sexta-feira, 27 de março de 2026

Caminhando numa via-sacra

Durante o tempo da Quaresma, nas minhas caminhadas ao fim da tarde, costumo fazer a via-sacra. Copiei o exemplo do Pe. Dehon que deixou no seu diário – “Quando eu era seminarista em Roma, todos os dias fazia a via-sacra que era a minha recreação da tarde”. E ainda “Tenho o costume de, durante as viagens de comboio, recitar com frequência o terço do rosário.”

É caso para perguntar se a via-sacra era divertida ou se o terço era rezado à velocidade do comboio. Tenho a certeza de que essas práticas de devoção foram muito piedosas e agradáveis a Deus.

Medito, em andamento, nos passos ou estações da via dolorosa de Jesus contemplando os sinais de trânsito. Procuro identificar analogias, significados ou evidências entre uma estação da via-sacra e um determinado sinal de trânsito.

Por exemplo, vejo Jesus a ser condenado à morte e a seguir o caminho do Calvário como sentido obrigatório.

As quedas de Jesus são anunciadas pelos sinais de proibido estacionar, piso escorregadio ou queda de pedras.

O encontro de Jesus com a sua mãe é sugerido pelo sinal de proximidade de escola e a estação de Simão de Cirene pode ser identificada com o trânsito nos dois sentidos, pois é dando que se recebe.

O sinal de posto de primeiros socorros apresenta o encontro de Jesus com Verónica que lhe limpa o rosto.

Para a estação em que Jesus morre na cruz escolho o sinal de STOP, paragem obrigatório, momento de silêncio, ficar em sentido perante o momento tão misterioso ou simplesmente parar para contemplar aquele que trespassaram…

Além disso encontro outros sinais, nas fachadas de algumas casas, que servem de inspiração para a minha via-sacra como cruzes de todos os feitios, Senhor Santo Cristo dos Milagres com a coroa de espinhos, A imagem do Coração de Jesus etc.

Durante a minha caminhada fico atento aos sinais de trânsito, aos sinais dos tempos, aos sinais de orientação que o Senhor continua a colocar na minha vida para que o possa seguir, pois só ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Não sei se é o Senhor que me aponta para os sinais de trânsito ou se são estes que me apontam para Jesus.

Já que a via-sacra é uma autêntica caminhada, quero fazer da minha caminhada uma sincera via-sacra.

 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Um povo, um chão, uma fé


5ª feira – V semana da Quaresma


Promessas de Abraão, realizações de Jesus.

O sonho de Abraão é realizado em Jesus.

Deus faz três promessas a Abraão:

- Uma descendência

- Uma terra

- Um Deus

 

- Bens afetivos (um povo)

- Bens temporais ou materiais (um chão)

- Bens espirituais ou religiosos (uma fé)

 

Jesus veio completar, aperfeiçoar e realizar essas promessas:

- Bens afetivos (todos irmãos, família humana, comunidade divina)

- Bens temporais e eternos (um novo céu e uma nova terra)

- Bens espirituais (fez-se homem como nós para sermos como Ele)

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O maior evento da história


Solenidade da Anunciação do Senhor

Hoje, dia da Encarnação ou da Anunciação, resolvi rezar o Ângelus não só de manhã, mas também ao meio-dia e ao cair da tarde – uma prática que, claro, faz parte da piedade católica há muito tempo.

Todos os dias rezo o Ângelus juntamente com a comunidade, antes das Laudes, mas hoje faço questão de rezá-lo três vezes.

É a lembrança do maior evento que já ocorreu em toda a história.

Se o dia da Anunciação é, de facto, o maior evento de toda a história, a hora em que se reza isso quotidianamente é o maior momento desse dia.

Et Verbum caro factum est, et habitavit in nobis.

 

A encarnação, a paixão e a ressurreição de Jesus são três formas originais e únicas de abraçar a humanidade. São expressões do mesmo mistério.

 

À margem:

O texto do Ângelus em português não é unânime. Conheço três versões diferentes. Em todo o caso, o mais importante é lembrar esse mistério e louvar a Deus.

Uma versão diz:

- O Verbo de Deus encarnou

          - e habitou entre nós.

 

Outra tradução:

- O Verbo de Deus fez-se homem

          - e habitou entre nós.

