quarta-feira, 6 de julho de 2011

Santa Maria Goretti

No dia da beatificação (27 de Abril de 1947) a Rádio Roma pediu à mãe da heróica menina de 12 anos que proferisse algumas palavras ao microfone. Eis o que ela disse nessa noite memorável:
“Tenho a minha alma cheia de alegria. O que mais me comoveu foi ver o Papa ajoelhado diante da imagem da minha querida filha. Dia de festa, também, porque hoje recebeu a primeira comunhão um dos meus netos.
O Papa falou-me com a ternura do melhor dos pais. Abençoou-me por três vezes. Foi hoje o dia maior da minha vida. Que a minha querida filha, a nova Beata, alcance de Deus as maiores bênçãos para o Vigário de Cristo, para a Igreja, para a gente nova de todo o mundo, a quem foi dada como modelo. Quem mo havia de dizer, santo Deus! Bendito seja Ele!”
A primeira comunhão do seu neto, o pequeno Pedro, foi administrada pelo Cardeal Nicolau Canali na capela de sua residência.
Estava presente a mãe da Beata com os seus filhos, Mariano, a religiosa Irmã Santo Alfredo e a mãe do pequenito Ersília…

Apesar de ter somente doze anos, Maria Goretti era muito crescida, o que chamou a atenção de um jovem garoto de 18 anos, Alexandre Serenelli. Um dia, em 1902, aproveitando um momento em que Maria estava sozinha com sua irmã mais nova, Alexandre procurou seduzi-la. Diante da resistência da jovem menina, Alexandre apunhalou-a com vários golpes. A santa foi transportada ao hospital e antes de morrer perdoou ao assassino com as seguintes palavras: "Por amor a Jesus perdoo e quero que venha comigo para o paraíso".
Alexandre Serenelli foi capturado logo após a morte de Maria. Inicialmente, seria condenado à prisão perpétua, mas como era menor, a sentença foi comutada para 30 anos na prisão. Ele manteve-se isolado do mundo por três anos, sem demonstrar arrependimento. Até o bispo local, Monsenhor Giovanni Blandini visitá-lo na cadeia. Serenelli escreveu uma nota de agradecimento ao bispo, pedindo que o incluísse em suas orações e contando sobre um sonho que tivera, onde a santa lhe alcançava flores, que se queimavam imediatamente em suas mãos.
Após sair da prisão, visitou a mãe de Maria, Assunta, e implorou o seu perdão. Ela respondeu que se a filha lhe havia perdoado em seu leito de morte, ela não poderia fazer diferente. Ele foi aceito na Ordem Menor dos Frades Capuchinhos, vivendo num convento e trabalhando como recepcionista e jardineiro até morrer tranquilamente em 1970. Referia-se a Maria como "sua pequena santa" e esteve presente na sua canonização.
Maria Goretti foi canonizada em 1950. Segundo algumas fontes, a sua mãe foi a primeira mãe a estar presente na canonização de um filho. Alexandre Serenelli também estava presente na celebração.


domingo, 3 de julho de 2011

Vinde a Mim

Ano A - XIV Domingo Comum

Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos...

E nós fazemos precisamente o contrário.
Quando nos sentimos cansados, estressados, angustiados, com a cabeça pesada... não estamos na disposição de ir à igreja, de rezar, de visitar ou falar com Deus.
O cansaço é uma desculpa para não falar com Deus.

Jesus quer precisamente o contrário:
Os cansados, os oprimidos, venham até Mim, diz Jesus...

E depois?

Se eu cansado, angustiado ou esgotado for à casa de Deus, com certeza que vou dizer:
Ó Deus, eu tenho este grande problema, tenho esta grande preocupação, tenho este grande medo...

Mas deve ser precisamente o contrário.
Não devo dizer a Deus que tenho um grande problema (aliás Ele já o deve saber...) mas devo dizer ao meu problema que eu tenho um grande Deus.
Não preciso dizer a Deus que tenho medo, mas devo dizer ao meu medo que eu tenho um grande Deus... e isso será o suficiente para ficar sossegado e confiante.

sábado, 2 de julho de 2011

Coração Imaculado de Maria

Depois da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus a Igreja propõe-nos a contemplação do Imaculado Coração da Virgem Santa Maria.

O coração de Maria
é o retrato mais perfeito
do Coração do Seu Filho.

Em geral os filhos é que são parecidos com as suas mães.
Em geral os filhos é que são imagens do coração de suas mães.
No caso de Maria e de Jesus é precisamente o contrário:
O Coração de Maria, Mãe de Jesus, é que é parecido, semelhante ou imagem perfeita do Coração de Seu Filho Jesus.
É por isso que Ele diz:
Aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração.


Por causa do seu amor infinito, Cristo Jesus tornou-se naquilo que nós somos, para fazer plenamente de nós aquilo que Ele é.

Jesus manso e humilde de Coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cruz Invertida

Solenidade de São Pedro e São Paulo

29 de Junho é o dia em que segundo a tradição os dois apóstolos foram martirizados em Roma: um crucificado, outro decapitado.

Por que motivo São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo?

a) Como sinal de humildade: Pedro ao saber que era condenado à crucifixão, terá pedido que fosse de cabeça para baixo, pois não se achava digno de morrer na cruz como o Senhor Jesus.

b) Como sinal de serviço: Segundo a tradição, parece que era assim o costume de crucificar os escravos. Então Pedro foi crucificado como escravo e não como homem livre - ou porque achavam que ele era escravo da sua fé ou então para comprovar que ele mesmo se apresentava como Servo dos Servos de Deus, escravo dos escravos.

c) Como sinal de contradição: contam que quando Pedro soube que iria ser crucificado terá manifestado a sua alegria por dar testemunho como o seu Mestre. Então os carrascos para o contradizer inverteram a cruz, pondo-a de cabeça para baixo só para contradizer, contrariar ou desgostar o condenado.

d) Como sinal de eternidade: Só assim Pedro podia morrer com os olhos fitos no céu. Tal não aconteceria se a cruz não estivesse invertida. Pedro morreu olhando para o alto, para o céu para onde esperava entrar e do qual tinha recebido as chaves...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Banda d'Além

2ª Feira - XIII Semana Comum

Para seguir a Cristo é preciso passar para a Banda d’Além.

“Vendo Jesus à sua volta uma grande multidão,
mandou passar para a outra margem do lago (Mt 8,18).

Os barcos estão seguros se permanecerem no porto, mas não foram feitos para isso.

Aos seus discípulos Jesus sempre ordenará uma travessia.
Ninguém será discípulo do Senhor se não estiver disposto a olhar adiante, empreender caminhadas, enfrentar os seus próprios medos, enfrentar situações novas, vencer as limitações, aprender mais, descobrir melhor, romper com a paralisia, simplesmente ousar, atrever-se, enfrentar temporais…

Para fazer essa travessia é preciso desatar amarras (deixar as riquezas ou os poisos de segurança, a família, a casa do pai…) desprender-se da terra, do aqui e do agora e ir em frente.


sábado, 25 de junho de 2011

Renegue-se a si mesmo

Ano A - XIII Domingo Comum

RENEGUE-SE A SI MESMO
TOME A SUA CRUZ

- Cruz como sinal de persignar-se:
persigne-se e siga-me,
isto é, arrependa-se e siga-me.

