Memória litúrgica do Mártir Pe. Martino Capelli, SCJ (Dehonianos)
Hoje, 13 de outubro, celebramos oficialmente e pela
primeira vez a memória litúrgica do mais recente mártir dehoniano, Pe. Martino
Capelli, martirizado aos 32 anos no primeiro dia de outubro de 1944.
PALAVRAS DO PAPA LEÃO XIV
No domingo, 27 de setembro de 2026, em Bolonha, foram
beatificados três sacerdotes mártires: Ubaldo Marchioni (diocesano), Elia
Comini (salesiano) e Martino Capelli (dehoniano).
Foram mortos em 1944, durante uma fase dramática da
Segunda Guerra Mundial, devido à hostilidade das tropas nazis em relação ao
seu ministério junto dos fiéis.
O sacrifício supremo destes ministros de Deus
demonstra aos cristãos de hoje a coragem de se aproximarem dos irmãos e irmãs,
sobretudo nos momentos de provação.
(Saudação do Papa Leão XIV, no Angelus de 30 de
setembro de 2026)
A MISSÃO SACERDOTAL
O pároco idoso Mellini pede ao Pe. Martino que leve o
Viático a uma doente em Casellina. O Pe. Martino vai e volta sem problemas ao cumprir a missão. Assim que chega a casa, é chamado por um homem que pede ajuda,
depois de ter fugido de La Creda de Grizzana, onde as SS tinham prendido 69
lavradores. Os padres da paróquia confirmam, então, que ainda há moribundos. O
impulso dos jovens religiosos é, por um lado, levar o Viático e, se possível,
salvar pelo menos mulheres e criança em virtude do hábito que usavam.
O Pe. Elia entra na igreja para pegar a píxide com o Pão Consagrado e os santos Óleos e, dirigindo-se aos que estão ali pede: -
Rezem, rezem por mim, porque tenho uma missão a cumprir. Ao encontrar o Pe.
Martino, ambos colocam sobre o seu respetivo hábito o roquete e a estola
sacerdotal, tornando-se assim claramente identificáveis como padres católicos.
Quando uma paroquiana, puxando o hábito do Pe.
Martino, tenta detê-los, alertando-os para a loucura e o perigo a que se expõem,
ela ouve da boca daqueles dois jovens: Somos padres e devemos ir, devemos cumprir
o nosso dever. Dito isto, dirigem-se com passo firme e rápido para La Creda de
Grizzana. Conscientes do risco, são praticamente os únicos homens que se deixam
ver e que não fugiram ou se esconderam. Finalmente, o Pe. Martino e Elia, contornando
os tiroteios dos combatentes, conseguem socorrer espiritualmente as pessoas
assassinadas e queimadas.
A CAPTURA
Não sabemos nem o momento nem o local exato da sua captura.
Algumas testemunhas afirmam que eles chegaram ao local de Capossena. Outras
afirmam que foram feitos prisioneiros pelas SS, enquanto se preparavam para
ajudar as vítimas do massacre. Despojando-os das suas insígnias sacerdotais,
sem que se soubesse o destino dos Óleos e do Santíssimo Sacramento, são forçados a transportar munições, subindo e descendo a montanha sob custódia. Ao
longo do percurso, os padres são obrigados a testemunhar atos de violência
horríveis com os seus próprios olhos. Há testemunhas que os viram a descer de
La Creda de Grizana carregados de munições, um pouco abaixo do local da Serra di
Sotto. Outros viram-nos exaustos, suados e sujos, transportando com grande
esforço aquelas caixas pesadíssimas, segurando-as à frente com as mãos.
PRISIONEIROS NA FÁBRICA DE CÂNHAMO
Ao cair da noite, Capelli e Comini são trancados
juntamente com outros cinquenta reféns no estábulo da fábrica de cânhamo de
Pioppe de Salvaro.
Ao meio dia desse sábado, 30 de setembro, é realizado um interrogatório geral, com a classificação dos homens ‘aptos e inaptos’
para a deportação para a Alemanha.
No final, formam-se três grupos um de idosos e
feridos, outro de jovens e saudáveis.
A EXECUÇÃO
Amanhece o domingo. Traz consigo um novo mês no calendário:
é 1 de outubro.
O grupo de prisioneiros idosos implora aos padres
que não os abandonem e suplica que façam algo por todos eles.
Martino e Elia confessam-se um ao outro e,
posteriormente, dão a absolvição a todos os presentes.
Às 19H30, todos os prisioneiros do grupo de idosos ou
inválidos, num total de 46 são conduzidos para o estabelecimento onde fica o
depósito de água, que gerava eletricidade para mover aas máquinas de cânhamo.
Em Pioppe, chamam-no de ‘botte’. Naquele momento está vazio, sendo mais um
depósito de lama e lodo do que uma piscina com água.
São obrigados a alinhar-se ao logo de uma das
passarelas da barragem, mesmo em frente a cerca de 20 soldados e duas metralhadoras
apontadas para eles.