 

Ainda outra versão:

- O Verbo de Deus fez-se carne

          - e habitou entre nós.

 

Também há diferenças na expressão: O Verbo de Deus ou O Verbo Divino.

E ainda na expressão: Eis a escrava do Senhor ou Eis a serva do Senhor.

 

Quando é que vamos rezar com as mesmas palavras?

A Conferência Episcopal Portuguesa devia estabelecer uma fórmula única.

 

terça-feira, 24 de março de 2026

Quando levantamos Jesus


3ª feira – V semana da Quaresma

 

Perguntaram a Jesus:

- Quem és tu?

Respondeu-lhes Jesus:

- Quando levantardes o Filho do homem, então sabereis que Eu Sou…

E perguntamos nós:

- Quando é que o levantamos?

Chegaremos à conclusão de que Jesus, como Filho do homem, é levantado em três situações especiais:

- No Calvário foi erguido na cruz.

- Depois da Ressurreição foi elevado ao Céu.

- Sempre que celebramos a Eucaristia em sua memória nós levantamos a Hóstia Consagrada que é o Corpo de Jesus.

Para sabermos quem é Jesus é preciso contemplá-lo nestes três momentos:

Na cruz, na Ressurreição e na Eucaristia.

No altar ao levantar a Deus na Eucaristia olhemos para Jesus porque ele olha para nós.

- Que é que nós vimos aí levantado?

- Ao levantar a Deus, no momento da consagração, nós vimos a Hóstia Santa, o Pão do Céu, o Círculo perfeito sem começo nem fim.

- Também o Corpo de Cristo ao ser elevando para nos ser apresentado como Cordeiro de Deus, nós podemos vê-lo em várias perspetivas.


Um coração

É o Coração de Jesus que nos ama e dá a sua vida por nós


O alimento

Jesus fez-se pão para o nosso sustento. É Pão partido e partilhado para chegar a todos.


A Cruz

Jesus derramou o seu sangue na Cruz e dá-nos a beber no cálice da salvação.


O sol nascente

A metade da Hóstia consagrada faz-nos lembrar que Jesus ressuscita como sol para iluminar e orientar a nossa vida.

 

segunda-feira, 23 de março de 2026

As amendoeiras em flor

No percurso das minhas caminhadas ao fim da tarde encontro muitas amendoeiras, típicas da região do Algarve. Antes da primavera aparecem todas floridas. É um espetáculo que enche os olhos da cara e da alma.

Aprendi nessa ocasião a história da amendoeira, a árvore que enganou o Diabo. Ele viu-a florescer nos fins de janeiro e, julgando que não tardariam os frutos, sentou-se debaixo dela à espera. E lá ficou até setembro, altura em que se fartou de esperar e foi espreitar as outras árvores. Não sabia que nesse mês é que são recolhidos os seus frutos tal como os das outras árvores.  Aborrecido, voltou para junto da amendoeira e viu que, entretanto, as amêndoas também já tinham sido apanhadas. Bem enganado foi.

Mas eu nunca vi nenhum Diabo debaixo destas amendoeiras em flor. Vi sim a beleza dessa árvore em flor, que aponta para a vida e ressurreição. De facto, há quem identifique na amendoeira a figura de Cristo.

A amendoeira é uma das primeiras árvores a florescer, rompendo a longa noite invernal e anunciando a primavera. Por isso, tornou-se símbolo de renovação e esperança.

Também encontrei amêndoas na Bíblia. Jeremias (1,12), ao contemplar um ramo de amendoeira que floresce, percebe o nascimento do Messias; o Eclesiastes (12,5), na “amendoeira que abre em flor”, vê a ressurreição após a morte na cruz; e, em Números (17,23), na vara de Aarão, florindo e produzindo amêndoas, reconhece a força redentora da Cruz como vara florida.

Tal como a amêndoa guarda um fruto saboroso atrás de duas cascas, uma amarga e outra rija, a Cruz revela, a princípio, sofrimento e aflições, mas depois amparo e fortaleza, até se revelar suave e saborosíssima no seu fruto redentor.

Os povos antigos envolviam as amêndoas em mel. A partir do século XVI, com a chegada do açúcar os conventos começaram a produzir amêndoas cobertas de açúcar.

