domingo, 15 de fevereiro de 2026

Jesus veio completar a Lei


Ano A – VI domingo comum

Não vim  revogar, mas completar a lei

Na obra ‘Maria, a mulher que acreditou’, o autor e religioso dos Irmãozinhos de Jesus, Carlo Carretto (+1988) começa contando uma história sobre a rigidez da lei no mundo islâmico. O Irmão Calo Carretto morou com os beduínos na Argélia. Ele havia conhecido um casal que estava prestes a contrair matrimónio. Contudo, Carlo teve de viajar para a Itália. Ao voltar da viagem, perguntou sobre o casal e obteve a trágica resposta: - A noiva apareceu grávida e teve de ser apedrejada até à morte, conforme a nossa lei. Carlo Carreto conta que ficou muito triste. E concluiu: Ainda bem que Jesus completou a nossa lei!

O legalismo pode matar a nossa relação com Deus e com os outros. Colocar a lei acima de qualquer situação particular e delicada é nocivo à vida humana.

A lei foi feita para o homem, e não o homem para a lei. O amor está acima da lei.

Jesus não veio revogar a Lei ou os Profetas, mas completar. (Cf. Pe. Luiz Alípio S. Neto)

E como é que a completa? Vivendo-a com amor.

O amor é a nova lei instituída por Cristo e inscrita com o seu sangue no coração de todos.

 

À margem:

Os 10 mandamentos deveriam ser discriminados em uns 10.000 pequenos itens que podem simplesmente ser resumidos a uma linha:

Não faças nada que não demonstre amor pelas pessoas.

 

Ver também:

A melhor oferta é o perdão

A melhor oferta é a paz

Para cumprir basta querer

Reconciliar-se com quem

Fazer as pazes

O preço da reconciliação

O destino e o GPS

Reconciliar-se primeiro

Vai primeiro perdoar

Ser livre

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quantas pedras no sapato


Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde, não me saiu da cabeça a letra da canção Casa dos D.A.M.A.

“Quantas pedras trago eu no sapato

Quantas vou tirar logo à tardinha.”

Tantas vezes tive de parar para sacudir os grãos de areia que sentia dentro do sapato.

Chegando a casa, ainda a trautear essa música, relatei esse incómodo aos meus colegas.

Fui logo bombardeado com tantas explicações, cada cabeça sua sentença, por que aparecera tantas pedras no meu sapato:

- Porque eu não usava calçado apropriado (e é verdade, mas tem sido sempre o mesmo).

- Porque as meias deviam ser mais grossas (talvez tenham razão, mas são do mesmo lote).

- Porque as ruas não foram varridas, ou o vento tinha trazido muita areia (obrigado por lembrar que a culpa é sempre dos outros).

- Porque estaria a andar cada vez mais desajeitado (gostei da maneira suave de dizer que estou a ficar ainda mais velho).

Então, para esclarecimento de todos, declarei em abono da verdade:

- Logo na primeira vez que sacudi as pedras do sapato reparei que a sola estava gasta e ostentava um buraco que prometia alargar-se.

Calaram-se todos, um tanto envergonhados por lhes ter escapado uma explicação tão plausível.

Para virar o bico ao prego, alguém quis saber se parei cada vez que senti uma pedra no sapato.

- Claro que sim. Não sou homem para caminhar com uma pedra a incomodar, podendo aliviar essa situação.

- Não tens vocação para mártir, nem para o sacrifício – acusou alguém.

- Só sei que carregar uma pedra no sapato sem a querer tirar é como receber uma provocação, uma injúria ou ofensa, guardar tudo isso, carregá-la, suportando inutilmente o peso e o efeito. É uma maneira de ampliar o mal que encontramos. Convém desfazer-se dessas pedras, por pequenas que sejam para continuar a viagem mais livre e leve. Preferi ter o incómodo de parar várias vezes e tirar as pedras do que suportar o incómodo da pedra que continuava a ferir o meu pé.

- E tiveste tempo e paciência para isso?

- Sim. Não perdi tempo em parar e tirar as pedras do sapato. Ganhei tempo e disposição para avançar mais confortável e seguro. Pior que uma pedra no sapato é andar descalço.

