terça-feira, 10 de março de 2026

Via Sacra (25)


A via-sacra da família

A família na via-sacra


I Estação – Jesus é condenado à morte nas famílias que vivem em acusações recíprocas, condenando-se mutuamente.

 

Do Evangelho Mateus:

Pilatos, disse-lhes: Que hei de fazer então de Jesus, chamado o Cristo? Todos responderam: Seja crucificado!  Então soltou-lhes Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o mandar flagelar entregou-o para ser crucificado (Mt 27 22.26).

 

Oração:

Senhor Jesus, ao contemplarmos a tua condenação, pedimos-te pelas famílias desavindas que vivem em recíproca condenação, gerando o desespero e a angústia entre todos os seus membros.  Derrama Senhor, nos seus corações, a tua luz para que possam a abrir-se ao perdão e à reconciliação.

 

II Estação – Jesus carrega a cruz nas famílias que assumem a sua própria cruz com amor e dedicação.

 

Do Evangelho de Mateus:

Tecendo uma coroa de espinhos puseram-lha sobre a cabeça. Depois de o terem escarnecido, despojaram no da púrpura, vestiram-lhe as suas vestes e levaram-no para o crucificarem (Mt 27, 29a.31).

 

Oração:

Senhor Jesus ao contemplar o amor e a determinação com que carregaste a cruz, para nos salvar, pedimos-te por todas as famílias que vivem com responsabilidade e amor os desafios do projeto conjugal e familiar: dedicação, lutas, dificuldades, trabalho, incompreensões, doenças… Confirma e fortalece Senhor, o amor generoso, nestas famílias e que o sentido cristão da cruz as ilumine para que se tornem verdadeiras igrejas domésticas e sacramento da tua presença no mundo.

 

III Estação – Jesus cai pela primeira vez nos jovens casais que sucumbiram na infidelidade conjugal

 

Do Profeta Isaías:

Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados (Is 53,4-5).

 

Oração:

Senhor Jesus ao contemplar-te caído sob o peso da cruz, pedimos-te pelos jovens casais para que não cedam ao desencanto, às facilidades e hedonismo, dá-lhes a sabedoria para entenderem que o amor mais do que sentimento é corajosa decisão de entrega. O amor exige renúncia, determinação, diálogo e respeito mútuo.

 

IV Estação – Jesus encontra Maria sua mãe que chora nos filhos e pais que sofrem dolorosas ruturas 

 

Do Evangelho de Mateus:

Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém de dois anos para baixo…. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias: Ouviu-se uma voz Ramá, lamentação, e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, e não quer ser consolada, porque já não existem (Mt 2,16-18).

 

Oração:

Senhor Jesus este encontro tão doloroso, mas tão consolador com a e tua mãe, diz-nos que nas horas mais duras o amor de mãe vale, conforta, alivia e por vezes faz voltar a casa. Bendizemos-te Senhor pelo dom da maternidade, o dom da tua mãe e de todas as mães do mundo. Encoraja-as no amor e dedicação e conforta as nas horas de tribulação.

 

V Estação – Simão de Cirene carrega a cruz Jesus em tantas famílias, integradas ou não na pastoral familiar

 

Do Evangelho de Mateus:

Passava por ali um homem chamado Simão de Cirene. Voltava do campo. Então os soldados obrigaram-no a levar a cruz de Jesus (Mt 27, 22). 

 

Oração:

Senhor Jesus, ao contemplarmos o Cireneu, que te ajuda a levar a cruz, pedimos-te por todas as pessoas que voluntariamente oferecem às famílias parte do seu tempo e sabedoria, sobretudo às mais pobres de bens materiais e espirituais, às desestruturadas, abandonadas. Alimenta Senhor o seu espírito de fé, de entrega e caridade cristã.

 

VI Estação – Verónica enxuga o rosto de Jesus que continua a ser limpo nos cuidados dispensados, nas famílias, aos mais vulneráveis, crianças e idosos. 

 

Do Profeta Isaías:

O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem figura nem beleza. Vimo-lo sem aspeto atraente, desprezado e evitado pelos homens, como homem das dores (Is 53, 2-3a).

