Durante as minhas caminhadas ao fim da tarde
encontro cada vez mais pessoas conhecidas e não deixo de cumprimentar ou de ser
cumprimentado, nem que seja com um olhar, um aceno ou um sorriso.
Em geral a saudação mais inútil é perguntar:
- Então, o senhor padre como está?
E eu, sem disfarçar um sorriso irónico,
respondo:
- Cá estou!
Pode parecer pouco, mas basta dizer isso,
porque estar é tão bom.
Aprendi a responder assim com o poeta
Teixeira de Pascoaes.
Ele recordava uma visita ao Castelo de São
Jorge em Lisboa em que se deparou com uma senhora idosa parada a olhar o
infinito. Estranhou e perguntou-lhe:
- O que está a senhora a fazer aqui?
E a senhora respondeu:
- Estou aqui.
Pascoaes, apesar de ser poeta, cedeu a
perguntar:
- Mas aqui a fazer o quê?
E a resposta veio, avassaladora:
- O senhor acha que é pouco eu estar aqui?!
O poeta, rendido, confessou o imenso estalo
espiritual que levou. Aquela mulher tinha acabado de lhe revelar uma verdade
maior do que tudo o que tinha lido em Platão e demais filósofos.
Estar aqui é uma grande coisa. É o princípio
da sabedoria e um dom da vida.
Estar é mais do que ficar parado, é
maravilhar-se, é contemplar a beleza, é meditar e mergulhar no grande mistério.
A palavra meditação vem do verbo mederi,
que significa cuidar de, tratar de, prestar atenção a, e está igualmente na
origem da palavra medicina.
Meditação e medicina são irmãs, tão
inseparáveis quanto aquilo a que se dedicam: a primeira mais ao cuidar da
mente, a segunda mais ao cuidar do corpo.
Procuro a companhia destas duas irmãs nas
minhas caminhadas diárias.
Cada caminhada é ao mesmo tempo meditação e
medicina. E nem preciso de parar para contemplar e para curar.
- Então como estás?
- Estou!
E é tudo, pois estando, eu caminho e
contemplando cuido do corpo e do espírito.
Como é bom estarmos aqui, já dizia São Pedro
no monte Tabor…
Quero ainda esclarecer que quando fico parado
a olhar para o infinito, como aquela senhora no Castelo de São Jorge, tenho a
sensação de que mais do que contemplar, eu é que sou contemplado. Mais do que
ver, eu é que sou visto não pelos outros ou pelo poeta, mas pelo próprio
infinito que me toca e me envolve.