E terminei parafraseando alguém:

- Pedras no meu sapato? Tiro todas, um dia vou construir um castelo.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Abre o coração, ouve melhor


Abrir o coração para ouvir melhor

6ª feira – V semana comum

Effathá – Abre-te.

O milagre não é feito à distância: Jesus aproxima-se, toca e entra na realidade daquele homem, surdo-mudo

Jesus não disse ouve, fala.

Ele disseabre-te – porque o problema não estava só no ouvido ou na língua; estava no fechamento da pessoa inteira. Havia uma surdez interior que era pior do que a física, pois era a surdez do coração.

O milagre não foi curar para ouvir sons, mas a voz de Deus; não foi para emitir voz, mas para falar palavras que edificam.

A cura do coração começa com a escuta.

Só escuta bem quem tem um coração aberto…

 

Ver também:

Querer ouvir

Falar corretamente

Abrir para entrar e sair

Abre-te

Effathá

Fazer cócegas

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Subtilezas da fraternidade


Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde, cruzei-me com um grupo de rapazes na galhofa. Junto de mim sossegaram e um deles cumprimentou-me perguntando:

- O Senhor Padre já está melhor?

Devia conhecer-me da missa da catequese do sábado anterior na qual queixei-me de ter apanhado o fruto da época – nariz a pingar, rouquidão na garganta…

- Só pelo facto de me teres perguntando fiquei perfeito. Obrigado.

E os garotos continuaram o seu caminho cheios de alegria e animação.

E eu agradeci a Deus esta oportunidade que me encheu de otimismo. De facto, não esperava esta atitude solícita vinda de quem veio.

Fiquei com pena não ter a capacidade de me expressar tão bem como Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, nº 24, sobre estas subtilezas da fraternidade ou da simpatia:

“Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e disse: “Até logo, Sr. Soares, e desejo as melhoras.”

Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita...

A fraternidade tem subtilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.”

De facto, a fraternidade tem subtilezas.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Milagre é aceitarmos a dor

 

Grande milagre é aceitar a dor

Virgem Santa Maria de Lurdes

XXXIV Dia Mundial do Doente

Qual é o maior milagre de Lurdes?

Nossa Senhora agiria contra a salvação das almas se curasse todas as doenças. Às vezes, ela o faz, porque é para o bem supremo daquela pessoa ser aliviada do sofrimento. Mas, normalmente, não é oportuno. É por isso que Nossa Senhora, que é a Mãe da Misericórdia, permite o sofrimento para algumas almas, porque é indispensável.

Mas há sempre um milagre pois Nossa Senhora faz nesses casos algo especial. Às pessoas doentes que ela não cura, ela oferece uma profunda conformidade à vontade de Deus e a aceitação de seus sofrimentos. Nunca ouvi falar de alguém que tenha ido a Lourdes e não tenha sido curado que tenha ficado com raiva e revoltado contra Deus. Pelo contrário, as pessoas que vão para lá voltam com uma enorme resignação, felizes por terem estado em Lourdes e visto outras pessoas serem curadas.

Ou seja, uma pessoa aceita voluntariamente o seu sofrimento em benefício de outra. Na minha opinião, isso também é um milagre. É a renúncia ao amor-próprio em prol do amor a Deus e ao próximo. Para uma pessoa, renunciar ao egoísmo humano é talvez um milagre maior do que as curas de doenças e as conversões.

Em Lourdes, existe um convento de freiras carmelitas contemplativas que oferecem as suas vidas para alcançar graças para a cura do corpo e da alma dos peregrinos que lá vão. Essas freiras nunca pedem cura para si mesmas e aceitam todas as doenças em troca da cura dos outros.

A maior lição de Lourdes, portanto, é a aceitação do sofrimento, seja ele uma doença física ou uma tristeza moral, se necessário para a nossa salvação. É muito difícil carregar a cruz do sofrimento com resignação. Sim, realmente é. Mas, nesses casos, temos o exemplo de Jesus no Jardim das Oliveiras, que orou: “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Esta é a postura que devemos adotar diante de nossos sofrimentos particulares. Se não for possível afastar o cálice, “seja feita a tua vontade, não a minha”. Uma graça virá para nos consolar, como o Anjo que veio consolar e fortalecer Nosso Senhor.

