segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Em plena crise de habitação


Comemoração de todos os fiéis defuntos

A vida é uma casa alugada e nós somos apenas inquilinos prestes a ser despejados.

A gente vive como se tudo fosse nosso ou se fosse para sempre.

Como se fossemos donos do tempo, dos dias, do corpo que carregamos, das pessoas que amamos.

Só que não!

Não somos donos de nada!

Estamos aqui de passagem. Um dia iremos partir do mesmo modo ou jeito que chegámos. Sem nada.

Somos inquilinos temporários de tudo: da juventude, da saúde, das relações, do espaço que ocupamos no mundo.

Somos apenas usurários dos bens que Deus colocou à nossa disposição.

A qualquer momento a vida vai bater na nossa porta dizendo: O teu tempo acabou aqui. Entra no Hotel das Mil Estrelas.

Será o fim da precariedade. Então daremos entrada da nossa morada definitiva e eterna.

 

Assim nos lembram os vários prefácios dos defuntos:

I – Desfeita a morada deste exílio terrestre adquirimos no céu uma habitação eterna.

II – Jesus abriu-nos as portas da vida eterna.

IV – Voltamos à terra donde fomos tirados.

 

As leituras deste dia também nos lembram essa realidade:

Da Segunda Epístola de São Paulo aos Coríntios – Bem sabemos quem se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos os Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens… Sabemos que enquanto habitamos neste corpo, vivemos como0 exilados… e com esta confiança preferíamos exilar-nos do corpo, para irmos habitar junto do Senhor. Por isso nos empenhamos em sermos agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele.

 

E nas orações das missas dos defuntos rezamos:

- Que os defuntos sejam conduzidos à vossa morada de luz e de paz.

 

No dia da comemoração dos fiéis defuntos pensemos na crise da habitação.

1ª – Nós vivemos aqui de passagem. O nosso lugar na Terra é transitório. A nossa verdadeira casa é na eternidade.

2ª – O nosso corpo é a morada provisória do nosso espírito ou da nossa alma. Um dia deixaremos de habitar esse corpo. Enquanto cá estamos vamos ensaiando a vida eterna. Preparamo-nos para a nossa morada eterna vivendo dignamente no nosso corpo mortal.

 

“Sabem, disse certa vez o Beato Fulton Sheen, que talvez passemos muito tempo, certamente há algum, rezando pelas almas dos falecidos e pouco tempo rezando a eles ou com eles? Vejam o exemplo dos pais, dos maridos que já morreram, das esposas, dos filhos. Eles são nossos intercessores. E talvez limitemos a sua influência no céu simplesmente porque não os invocamos o suficiente.”

- Nossas orações ajudam os mortos.

- As suas orações nos ajudam.

Eles nunca se esquecem de rezar por nós.

Não podemos esquecer de rezar por eles e rezar por eles.

E a melhor maneira de rezar é rezarem comunidade, em família, rezar unidos como irmãos.

 

Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz

 

À margem

Literatura islâmica sobre Jesus:

Jesus costumava dizer aos seus seguidores: Fazei das mesquitas as vossa casas e das vossas casas lugares de passagem. (Adballah ibn al.Mubarak +797)

Disse Jesus: O mundo é uma ponte, Atravessa a ponte, mas não construas sobre ela. (Abdakkah ibn Qutayba +884)

 

 

domingo, 1 de novembro de 2026

O Jardim da Santidade


Solenidade de todos os santos

Santa Teresinha do Menino Jesus (de Lisieux) descobriu uma das mais belas verdades do Evangelho ao contemplar as flores de um jardim: Deus não nos ama porque somos grandes, nem nos pede que sejamos todos iguais. Cada pessoa é única aos seus olhos, e cada uma é chamada a responder ao seu amor a partir da sua própria realidade.

A santidade não consiste em destacar-se, em realizar coisas extraordinárias ou em alcançar as alturas espirituais dos grandes mestres, mas sim em deixar que Deus atue em nós e em tornarmo-nos aquilo para o que ele nos criou.

“Se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia o seu encanto primaveril”, escreve a santa. Que imagem tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda!

No jardim de Jesus, há rosas e lírios, mas também violetas e margaridas. Umas chamam a atenção pela sua beleza; outras mal se distinguem entre a erva. Contudo, todas têm o seu lugar e contribuem para a harmonia do conjunto.

