domingo, 1 de março de 2026

Cada caminhada é um Tabor


No domingo da Transfiguração do Senhor, na minha caminhada ao fim da tarde tentei acompanhar Jesus e os seus discípulos Pedro, Tiago e João na sua escalada ao Monte Tabor.

Eu sei que o nível é diferente. Jesus fez uma subida ao monte e eu só caminhei em frente, no plano, visto por estes lados escassear os montes. Mas o resultado foi o mesmo.

Na subida ao Tabor foi preciso esforço, elevar o nível, desapegar-se de algo, deixar o comodismo, queimar energias, ir mais além, mais alto, alargar horizontes. Na minha caminhada não fiz outra coisa.

Jesus subiu juntamente com os três discípulos escolhidos. Eu também tive companhia anónima, gente que se cruzava comigo e que comungava dos mesmos objetivos e dos mesmos sonhos. De facto, quem progride, eleva sempre a comunidade a que pertence. Ninguém sobe ou vai em frente sozinho. Aí está uma comunidade sempre presente. Até Deus Pai se torna presente, o Espírito também sob a forma de nuvem e os profetas Moisés e Elias... vieram fazer parte da nova comunidade.

Depois da subida ao monte todos ficaram diferentes – Jesus transfigurado, os discípulos com a capacidade de ver e escutar diferente. Também no final da minha caminhada devo estar diferente, ver novas perspetivas, escutar coisas novas. É por isso que fazemos caminhadas: para alcançar uma nova versão de nós mesmos.

Quando estou cansado de ver sempre as mesmas coisas ou saturado de ser assim, convém sair, caminhar, transpirar, subir de nível, ir em frente para que eu fique diferente e veja de maneira diferente tudo e todos.

Finalmente, os discípulos tiveram de descer com Jesus e voltar a casa. Ninguém sobe ao monte para ficar lá para sempre. É preciso descer e dar testemunho, fazer eco dessa experiência. E sempre que recordar vai voltar a sentir os mesmos sentimentos no seu coração.

É por isso que continuo a fazer as minhas caminhadas: não é só para fazer exercício físico, não é só para respirar melhor, é para fazer a experiência do Tabor e transfigurar-me. É uma necessidade para a saúde física e espiritual.

O mistério da transfiguração acontece ainda hoje em cada caminhada a todos os níveis.


sábado, 28 de fevereiro de 2026

O contador dos meus passos


Ofereceram-me há dias um smartwatch para as minhas caminhadas ao fim da tarde. Não sei se sou capaz de usar nem se preciso dele. Dizem-me que é um aparelho de boa qualidade, completo e muito útil, com muitas funcionalidades. Monitoriza o tempo, passos, calorias consumidas, ritmo cardíaco, pressão arterial, oxigénio no sangue, distâncias… e tanta outras coisas que eu dispenso.

Na mesma ocasião uma velhinha veio dizer-me que o seu neto tinha notado que ela usava o mesmo contador de passos que o padre. O fitbit de que ele se referia devia ser o terço ou a dezena do Rosário. De facto, muitas vezes faço a minha caminhada com uma dezena entre os dedos, não para contar os passos, nem para contar ave-marias, mas para ir de mão dada com Maria, minha e nossa Mãe do Céu.

O mais importante numa caminhada, como na vida em geral, não é saber quantos passos damos, quanto tempo demoramos, quão longe chegamos. O mais importante é que vamos e com quem vamos. É por isso que faço questão de levar nas mãos, não o contador dos meus passos, mas a lembrança de quem me acompanha.

Não sei se vem a propósito, mas sempre me inspirou a recomendação de Jesus no Evangelho – Quando fores apresentar a tua oferta no templo e te lembrares que o teu irmão não está em paz contigo, deixa lá a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão, depois volta para completar a tua oferta (Mt 5, 23-24)

Quantos passos para a reconciliação?!