O grupo é subdividido em dois. Ao entrar o primeiro
no recinto, são colocados em filas de três. Comini e Capelli são colocados
na primeira fila. O Pe. Martino permanece por algum tempo em profunda oração.
Eram 19H45. As vozes são interrompidas pelo barulho
das rajadas de metralhadora. Ao horror juntam-se os gemidos de dor. Os
feridos leves são executados com tiros de espingarda. O segundo grupo de
condenados, além de ser espetadores do que iria acontecer com eles, recebe a
ordem de atirar os mortos na Botte, enquanto um oficial mata com a sua pistola
aqueles que ainda dão sinais de vida.
A essa hora já é noite cerrada no
norte da Itália. Assim, aproveitando a escuridão e toda essa agitação, alguns
tentam fugir, mas os soldados escondidos, ajudados pela luz das lanternas,
começam a caçá-los literalmente. A situação fica fora de controlo e o segundo
grupo é metralhado com certa pressa, o que faz com que metade dos metralhados
fiquem levemente feridos. Por esse motivo, os soldados lançam quatro ou
cinco granadas dentro da botte, antes de se retirarem.
O ÚLTIMO SUSPIRO
O barulho dos passos das botas nazis afasta-se e,
dentro da botte, um dos idosos, Aldo Ansaloni, consegue emergir do amontoado de
cadáveres metralhados ou despedaçados pelo efeito das granadas lançadas. Ele não
tem outra escolha a não ser agarrar-se e apoiar-se nos corpos ao seu lado. Percebe
que um deles é o Pe. Capelli, porque consegue identificar na escuridão o seu
cordão de religioso, ou seja, o sinal distintivo do hábito religioso dehoniano.
Mas a surpresa é maior quando, ao sentir o contacto com
o seu corpo, o Pe. Capelli, apesar de ter o ventre literalmente ferido, aberto pelas
balas, consegue recuperar a consciência, levantar-se com dificuldade e
pronunciar algumas palavras que aquele ancião, que já era surdo, não consegue
compreender.
O Pe. Capelli agoniza, mas consegue reunir forças para
traçar o sinal da cruz sobre tudo e todos. Incansável. Até que não consegue mais.
O seu corpo cai sobre o dos seus companheiros de infortúnio, com o rosto
voltado para baixo e os braços estendidos em forma de cruz. Assim, o Pe. Nicola
Capelli, religioso presbítero dos Sacerdotes do Coração de Jesus, dá o seu
último suspiro.
MÁRTIRES DO MONTE SOLE
O Pe. Capelli morre violentamente, executado por um
pelotão das SS nazis, sem que houvesse um processo normal perante um tribunal
civil ou militar. A sua morte não é um caso isolado e define um estilo de ação
apostólica e ministerial que também adquire uma luz própria. Ele é assassinado
juntamente com o Pe. Elia Comini (salesiano), e ficam unidos aos nomes
daqueles outros padres diocesanos de Bolonha que ali foram também mortos, nomeadamente o Pe. Ubaldo Marchioni, todos
conhecidos como Mártires do Monte Sole.
EPÍLOGO
Todas as tentativas de recuperar os corpos falharam.
Nos dias seguintes os alemães impedem a recuperação dos cadáveres.
Aproximadamente vinte dias depois, as comportas do canal são abertas, as eclusas
dos lagos montanhosos são levantadas e, ao libertar tanta água, a corrente
arrasta os cadáveres que já estão em estado deplorável, levando-os pelo rio Reno
e espalhando-os.
RELÍQUIA DO MARTIR
Na impossibilidade de apresentar qualquer relíquia do Beato
Martino Capelli, por motivos óbvios, o seu Relicário consiste numa página do
seu diário, manuscrita, em que expressa o desejo de martírio, como consagração total
da sua vida ao Senhor.
ÍCONE DO BEATO
A Igreja de Nembro, cidade natal do Mártir Martino
Capelli, SCJ, apresenta um ícone da sua beatificação, criado pela artista Marina
Bonalberti.
ORAÇÃO
Senhor Jesus, bom Pastor,
agradecemos-te por teres chamado
o Pe. Martino Capelli
a viver na tua Igreja
como religioso e sacerdote,
consagrado ao teu Coração divino.
Pedimos-te, por sua intercessão,
que sejamos confirmados na fé,
fortalecidos na esperança,
enraizados na caridade,
para que também a nossa vida
possa ser um serviço
De amor a ti
e a todos os nossos irmãos,
para alegria e glória do Pai.
Coração de Jesus, no teu amor infinito,
concede-nos a graça…
que confiadamente te pedimos
por intercessão do Padre Martino,
filho devoto de Nossa Senhora das Dores
e ardente apóstolo da reconciliação e da paz.
Bem Aventurado Pe. Martino Capelli,
rogai por nós.
VER TAMBÉM
Um novo Mártir Dehoniano
Mártir de facto
Aniversário de martírio
Centenário de Nascimento de um mártir