O mesmo acontece na Igreja: ao lado dos santos que iluminaram a história com as suas obras, a sua sabedoria ou a sua entrega heróica, existem inúmeros homens e mulheres que vivem a sua fé discretamente, sem reconhecimentos nem aplausos, mas com uma fidelidade que sustenta o mundo. A razão última desta esperança encontra-se no próprio coração de Deus. Assim como o sol ilumina tanto as grandes árvores como as flores mais pequenas, o Senhor entrega-se inteiramente a cada pessoa. Ninguém é insignificante para ele. O seu amor não se distribui como um bem escasso, de tal modo que, quanto mais uns recebem, menos resta para os outros. Pelo contrário, a sua grandeza manifesta-se precisamente na sua capacidade de se humilhar, de se aproximar dos mais pequenos e de ir ao encontro daqueles que mal sabem como o procurar.

Por esta razão, a santidade não é uma competição, mas antes uma resposta de amor. Não se trata de ser mais do que os outros, mas de aprender a amar como Jesus, cada um a partir do seu lugar, com os dons recebidos e através das circunstâncias concretas da sua existência.

 

 

Os santos são influencers

 

Os santos são influencers

Solenidade de todos os santos

A) Somos todos santos

Muitas vezes a liturgia da palavra lembra-nos que somos todos pecadores.

Hoje, a liturgia lembra-nos que somos todos santos.

O “Todos” em “Todos os Santos” significa nós também.

São Paulo dizia que somos concidadãos dos santos.

Hoje dizemos que os santos são nossos concidadãos.

Se somos todos diferentes, porque é que queremos ser iguais aos outros?

De facto, não há dois santos iguais.

 

B) Os santos são influenciadores

Influenciadores versus Santos. Precisávamos de santos, não de estrelas. A internet é uma oportunidade real de alcançar as pessoas onde elas estão, e o Senhor a utiliza com certeza.

Se São Paulo tivesse tido internet na sua época, ele teria distribuído vídeos às cidades, em vez de cartas.

São Bernardo de Claraval nos deu a metáfora de que precisamos: Se vocês forem sábios, serão reservatórios e não apenas canais. O canal derrama o que recebe. O reservatório espera até se encher antes de transbordar. Um reservatório tem tempo para se encher. Um canal é apenas água passando por ele. Temos uma geração de novos convertidos sendo solicitados a serem canais antes mesmo de terem a oportunidade de se encher.

 

c) Os santos são obras de arte de Deus

Dizem que os santos são as mais belas obras de arte de Deus em carne e osso.

Cada santo é uma obra perfeita, uma autêntica obra-prima de Deus.

Podemos ver o valor do artista, isto é, de Deus ao contemplar a perfeição dos santos.

Podemos também ver o valor da obra de arte ao contemplar o seu criador ou autor.

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Apóstolos primos de Jesus


Festa dos santos Simão e Judas, apóstolos

Os dois primos de Jesus

Estes dois Apóstolos, menos conhecidos que os outros, paradoxalmente, são dois parentes mais estreitos de Jesus: eram dois de seus primos. No que se refere a Judas Tadeu, a tradição é bastante precisa; sabe-se pelas Escrituras que seu pai, Alfeu, era irmão de São José; enquanto sua mãe, Maria de Cléofas, era prima da Virgem Maria.

Muitos identificam Simão com o primo homónimo de Cristo, irmão de Tiago o Menor. Os bizantinos o identificam com Natanael de Caná e o organizador do banquete das Bodas de Caná.

Segundo a tradição, é quase certeza que, naquela região do mundo, Simão chamado “o Zelote” ou “o Cananeu”, como os evangelistas Mateus e Marcos o chamam, encontra Judas Tadeu, seu companheiro de missão e de predestinação.

Ao celebrar estes apóstolos, primos de Jesus, lembremo-nos que todos os apóstolos tornam-se família de Jesus.

Não são os primos de Jesus que se tornam apóstolos, mas o contrário. São os apóstolos que se tornam família de Jesus. De facto, todos os apóstolos formam uma comunidade, ou seja, uma família à volta de Jesus.

 

Os dois apóstolos mais disponíveis

Se eu perguntar qual dos doze apóstolos está menos ocupado ou mais disponível para todas as causas, mesmo as impossíveis, com certeza me dirão que é São Simão Cananeu e Judas Tadeu.

Porquê?

Quem invoca São Simão, só pensa em Simão Pedro, de modo que Sião Cananeu fica esquecido.

E quem quer invocar São Judas Tadeu, fica retraído para não confundir com Judas Iscariotes.

