, na minha caminhada ao fim da tarde tentei acompanhar Jesus e os seus discípulos Pedro, Tiago e João na sua escalada ao Monte Tabor.

Eu sei que o nível é diferente. Jesus fez uma subida ao monte e eu só caminhei em frente, no plano, visto por estes lados escassear os montes. Mas o resultado foi o mesmo.

Na subida ao Tabor foi preciso esforço, elevar o nível, desapegar-se de algo, deixar o comodismo, queimar energias, ir mais além, mais alto, alargar horizontes. Na minha caminhada não fiz outra coisa.

Jesus subiu juntamente com os três discípulos escolhidos. Eu também tive companhia anónima, gente que se cruzava comigo e que comungava dos mesmos objetivos e dos mesmos sonhos. De facto, quem progride, eleva sempre a comunidade a que pertence. Ninguém sobe ou vai em frente sozinho. Aí está uma comunidade sempre presente. Até Deus Pai se torna presente, o Espírito também sob a forma de nuvem e os profetas Moisés e Elias... vieram fazer parte da nova comunidade.

Depois da subida ao monte todos ficaram diferentes – Jesus transfigurado, os discípulos com a capacidade de ver e escutar diferente. Também no final da minha caminhada devo estar diferente, ver novas perspetivas, escutar coisas novas. É por isso que fazemos caminhadas: para alcançar uma nova versão de nós mesmos.

Quando estou cansado de ver sempre as mesmas coisas ou saturado de ser assim, convém sair, caminhar, transpirar, subir de nível, ir em frente para que eu fique diferente e veja de maneira diferente tudo e todos.

Finalmente, os discípulos tiveram de descer com Jesus e voltar a casa. Ninguém sobe ao monte para ficar lá para sempre. É preciso descer e dar testemunho, fazer eco dessa experiência. E sempre que recordar vai voltar a sentir os mesmos sentimentos no seu coração.

É por isso que continuo a fazer as minhas caminhadas: não é só para fazer exercício físico, não é só para respirar melhor, é para fazer a experiência do Tabor e transfigurar-me. É uma necessidade para a saúde física e espiritual.

O mistério da transfiguração acontece ainda hoje em cada caminhada a todos os níveis.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O contador dos meus passos



O contador dos meus passos

Ofereceram-me há dias um smartwatch para as minhas caminhadas ao fim da tarde. Não sei se sou capaz de usar nem se preciso dele. Dizem-me que é um aparelho de boa qualidade, completo e muito útil, com muitas funcionalidades. Monitoriza o tempo, passos, calorias consumidas, ritmo cardíaco, pressão arterial, oxigénio no sangue, distâncias… e tanta outras coisas que eu dispenso.

Na mesma ocasião uma velhinha veio dizer-me que o seu neto tinha notado que ela usava o mesmo contador de passos que o padre. O fitbit de que ele se referia devia ser o terço ou a dezena do Rosário. De facto, muitas vezes faço a minha caminhada com uma dezena entre os dedos, não para contar os passos, nem para contar ave-marias, mas para ir de mão dada com Maria, minha e nossa Mãe do Céu.

O mais importante numa caminhada, como na vida em geral, não é saber quantos passos damos, quanto tempo demoramos, quão longe chegamos. O mais importante é que vamos e com quem vamos. É por isso que faço questão de levar nas mãos, não o contador dos meus passos, mas a lembrança de quem me acompanha.

Não sei se vem a propósito, mas sempre me inspirou a recomendação de Jesus no Evangelho – Quando fores apresentar a tua oferta no templo e te lembrares que o teu irmão não está em paz contigo, deixa lá a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, depois volta para completar a tua oferta (Mt 5, 23-24)

Quantos passos para a reconciliação?!

Sabendo que Jesus falou isto em Cafarnaum. Daí ao Templo de Jerusalém vão acerca de 144 quilómetros… Isto é, se alguém está em Jerusalém e se recordar que precisa fazer as pazes com o seu irmão, tem de fazer 144 quilómetros até à sua casa, reconciliar-se e voltar a fazer outros 144 quilómetros para completar o sacrifício em Jerusalém. Isto mais parece uma hipérbole… mas é mesmo assim. Quantos passos!

Mais do que a intenção, o resultado ou o tempo, o que conta para Deus é o esforço, o caminho ou os passos que damos para realizar os seus sonhos.

É por isso que não uso nenhum contador de passos nas minhas caminhadas. Prefiro que seja Deus a contá-los… porque só ele sabe contar e só ele conta para mim.