terça-feira, 7 de abril de 2026

O Jardim e o Jardineiro


3ª feira da Oitava da Páscoa

Ao raiar do terceiro dia, os amigos de Cristo quando chegaram ao local viram o sepulcro vazio e a pedra rolada para o lado. De várias formas eles aperceberam-se da nova maravilha; mas mesmo assim não se aperceberam bem que o mundo tinha morrido durante a noite. O que eles contemplavam era o primeiro dia de uma nova criação, um novo Céu e uma nova Terra. E, no semblante de um jardineiro, Deus passeava de novo no jardim, na brisa, não da tarde, mas da madrugada. (G.K. Chesterton in 'O Homem Eterno' 1925)

Jesus foi levado para um jardim…

O jardim nos ensina a imitar o nosso Deus, que é paciente, que se alegra com as pequenas coisas, que ordenou que toda a vida se movesse em ciclos — nascimento, crescimento, morte, renascimento.

Não existem lugares profanos; existem apenas lugares sagrados e lugares profanados. Quando cuidamos fielmente do nosso jardim, ele se torna um lugar sagrado, que nos abençoa além do alimento que nos nutre; ele nutre a nossa própria alma. (Wendell Berry)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A segunda-feira dos Anjos


Segunda-feira da oitava da Páscoa.

Segunda feira dos Anjos.

Segunda-feira das Fake News


O dia seguinte à Páscoa é chamado de Segunda-feira dos Anjos, porque foi o anjo quem disse às mulheres:

- Porque procurais entre os mortos aquele que stá vivo? Não está aqui; ressuscitou.

A oitava de Páscoa apresenta a sucessão do que ocorreu no dia de Páscoa da Ressurreição, o primeiro dia da semana, como se fosse um único dia alargado por uma semana. Nas primeiras horas Jesus ressuscitou (primeiro dia da oitava, os anjos aparecerem às mulheres (segundo dia da oitava) Jesus apareceu a Maria Madalena (treiro dia da oitava) com os discípulos de Emaús (quarto dia da oitava) e assim sucessivamente…

Na manhã de Páscoa, com medo e grande alegria, as mulheres correram para contar aos discípulos que Ele havia ressuscitado, como havia dito.

Havia uma mistura de confiança e desconfiança, e elas viram que o túmulo estava vazio, mas como isso havia acontecido?

Quando o amor é grande, ele nos faz acreditar e duvidar; somente Deus, em seu imenso amor, não duvida do nosso amor.

O verdadeiro medo surge imediatamente, não da alegria, mas do medo dos judeus que acreditam que a Ressurreição de Jesus é o novo problema para os judeus. O que fazer?..

A corrupção aparece: subornam os guardas para espalhar o boato de que, enquanto dormiam, roubaram o corpo de Jesus.

Mateus diz que esse boato circulava nos anos 70.

Ainda hoje há quem acredite nisso, ou seja, há quem não acredote na ressurrieção de Jesus.

As fake news sempre exitiram.

A Ressurreição não é uma notícia falsa, é a mais bela e reconfortante das verdades. A nossa alegria é a prova de que Jesus está vivo e ressuscitou.

Há gente que acredita mais depressa nas fake news do que na verdade da ressurreição.

Isso acontece porque as fake news não pesam na consciência, enquanto  verdade da ressurreição incomodam muito mais…

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O último sermão de Jesus


6ª feira da Paixão do Senhor

Hão de olhar para Aquele que trespassaram.

Assim podemos acolher o último sermão de Jesus, pregado no alto da cruz com as últimas palavras da sua boca, com o seu último olhar e com o seu coração aberto.

 

As últimas palavras da sua boca

Os carrascos esperavam que Jesus crucificado chorasse, pois todos os que foram pregados na cruz o haviam feito antes d'Ele. Séneca conta-nos que os crucificados amaldiçoavam o dia do seu nascimento, os carrascos, suas mães e até cuspiam em quem os olhasse. Cícero diz-nos que, às vezes, era necessário cortar a língua dos crucificados para impedir as suas terríveis blasfémias. Portanto, os carrascos esperavam um choro, mas não o tipo de choro que ouviram. Da boca de Cristo saíram palavras santas e abençoadas. Não amaldiçoou, mas abençoou. Ele não blasfemou, mas rezou.

Estas foram as últimas sete palavras de Jesus na cruz:

 

1 – As primeiras palavras foram dirigidas aos inimigos:

Pai, perdoa-lhes.

2 – As segundas foram dirigidas aos pecadores: Hoje estarás comigo no Paraíso,

3 – As terceiras foram dirigidas aos santos: Mulher, eis aí o teu filho, eis a tua mãe.