Assim estes dois apóstolos de hoje, Judas Tadeu e Simão Cananeu, raramente são invocados por causa dessa dupla precaução ou confusão.

Se os Apóstolos são os nossos intercessores no céu, então estes são os que mais disponibilidade têm para nos atender.

 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O ilustre santo do Algarve


Memória de São Gonçalo de Lagos, presbítero

São Gonçalo de Lagos venerado sobretudo pelos pescadores do Algarve

 

Nasceu em Lagos (Algarve, Portugal), no ano 1360.

Partiu para Lisboa, ainda jovem, com o intuito de ingressar num instituto religioso e tomou o hábito na Ordem dos Eremitas de S. Agostinho.

Renunciou por humildade doutorar‑se em Teologia.

Foi prior em vários conventos da sua Ordem.

Morreu em Torres Vedras a 15 de outubro de 1422.

 

Na oração da sua memória sobressai três virtudes:

- Humildade de espírito

- Pureza de costumes

- Singular caridade.

 

Já que temos a mesma naturalidade que ele, tenhamos também iguais virtudes para alcançarmos a mesma Pátria celeste.

 

Peço hoje um milagre a São Gonçalo de Lagos:

Que ele desperte na atualidade algum conterrâneo com a mesma vida de santidade para que o seu património espiritual seja uma realidade também nos nossos dias.

Ou seja, que haja um novo santo nestas terras do Algarve.

 

 

O grande nasce pequeno


3ª feira – XXX semana comum

O grão cresceu e tornou-se árvore. 

Quando te sentires pequeno neste mundo tão grande

olha para um grão de mostarda.

Apesar de pequeno cresce, desenvolve-se e dá valiosos frutos.

De facto, a grandeza nasce sempre do que é pequeno,

porque ninguém nasce grande.

O começo começa de modo impercetível

e a ação invisível tudo transforma.

O mais importante é o que cresce dentro de cada um.

 

Tu és grande, não deixes que te diminuem…

Deixa-te cultivar…

 

Podes ser do tamanho de um grão de mostarda, mas bem cultivado serás uma árvore frondosa.

Podes ser uma semente minúscula, mas a maior floresta do mundo começou de sementes minúsculas.

Podes ser um pequeno grão de areia da praia do mar, como Abraão, mas só Deus será capaz de contar a tua descendência.

Podes ser apenas um ponto luminoso na escuridão da noite, mas Deus fará de ti uma grande estrela que brilha no infinito dos céus.

Podes parecer apenas uma pequena gota de água como dizia Santa Teresa de Calcutá, mas sem ti o mar não seria tão grande.

 

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Jesus endireitou...


2ª feira – XXX semana comum

Apareceu na sinagoga uma mulher com um espírito impuro que a tornava enferma havia dezoito anos; andava curvada e não podia de modo nenhum endireitar-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe:

- Mulher, estás livre da tua enfermidade.

E impôs-lhe as mãos.

Ela endireitou-se logo e começou a dar glória a Deus.

 

O mal desta mulher parece ser mais transversal, pois não tinha apenas um problema de costas ou da coluna vertebral.

Parece que toda a sua vida estava torta e ela não conseguia endireitar, não conseguia ‘libertar-se desse jogo’.

Às vezes acontece connosco a mesma situação. Parece que tudo corre mal, tudo continua torto, de mal a pior.

Que fazer?

Nem é preciso pedir nada, mas apenas estar presente, no meio da comunidade, no dia do Senhor, para que Deus nos veja. É ele sempre quem nos vê primeiro, quem toma a iniciativa e quem pode endireitar a nossa vida.

 

À margem 1

Conheço uma canção infantil que fala de um homem torto que Jesus endireitou:

 

Havia um homenzinho torto

Morava numa casa torta

Andava num caminho torto

Sua vida era torta

 

Um dia o homenzinho torto

A bíblia encontrou

E tudo que era torto

Jesus endireitou

 

Para ouvir clicar aqui

 

À margem 2

Há uma canção portuguesa do grupo Xutos & Pontapés, de 1987 intitulada Circo de Feras que começa assim:

 

A vida vai torta

Jamais se endireita

O azar persegue

Esconde-se à espreita

 

Nunca dei um passo

Que fosse correto

Eu nunca fiz nada

Que batesse certo

 

REFRÃO:

E enquanto esperava

No fundo da rua

Pensava em ti

E em que sorte era a tua

Quero-te tanto

Quero-te tanto

 

De modo que a vida

É um circo de feras

E os entretantos

São as minhas esperas

 

Nunca dei um passo

Que fosse correto

Eu nunca fiz nada

Que batesse certo

 

Para ouvir clicar aqui

 


domingo, 25 de outubro de 2026

A dupla chave da felicidade


Ano A – XXX domingo comum

Qual é o primeiro ou maior mandamento?