 

Oração: 

Ao contemplar a coragem da Verónica que irrompe da multidão, e te limpa o rosto ensanguentado, nós te agradecemos Senhor por todas as pessoas, particularmente pelos pais, que com carinho e dedicação limpam o rosto de seus filhos e tantas vezes de seus pais idosos. Pacientemente formam, educam, disciplinam e amam. Confirma-os Senhor nesta nobre missão de cuidar a vida.

 

VII Estação – Jesus cai pela segunda vez, nos pais que vivem angustiados com os seus filhos 

 

Do livro das Lamentações:

Eu sou o homem que sentiu a miséria sob a vara da ira do Senhor. Ele me conduziu e me fez andar nas trevas e sem luz. Bloqueou-me o caminho com pedras, fez-me seguir por estrada errada (Lm 3,1-2.9). 

 

Oração:

Ao contemplarmos, Senhor Jesus, a tua segunda queda forçada pelo peso da cruz e a força do inumano sofrimento, pedimos-te pelos pais exaustos e desesperados com os seus filhos porque envolvidos nas teias da droga, do sexo e da vida dissoluta. Fortalece-os e encoraja-os para que não desistam de amar.

 

VIII Estação – Jesus encontra as mulheres de Jerusalém 

 

Do Evangelho de Lucas:

Seguia-o grande multidão de povo e mulheres batiam no peito e se lamentavam chorando por ele. Mas Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos (Lc 23, 27-28).

 

Oração:

Ao contemplarmos, Senhor Jesus, as mulheres de Jerusalém que choram e o teu gesto de amor consolador, pedimos-te por todos os idosos descartados, pelas mulheres e seus filhos, vítimas de solidão e maus tratos. Conforta-os Senhor, e suscita nas famílias o sentido da gratidão, da solidariedade e da caridade cristã.

 

IX Estação – Jesus cai pela terceira vez nos casais que vivem em contínuo litígio e em vias de separação

 

Do livro das Lamentações:

É bom para o homem carregar o jugo desde a sua juventude. Que se recolha em silêncio, quando o Senhor o puser à prova… Porque o Senhor não rejeita ninguém para sempre. Após haver afligido tem compaixão, porque é grande a sua misericórdia (Lm 3,27-28.32).

 

Oração:

Ao contemplarmos, Senhor Jesus, a tua terceira queda provocada pela exaustão e a dureza do sofrimento, pedimos-te pelos casais que vivem em contínuo litígio e em vias de separação, deixando os filhos órfão de família, de amor e de proteção. Senhor concede-lhe a graça de reencontrarem o encanto e a beleza do primeiro amor.

 

X Estação – Jesus continua a ser despojado das suas vestes em crianças comercializadas e violadas 

 

Do Evangelho de Marcos:

E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um (Mc 15, 24). 

 

Oração:

Ao contemplar-te Senhor Jesus, despojado das tuas vestes, pedimos-te pelas crianças vítimas de abusos de toda a espécie, envolvidas no tráfico humano, privadas de proteção, afeto e aconchego familiar. Guarda-as e protege-as Senhor. Que encontrem nas famílias e pessoas que as acolhem o carinho, o respeito e o amor necessário para a uma vida com sentido e dignidade.

 

XI Estação – Jesus continua a ser crucificado nos doentes acamados no seio das famílias. 

 

Do Evangelho de Lucas:

Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23, 33-34a).

 

Oração:

Ao contemplar-te Senhor Jesus, crucificado, pedimos-te por todas as famílias que têm doentes acamados no seu seio. Para os que sofrem pedimos-te Senhor força e luz, e para os que os tratam, dedicação, coragem e compaixão. Que na sua experiência sintam que estão a cuidar de ti, participando na tua missão salvadora.

 

XII Estação – Jesus continua a morrer na cruz, em cada família atingida pelo luto

 

Do Evangelho de João:

Jesus disse: Tenho sede. – Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: Tudo está consumado. – E, inclinando a cabeça, expirou (Jo 19, 28b-30).