- Cruz como altar de oferecimento:
cada um tem a sua cruz,
o seu modo de se oferecer.

- Cruz como sofrimento:
esqueça-se a si mesmo,
assuma o sofrimento e siga-me.

- Renegar-se não é ficar passivo:
é abraçar uma cruz,
usar as mãos.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Partir

2ª Feira - XII Semana Comum

Deixar tudo e seguir... é perfeição, diz o padre António Vieira.

O Senhor disse a Abraão:
Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar.
Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei... E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas. Abraão partiu como o Senhor lhe dissera para a terra de Canaã… tinha 75 anos. (Génesis 12, 1-9)

Três propostas que Deus apresenta a Abraão: - deixar terra natal, - a pátria - e a família (casa do pai).
Três realidades: - uma geográfica, - uma cultural, -uma pessoal (de onde Abraão é chamado do fundo da sua própria identidade).

A vocação toma-o em tudo aquilo que é.
O chamamento de Deus manifesta-se, portanto, desde o início, como totalizante. Não pede um aspecto ou outro da vida de Abraão: pretende toda a vida até então vivida, e da qual é chamado a sair.
A vocação é ao mesmo tempo singular e plural.
Singular porque é um carisma pessoal dirigida a uma pessoa particular.
Plural porque engloba todas as dimensões da pessoa chamada e integra-a numa comunidade -”E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas” (Gn 12, 3).

Por esta primeira história vocacional poderemos ver como é impressionante a relação entre a singularidade e a universalidade, presente em cada vocação.
Abraão deixa de ter passado e idade – pois não há idade para ser chamado e partir.
Em Abraão desaparece tudo o que ele viveu e fez no passado, até ao momento do seu chamamento. Não pode voltar atrás.

Escreveu D. Hélder Câmara:
“...Missão é sempre partir, mas não devorar quilómetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo”.

Neste processo, pregar o Evangelho muitas vezes não significa falar, mas agir.
O “ir” implica um partir, mas não de um lugar físico. Este partir significa deixar tudo: casa, família, terras... (cf. Mt 19,29) para seguir a Cristo. Deixar pai, mãe, irmãos, não significa romper com a própria família, mas abrir-se para acolher uma família ainda maior, a grande família dos filhos de Deus. O partir é um sair de si para encontrar o outro.

domingo, 19 de junho de 2011

Trinitas

Solenidade da Santissima Trindade

Conta-se que certa vez um filósofo cruzou-se com as crianças que vinham da catequese.
- O que é que aprenderam hoje?
- Hoje aprendemos o mistério da Santíssima Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- Ena pá, com tanta gente! E qual deles é o mais velho?
- As pessoas divinas são eternas portanto em Deus não há idade.
- Então o pai não é mais velho do que o filho? Insiste o filósofo.
- Claro que não. Aprendemos que há um só Deus em três pessoas iguais e distintas.
- Então diz-me lá. O teu pai não é mais velho do que tu?
- Não senhor...
- São essas mentiras que vão aprender à catequese? Olha, o meu pai é mais velho do que eu.
- Pois fique a saber que o meu não. O meu pai é há tanto tempo meu pai como eu sou seu filho. Enquanto eu não fui filho dele, ele não foi meu pai.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, ao Deus que é, que era e que vem, como era no princípio, agora e sempre.

As pessoas divinas não são três deuses porque o cumprimento, a largura e a profundidade dum corpo não são três corpos; nem a raiz, o tronco e os ramos não formam três árvores; como a forma, a cor e a fragrância da flor não fazem três flores. Assim Deus não se contenta em relacionar-se com o Homem apenas como Pai, mas também como irmão, por Jesus Cristo, e como Espírito vivificante.




sexta-feira, 17 de junho de 2011

Acumular no céu

6ª Feira - XI Semana comum

Não acumuleis tesouros na terra…
Acumulai tesouros no Céu…
Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração.

Mais do que negar as posses ou bens materiais, a concepção do Evangelho de Mateus era opor o projecto de riqueza ao projecto do Reino dos Céus Ambos os projectos – de riqueza e de Reino dos Céus – são opostos, pois tanto um quanto o outro ocupam todas as dimensões da vida e não se pode investir a vida em duas propostas distintas.
Nesse confronto entre Deus e a riqueza material é impossível unir as duas coisas, pois ambas exigem prioridades não sendo possível conciliá-los.
O que importa é optar, decidir-se, escolher, dar prioridade…
Optar entre duas hipóteses, é renunciar a algo para aderir ao que se acha único necessário.
Escolher algo como essencial é sinal de maturidade. Só um adulto é capaz de renunciar.
Acumulai tesouros no Céu… é o mesmo que dizer: sede adultos, maturos e responsáveis!


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Quando jejuares

4ª Feira - XI Semana Comum

O jejum não muda a Deus.
Ele é sempre o mesmo, antes, durante e depois do nosso jejum.
Jejuar só mudará a nós mesmos.
Vai ajudar a manter-nos mais suscepíveis ao Espírito de Deus.
O jejum não tornará Deus mais bondoso ou misericordioso para connosco.
O jejum deixará o nosso espírito mais atento, pois mortifica a carne e espevita a alma.
Quando jejuamos, não devemos mirar o jejum, mas sim em Deus.
A resposta às orãções flui melhor quando jejuamos, porque através desta prática estamos a libertar o nosso espírito.
O jejum não é um fim em si mesmo, mas um meio para tomarmos consciência da nossa contingência e da nossa constante fome de Deus.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Sobressair em tudo


3ª Feira – XI Semana Comum

Na 1ª Leitura São Paulo lembra que os Coríntios sobressaíam em tantas coisas, 6 ao todo:
- na fé
- na eloquência
- na ciência
- em tudo o que é útil
- na caridade
- na generosidade

Isto quer dizer que não basta ter fé, é preciso expressá-la com elegância e eloquência.
Não basta ter ciência, é preciso torná-la útil.
Não basta ter caridade, é preciso acrescentá-la com generosidade.

E nós?
Façamos a lista daquilo que devemos sobressair para que sejamos perfeitos como é Perfeito o nosso Pai Celeste.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Santo António

Dia da Festa de santo António

Duas lições do Doutor Evangélico:

1. Lição das abelhas
“Os bons cristãos deveriam seguir o exemplo das abelhas.
Diz-se que as abelhas se colocam com todo cuidado nos buracos da entrada da colmeia e, na eventualidade de que algum bichinho consiga entrar, elas não o deixam em paz e o perseguem por todos os lados até expulsá-los para fora da colmeia... como as colmeias, assim são os nossos corpos, possuem cinco entradas que são os cinco sentidos. Entre estes, de especial importância são os olhos com os quais temos que vigiar atentamente para que não penetre em nós algo estranho e turvo.
Se alguma sugestão diabólica ou algum instinto perverso perturbar nosso espírito, não devemos de jeito nenhum e por nenhum motivo permitir que permaneça por muito tempo em nós. Com efeito, sua demora transforma-se em perigo e, assim afirmam os moralistas, um pensamento mau, conservado com complacência, já constitui uma falta moral. Portanto, logo que a consciência adverte que o pensamento está indo para o ilícito e não o afasta, está permitindo que se forme o assim chamado pensamento mau cultivado.
Como as abelhas, assim o bom cristão deve movimentar-se prontamente e, com o ferrão de sua boa consciência e da oração, tem que perseguir sem cansar-se os intrusos até expulsá-los para fora da colmeia de seu coração…”
(Sermões de Santo António Dom, III in Quadr., 1,153,27155,10)