Inimigos, pecadores e santos – esta é a ordem do Amor e da Atenção Divina.

A quarta e a quinta palavras, revelam os sofrimentos do Deus-homem na Cruz:

4 – A quarta palavra simboliza os sofrimentos do homem abandonado por Deus - Meu Deus, Meu Deus porque me abandonastes. Reza o salmo 21(22).

5 – A quinta palavra, os sofrimentos de Deus abandonado pelo homem. É a mais curta das sete palavras. Embora na nossa língua seja composta por duas palavras, no original é uma só. Ele que fez a água, pede de beber a homem. Não era um gole de água terrena, não era isso que Ele queria dizer, mas um gole de amor. Tenho sede – de amor!

6 – Jesus proferiu a sexta palavra, o cântico de triunfo: Tudo está consumado.

7 – A sétima e última palavra foi uma palavra de perspetiva: Entrego o Meu Espírito.

A sexta palavra era voltada para o homem; a sétima, para Deus. A sexta palavra foi uma despedida da Terra; a sétima a sua entrada no Céu.

 

O seu derradeiro olhar

No Calvário Jesus na Cruz olhou em 5 Direções:

1 – Olhou para esquerda com pena o ladrão que o afrontou.

2 – Olhou para direita garantindo salvação ao ladrão que o reconheceu como rei.

3 – Olhou para baixo, mostrando cuidado com Maria e o discípulo amado.

4 – Olhou para frente dizendo: pai perdoa porque não sabes o que fazes.

5 – Olhou para cima dizendo: Pai, tudo está consumado, entrego o meu espírito.

A única direção que Jesus não olhou na cruz foi para trás. Na Cruz, o passado fica aonde deve estar, para trás!

Aprendamos a olhar do mesmo jeito e para todas as mesmas direções, exceto para trás:

- Para os lados com pena e gratidão

- Para a frente com perdão

- Para baixo com solicitude

- Para o alto com espírito de entrega e de sacrifício ou oferta.

 

O seu coração aberto a palpitar em nós

Adaptando uma quadra de Fernando Pessoa:

 

Trazes uma cruz no peito

Não sei se é por devoção

É antes o melhor jeito

De ter lá um coração

 

Olhemos a cruz que trazemos no nosso peito. Que ela seja o sinal de que no nosso peito está um coração, não apenas o nosso, mas o coração de Cristo crucificado.

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Caminhando com Santiago

Na minha caminhada de hoje assumi o desfio de escolher um patrono para essas mesmas caminhadas diárias.

Não bastava escolher à sorte um santo para invocar. Era preciso confirmar com uma evidência ou manifestação especial.

Pensei primeiro no próprio Jesus, Caminho, Verdade e Vida, mas ele já era tudo para todos.

Talvez o patriarca Abraão, o primeiro a deixar a sua casa e a peregrinar. Ou então Moisés que guiou o povo através do deserto. 

Os discípulos de Emaús que caminharam na companha de Jesus ou então São Paulo que mais quilómetros percorreu como apóstolo não seriam maus patronos. São Francisco Xavier que o total dos seus passos daria três voltas à Terra, ou São João Paulo II que foi chamado de Papa Léguas pelo mesmo motivo, podia ser uma boa escolha. Ou então optar pelos Santos Anjos da Guarda, mas eles já são a nossa companhia de noite e de dia.

Quanto mais caminhava, mais pensava em tudo isto. De repente senti algo a ser pisado pelos meus sapatos. Era uma concha vieira que abunda por estes lados, na praia, nas dunas e nas matas. Exclamei alto e bom som:

- Encontrei quem vai ser o patrono das minhas caminhadas! Será Santiago de Compostela.

De facto, este santo é identificado por uma concha ou vieira, quer no chapéu, quer no bordão e no caminho.

Ele fez o caminho com Jesus e com os outros apóstolos, sendo do primeiro grupo a deixar tudo e a segui-lo

Ele veio de tão longe até à Península Ibérica.

Foi também o primeiro a ir a caminho do céu, ou seja, primeiro a ser martirizado.

Ele continua hoje o seu percurso inspirando os seus devotos a peregrinarem até Compostela onde tantos caminhos vão dar.

Está decidido: vou invocar como patrono das minhas caminhadas o Apóstolo do Caminho seguindo o Caminho do Apóstolo Santiago.