 

Oração:

Um minuto de silêncio em oração pessoal

 

XIII Estação – Jesus morto, descido da cruz e deposto nos braços da sua mãe

 

Do Evangelho de Mateus:

Quando o centurião e os que com ele vigiavam Jesus, viram o terremoto e tudo o que havia acontecido, ficaram aterrorizados e exclamaram: Verdadeiramente, este era o Filho de Deus! (Mt 27, 54).

 

Oração:

Ao contemplar Maria a mãe dolorosa, com o Filho morto em seus braços, pedimos-te por todas as mães que veem morrer os seus filhos para projetos e causas nobres, morrer para a luta, morrer para o sentido da vida, morrer para os valores humanos e cristãos. Olha complacente, Senhor, para todas as mães, fortalece-as, dá-lhes a corajosa humildade de nunca perderem a esperança.

 

XIV Estação – Jesus continua a ser sepultado nas famílias que voltam as costas a Deus. 

 

Do Evangelho de Marcos:

José de Arimateia comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-o no lençol; depois depositou-o num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro (Mc 15, 46). 

 

Oração:

Ao contemplar-te Senhor Jesus, depositado no sepulcro, onde os homens pensavam, em vão, ter calado a tua voz, pedimos-te por todas as famílias que inebriadas e perdidas nas teias do prazer e do ter, na corrupção e no luxo, desprezam e espezinham o pobre, perdendo o sentido do outro, de Deus e da eternidade. Toca-lhes Senhor o coração, concede-lhe a graça de perceberem que tudo no mundo, além de vós, é finito, ilusório e passageiro.

 

Estação Conclusiva – Jesus ressuscitado visita todas as famílias

 

Do Evangelho de João:

Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: A paz esteja convosco! Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. Ele voltou a dizer-lhes: A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós (Jo 20,10-21).

 

Oração:

Senhor Jesus, percorrendo contigo o caminho da via-sacra de tantas famílias no hoje da nossa história, conforta-nos a certeza, de que a vida suplanta a morte, e que das trevas da paixão, brota a luz radiosa da tua ressurreição. Ressurreição, que ininterruptamente se manifesta, pela força do teu Espírito, nos ínfimos e grandes gestos no quotidiano de tantas famílias. Senhor Jesus Cristo, nós te adoramos e bendizemos pela tua continuada morte e ressurreição nas famílias de hoje e de todos os tempos.

 

(Inspirado numa proposta da Pastoral da Família)

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Desligar o complicómetro


2ª feira – III semana da Quaresma

Algumas vezes somos como uma máquina de complicar as coisas.

Somos como o rei de Israel que pensou que um pedido de ajuda era um pretexto para o tramar. Foi preciso o profeta Eliseu chamá-lo à normalidade.

Ou como o General Naamã que pensou que as coisas simples que lhe pediram para fazer eram sinal de desprezo. Foi preciso que os seus servos lhe chamassem à realidade da vida.

Ou como os habitantes de Nazaré que ficaram furiosos na sinagoga ao ouvirem as palavras simples de Jesus. Foi preciso Jesus desfazer essas complicações ou confusões e seguir o seu caminho.

Só os simples e os pequeninos nos ajudam a desligar o complicómetro para não complicar o que é simples.

Rezo para que hoje e sempre eu tenha perto de mim um profeta que me ajude a desligar o complicómetro, gente simples que me mostre a simplicidade da vida, e a presença do Senhor Jesus que me ajude a evitar confusões ou complicações com humildade e confiança para poder ir mais além.

 

Nota explicativa

Complicómetro é um termo informal que descreve a tendência para complicar situações, tarefas ou relações desnecessariamente. Pode referir-se ao ato de criar obstáculos, burocracias ou dificuldades onde elas não existem. A expressão é frequentemente usada no contexto de "desligar o complicómetro" para incentivar a simplificação, o foco no essencial e a adoção de soluções práticas, inteligentes e eficazes.