2. Lição sobre a Oração
O que é que Santo António ensina sobre a Oração?
“Oração é dirigir os nossos afectos para Deus; é um devoto e amigável falar com Ele. É a tranquilidade da mente iluminada do alto.
Oração é também pedido para obter os bens temporais necessários para esta vida terrena.
Por fim, Oração é agradecer, isto é, reconhecer os benefícios recebidos, e oferecer todo o nosso empenho a Deus, de modo que a nossa Oração possa ser permanente.
O Senhor manifesta-se àqueles que param por um pouco de tempo em paz e humildade de coração. Se tu olhas nas águas turvas e turbulentas, não podes ver a expressão do teu rosto. Se tu queres ver o rosto de Cristo, pára, recolhe os teus pensamentos, em silêncio, e fecha a porta da tua alma ao rumor das coisas exteriores.
A saudação dos anjos e as bênçãos de Deus não são para aqueles que vivem na praça pública, isto é, fora de si, agitados e distraídos. O doce "Avé" foi dirigido a Maria quando Ela estava absorvida na oração, no silêncio de sua casa. Deus, para ser capaz de falar à alma e enchê-la com o conhecimento do seu amor, condu-la à solidão, destacando-a das preocupações das coisas terrenas. Ele fala ao ouvido daqueles que são silenciosos, e fá-los participantes dos seus segredos.
…Quem não pode fazer grandes coisas, faça ao menos o que estiver na medida de suas forças; certamente não ficará sem recompensa…”

A tradição popular diz que Santo António deu uma oração a uma pobre mulher que procurava ajuda contra as tentações do demónio.
Sisto V, Papa franciscano, mandou esculpir a oração - chamada também de "lema de Santo António" - na base do obelisco que mandou erigir na Praça de S. Pedro, em Roma.

Ecce Crucem Domini!
Fugite partes adversae!
Vicit Leo de tribu Juda,
Radix David! Alleluia!

Eis a cruz do Senhor!
Fugi forças inimigas!
Venceu o Leão de Judá,
A raiz de David! Aleluia!

Esta breve oração tem todo o sabor de um pequeno exorcismo. Também nós podemos usá-la - em latim ou português - para nos ajudar a superar as tentações que se nos apresentam.

domingo, 12 de junho de 2011

Sopro de Deus

Ano A - Pentecostes

Estávamos a reflectir sobre o Evangelho do envio dos Apóstolos e a infusão do Espírito Santo:
“Jesus disse-lhes – assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós. Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo...”
- Quem quer dizer porque é que Jesus soprou sobre os seus discípulos?
Um garoto respondeu com simplicidade:
- Para os empurrar e irem mais depressa.
Não era essa a resposta que eu esperava mas afinal o mesmo Espírito continuava a inspirar estas ideias. Pus de parte as complicadas reflexões teológicas, que tinha preparado, e deixei-me envolver por esta linguagem simples e sugestiva, tão ao jeito do mesmo Espírito.

De facto o Espírito Santo dá-nos a força e a urgência das coisas. Predispõe-nos a partir. É esse sopro que nos empurra, que nos dá a responsabilidade de profetas e enviados.
O Espírito é “pneuma”, ar, sopro ou vento. É ele que nos faz mexer porque é acção ou dinamismo. Ninguém o pode agarrar ou guardar só para si, pois é espírito de unidade e de comunhão. Sopra onde quer, não tem grades ou cadeias, é Espírito de liberdade. Não se vê mas sente-se, pois é humildade e discrição. Envolve-nos por dentro e por fora porque é afago e amor. É vento ou sopro que varre e limpa como espírito de purificação. Sendo ar, oxigénio, respiração, é vida.
É este sopro que nos leva longe.


terça-feira, 7 de junho de 2011

Como servir

3ª Feira – VII Semana da Páscoa

Na primeira Leitura São Paulo ao despedir-se dos seus amigos de Mileto, faz a lista do serviço que ali prestou a Deus.

Ele como?
- Serviu com humildade (é este um bom serviço a Deus e aos irmãos)
- com lágrimas (são um genuíno ministério)
- com provações (através de sacrifícios e sofrimentos
- sendo útil para todos (com proveito)
- com pregações (serviço da palavra)
- com instruções (serviço da correcção fraterna)
- em público (na comunidade)
- em particular (no relacionamento pessoal)
- com exortações (a todos motivando)
- tanto a judeus (os de mais perto)
- como os gregos (os mais distantes)

Perguntemos como é que nós estamos a servir a Deus, de que formas variadas… São Paulo apresenta 12 maneiras diferentes de servir a Deus, e nós?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eu venci o mundo

2ª Feira - VII Semana da Páscoa

No mundo tereis tribulações, mas tende confiança, eu venci o mundo.

Nos primeiros anos do meu ministério sacerdotal, ao ter grandes tarefas para assumir, eu sentia muito medo. Fui consultar um santo sacerdote que me disse:
- Usa este lema - Eu não Vos temo porque vos amo. Pois o amor vence todas as barreiras, todas as tribulações. Só a força do amor abala as estruturas do medo.

"No mundo tereis tribulações" - Hoje estas tribulações não são perseguições, martírios, ou tarefas difíceis a assumir... são simplesmente tentações, inclinações, pecados que nos afligem ou o mal que nos persegue.

São Domingos Sávio dizia: Antes morrer que pecar!
Hoje as pessoas têm medo da verdade, medo da morte, medo das doenças, medo de Deus, mas não têm medo do pecado.

Hoje peço a Deus um santo medo, o medo de pecar. Quero ter medo de fazer o mal, um medo sadio porque é fruto do temor a Deus.

Deixemos que a graça de Deus nos afaste dos medos doentios e restaure em nós o temor de Deus.
Que em tudo possamos ouvir a voz do Senhor que nos diz:
- Coragem... Não tenhais medo de lutar contra o pecado, contra o mal. Tende confiança, pois em venci o mundo.

Ascensão

Ano A - Domingo da Ascensão

A - Olhar para a frente sem deixar de olhar para o alto.
B - Olhar para o alto sem deixar de olhar para a frente.
C – Dia mundial das comunicações sociais
D – Oração digital

A – Olhar para frente
Estavam os discípulos a olhar para o alto, quando duas figuras lhes apareceram e disseram: porque olhais para o alto, ide a caminho da Galileia… e pregai a boa nova…
Em vez de ficarmos a olhar para o alto, é preciso olhar para a frente e seguir o caminho da evangelização.
Há outro motivo para olhar para a frente em vez de ficarmos parados a olhar para o alto:
Um dia o Sr. Prior pregou sobre a Ascensão do Senhor… No final um paroquiano foi ter com ele e felicitou-o:
- Muito bem pregou o Sr. Prior hoje. Que palavras eloquentes sobre o Céu para onde Jesus se elevou… É pena que o Sr. Pior tenha dito como é o céu ou o paraíso mas não disse onde é que ele fica. Disse o que é, mas não onde está…
- Queres então saber onde podes encontrar o céu? Fica na Rua das Giestas, nº 9.
O Paroquiano ficou meio amuado com a resposta. O Prior estava a gozar com ele. Mas pelo sim, pelo não a caminho de casa passou pela rua das Giestas e encarou com o nº 9. Parou, espreitou, entrou curioso e viu uma mulher, doente, rodeado de filhos pequenos, na maior miséria. Começou imediatamente a ajudar, foi pedir mais socorro e toda a paróquia amparou aquela família que passou a viver com toda a dignidade e na maior felicidade partilhada por todos.
Ali estava o paraíso ou o céu…
É preciso olhar para a frente, como enviados e como agentes do bem… pois é aí que está o paraíso para onde Cristo nos quer levar.