Sabendo que Jesus falou isto em Cafarnaum. Daí ao Templo de Jerusalém vão acerca de 144 quilómetros… Isto é, se alguém está em Jerusalém e se recordar que precisa fazer as pazes com o seu irmão, tem de fazer 144 quilómetros até à sua casa, reconciliar-se e voltar a fazer outros 144 quilómetros para completar o sacrifício em Jerusalém. Isto mais parece uma hipérbole… mas é mesmo assim. Quantos passos!

Mais do que a intenção, o resultado ou o tempo, o que conta para Deus é o esforço, o caminho ou os passos que damos para realizar os seus sonhos.

É por isso que não uso nenhum contador de passos nas minhas caminhadas. Prefiro que seja Deus a contá-los… porque só ele sabe contar e só ele conta para mim.

 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Perdoar em dois passos


6ª feira – I semana da Quaresma

Procurei no google “passos para o perdão” e encontrei tantas páginas sobre o assunto.

Verifiquei também que cada proposta tinha mais de 5 passos, isto é, não é simples chegar ao perdão. É preciso dar muitos passos. Não basta fazer um, dois, três.

De facto, no trecho do evangelho de hoje Jesus diz que para reconciliar-se com o seu irmão é preciso dar muitos passos, fazer cerca de 144 quilómetros, de Jerusalém a Cafarnaum, para encontrar-se com o seu irmão. São muitos passos…

Ou então, é preciso voltar atrás, retornar até ao seu irmão, oferecer o perdão antes de oferecer o sacrifício a Deus. Não é por o irmão antes de Deus, mas simplesmente unir-se ao irmão para juntos oferecer sacrifício a Deus.

Conclusão:

Para reconciliar-se com o irmão é preciso dois passos:

- Regressar à situação inicial, voltar atrás (à casa familiar).

- Percorrer a pequena grande distância que vai de um coração ao coração do outro.

Para perdoar o irmão é preciso apenas dois passos, isto é, um passo de cada lado.

 

Ver também:

O perdão dos dois irmãos

A melhor oferta é o perdão

A oferta da paz

Reconciliar-se com quem

Lições da paz de Cristo

A esmola do perdão

Fazer as pazes

Reconciliar-se

Preço da reconciliação

Vamos reconciliar

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Confundimos pão com pedra


5ª feira – I semana da Quaresma

No início desta primeira semana da Quaresma vimos Jesus resistir à tentação de transformar pedras em pão.

Hoje é Jesus que nos adverte para não cairmos na tentação de transformar pães em pedras e peixes em serpentes.

Muitas vezes pedimos paz e só encontramos guerra, rogamos por pão e só nos dão pedras, procuramos a felicidade e só encontramos dificuldades.

Mas será mesmo assim?

Para Deus, tal qual para nós, não há dificuldades, mas apenas oportunidades. Um obstáculo é tão só uma ocasião de testar a nossa capacidade de afirmar uma vitória.

É possível confundir um pedaço de pão com uma pedra, isto é, as pedras da minha vida afinal são pedaços de pão que Deus me dá para me fortificar e sustentar.

Afinal não é Deus quem transforma o pão que pedimos em pedras que pensamos receber.

Não seremos nós a ver mal, olhando para o pão e vendo apenas pedras?

Olhamos para um peixe que Deus nos dá, e como é semelhante a uma serpente pensamos que uma serpente.

E queixamo-nos.

Mas poderá Deus dar coisas más aos seus filhos?

Nós é que confundimos pão com pedra e peixe com serpente.

 

Ver também:

Procurando e esperando

Rezar e bater a porta

Três degraus da oração

Modelos de oração

Fortaleza e fraqueza

Oportunidades

Pedra ou pão

Pedi e recebereis

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Caminhada com os Romeiros

Hoje na minha caminhada ao fim da tarde, senti-me em sintonia com os irmãos Romeiros, de São Miguel, Açores, que por estes dias também estão na estrada. Desde o século XVI, fazem todos os anos durante a Quaresma uma romaria ou peregrinação penitencial.

De sábado a sábado, deixam as suas família e amigos, caminham, rezam, fazem penitência cumprindo as suas promessas.

- Fazem a sua caminhada quaresmal à volta da Ilha. Dão uma volta à ilha para que a sua vida dê uma volta.