 

Ver também:

Complicar o que é simples

 

domingo, 8 de março de 2026

Três mulheres do Evangelho


No Dia Internacional da Mulher fazemos memória de 3 mulheres do Evangelho:

- A samaritana (Jo 4:1-26)

- A adúltera (em Jo 8:1-11)

- A hemorrágica (Mc 5:25-34)

São três mulheres distintas e três observações complementares.

A primeira observação é que nenhuma delas é citada pelo nome. Elas ficaram registradas na história como mulheres anónimas. Talvez por que os escritores não julgaram importante a citação, ou talvez por que apenas refletiam os preconceitos da sua comunidade. O certo é que no seu anonimato tais mulheres trouxeram para si o paradigma da mulher no meio de uma sociedade decaída pelo pecado e injusta, mas que individualmente precisam ser alcançadas. O posicionamento de Jesus vai na direção oposta. A cada uma delas o Mestre dá uma atenção diferenciada e particular. Jesus fala, toca e acolhe tais mulheres dando-lhes o valor que deveriam receber. Mais do que apenas uma no meio da multidão, Cristo cuida de todas e de cada uma em especial. Assim ele nos criou, é assim que ele quer que sejamos tratados.

- Também observamos que estas mulheres chegaram a Jesus por circunstâncias diversas. Uma foi abordada diretamente por Jesus; outra foi trazida pelos seus acusadores; e a outra tomou a iniciativa movida pela necessidade. O certo, contudo, é que elas entraram em contato com Jesus e foram recebidas – tiveram um verdadeiro encontro pessoal com o Mestre.

É então fácil compreender que seja qual for o motivo ou a forma como cada uma chegou até Jesus, elas tiveram acesso imediato a Cristo. Não faz diferença o que – ou quem – efetivamente nos leva ao Senhor, Ele está sempre disposto a nos receber.

- E em última análise, observamos que as três mulheres tiveram as suas vidas profundamente modificadas por causa do encontro com Jesus. A samaritana viu renovada a sua dignidade e a sede espiritual saciada; a adúltera teve os seus pecados perdoados e uma nova oportunidade para acertar na vida; e a hemorrágica sentiu a cura do seu mal e recebeu a paz divina.

O encontro com Jesus sempre muda a história humana. Mesmo vivendo como e onde viviam, cada mulher que foi alcançada pelo Mestre pode experimentar uma novidade de vida – isto é que faz toda a diferença. Ainda hoje, quando se dá um encontro real e pessoal com Cristo, toda a estrutura da nossa vida é alterada, e para melhor.

Que nas nossas histórias possamos aprender com as mulheres do passado, famosas no seu anonimato, que se encontraram com Jesus Cristo e vivenciaram um novo nascimento para a glória de Deus.

 

Parabéns a todas as mulheres, sobretudo a quem celebra este dia em companhia com aquele que é Bendita entre todas as Mulheres, Maria de Nazaré.

 

Ver também:

Entre as mulheres

Igualdade de género

Para ser amada

Modelo feminino

Dia da Mulher

Dia Internacional da Mulher

 

sábado, 7 de março de 2026

Santa Teresa e a Samaritana


Ano A – III domingo da Quaresma

Quadro conservado no museu do Mosteiro da Encarnação de Ávila. Segundo a tradição, veio da casa de D. Afonso, pai de Santa Teresa de Ávila.

A relação de Santa Teresa de Jesus com a mulher samaritana marcou profundamente na sua vida espiritual.

Desde criança Teresa foi cativada por este episódio bíblico. O mosteiro da Encarnação de Ávila conserva um quadro que representa a samaritana, procedente da casa do pai de Teresa, diante do qual a jovem passava longos momentos de contemplação. Esta imagem deixou uma sombra indelével na sua formação espiritual.

Para Teresa, a samaritana não é simplesmente uma figura histórica, mas o arquétipo da alma humana, que procura saciar a sua sede em fontes erradas.  No "Caminho de perfeição", ela faz uma reflexão sobre esta busca errante: "Ó valha-me Deus, Senhor meu, como se parece isso com o que se passa no mundo! Andamos buscando conteúdo nas criaturas, que é como buscar água na cisterna que não tem água".