B – Olhar para o alto
Jesus elevou-se para nos atrair para lá, para orientar o nosso olhar até ao alto.
O que nós precisamos encontra-se lá no alto onde Jesus nos foi levado.
Numa tarde de primavera uma menina foi passear pelo campo. Parou junto a um riacho e mirou-se na água límpida e transparente. No fundo da água viu uma linda rosa. Esticou logo a mãozinha para alcançá-la. A água tremeu e a menina deixou de ver a flor. Momentos depois a água serenada voltou a apresentar-lhe a linda rosa lá no fundo. Nova tentativa para apanhá-la lá na água. Nesse momento ouviu uma voz:
- Menina, porque está a tentar alcançar aí em baixo, o que se encontra no alto. Olha para o céu…
Ela levantou-se e viu a roseira que ostentava a linda flor sobre a sua cabeça e que a água do riacho reflectia. Ela colheu então a flor, enfeitou o seu chapéu seguiu feliz.
Em vez de olharmos para o chão, à procura de algo que nos faça felizes, olhemos para o alto, pois de lá nos vem toda a nossa felicidade.

C – Mensagem do Papa
para o 45º dia mundial das comunicações sociais:
“Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital”

É uma reflexão sobre a difusão da comunicação através da rede internet.
Alguém dizia-me que era preciso adaptar o Evangelho e a pastoral às novas tecnologias, sobretudo às redes sociais (Facebook, Youtube, Hi5, Twitter, Blogger, Orkut, Myspace, Newsletter...).
Pois então, eu pensava que era o contrário: é preciso sim adaptar as novas tecnologias ao Evangelho e aos valores evangelhos… Deixar que a luz do Evangelho ilumine esses instrumentos de comunicação.
Quem nos dera que as redes sociais que tanto aproximam as pessoas e estreitam a sua união, possam também aproximar as pessoas de Deus e Deus das pessoas….

D- Oração na Net

Hoje rezo com e pelo autor desta oração que desconheço a sua identidade:

“Mais perto que o aqui.
Mais rápido que o já…
Ainda só Te desejo e aí está,
Na sombra da minha porta,
O toque da Tua voz.
Penso e Tu sabes
A palavra antes do ar.
Sonho e já existe a matéria
Que quero transformar.
E se me perco na procura
Das coisas sem sentido,
És Tu que me encontras, alegre
No meu caminho dorido!...
Conheces todos os sinais
Por que me digo
E, eu, o caminho recto
De falar contigo:
P@i.com

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Missão comprida

Ano A - Ascensão

Depois de ter proclamado o Evangelho da Ascensão do Senhor, o sacerdote perguntou aos catequizandos:
- Então, quem é capaz de dizer o que é que Jesus fez no dia da Ascensão?
- Ele foi descansar – Respondeu com toda a seriedade um dos miúdos.
- Como assim? Explica-te melhor, pediu o padre, surpreendido por aquela resposta inesperada.
- Jesus primeiro mandou os seus discípulos ir por todo o mundo levar o evangelho e depois foi sentar-se à direita do Pai pois já tinha quem fizesse o trabalho que ele fazia antes.
O sacerdote não teve outro remédio que consentir que de facto o miúdo tinha razão.

Cristo subiu aos Céus pois já tinha quem continuasse a sua obra cá na terra, apesar de cooperar com eles. Deixava a sua missão cumprida. Ao mesmo tempo deixou-a comprida, pois tinha de continuar através dos seus enviados.
O mistério da Ascensão de Jesus traz a responsabilização dos seus discípulos. Deixa-os em liberdade, com o poder e a responsabilidade de continuarem a sua obra. É por isso que eles não podiam ficar parados a olhar mas tinham de pôr mãos à obra. E quando todos estiverem instruídos, todo o mundo subirá, ou melhor, Cristo descerá ao seu encontro outra vez.
Toda a vida de Cristo foi uma ascensão tal como um convite a que cada cristão deve elevar-se, projectar-se na eternidade.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

5ª Feira da Espiga

5ª Feira - VI Semana da Páscoa

Quinta-feira da Ascensão ou da Espiga

Denomina-se "Quinta-feira de Espiga" ou "Dia da Espiga", a quinta-feira de Ascensão em que a Igreja comemora a Ascensão de Jesus ao Céu, 40 dias após a Páscoa da Sua Ressurreição.
Para simbolizar a bênção dos primeiros frutos, colhe-se pelos campos espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira para formar um ramo, a que se chama de espiga.
Segundo a tradição o ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada, e só deve ser substituído por um novo no dia da espiga do ano seguinte.
O raminho de flores é constituído por:
- uma flor branca que simboliza a paz;
- uma amarela, o ouro;
- uma espiga, o pão;
- uma papoila, o amor;
- malmequer, ouro e prata;
- videira, vinho e alegria;
- alecrim, saúde e força.
- e um raminho de oliveira, o azeite.
Guardá-lo em casa durante todo o ano é condição para ter sempre alegria, dinheiro, paz e pão.
O dia da espiga é também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se deve trabalhar.
É chamado o dia da hora porque nessa hora, ao meio-dia, tudo pára:
- as águas dos ribeiros não correm,
- o leite não coalha,
- o pão não leveda
- e as folhas cruzam-se.
É nessa hora que se deve colher as plantas para fazer o ramo da espiga.
Tudo isto para dizer que na 5ª feira da Ascensão, Céu e Terra uniram-se; o Céu ficou uma nova Terra e a Terra um novo Céu formando assim um todo; pois Jesus ao elevar-se, todos e tudo elevou, unificou e santificou.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ser criança

Hoje celebra-se o dia da criança

Recordo um modelo evangélico:

Irmã Teresa do Menino Jesus era alta, media um metro e sessenta e dois, enquanto a Madre Inês de Jesus era bem mais baixa.
Perguntei-lhe um dia:
- Se te deixassem escolher, que terias preferido: ser alta ou baixa?
Ela respondeu sem hesitar:
- Escolheria ser baixa para ser pequena em tudo.
A Igreja sempre viu em Teresa do Menino Jesus a santa da infância espiritual.
É o próprio Evangelho, é o coração do Evangelho que ela redescobriu; mas com que graça e frescor: ‘Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus’ (Mt 18, 3)

Ao Deus Desconhecido

4ª feira - VI Semana da Páscoa

Oração de Nietzsche

Muitos só conhecem de Nietzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial.
Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basileia na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá.
Esta oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Foi encontrado entre os seus escritos póstumos. (Leonardo Boff.com)

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
e lançar o meu olhar para frente
uma vez mais elevo, solitário,
as minhas mãos a Ti,
na direcção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
tenho dedicado altares festivos,
para que em cada momento
a tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
esta palavra: “ao Deus desconhecido”.
Eu sou teu, embora até o presente
me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
sinto-me forçado a servir-Te.