- Caminham sempre a rezar. Fazem da oração um caminho e fazem do caminho uma oração. Rezam cantando e cantam rezando. Caminham cantando e cantam caminhando.

- Caminham em rancho, isto é, em comunidade, formados dois a dois. Não é a comunidade que faz o caminho, mas o caminho que faz a comunidade. De facto, não há nenhum romeiro sozinho.

- Não são os romeiros que fazem a romaria, mas a romaria é que faz o romeiro, forma-o, transforma-o, apura-o.

- Os romeiros, após oito dias de romaria, qual nova semana da criação, voltam sempre recriados, diferentes, porque melhores, vendo os outros de modo diferente e enfrentando a vida de maneira diferente.

- Andam a pé, sem telemóveis, sem falarem com mais ninguém, apenas concentrados na sua devoção e no seu objetivo que é avançar, ir mais além, ir sempre em frente.

- Visitam todas as ‘Casinhas de Nossa Senhora’ (todas as igrejas e capelas) como se estivessem na sua própria casa ao visitar a casa da Mãe.

- No rancho cada um é chamado por Irmão e ao responsável chamam Irmão Mestre. É uma maneira de viver a fraternidade e a comunhão de vida, de conversão e de destino.

- Carregam às costas a cevadeira com os alimentos indispensáveis, vestem um xaile e um lenço na cabeça para enfrentar as intempéries, apoiam-se num bordão de peregrino e um terço na outra mão. Não dirigem o terço, o terço é que os dirige.

- À frente do grupo vai sempre o mais novo levando uma cruz. Todos estão a seguir a Cristo no caminho do Calvário, olhos postos, num esforço de imitá-lo e alcançá-lo.

Hoje, na minha caminhada revi todos estes gestos tentando seguir este modelo de romaria.

Apesar de geograficamente distante, acompanhei-os de perto através da oração.

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ganhar o pão de cada dia


3ª feira – I semana da Quaresma

Naquele tempo Jesus ensinou aos seus discípulos a oração do Pai Nosso.

Um dos discípulos perguntou:

- Ó Mestre, por que temos de pedir o pão nosso de cada dia nos dai hoje? Não seria melhor pedir para mais tempo, por exemplo o pão para uma semana, como uma família se faz uma amassadura para uma semana?

O Mestre respondeu:

- Responderei por meio de uma parábola. Certa vez um homem rico prometeu ao seu filho uma mesada anual. Cada ano, no mesmo dia entregaria pessoalmente ao seu filho todo o valor. Nos primeiros anos o pai só viu o filho no dia em que este receber a sua mesada. Durante os outros dias nunca se encontravam. Então o pai mudou o seu plano e só passou a dividir o valor da mesada dando ao filho o suficiente para um dia. Este retornava no dia seguinte para buscar novamente a sua mesada. Daquele dia em diante o pai via o seu filho todos os dias.

- Mas porque é que Deus tem esse trabalho cada dia? Se desse mais de uma vez por semana tinha mais tempo livre para descansar e nós não teríamos de repetir todos os dias o mesmo pedido.

- Mas Deus não se cansa de ver os seus filhos todos os dias, todos os momentos da jornada. E para um bom filho, o seu desejo mais do que aquilo que recebe cada dia, é a oportunidade de se encontrar com o seu pai. O amor não cansa nem se cansa. É por isso que pedimos na oração O Pão Nosso de Cada Dia nos Dai Hoje…

 

Ainda hoje continuamos a pedir o mesmo e da mesma forma.

Assim cada dia é tempo para encontrar-nos, para pedir, para receber e para agradecer.

 

À margem:

Uma vez, durante uma reflexão com os jovens pedi-lhes que procurassem por que razão Jesus nos ensinou no Pai Nosso a pedir o pão de cada dia.

Cada explicação pode ser uma refeição:

 

- Para que o pão não fique duro de um dia para o outro.

- Porque para Deus há sempre presente (ele não tem passado), é presente eterno.

- Porque evita carregar hoje o pão para amanhã.

