sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Meteorologia espiritual


6ª feira – XXIX semana comum

A metáfora ou a parábola de hoje é comparar a nossa vida espiritual às condições do tempo atmosférico.

Assim como a meteorologia tradicional analisa frentes frias, tempestades, ventos e períodos de sol, a abordagem espiritual propõe a observação do clima interior:

1 - As tempestades e a instabilidade representam os momentos de raiva, ansiedade, conflitos internos, excesso de ruído mental ou cargas emocionais densas.

2 - O vento espiritual ou sopro associado a ideias novas, inspiração, renovação de ânimo ou clareza de pensamento é descrito como tradições filosóficas e espiritualistas. É o Espírito como sopro que transforma as pessoas e gera uma vida nova.

- O calor ou frio repentino são interpretados por como sinais de conexão emocional, lembranças de entes queridos ou sensibilidade ou ambientes. Lembra a oscilação da nossa vida. O ideal é o equilíbrio e o bem-estar interior ou a paz.

- O céu limpo sem nuvens – simboliza a lucidez, a pureza de coração, pois só os puros de coração verão a Deus.

 

Conclusão – É preciso estar atento aos sinais do tempo, pois a nossa vida é tempo dos sinais. É preciso aceitar as oportunidades e as ocasiões que Deus nos dá.

 

À margem:

Jesus parece censurar aqueles que sabem olhar para o céu e ver os seus sinais meteorológicos, mas não conseguem olhar para o Céu para seguir os planos ou desígnios divinos.

É preciso olhar mais além, mais alto, alargar os horizontes.

Nós fomos feitos para olhar para cima, para o céu.

Há dias alguém me perguntou por que razão o porco era desprezado na cultura bíblica.

De facto, esse animal não é valorizado e a sua carne é proibida. Parece que só serve para adubar os campos.

Tentei explicar que nas terras quentes a carne dos suínos deteriora-se rapidamente e é perigosa para a saúde. Como provocava intoxicações, concluíam que Deus não queria que fosse usada e por isso foi proibida.

Assim pensava eu. Mas o meu interlocutor acrescentou outro motivo:

- Porque o porco é o único animal da nossa cultura que não consegue olhar para o céu.

De facto, os suínos andam de cabeça baixa sem nunca fitar o alto dos céus.

O porco dá-nos uma grande lição: lembra-nos que nós conseguimos olhar para o alto, alargar os nossos horizontes e ver os sinais do céu.

E eu concluo – o porco anda de cabeça baixa porque tem vergonha de não poder olhar para o céu.

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O santo mais próximo


Memória litúrgica de São João Paulo II, Papa


Nasceu na Polónia a 18/05/1920

Sacerdote a 01/11/1946

Bispo a 28/09/1958

Cardeal 26/06/1967

Eleito Papa a 16/110/1978

Inicio do Pontificado a 22/10/1978

Morreu a 02/04/2005

Canonizado a 27/04/2014

Perguntei se alguém já tinha estado na presença de um santo, ou seja, se já tinha visto pessoalmente alguém que tenha sido canonizado depois.

A maior parte das pessoas respondeu que sim.

- Quem?

- São João Paulo II.

De facto, é difícil encontrar, nas últimas décadas, alguém canonizado tão próximo, tão presente, tão conhecido, tão visto e tão global.

O Papa João Paulo II é a figura de santo que esteve mais acessível ao nosso olhar, a pessoa que esteve mais ao alcance da nossa mão, aquele que mais nos envolveu com a sua presença.

Tive a feliz oportunidade de cumprimentá-lo pessoalmente em 1982 quando veio a Lisboa, era eu ainda estudante de teologia. Depois concelebrei com ele no Funchal em 1992.

Falar de São João Paulo II é falar de um santo próximo, ao nosso alcance, acessível ao nosso olhar, quase do nosso quotidiano.

Ele é, de facto, o santo mais próximo.

Já que fomos tão próximos dele, que ele continue tão próximo de nós através da sua santidade e intercessão.

- São João Paulo II

- Rogai por nós.

 

Coração, fornalha ardente


5ª feira – XXIX semana comum


Eu vim trazer o fogo à terra...

O Coração de Jesus é fornalha ardente,

é fogo de coração

ou coração de fogo.

 

Cristo, dizia Chesterton, “não é apenas um sol de verão para os prósperos, mas um fogo de inverno para os desafortunados”.

Não ter o calor de Cristo é ser mais do que desafortunado. O frio que se segue congela tanto o corpo quanto a alma.

É por isso que Jesus disse que tinha vindo trazer o fogo à terra.

São Serafim disse: “Deus é um fogo que aquece o coração… Portanto, se sentirmos nos nossos corações o frio que vem do Diabo – pois o Diabo é frio – invoquemos o Senhor. Ele virá aquecer os nossos corações com amor perfeito e o frio daquele que odeia o bem fugirá diante do calor de sua face.”

O coração do Inferno, o seu próprio epicentro, segundo Dante, era de gelo.