A samaritana teve cinco maridos e vivia com um homem que não era o seu esposo, tentando preencher o seu vazio existencial nas relações humanas. Teresa identifica esta situação com a condição geral do ser humano.

O diálogo entre Jesus e a samaritana gira em torno da água viva que Cristo oferece. Esta imagem converte-se numa metáfora central na obra teresiana, sobretudo na sua doutrina sobre os graus de oração. No "Livro de la Vida" (capítulos 11-22), desenvolve-se a alegoria das quatro maneiras de regar um horto, inspirada diretamente na água prometida à samaritana:  desde tirar água do poço com muito muita dificuldade, passando pela nora e pelo rio, até à chuva que rega sem esforço nosso. Esta progressão reflete o itinerário espiritual que a mesma samaritana experimentou.

Para Santa Teresa, o mais significativo do episódio é a transformação radical que produziu o encontro com Cristo. A mulher foi para o poço ao meio dia, possivelmente para evitar as outras mulheres que a julgavam, e converteu-se na primeira evangelizadora do seu povo. Teresa vê a samaritana como o paradigma da sua própria conversão. No "Livro de Vida", descreve o seu próprio "poço" de vaidades: Comecei de passatempo a passatempo, de vaidade a vaidade e de ocasião em ocasião, a meter-me tanto em muitas ocasiões.

O encontro pessoal com Cristo é que muda tudo. Teresa insiste na importância deste trato íntimo. A samaritana pede: Senhor, dá-me dessa água para que não tenha mais sede. Teresa compreende profundamente esta sede da alma que só Deus pode saciar.

A transformação culmina quando a samaritana deixa o seu cântaro (símbolo da sua vida anterior) e apressa-se a anunciar Cristo. Teresa vive esta mesma dinâmica quando funda os seus conventos: Parece-me que me abrasava com desejos de aproveitar algumas almas.

O quadro que a menina Teresa contemplava segue interpelar-nos: onde procuramos saciar a nossa sede? Estamos mesmo dispostos a receber água viva?

 

À margem 1:

A samaritana

 

Dos amores do Redentor

Não reza a História Sagrada

Mas diz uma lenda encantada

Que o Bom Jesus sofreu de amor.

 

Sofreu consigo e calou

Sua paixão divinal,

Assim como qualquer mortal

Que um dia de amor palpitou.

 

Samaritana,

Plebeia de Sicar,

Alguém espreitando

Te viu Jesus beijar

De tarde quando

Foste encontrá-Lo só,

Morto de sede

Junto à fonte de Jacob.

 

E tu, risonha, acolheste

O beijo que te encantou,

Serena, empalideceste

E Jesus Cristo corou.

 

Corou por ver quanta luz

Irradiava da tua fronte,

Quando disseste: - Ó Meu Jesus,

Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte.


Para ouvir o fado – clicar aqui


Este Fado de Coimbra foi escrito na primeira década do século XX e muito cantado nos anos 60. Era particularmente desagradável à Igreja, por motivos que serão óbvios.

Quanto a mim, não me sinto perturbado por esta interpretação do episódio da Samaritana. Aliás, fala da grande sede que Deus tem por cada um de nós, do seu amor por todos, independentemente dos pecados de cada um. Ninguém fala do amor carnal… Cada um pode interpretar consoante a sua mente, mais ou menos perversa.

O mesmo se pode dizer do episódio da Maria Madalena que foi lavar com as lágrimas os pés de Jesus.

Além disso, os próprios discípulos, neste episódio, foram os primeiros a sugerir um relacionamento menos espiritual de Jesus com a samaritana: “Quando chegaram os discípulos ficaram admirados por Jesus estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles lhe perguntou: Que pretendes? ou então, porque falas com ela? …Entretanto os discípulos insistiam com ele, dizendo Mestre come. Mas ele respondeu-lhes: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Os discípulos perguntavam uns aos outros: Porventura alguém lhe trouxe de comer? Disse-lhes Jesus: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.”

Há quem garanta que este tema musical é de origem espanhol, adaptado e adotado pelos estudantes de Coimbra…


À margem 2:

Este episódio evangélico é conhecido como Jesus e a Samaritana.