Seja na vida que brota após a aridez do inverno ou nas tradições dos doces conventuais, as amêndoas da Páscoa continuam a dizer-nos que há um fruto escondido dentro das cascas amargas da vida, promessa de ressurreição.

Hoje fiz a minha caminhada com uma amêndoa doce na boca, para não esquecer que estou a caminho da Páscoa.



domingo, 22 de março de 2026

Jesus dá-nos um novo ânimo


Ano A – V domingo da Quaresma

Uma correção

Dizemos que Jesus ressuscitou Lázaro, mas com toda a propriedade não foi uma ressurreição, mas uma reanimação. De facto, depois deste episódio Lázaro passou outra vez pela morte até participar na ressurreição prometida a todos os filhos de Deus. Ele ‘ressuscitou’ para voltar a morrer… Então vem vez de chamarmos ressurreição de Lázaro devemos dizer reanimação, pois só Cristo é que ressuscitou para nunca maias morrer.

 

Uma prefiguração

Este episódio aconteceu para apontar para um mistério ainda maior, para manifestar a Glória de Deus que é a Ressurreição de Jesus. A reanimação de Lázaro aponta e prefigura a Ressurreição de Jesus que nos dá a garantia que nele todos havemos de ressuscitar.

 

Uma identificação

Assim como Lázaro voltou à sua casa reanimado, assim todos nós voltamos para a nossa casa reanimados. O que aconteceu com Lázaro acontece connosco, amigos de Jesus.

Há apenas uma diferença: No caso de Lázaro, Jesus foi até ele. No nosso caso, somos nós a ir até Jesus, mas com o mesmo objetivo – ser reanimados, receber um espírito novo, uma alma restaurada, um novo ânimo. É isso que sempre acontece quando alguém se encontra com Jesus.

 

Ver também:

Reanimação de Lázaro

Lázaro sou eu

Espelho de Lázaro

Ser reeditado

 

sábado, 21 de março de 2026

O que me trouxeste da feira?

Nestes dias tem decorrido uma grande feira aqui na cidade onde vivo de modo que tenho de atravessá-la para fazer a minha caminhada ao fim da tarde.

Tenho visto grande animação pelas ruas, muita agitação nas compras e vendas e muita alegria ou euforia que a todos contagia mesmo a quem como eu, passa alheio ou indiferente a essa azáfama.

Tenho-me cruzado com muitas pessoas carregadas com vários sacos e mercadorias.

Imagino então essas mesmas pessoas a chegarem às suas casas.

- O que é que trouxeste da feira?

De facto, quem vem de alguma feira é suposto trazer alguma coisa ou então prestar contas. É preciso avaliar a nossa ida à feira, as compras que fizemos, como nos divertimos, o que poupámos, o que ganhámos. Esta pergunta é válida tanto para quem foi comprar como para quem foi vender:

- O que é que trouxeste da feira?

Faço a mesma pergunta a mim mesmo ao regressar a casa no fim da minha caminhada ao fim da tarde:

- O que é que trouxeste hoje da tua caminhada?

E não é só para saber ou avaliar quantas calorias queimei, quantos quilómetros percorri, a boa disposição que alcancei.

É preciso também dar conta daquilo que interiormente trouxe, as reflexões, compromissos e decisões que tomei.

Depois de uma caminhada devíamos carregar outras mercadorias interiores mais saudáveis e igualmente benéficas para quem ficou em casa. Enfim, é preciso saber e dar a conhecer o que trouxemos da caminhada, porque ninguém regressa de mãos vazias e todos ficam a ganhar com isso.

Por fim, esta será também a pergunta que um dia Deus nos fará quando regressarmos da feira desta vida.

Ser-nos-á perguntado:

- O que é que trouxeste?

Jesus garante no evangelho que um dia Deus pedirá contas a esta geração.

E que poderemos nós responder?

Que mercadorias apresentaremos?

Assim pregava o Pe. António Vieira no século XVII:

Sabei, ó cristãos, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita conta do que deixastes de fazer.

Pelo que fizeram, se hão de condenar muitos; pelo que não fizeram, todos.

E por que Deus nos pedirá contas?

Ele pede-nos contas, para saber quanto ele vai continuar a pagar por cada um de nós, por todos.