O diabo é frio, disse São Serafim. O pecado e o ódio congelam o coração; somente o calor do Coração de Cristo, encontrado na oração e nos sacramentos, pode alterar essa frieza.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Evitar o mal, fazer o bem


3ª feira – XXIX semana comum

Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas, diz o Senhor Jesus.

Isto é mais que um convite à prontidão e à vigilância.

Não basta estar prontos e vigilantes.

É preciso estar ativos.

 

Pontos a observar:

- Primeiro: os rins devem ser cingidos como quem está a ser bem amarrado com uma corda para ser domesticado ou levado contra a sua vontade, ou então como um cavalo com freio; esses rins são os prazeres deste mundo, os prazeres dos sentidos, que devemos atar, reprimir e dominar.

- Segundo: deveis ter na mão as lâmpadas acesas, quer dizer, obras de amor que brilham e fascinam; as vossas mãos nunca devem parar de fazer o trabalho da caridade verdadeira e ardente. É a caridade que mantém acesa a nossa fé.

 

Cingir os rins é evitar o mal.

Ter as lâmpadas acesas é fazer o bem.

 

domingo, 18 de outubro de 2026

100º Dia Mundial das Missões


Foi há 100 anos que o papa Pio XI instituiu uma jornada missionária:

- de apoio espiritual (rezar pelos missionários, cá dentro ou lá fora)

- de apoio moral (valorizar a vocação missionária)

- de apoio material (apoiar e contribuir para manutenção das missões em todo o mundo).

 

Este ano o Papa Leão XIV apresentou como lema da sua mensagem:

Um em Cristo, unidos na missão

 

Unidos em Cristo, discípulos/missionários unidos nele e com os irmãos

A primeira tarefa do missionário é renovar e manter unidade; quanto mais unidos mais missionários

Unidos na missão, para que o mundo creia (estar unidos é guardar, alimentar a comunhão e colaboração.

É uma missão do amor. É anunciar, viver e partilhar o amor fiel a Deus.

Cristo é o primeiro e único missionário. Cada cristão é missionário nele e por ele.

 

Conclusão:

Ser cristão é ser missionário.

Quanto mais missionário mais cristão.

Quem não é missionário não é cristão.

 

Devolver a César ou a Deus


Ano A – XXIX domingo comum

1ª reflexão

Estudei grego e aramaico, mas não sei o suficiente para mostrar, como dizem os entendidos, que o texto original deste versículo deveria ser: devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Portanto, o verbo original não é dar ou entregar, mas devolver. E isto marca uma grande diferença.

Dar ou entregar podia ser um gesto normal de partilha livre, mas sem outras obrigações. Devolver é reconhecer o seu dono, é um direito de propriedade.

Devolve a César o que lhe pertence e devolve a Deus tudo o que lhe pertence por direito.

Isto faz-me lembrar o Programa Volta – o sistema de depósito e de recuperação de embalagens de bebidas. Não é um novo imposto, é sim um incentivo à reciclagem.

Isto é um verdadeiro Programa Volta Espiritual, é devolver a César o que é de César e devolver a Deus o que é de Deus, porque todos somos de Deus e para Deus voltaremos.

 

2ª reflexão

Expliquei às crianças da catequese que Jesus tinha mostrado porque é que devemos entregar o denário a César. Esperava que me dissessem porque tinha a imagem e a figura de César.

Mas uma miúda levantou a mão para dizer:

- Devemos entregar o denário a César porque foi ele quem o mandou fazer.

Eu nunca tinha pensado nisso, mas era verdade.

Assim sendo devemos entregar o seu ao seu dono, ou seja, entregar a quem mandou fazer.

Então vamos entregar a Deus o que ele mandou fazer, o que ele criou:

- O nosso coração, a nossa vida foi mandada fazer por Deus, a ele pertence, tanto mais que tem a sua imagem e semelhança.

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Apóstola do Coração de Jesus


Memória de Santa Margarida Maria Alacoque

Virgem, Primeira Apóstola do Coração de Jesus.


Monja da Ordem da Visitação da Virgem Maria progrediu de modo admirável no caminho da perfeição com graças místicas e ardentemente devota do Sagrado Coração de Jesus, contribuindo muito para propagar o seu culto na Igreja. Morreu em Paray-le-Monial, França, em 1690.

Fez um retiro espiritual enquanto vigiava a burra do convento?

Ou enquanto vigiava a burra do convento fez um retiro espiritual?

 

Foi assim que Santa Margarida Maria Alacoque viveu parte da preparação para a sua profissão religiosa, que fez a 6 de novembro de 1672.

Durante o retiro de dez dias, continuou a cuidar da burra do mosteiro e da sua cria, para impedir que danificassem a horta.

Na sua autobiografia, conta que os animais não paravam de correr e lhe davam bastante trabalho.

Conta também que essa ocupação a deixava contente e que, entre todas aquelas idas e vindas, permanecia na presença do Senhor.