Ao chegar a casa, mostrei aos meus colegas uma concha de peregrino e depressa concluíram quem escolhera para patrono dos caminhantes. Mesmo assim alguém fez lembrar que eu nunca tinha feito o caminho de Santiago. E é verdade. Mas a partir de agora basta que Santiago me acompanhe como patrono nas minhas caminhadas e isso será o suficiente para fazer o seu caminho.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Passemos à outra margem

Hoje não tive disposição para a minha caminhada como sempre. O calor excessivo, a humidade pesada ou a preguiça fez-me sair com um livro na mão e sentar-me à sombra de uma árvore, junto ao Guadiana. Aí podia contemplar a outra margem, as terras de Espanha ali em frente. Li algumas páginas do livro de François Xavier Bustillo: Passemos à outra margem (por uma vida religiosa renovada):

- Passar para a outra margem não é fugir de uma dura realidade ou procurar uma margem mais suave, mas sim recentrar o foco.

- A outra margem é lugar de surpresa, de descoberta, de novidade, de outros mares, outros montes, outros desertos.

- Às vezes, ao chegar à outra margem, há surpresas. Nem tudo é melhor ou mais fácil, há outros desafios, tempestades, ventos.

Fechei o livro e fiquei a olhar para a outra margem. Mas o que ocupou o meu pensamento foi uma fábula de Fernando Pessoa.

“O BURRO E AS DUAS MARGENS

É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem.

O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem.

Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.

O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efetivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.

Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.

Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também…

Moralidade: A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes… Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.”

Na minha caminhada de hoje fui até à outra margem, sem sair do mesmo lugar. E aprendi a não desistir.

 


segunda-feira, 30 de março de 2026

Caminho diurno ou noturno

Costumo fazer as minhas caminhas ao fim da tarde, às vezes de manhã, mas nunca à noite. Não é por falta de segurança no percurso ou por medo do escuro. Prefiro a luz natural, as cores vivas, o movimento normal do dia.

Mas tenho um amigo, a quem por brincadeira chamo ‘Nicodemos’, que faz as suas caminhadas só de noite escura.

Pergunto-lhe qual o motivo dessa preferência e ele diz-me ser uma espécie de ave noturna.

Eu vejo-o mais parecido com o Nicodemos do Evangelho que gostava de caminhar à noite para se encontrar com Jesus.

As más-línguas dizem que Nicodemos tinha medo de ser reconhecido, que não tinha coragem de assumir a admiração para com Jesus, ou então por vergonha ou por ser fariseu…

As boas-línguas dizem que ele procurava separar a fé pessoal da sua vida pública, que todos os caminhos iam dar a Jesus fossem percorridos de dia ou de noite.

Sei também que é assim que os judeus contam o tempo – A noite não é o fim do dia, mas o começo de um novo dia. Não é um ponto de chegada, é um ponto de partida. Assim Nicodemos dava a Deus as primeiras horas da sua jornada.

O que nos diz Nicodemos?

- É uma declaração de fé em Cristo Luz do mundo – Na noite da minha vida quero encontrar-me com a Luz. É à noite que a luz brilha mais e posso caminhar melhor à luz de Cristo.

O que diz Jesus?

- Nicodemos vem à noite porque vem em busca da luz, porque quer nascer de novo. 

O que podemos nós dizer?

- Jesus acolhe-nos a todos, a todas as horas do dia ou da noite.

Os dias fê-los Deus para nós, as noites para si, disse o P. António Vieira, num sermão do século XVII. Os dias para as ocupações do corpo, as noites para os retiros da alma. Os dias para o exterior e visível, e por isso claros, as noites para o interior e invisível, e por isso escuras. Nicodemos dava os dias às obrigações do ofício, como pessoa pública, e para satisfazer às mesmas obrigações com acerto e bom sucesso, gastava as noites com Deus.

Faço as minhas caminhadas de dia, porque já estou jubilado enquanto o meu amigo ‘Nicodemos’ caminha de noite porque durante o dia está ocupado com os seus compromissos profissionais.

O que interessa é que todas as caminhadas, sejam elas diurnas ou noturnas, sejam feitas com Deus.

 

domingo, 29 de março de 2026

O amor tem forma de cruz


Ano A – Domingo de Ramos na Paixão do Senhor

O Domingo de Ramos não é um desfile de vitória, mas um triunfo da vulnerabilidade.

Não há cavalos armados, mas um jumentinho.

Não há escoltas armadas, mas crianças com flores.

Jesus é o príncipe da paz que entra na cidade da paz.

A sua única arma é o amor.

 

Hoje o Domingo de Ramos não é uma simples evocação histórica.

É a nossa entrada em cena no mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Contemplemos e sigamos o seu amor e a sua paixão.

 

O amor tem a forma de uma cruz.

A paixão tem a forma de um coração.