Ano A – XXII domingo comum
Seguir a Cruz e o Crucificado
Numa época em que o conforto é idolatrado e o
sofrimento deve ser evitado a todo o custo, o crucifixo católico permanece uma
proclamação ousada: Anunciamos Cristo crucificado (1 Cor 1, 23). Para muitos
católicos, a escolha de exibir e venerar um crucifixo – em vez de uma simples
cruz ou uma imagem de Cristo ressuscitado – não é meramente uma questão de
preferência. É uma declaração teológica enraizada no âmago da vida litúrgica e
devocional da Igreja. Esta não é uma decoração arbitrária. É uma
exigência litúrgica. A presença do crucifixo não visa apenas suscitar emoções,
mas sim catequizar e envolver todos os presentes no mistério que se celebra no
altar: a representação do sacrifício único e definitivo de Cristo no Calvário.
Fulton J. Sheen, uma voz influente na
evangelização católica do século XX, destacou a importância desta imagem
sagrada:
Mantenham os olhos fixos no crucifixo, pois
Jesus sem a cruz é um homem sem missão, e a cruz sem Jesus é um fardo sem
alívio. Além disso, o crucifixo é um convite à
participação. Jesus disse: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz diariamente e siga-me (Lc 9, 23).
Contemplar o crucifixo não é permanecer um mero
espectador, mas ser atraído para o discipulado. Ele nos desafia a abraçar o
amor sacrificial, a viver não para nós mesmos, mas para os outros.
À margem
Padrão
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
13-9-1918, Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria
Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
- 60.