Foi precisamente ali que recebeu graças profundas, sobretudo uma maior compreensão da Paixão de Cristo.

Este pequeno episódio ajuda-nos a olhar para as tarefas quotidianas como lugares de encontro com Deus.

Cuidar, trabalhar e cumprir uma responsabilidade com amor também podem fazer parte da nossa vida de oração.

Procuremos hoje oferecer a Deus uma das tarefas que habitualmente fazemos sem sentido espiritual e a nossa vida será abençoada.

 

De facto, a união ao Coração de Jesus passa por pequenas coisas, começa e termina sempre  em pequenos grandes gestos.

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A sua obra mais importante


Memória de Santa Teresa de Jesus (1515-1582)

Virgem e Doutora da Igreja

Alguém me perguntou quais as obras de Santa Teresa de Jesus (de Ávila).

Comecei por dizer que tinha fundado 17 conventos femininos carmelitas, colaborado com João na Cruz na fundação de outros 2 conventos masculinos, e reformado muitas comunidades religiosas…

Para além disso escreveu meia dúzia de livros:

- Livro da Vida

- Caminho de Perfeição

- Moradas ou Castelo Interior

- Livro das Fundações

- Poesias

- Exclamações

- 500 cartas.

 

Por isso foi a primeira mulher a ser declarada Doutora da Igreja.

 

Não contente com a minha resposta, voltou a perguntar:

- E dessas obras todas qual acha que foi a maior ou a mais importante?

- Eu acho que a mais importante e impactante para ela e para todos nós, ainda hoje, é sem dúvida, a sua paz interior.

 

Nada te perturbe,

nada te espante.

Tudo passa.

Deus não muda.

A paciência tudo alcança.

Quem tem Deus nada lhe falta,

só Deus basta.

 

E o mais bonito é que isso não tenha sido escrito apenas com as suas palavras, mas impresso em toda a sua vida, com os seus exemplos e ações.

 

De facto, esta foi a obra ou a ação mais importante de Santa Teresa de Ávila:

Alcançar a paz interior.

Sem esta paz não conseguiria fazer nenhuma outra das suas grandes obras.

À margem

Certa vez, Santa Teresa de Ávila estava a viajar para um dos seus conventos, quando foi deitada abaixo do burro que a carregava e caiu na lama, magoando uma perna.

- Senhor – disse ela – não podíeis ter escolhido pior altura para isto acontecer. Porque deixastes isto acontecer?

Uma voz respondeu do Céu:

- É assim que trato os meus amigos.

Ao que Santa Teresa respondeu:

- Se é assim que tratais os vossos amigos, não me admira que tenhais tão poucos.

 

Assim confirmamos o bom humor de uma santa,

e uma santa de bom humor.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O homem, o menino e o cão

Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde lembrei-me da história do Velho, o Menino e o Burro que todos conhecemos.

Tudo começou de forma simples.

Um pai regressava a casa a pé com o filho pequeno e o cão. O menino caminhava ao seu lado. O cão estava acomodado debaixo do braço do homem, como um pão.

Para os meus olhos a cena não batia certa.  A criança andava. O cão ia ao colo?

A gente que passava tirava rapidamente a mesma conclusão.

Uma mulher abordou-o. Educada no início, depois nem tanto.

- Como pode carregar o animal enquanto o menino faz tanto esforço por acompanhá-lo?

O homem olhou para ela. Olhou para o filho.

Então, explicou que o cão tinha sofrido uma lesão grave na semana anterior. Um ligamento rompido, dissera o veterinário. Três a quatro semanas sem colocar peso na pata; caso contrário, a lesão tornar-se-ia permanente. O cão não entendia isso. Se fosse deixado no chão, caminharia apoiando a pata de qualquer maneira, pois os cães não negoceiam com a dor como as pessoas fazem. A única solução era carregá-lo.

O menino, por sua vez, tinha quatro anos e gozava de perfeita saúde. Ele conseguia andar. Queria andar. De vez em quando estendia a mão para acariciar o cão.

Uma outra versão diz simplesmente que o alcatrão estava muito quente e o cão não tinha sapatos.

A mulher que os tinha mandado parar ficou em silêncio. O que parecia negligência era, na verdade, o oposto. Um pai que seguira atentamente as indicações de um veterinário. Um pai a cuidar de dois dependentes ao mesmo tempo.

O menino não precisava de ser carregado. O cão, sim. Ele sabia a diferença.

Existe uma versão desta história que termina com a multidão a aplaudir ou a mulher a pedir desculpa de forma dramática.

As pessoas que julgam rapidamente tendem a avançar com a mesma rapidez quando o julgamento se desfaz.

Mas o homem continuou a caminhar. E, algures atrás deles, uma multidão de pessoas muito convictas teve de encontrar um novo motivo para se sentir convicta e julgar qualquer coisa.

Não me lembro quem me inspirou isto. Só sei que todos nós, mesmo quando corremos, somos ainda mais rápidos a formular juízos negativos sobre os outros, como estou a fazer agora…