Aceitar a doença é o maior milagre possível. E o melhor de todos será aceitar isso com alegria e em benefícios dos outros.

Aceitar uma cura aparece mais fácil do que continuar a aceitar a doença.

Rezar por quem sofre mais do que nós é abrir ao mistério da cura nossa e do nosso próximo.

 

Em síntese:

1º - Fiquei doente e revoltei-me.

2º - Depois comecei a rezar pela minha cura, mas continuei na mesma.

2º - Descobri que o meu próximo tinha a mesma doença que eu e fiquei preocupado.

3º - Comecei a rezar apenas pela cura do meu próximo.

4º - Passei a aceitar a minha doença e senti-me em paz.

5º - Tenho a certeza de que Deus fará o resto, a mim e ao meu próximo, quando e como for melhor.

 

À margem 1

São Francisco de Sales costumava afirmar que o sofrimento é o oitavo sacramento. É tão indispensável que ele considerava que ninguém poderia ser salvo sem ele. O Cardeal Pedro Segura, Arcebispo de Sevilha, que era um admirável católico espanhol, contou-me certa vez sobre uma conversa que teve com o Papa Pio XI.

Pio XI gabou-se para ele de nunca ter ficado doente. O Cardeal respondeu: “Então, Vossa Santidade não tem o sinal da alma eleita”. O Papa ficou surpreso, mas o Cardeal Segura foi resoluto: “Não existe alma predestinada que não sofra profundamente com alguma doença pelo menos uma vez na vida. Se Vossa Santidade nunca teve nenhum problema de saúde, não tem o sinal da alma eleita”. Alguns dias depois, Pio XI sofreu um forte ataque cardíaco. De sua cama, escreveu uma mensagem ao Cardeal Segura, dizendo: “Vossa Eminência, agora eu também tenho o sinal da alma eleita”. Concordo com o Cardeal Segura que o sofrimento – seja físico ou moral – é o sinal da alma eleita.

 

À margem 2:

A compaixão do samaritano: amar carregando a dor do outro

Da Mensagem do Papa Leão XIV para o XXXIV Dia Mundial do Doente:

“Jesus não ensina quem é o próximo, ou seja, como nos tornar-nos nós mesmos próximos. A este respeito, podemos afirmar, com Santo Agostinho, que o Senhor não quis ensinar quem era o próximo daquele homem, mas a quem ele devia tornar-se próximo. Na verdade, ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele. Por isso, fez-se próximo aquele que teve misericórdia.

O amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar.

O samaritano aproxima-se, cura, responsabiliza-se e cuida. Ele não o faz sozinho, individualmente: o samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros a encontrar-nos num nós mais forte do que a soma de pequenas individualidades.

O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade é um estilo de vida baseado no amor fraterno, que tem as suas raízes no amor de Deus.

Que nunca falte no nosso estilo de vida esta dimensão fraterna, samaritana, inclusiva, corajosa, comprometida e solidária, que tem a sua raiz mais íntima na nossa união com Deus, na fé em Jesus Cristo. Inflamados por esse amor divino, poderemos realmente entregar-nos em favor de todos os que sofrem, especialmente dos nossos irmãos doentes, idosos e aflitos.”

 

Ver também:

Mensagem e compromisso

Com um sorriso

Dia do doente

Ave de Lurdes

Os pés de Maria

Remédio original

Aceita que dói menos

Fores e espinhos

Senhora de Lurdes

N. Sra. de Lurdes

Dia Mundial do doente

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Atrás de um grande santo...

 

Por detrás de um grande santo

há sempre uma grande santa.


Santa Escolástica, Virgem (480-547)

Santa Escolástica na Capela de Sant'Anna, Monte Cassino


Escolástica consagrou-se ao Senhor, desde muito jovem, vivendo à sombra do seu irmão gémeo Bento, pai do monacato ocidental.