Eu quero conhecer-Te, ó Desconhecido!
Tu que me penetras a alma
e, qual turbilhão, invades a minha vida,
tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero conhecer-Te,
quero até servir-Te.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Magnificat de hoje

Festa da Visitação

Neste final de Maio celebramos a festa da Visita de Maria a Isabel, ou também, a visita de Jesus a João Baptista.

Inspirado no Cântico de Maria, podemos rezar hoje:

MAGNIFICAT DE HOJE

A minha alma glorifica o Senhor
porque eu sei que sou fraco,
que não tenho tempo para nada,
que tenho medo,
que me sinto cansado,
que estou sempre pronto a dizer NÃO
em vez de dizer SIM,
mas, Senhor, eu preciso que Tu venhas comigo
para me sentir protegido.

Eu te louvo, Senhor, pela Tua grandeza,
pois Tu pensas em mim
que sirvo para pouca coisa
e Tu queres fazer em mim maravilhas.
Depois de tudo isto,
muitos me olharão e me louvarão ou me criticarão
porque trabalho na Tua obra.
Mas eu sei que a Tua misericórdia
virá através de todos aqueles
que estão conTigo na mesma estrada.

Senhor, não permitas que sejamos nem orgulhosos,
nem soberbos, nem toto-poderosos,
nem presunçosos, nem agarrados às riquezas,
nem permanentemente cansados ou queixosos.
Mostra-nos como transmitir a alegria de sabermos
que tudo vem de Ti, Senhor.

Todos juntos proclamamos a Tua grandeza
e rejubilamos por termos sido escolhidos por Ti.
Nós te damos graças por tudo...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Terço (37)

Gozosos

O TEMPO DE MARIA
OU O TERÇO DO TEMPO

Jesus entrega a São João, o discípulo do Coração, a sua Mãe. A partir dessa hora este recebeu-a em sua casa. Receber Maria em nossa casa é sentir a sua presença todos os dias, todas as horas, em todos os momentos. Maria nunca nos abandona. Acertemos então o nosso relógio com o tempo de Maria.
Com ela nós podemos rezar: a toda a hora bendirei o meu Senhor, isto é, bendirei sem descanso, bendirei até no descanso, bendirei em todas as atividades.

1º Mistério – A anunciação do Anjo a Nossa Senhora
AS HORAS DE MARIA

Segundo a tradição foi por volta do meio-dia quando o Anjo Gabriel visitou a Virgem santíssima. Foi também ao meio-dia que Nossa Senhora apareceu em Fátima. Isto quer dizer, que a sua experiência está no centro do dia.
Rezemos para que cada um de nós saiba, a exemplo de Maria, colocar Deus no centro da sua vida.

2º Mistério – A visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel
OS DIAS DE MARIA

Maria foi apressadamente à casa de quem precisava da sua ajuda e lá permaneceu vários dias. O tempo é uma riqueza que não nos pertence.
Rezemos para que cada cristão, a exemplo de Maria, possa pôr o seu tempo ao serviço dos outros.

3º Mistério – O nascimento de Jesus em Belém
OS MESES DE MARIA

Jesus nasce em Belém no mês de dezembro.
Foi à meia-noite e a escuridão tornou-se clara como o dia.
Rezemos para que cada um de nós saiba acolher em todos os momentos da sua vida, a Jesus dissipando as trevas, e fazendo da noite dia.

4º Mistério – A apresentação do Menino Jesus no Templo
OS ANOS DE MARIA

Tal como na apresentação de Jesus no Templo todos os anos a sua família ia a Jerusalém.
Em todo o tempo e lugar Maria glorificava a Deus.
Durante seis meses seguidos, isto é, durante meio ano seguido, a Virgem Maria apresentou-se em Fátima.
Rezemos para que a nossa oferta a Deus possa ser um ato continuado.

5º Mistério – O encontro do Menino Jesus no Templo entre os Doutores
A ETERNIDADE DE MARIA

Maria e José andaram três dias à procura de Jesus e foi como que uma eternidade à sua procura.
Também hoje ela continua a procurar cada homem, nos caminhos deste mundo, hoje e sempre.
Rezemos para que Maria nos encontre unidos ao seu filho agora e na hora da nossa morte.


Complemento:

RELÓGIO DE LOUVORES

O QUE É O TEMPO?
Para os comerciantes o tempo é dinheiro; para os aborrecidos, o tempo é um fardo. Mas para um cristão, o tempo é um precioso Dom de Deus, que Lhe devemos devolver com os juros de amor, oração e louvor.
Ainda que os nossos relógios batam as horas em uníssono com os outros relógios do mundo, na realidade eles marcam muito mais do que minutos e horas. Pois apontam um caminho de louvor que se eleva até o Trono de Deus, assinalados desde já com o selo da eternidade.

Como j+a muitos parentes e amigos nos têm perguntado: "que fazem vocês aí no convento o dia todo?" A resposta está contida nos Salmos que nós rezamos!
"Em alta noite eu me levanto e Vos dou graças!" (Sl 118).

É por isso que tradicionalmente a recitação do terço do Rosário é uma espécie de cronómetro: Durante o tempo da recitação de uma dezena de Ave-Maria, meditamos num determinado mistério do Rosário...
Se o nosso tempo for tempo para Deus, será então garantia de eternidade...


Derramar o Espírito sobre nós

2ª Feira - VI Semana da Páscoa

Tal como com farinha seca não se pode fazer a massa, nem um só pão sem água, assim também nós, que éramos uma multidão, não poderíamos ser um só em Cristo Jesus sem a ÁGUA vinda do céu.
Tal como a terra árida não frutifica, a menos que receba a água, também nós, que inicialmente éramos apenas lenho seco, nunca teríamos dado fruto vivo sem a CHUVA generosa vinda do alto.
Essa ÁGUA ou essa Chuva é o Espírito prometido e enviado por Jesus...

Ele continua a derramar o Espírito Santo sobre nós, como água na nossa amassadura ou como chuva no nosso quintal, para permanecermos unidos e darmos fruto abundante.

sábado, 28 de maio de 2011

Amor criativo

Ano A - VI Domingo da Páscoa

O exemplo é citado do Pe. Varillon:
Uma mãe de família sofre terrivelmente de enxaquecas. Vai ao médico e este prescreve-lhe, com insistência, um ambiente de silêncio e tranquilidade em que se evite todo o burburinho. De regresso a casa, a mãe chama os filhos mais pequenos e faz-lhes as recomendações necessárias:
- Primeiro, não toques a corneta que te deram no Natal; depois não batas com as portas; em terceiro lugar, quando puseres a mesa, não faças barulho com a louça; quarto, etc.
Depois chama os seus filhos mais crescidos e diz-lhes:
- Foi isto o que disse o médico. Agora, se vocês me têm amor...
E é tudo. Os jovens é que têm de descobrir, sem terem recebido nenhuma ordem concreta, tudo o que for necessário para haver um ambiente de silêncio em casa. É uma questão de amor, de responsabilidade ou maturidade.

Se me têm amor – Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. O movimento não vai dos mandamentos para o amor mas deste para aquele. Para quem ama, a observância dos preceitos será espontânea e natural.