- Porque não sabemos o tamanho da nossa fome amanhã.

- Porque devemos pedir pão e não uma padaria.

- Porque se Deus nos der tudo hoje, amanhã esquecemo-nos dele.

- Porque precisamos de Deus todos os dias.

- Porque vivemos um da de cada vez.

- Porque o pão que guardas pertence a aquele que tem fome.

- Porque o pão deve ser como o amor, sempre novo.

- Para que ninguém se preocupe onde o guardar ou como o conservar.

- Para sabermos agradecer cada dia.

- Porque o pão deve ser dado conforme a fome.

- Para que se possa repartir o pão de hoje como faminto e nunca o pão de ontem.

- Porque quem não sabe rezar todos os dias, passa fome.

- Porque quem não pensa em Deus todos os dias não merece o seu pão.

- Porque o pão para hoje é salvação, o pão para amanhã é tentação.

- Porque o pão é como a saudade. Só sente quem precisa de algo ou de alguém.

- Porque Deus quer dar o pão segundo a nossa fome.

- Porque pão sem oração diária é pão seco sem mais nada.

- Porque Deus quer dar o pão inteiro para cada dia e não o pão partido ou dividido para o dia seguinte.

- Porque só o pão do dia cheira a pão.

- Porque o pão do dia é o mais saboroso, sobretudo se for oferecido

- Porque nem toda a fome é de pão, mas de quem o dá.

- Porque o pão tem de ser o contrário do vinho. O pão, quanto mais fresco melhor. O vinho quanto mais antigo melhor.

- Porque pedir é o nosso ganha pão de cada dia.

- A pior pobreza não é falta de pão, mas falta de oração.

- Temos de pedir cada dia porque o pão é cada dia e cada dia é o próprio pão.

- Porque não é a quantidade de trigo que faz o pão.

- Porque Deus não nos quer ver ninguém comer o pão de ontem.

- Mais vale cada dia um pão na mão de Deus do que milhares num cesto.

- Pedimos a Deus o pão de cada dia porque só ele é o fermento.

- Porque pão acumulado é pão estragado.

- Porque o pão endurece com o tempo tal como a água estagnada.

- Porque não precisa guardar o pão para amanhã quem tem Deus por padeiro.

- Porque cada dia é dia da multiplicação do pão.

- Porque a gratidão tem de ser diária para que o Pão da Vida seja eterno.

- Porque o meu pão é a oferta de cada dia.

- Porque formamos um só pão, um só corpo.

- Porque no princípio Deus ordenou-nos a ganhar o pão de cada dia.

 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Isto é comunhão de troca


2ª feira – I semana da Quaresma

Se quisermos encontrar Jesus, devemos reconhecê-lo e servi-lo no que se chama de Comunhão de Troca.

Servimos os enfermos, os pobres, os idosos porque sabemos que é a Cristo sofredor que estamos cuidando.

Ao mesmo tempo, os enfermos, os pobres e os idosos veem Cristo em nós e são transformados pelo nosso serviço.

Ambas as partes são transformadas por uma troca íntima de cuidado.

Este é o cerne da verdadeira comunhão e comunidade: ter Cristo no centro de nossas interações.

Ao cuidar de idosos e enfermos, algumas tarefas serão exigentes e rotineiras, enquanto outras proporcionarão um rico encontro espiritual.

É preciso estar enraizados na humildade para que possamos servir aos doentes tanto no cotidiano quanto no extraordinário, pois Cristo está presente em tudo.

Ao olharmos para quem precisa de nós, doentes, pobres ou idosos, podemos ver neles a figura de Cristo a quem queremos servir.

Os doentes, pobres ou idosos ao olharem para nós, poderão reconhecer em nós o rosto de Cristo que lhes estende a mão.

Isto é comunhão de troca.

 

Ver também.

Julgará as nossas ações

O próximo mais próximo

Ovelhas à sua direita

Porque tive fome

A esmola da palavra

Ovelhas e cabritos

Versão do outro lado

Porque

Fazer

Aproximar-se, afastar-se

Omissão