Na maçaneta interior da porta do meu quarto, está uma fita vermelha pendurada, na qual estão escritas duas frases. Num lado, diz: Ama a Deus sobre todas as coisas. E, no outro, diz: Ama o teu próximo como a ti mesmo. Já está um pouco gasta, mas tem-me acompanhado pelos locais onde tenho vivido nos últimos anos. Assim tenho oportunidade de me lembrar, ao sair ou ao entrar em casa, deste duplo mandamento. É dentro e é fora de casa que devo praticar isto.

 

É a sugestão do livro do Deuteronómio 6, 8-9, que dizia: Estes mandamentos que hoje te imponho estarão no teu coração. Repeti-los-á aos teus filhos e refletirás sobre eles, tanto sentado em tua casa, coo ao caminhar, ao deitar ou ao levantar. Atá-los-ás, como símbolo, no teu braço e usá-los-ás como filactérias entre os teus olhos. Escrevê-los-ás sobre as umbreiras da tua casa e nas tuas portas.

 

Uma vez, na missa com as crianças da catequese da igreja onde era pároco, propus aos catequistas que preparassem e distribuíssem pelos presentes uma fita para pulso com a inscrição do duplo mandamento – amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a nós mesmos.

As crianças saíram felizes da missa com as suas pulseiras. Ao chegarem a casa deviam colocá-las na chave da porta da casa.

Estou certo de que partilharam com as suas famílias o que tinha descoberto na Eucaristia desse dia.

Este duplo mandamento foi-nos dado para ser a chave que dá acesso à felicidade da nossa casa, da nossa comunidade e do Reino dos Céus.

Usemos então essa dupla chave - o mandamento do amor a Deus e aos irmãos.

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Meteorologia espiritual


6ª feira – XXIX semana comum

A metáfora ou a parábola de hoje é comparar a nossa vida espiritual às condições do tempo atmosférico.

Assim como a meteorologia tradicional analisa frentes frias, tempestades, ventos e períodos de sol, a abordagem espiritual propõe a observação do clima interior:

1 - As tempestades e a instabilidade representam os momentos de raiva, ansiedade, conflitos internos, excesso de ruído mental ou cargas emocionais densas.

2 - O vento espiritual ou sopro associado a ideias novas, inspiração, renovação de ânimo ou clareza de pensamento é descrito como tradições filosóficas e espiritualistas. É o Espírito como sopro que transforma as pessoas e gera uma vida nova.

- O calor ou frio repentino são interpretados por como sinais de conexão emocional, lembranças de entes queridos ou sensibilidade ou ambientes. Lembra a oscilação da nossa vida. O ideal é o equilíbrio e o bem-estar interior ou a paz.

- O céu limpo sem nuvens – simboliza a lucidez, a pureza de coração, pois só os puros de coração verão a Deus.

 

Conclusão – É preciso estar atento aos sinais do tempo, pois a nossa vida é tempo dos sinais. É preciso aceitar as oportunidades e as ocasiões que Deus nos dá.

 

À margem:

Jesus parece censurar aqueles que sabem olhar para o céu e ver os seus sinais meteorológicos, mas não conseguem olhar para o Céu para seguir os planos ou desígnios divinos.

É preciso olhar mais além, mais alto, alargar os horizontes.

Nós fomos feitos para olhar para cima, para o céu.

Há dias alguém me perguntou por que razão o porco era desprezado na cultura bíblica.

De facto, esse animal não é valorizado e a sua carne é proibida. Parece que só serve para adubar os campos.

Tentei explicar que nas terras quentes a carne dos suínos deteriora-se rapidamente e é perigosa para a saúde. Como provocava intoxicações, concluíam que Deus não queria que fosse usada e por isso foi proibida.

Assim pensava eu. Mas o meu interlocutor acrescentou outro motivo:

- Porque o porco é o único animal da nossa cultura que não consegue olhar para o céu.

De facto, os suínos andam de cabeça baixa sem nunca fitar o alto dos céus.

O porco dá-nos uma grande lição: lembra-nos que nós conseguimos olhar para o alto, alargar os nossos horizontes e ver os sinais do céu.

E eu concluo – o porco anda de cabeça baixa porque tem vergonha de não poder olhar para o céu.