São Bento, por meio dos seus monges, foi por excelência o missionário que levou a civilização cristã aos bárbaros germânicos. Por um lado, deu um grande impulso à evangelização que conquistou os povos da Europa Ocidental e Central, bem como os da Península Escandinava e da Europa Oriental.

Por outro lado, estabeleceu uma rede de mosteiros por toda a Europa que difundiu a moral e a mentalidade católica, o progresso, a cultura, a agricultura e a indústria. Por causa disso, um novo mundo nasceu. A graça penetrou as raízes da árvore social e deu o fruto maravilhoso que foi a Europa.

Por isso São Paulo VI declarou-o construtor e padroeiro da Europa.

Na base da civilização europeia encontramos São Bento e, pelos méritos das suas orações e contemplação, Santa Escolástica.

Santa Escolástica fundou uma ordem de religiosas que não se dedicavam ao trabalho social nem ao ensino do catecismo. Segundo a mentalidade moderna, elas não realizaram nenhum trabalho útil. No entanto, fizeram algo muito mais importante: oravam e se sacrificavam. Com o seu exemplo e o seu silêncio e humildade, transmitiram a seguinte mensagem: se o apostolado do ramo masculino foi tão fecundo, foi porque havia um ramo feminino que orava, contemplava e oferecia sacrifícios.

É confirmado assim o dito de que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Ou por detrás de um grande santo, encontramos sempre uma grande santa.

A história é escrita não só pela vida ativa, mas também pela vida contemplativa, não só pelo que se prega, mas também pelo que se reza, por aquilo que se faz, mas também pelo que se sacrifica.

 

À margem:

Santa Escolástica, irmã gémea de São Bento. Os dois partilharam o seio materno, o berço, a família, a vida, a consagração, a sepultura, a santidade e a eternidade.

O seu nome faz jus à escola, lugar onde se ensina e se aprende, onde nos tornamos sábios.

Santa Escolástica fez da sua vida uma escola.

Na terra aprendeu na escola da vida.

Agora no céu ensina-nos na escola da santidade.

 

Ver também:

Quem mais reza, mais pode

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Porquê na orla do Manto?


2ª feira – V semana comum

Colocavam os enfermos nas praças públicas e pediam que os deixasse tocar-lhe ao menos na orla do manto.

Porquê na orla do manto?

- Porque a orla é a parte inferior do manto e todos tinham de se abaixar para chegar lá.

- Sinal de humildade, de reverência e simplicidade.

- Porque ao pé de Jesus todos se sentiam pequeninos.

- Porque ninguém queria apoderar-se de Jesus só para si.

- Porque o pouco de Deus já é muito.

 

À margem 1

Às vezes é preciso que Jesus nos toque para ficarmos curados.

Outros vezes é preciso ir tocar nele, nem que seja na orla do seu manto, para ficarmos curados.

Na página do Evangelho de hoje, todos os que o tocavam ou eram tocados por ele ficavam curados.

Ah, quem me dera que ainda hoje assim fosse!

Santa Teresa de Ávila lembrava que nós até estamos hoje em situação privilegiada.

Quando Jesus andava neste mundo, só o tocar as suas vestes sarava os enfermos. Por isso levavam os doentes para a sua casa, para que eles o tocassem ou fossem tocados por ele.

Hoje é muito mais fácil para nós que esses milagres aconteçam.

Estando assim dentro de nós através da comunhão eucarística, ele nos dará o que lhe pedirmos estando Ele em nossa casa. De facto, ele não costuma pagar mal a pousada quando lhe dão boa hospedagem.

Não temos motivo para invejar a página do Evangelho de hoje. Porque tendo recebido Jesus em comunhão nós tocamos nele, não só na orla do seu manto, pois o nosso coração toca no seu coração e ele no nosso.

 

À margem 2

Deus conta com a nossa colaboração para se aproximar de outras pessoas ou para que elas se aproximem dele.

 

Ver também:

Tocar o manto e curar-se

Pôr ao alcance

Tocar e ser tocado

Todos queriam tocar

Tocar em Jesus

Na orla da capa