Porque é que Jesus é chamado pelo seu nome enquanto a samaritana não é apresentada pelo seu nome próprio?

Nada é por acaso no Evangelho.

Em primeiro lugar não se apresenta o nome da mulher porque pode ser o teu nome, ou o meu ou de alguém dos nossos dias.

Mas acima de tudo porque o objetivo deste episódio não é dar a conhecer a mulher, mas sim dar a conhecer Jesus Cristo. Por isso dispensa-se o nome da mulher e nomeia-se Jesus Cristo que é a água vida para a nossa sede.


Ver também:

Extratos de um diário

Sede de Deus

Água viva

 

sexta-feira, 6 de março de 2026

A nossa vinha não é nossa


6ª feira – II semana da Quaresma

. Havia um proprietário que plantou uma vinha.

. Cercou-a com uma sebe.

. Cavou nela um lagar.

. Levantou uma torre.

. Arrendou-a.

. Mandou os seus servos receber os frutos.

. Tornou ele a mandar outros servos.

. Mandou-lhes o seu próprio filho.

. Que fará àqueles vinhateiros?

. Fará perecer esses malvados.

. Arrendará a vinha a outros vinhateiros.

 

Tudo isto para mostrar de quem é a vinha:

. A vinha não é terra sem dono.

. A vinha tem dono, tem governo.

. A vinha do Senhor, não é nossa.

. Não são os vinhateiros a mandar, mas a obedecer.

. Os vinhateiros não podem fazer o que querem, mas devem querer o que fazem.

 

Nós somos a vinha do Senhor.

A nossa vinha não é nossa.

 

Ver também:

Jesus é pedra angular

A vinha do Senhor é..

A nossa alma é uma vinha

José do Egito e Jesus

Parábola autobiográfica

O homem dos sonhos

Virtudes gémeas

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

A indiferença cria abismos


5ª feira – II semana da Quaresma

- Quem são estes dois homens, Lázaro e o rico epulão?

- São personagens de uma Parábola de Jesus (Lc 16,19-31).

 

- Que significam os seus nomes?

- Lázaro significa = Aquele que Deus ajuda. Não se conhece o nome do rico. Ficou apenas conhecido como epulão - Aquele que dá um banquete e come regaladamente (Epulão=Sacerdote que na Roma antiga presidia aos festins dos sacrifícios)

 

- O que é que Jesus disse sobre o homem rico e o pobre Lázaro?

- Jesus fala sobre dois homens que passaram por grandes mudanças nas suas vidas.

 

- Será que esta história realmente aconteceu?

- Não. Jesus contou esta parábola para ensinar uma lição.

 

- Será que Jesus estava a falar sobre a vida após a morte?

- Não. Jesus queria falar da vida aqui na terra.

 

- Será que esta história apoia a doutrina do inferno de fogo?

- Não. A lição que Jesus quer deixar é outra.

 

- Qual é o significado da história do homem rico e Lázaro?

-  A parábola está relacionada com dois grupos de pessoas que passaram por grandes mudanças nas suas vidas.

Estes homens representam dois grupos de pessoas: (1) os orgulhosos líderes religiosos judaicos nos dias de Jesus, e (2) as pessoas humildes, mas sinceras, que aceitaram a mensagem de Jesus.

 

- Que podemos concluir para a nossa vida?

- Que a indiferença cria abismos. Experimentamos um grande pecado de raiz, que a todos nos envenena: a cultura da indiferença. O pobre necessitado não é alguém que possamos escolher; ele aparece junto à porta de nossas vidas... Nós, discípulos de Cristo, devemos ser ilhas de compaixão num mar de indiferença.

 

Ver também:

Mãos limpas, mas vazias

Destinos diferentes

Nem pobres, nem ricos

O pecado da indiferença

Pobres Lázaros somos nós

A pobreza do rico

A riqueza da humildade

Mini-sermão

Epulão

O rico e o pobre

O fardo da pobreza e o da riqueza

Saber ver

Abraão e o rico epulão