Estas palavras de Jesus são conforto na hora de despedida. Chegava a hora de partir mas o amor anula distâncias e enche ausências. Se alguém Me ama ... Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada. Amar alguém é oferecer-lhe um lugar no seu coração.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Fui eu que vos escolhi

6ª Feira - V Semana da Páscoa

NÃO FOSTES VÓS QUE ME ESCOLHESTES
FUI EU QUE VOS ESCOLHI:

- Ele escolheu-nos primeiro porque
desde toda a eternidade nos amou.

- Porque quando escolhemos é ele que
dentro de nós está a escolher por nós.

- Para nós escolher não é escolher
mas ACOLHER

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Terço (36)

MISTÉRIOS GOZOSOS

Cantar o o que a Virgem
guardava no seu coração

Rezemos o terço do Rosário, meditando nos mistérios gozosos.
Cada mistério será anunciado cantando a respetiva quadra com a melodia do Ave de Fátima (A treze de Maio).

1º Mistério - A anunciação do Anjo a Nossa Senhora

O anjo falou
à Virgem Maria
e a Virgem guardava
na alma o que ouvia.

Ave, ave, ave Maria.


2º Mistério - A visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel

A prima Isabel
louvores dizia
e a Virgem guardava
na alma o que ouvia.

Ave, ave, ave Maria.


3º Mistério - O nascimento de Jesus em Belém

Na gruta, em Belém
o Filho nascia
e a Virgem guardava
na alma o que ouvia.

Ave, ave, ave Maria.


4º Mistério - A apresentação do Menino Jesus no Templo

No Templo, cumpriu
as leis que devia
e a Virgem guardava
na alma o que ouvia.

Ave, ave, ave Maria.


5º Mistério - O encontro do Menino Jesus no Templo entre os Doutores

Na casa de Deus
Jesus se perdia
e a Virgem guardava
na alma o que ouvia.

Ave, ave, ave Maria.


Final

A Virgem guardava
na alma o que ouvia
queremos ser todos
iguais a Maria.

Ave, ave, ave Maria.


Fixar morada

2ª Feira - V Semana Tempo Pascal

Do Evangelho de hoje:
“O meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada».

Imaginai, irmãos muito amados, que festa seria receber a Deus na morada do nosso coração!
Se um amigo rico e poderoso quisesse entrar em nossa casa, evidentemente, toda a casa seria limpa, para que nada pudesse chocar o seu olhar, quando entrasse.
Que aquele que prepara para Deus a morada da sua alma purifique tudo o que estiver sujo devido às suas más acções.
Notai bem o que diz a Verdade: «Nós viremos a ele e nele faremos morada».
Porque Ele pode passar no coração de alguns sem ficar lá a morar.”

Não basta receber a visita… é preciso, através das boas obras oferecer-lhe hospedagem.

Cf. São Gregório Magno (c. 540-604), papa e doutor da Igreja,
Homilias sobre os Evangelhos, n°30

domingo, 22 de maio de 2011

Princípio, meio e fim

Ano A - V Domingo da Páscoa

Quando nos tempos antigos o eloquente Cícero acabava de falar, toda a gente aplaudia, comentando:
- Como falou bem!
Mas quando Demóstenes falava, o povo levantava-se e gritava:
- Vamos a isso.
E ponha-se a caminho.
Podemos reconhecer esta dupla capacidade em Jesus Cristo que diz:
- Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida...
É a verdade que maravilha as multidões, o caminho que põe toda a gente a mexer-se e a vida que a todos renova. Ele é o princípio, o meio e o fim. É o caminho que liga a verdade à vida.

Tal como antigamente, hoje há 3 categorias de homens:
Em primeiro lugar os que querem o fim mas não querem nenhum meio para o atingir. É o caso do jovem rico que queria seguir a Cristo mas não estava disposto a empregar nenhum meio e por isso voltou para trás.
Em segundo lugar, há os que querem o fim e até alguns meios. Querem trabalhar mas só um trabalho que lhes agrade. Querem ser eles a escolher os meios. É o caso de Pilatos que queria libertar Jesus mas à sua maneira.
Por fim há os que se colocam diante de Deus dizendo:
- Senhor, Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida. Tudo o que quiseres... tanto o fim como os meios para o atingir.
E o Senhor repetirá:
- Eu sou o Caminho – por mim se vai; eu sou a Verdade – a mim se chega; sou a Vida – em mim se vive.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Humildade e grandeza

5ª Feira da IV Semana da Páscoa

Duas palavras opostas, mas significativas da liturgia de hoje:

Humildade - 'Não sou digno de desatar as correias das sandálias...' ou  'O servo não é maior do que o seu senhor.'´
Ser humilde é não ser mais nem menos daquilo que se é.
Não nos podemos sentir mais pequenos quando nos rebaixam, nem nos sentir maiores quando nos elegiam.

Grandeza - 'Quem me vê, vê o Pai, quem vos recebe, recebe aquele que vos enviou'.
Nós somos a imagem e semelhança de Deus. Nós somos o reflexo de Deus, como se o nosso corpo fosse um especlho e reproduzisse o reflexo divino. É preciso então manter a superfície do espelho limpa e sem distorções para que a imagem reproduzida seja a mais fiel possível.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Porta Aberta

Ano A - IV Domingo Pascal

 
Naquele redil havia uma ovelha negra, símbolo de inconformismo e de rebeldia, que pensava abandonar o rebanho por ser demasiado exigente. Não querendo dar explicações a mais ninguém, despediu-se de um colega. Durante a noite iria forçar a porta ou então saltar o muro, colocaria uns paus para servirem de escada, subiria por eles e atirar-se-ia para o outro lado.
No dia seguinte, por espanto do seu amigo, a ovelha negra continuava lá.
- Que se passou? Foste apanhada?
- Nada disso. Quando estava tudo preparado, reparei que a porta estava aberta... e os meus planos ficaram assim estragados.
O seu amigo, que antigamente estudara latim, concluiu:
- Cor magis tibi Pastor pandit, que quer dizer, o Coração que o Pastor te abre é ainda maior que esta porta.
A ovelha tresmalhada descobriu assim que aquele era o melhor rebanho porque tinha um Pastor de coração aberto.

Naquele tempo Jesus disse:
- Eu sou a porta das ovelhas. Quem entrar por mim será salvo. As ovelhas seguem-Me porque conhecem a Minha voz.
Ele respeita a nossa liberdade e nos faz viver em plenitude.

Obedecer é a forma portuguesa do latim ob-audire, que é ouvir, escutar. Escutar não suprime a nossa liberdade mas indica-nos o caminho, esclarece e orienta-nos. Aquele que tem os ouvidos atentos, descobre saídas que os outros ignoram. Obedecer a um bom pastor é crescer em plena confiança.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Eis o teu filho

Festa de Nossa Senhora do Rosário de Fátima

13 de Maio

Senhor Jesus Cristo.
Estás na cruz, estás ferido,
Estás sem nada, porém continuas a cuidar dos teus.
Tu és uma ferida imensa, mas ficas comovido com o pranto da tua Mãe.
Dói-te também ver o teu amigo no sofrimento,
sem que ninguém cuide da sua pequenez ameaçada.
Sabes que toda a Mãe precisa de um filho
e que um filho precisa sempre da sua Mãe.
Os filhos pequenos precisam tanto do cuidado materno
quanto as mães precisarão mais tarde dos cuidados filiais.
É natural que chegue o tempo
em que os filhos se tornem mães das suas mães.
No berço e na cruz vemos sempre a tua Mãe,
aberta à dor e ao amor, aberta a Ti.
Inclinas os teus olhos e abres espaços de confiança.
Olhas para ela… e quantas vezes olhaste para ela!
Agora o teu olhar encontra-se com o dela.
Olhas também para quem tanto amas, o predilecto,
e através dele, para todos os amigos do caminho.
Desejas que Maria continue a entoar os seus cânticos,
aqueles que Te ensinou quando crescias.
Tu eras o filho das suas entranhas, filho do seu sangue.
O discípulo passou a ser filho do seu coração.
Nem o discípulo ficaria órfão,
nem a Mãe seria abandonada.

Quando olhares para nós, pobres como somos,
podes continuar a dizer a Maria: Mulher, eis aí os teus filhos!
Quando olhares para nós, fracos como somos,
podes continuar a dizer-nos: Eis aí a vossa Mãe!
Obrigado, Senhor, pelo presente da tua Mãe.
Obrigado, Senhor, pelo presente da tua Igreja-Mãe.
Que sempre nos acompanha no caminho
agora até à hora da nossa morte.
Ámen.

domingo, 8 de maio de 2011

Teologia da Estrada

Ano A - IV Domingo Páscoa

O catequista descrevia aos alunos a alegria dos Discípulos de Emaús, quando caminhavam com Jesus, apesar de não compreenderem bem a Sua presença. Era tal como para Adão e Eva, no Paraíso, quando Deus descia a passear e conversar amigavelmente com eles.
Então uma menina exclamou:
- Ah, se fosse ainda assim...
O catequista certificou:
- Minha cara menina, é assim ainda hoje. Todos nós podemos caminhar e conversar com Deus, como amigos, na oração. Sempre que celebramos a missa é isso que acontece.

O Senhor ressuscitado, tornou-se companheiro de viagem do homem peregrino ao longo das veredas da vida, até que as sendas do tempo se cruzem com as vias do Eterno, quando o veremos tal como Ele é.
A experiência de Emaús foi uma autêntica celebração eucarística, uma Fracção do Pão. Os discípulos começaram por se lamentar do mal que foi feito, tal como nós no princípio da missa. Depois ouviram e interpretaram a palavra eterna de Deus. Em seguida sentaram-se à mesa, para partilhar o Pão que lhes deu vida nova. Por fim, foram em missão (daqui o termo missa), contagiar os outros irmãos nessa mesma experiência.

A Eucaristia é uma caminhada de Deus connosco que nos lembra que a nossa estrada deve ser sempre uma eucaristia.

terça-feira, 3 de maio de 2011

São Filipe, Apóstolo

Festa de São Filipe, Apóstolo

03 de Maio

Existe um facto realmente extraordinário na vida do Apóstolo São Filipe, natural de Betsaida, na Galileia.
Um dia, quando obrigado a reverenciar o deus Marte acendendo-lhe incenso, eis que surge detrás do altar pagão uma cobra que mata o filho do sacerdote-mor e dois dos seus servos.
Filipe ressuscitou-os e matou a cobra. Esse milagre de São Filipe impressionou toda a gente e originou a conversão de muitas pessoas ao cristianismo.

Filipe bem podia ficar quieto ou regozijar-se com o mal que acontecera aos seus perseguidores, mas não. Fez um milagre e ajudou quem lhe queria mal.

E eu fico a pensar…

Hoje mesmo, neste início de Maio, quanta gente se regozija pela morte, ou melhor, pela eliminação ou assassinato de Osama Bin Laden. Todo o mundo se alegra com isso… e atribui esse grande feito a um Prémio Nobel da Paz, o Presidente Barack Obama. Que ironia!

E eu fico triste e cheio de vergonha.

São Filipe curou quem o queria matar… e nós alegramo-nos com os assassinos e aplaudimos o gesto, julgando termos feito bem.
Não defendo as acções de Bin Laden, mas defendo a vida que ele recebeu de Deus e que nós homens a tiramos. Talvez fosse essa vida uma das poucas coisas boas que tinha, a nossos olhos, e mesmo assim a tiramos…

Senhor Deus, tem piedade de nós!


segunda-feira, 2 de maio de 2011

São Tiago Menor

É o padroeiro da Diocese do Funchal.
A sus festa é assinalada no dia 1 de Maio, mas como aconteceu na Pascoela, transitou para hoje.
Partilho a reflexão da solenidade.

1. Seguir os ensinamentos da palavra de São Tiago, filho de Alfeu, que escreveu uma Epístola do Novo Testamento:
- "De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras?... A fé sem obras está completamente morta." (Tg 2, 14.17)
- "Aproximai-vos de Deus e Ele aproximar-se-á de Vós". (Tg 4,8)
- "Se Deus quiser..." (Tg 4,15)

2. Seguir as suas obras, de patrono que cuida da saúde dos seus devotos:
(Cf bispo D. António Carrilho, in homilia de 1 de Maio de 2008)
No “auto do voto”, lavrado solenemente na Catedral em 1521, narra-se a escolha do padroeiro: foi escolhido à sorte, enquanto a cidade sofria uma grave epidemia de peste. Colocaram num barrete os nomes de Jesus, da Virgem Maria Nossa Senhora, de São João Baptista e dos doze Apóstolos, e um menino de sete anos, chamado João, retirou um dos papéis, depois de todos se colocarem de joelhos em oração e prometerem fazer uma casa em honra daquele santo que por sorte saísse. Quis Deus que fosse São Tiago Menor. Logo foi festejado por toda a cidade e, em Julho desse ano, começou a construção da Capela do Voto, indo a cidade e os cónegos em procissão solene com o retábulo do Bem-Aventurado Apóstolo.
Na renovação do voto, em 1523, na Catedral, diante do capitão Donatário, o Senado de então com seus vereadores, diversas entidades oficiais, todo o cabido e muito povo tomaram, juntos, o compromisso solene de em cada ano venerarem e festejarem São Tiago, com uma especial solenidade. Por sua vez, no dia da procissão, em 1538, estando a peste a vitimar muita gente, o Guarda-mor da Saúde gritou em alta voz: “Senhor, até aqui guardei esta Cidade como pude; não posso mais, aqui tendes a vara, sede Vós o Guarda da Saúde.” E largou imediatamente a vara, num gesto de entrega e de confiança nas mãos de Deus. E a peste desapareceu. São Tiago é para todos protector e modelo de santidade; como mestre, continua a exortar-nos à confiança e ao abandono nas mãos de Deus em tudo o que fazemos.

domingo, 1 de maio de 2011

Confissão de Tomé

Ano A - II Domingo de Páscoa

Eu, Tomé, fui escolhido para ser o homem que não se contenta com as aparências. Eu também queria ver o que os outros tinham visto, queria ver para crer.
Eu, Tomé, dei uma prova de fé. Quem vê, tem a certeza da evidência, possui a prova inegável de um facto mas não a prova da fé.
Eu sou aquele que fica de fora, para poder provar que quem não se encontra com a comunidade não experimenta o ressuscitado.
Eu sabia que, pelo facto dos olhos não virem, não podia concluir que a luz do sol não brilhava.
Eu pensava que via Cristo quando escutava as suas palavras que não entendia. Agora, compreendo as palavras que já não ouço.
Eu, Tomé, fiz a minha prova de amor. Levava a sério o Cântico dos Cânticos: O esposo reconhece a esposa por um só cabelo porque lhe tem amor. Quem não ama, pede-lhe o bilhete de identidade pois mil provas não chegam para constituir uma certeza. Para quem ama, mil objecções não bastam para formar uma dúvida.
Enquanto os outros discípulos provavam pelos factos, eu, Tomé, provei pela fé e pelo amor. Se eles me tivessem provado assim, eu teria acreditado imediatamente. Mas tive de fazer a minha experiência.
Uma última coisa vos digo: se o Ressuscitado não pode ser visto, existe porém algo que posso ver: a comunidade reunida em Seu nome. Se alguém ama a sério a Cristo, é porque Ele está vivo. E isso faz-me acreditar, mesmo sem O ver.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mãos e pés

5ª Feira da Oitava da Páscoa

Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés…

Para lhes dizer que Ele foi crucificado e trespassado uma vez e ficou crucificado e trespassado para todo o sempre e não precisa de ser outra vez crucificado.

Assim também os discípulos foram redimidos e salvos uma vez para todo o sempre…

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Emaús

4ª Feira da Oitava Pascal

Os discípulos de Emaús

Quando é que os discípulos se encontravam mais perto de Cristo?
Quando escutavam as palavras que não entendiam, ou quando compreendiam as palavras que já não escutavam?

Tenho a certeza quer numa quer noutra situação Deus está sempre lá.
Quando os discípulos escutavam as palavras que não entendiam, era Cristo que estava mais perto deles...
Quando compreendiam as palavras que já não escutavam, eram os discípulos que estavam mais perto de Cristo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Não me detenhas

3ª Feira da Oitava da Páscoa

No Evangelho de hoje Jesus diz a Maria Madalena: Não me detenhas... vai dizer aos meus discípulos. Ela vai e diz-lhes: Vi o Senhor...

Não me toques, não me detenhas, não me abraces, pois eu ressuscitei...
Agora só podes abraçar-me pela fé, só podes tocar-me através da tua devoção, só podes ver-me através dos olhos do teu coração.

E eu pensava que Jesus tinha dado uma repreensão a Madalena, numa espécie de mira mira não me toques e afinal foi uma ocasião de Madalena apresentar uma grande lição para a posteridade:
Tocar, abraçar e ver fisicamente, agora já não.
O abraço e o olhar já não podem ser visíveis:
Abraçar sim, mas pela fé; ver sim, mas com o coração; e tocar sim, com com a devoção.
Obrigado Madalena por esta lição.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ele não conheceu a corrupção

2ª Feira da Oitava de Páscoa

Três mensagens da liturgia da Palavra deste dia:

1ª Cristo não conheceu corrupção. Se Ele, ressuscitado, não conheceu nem a corrupção da alma nem a do corpo, foi para que conseguíssemos pelos menos não cair na corrupção da alma, já que a do corpo não nos é possível.

2ª Madalena foi a correr... dizer aos discípulos que fossem imediatamente para a Galileia...
É o ritmo da páscoa, apressado, a correr, com urgência. De facto ninguém pode ficar parado ou inactivo.. É preciso correr, pôr-se a mexer, já que Páscoa quer dizer passagem...então passemos já.

3ª Afinal onde está o Corpo de Cristo? Os discípulos levaram-no...isto é, o corpo de Cristo está nos seus discípulos... Está em nós.

Estar vivo

Ano A - Domingo de Páscoa

"Quem é vivo, sempre aparece..."

Conheci um velhinho que raramente ia à missa. Mas no dia de Páscoa lá estava sempre.
- Porquê? É para se lembrar que afinal Deus ainda está vivo?
- Não. É para mostrar a Deus que eu ainda estou vivo. E para me lembrar a mim mesmo que preciso dos outros e que preciso de Deus. Ele pode contar assim comigo tal como os outros também.
A etimologia confirma o sentir deste homem. Parece-me que o verbo EXISTIR vem do latim “Ex-sistere”, que quer dizer sair de si. Só existe realmente quem sai de si mesmo, quem vai ao encontro dos outros, porque o homem é um ser em relação. Também o pronome pessoal EU, deriva de “Egeo”, verbo que significa necessito dos outros. É frente aos outros que eu me defino, no mais íntimo do meu ser.
Ao celebrarmos a Páscoa do Senhor, saboreemos a vida que partilhamos com Deus e com os outros. Mostremos que estamos vivos. Precisamos de Deus vivo para nos lembrarmos que não estamos sós. Precisamos dos outros para nos recordarmos que devemos estar disponíveis, porque também eles precisam de nós.
Se Cristo ressuscitou, se quis ficar eternamente vivo, é porque vale a pena viver e que a vida é bela. O melhor agradecimento dessa prova é vivermos com alegria, com Deus e com os outros.

 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Trinta moedas

4ª Feira da Semana Santa

Trinta moedas de prata foi o preço combinado para Judas entregar o seu amigo Jesus.

Antes de mais, digo eu, Jesus foi vendido com a prata da casa, pois foi um amigo, um dos seus, alguém que comia do mesmo prato... A prata dessas moedas era PRATA DA CASA.
(Ainda hoje quem o atraiçoa são os que deviam estar mais próximos, são os da casa)

Depois, diz o livro do Êxodo, 21, 32: Se o boi escornear um escravo ou uma escrava, dar-se-á trinta moedas de prata ao seu senhor.
Trinta moedas de prata era o que se pagava por um escravo.
Esse foi o desprezível e mesquinho preço oferecido pela vida do Salvador.
(Mas fico a pensar que essa quantia é o preço de um escravo, mas esse escravo não é Jesus mas aquele que o traiu. Foi Judas quem se vendeu por esse valor como escravo... Jesus não foi vendido, pois o escravo foi Judas...)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Trevas de Judas

3ª Feira da Semana Santa

No seu livro Jesus de Nazaré da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, o Papa Bento XVI (que faz hoje precisamente 6 anos que foi eleito Papa) escreve acerca do episódio de Judas no Evangelho de hoje:

Para João aquilo qe aconteceu a Judas já não é explicável psicologicamente. Acabou sob o domínio de outrem: quem rompe a amizade com Jesus, quem se recusa a carregar o seu jugo suave não chega à liberdade, não se torna livre, antes pelo contrário torna-se escravo de outras potências; ou mesmo: o fato de atraiçoar essa amizade já resulta da intervenção de outro poder, ao qual se abriu...
João conclui dramaticamente o trecho sobre Judas com estas palavras: (Judas) tendo tomado o bocado de pão, saíu logo. Era noite.
Judas vai para fora num sentido mais profundo: entra na noite, vai-se embora da luz para a escuridão. o poder das trevas apoderou-se dele...

domingo, 17 de abril de 2011

Domingo de Ramos

Ano A - Domingo de Ramos

"Perguntaram um dia à Madre Teresa de Calcutá o que sentia quando entrava numa sala cheia de gente entusiasmada, de pé, a aplaudi-la.
A pergunta era maliciosa. Ficava na mesma? Isso significaria que ela era insensível. Ficava lisongeada? Bem, então talvez não fosse assim tão santa como parecia...
Ela nem hesitou na resposta:
Ficava contentissima! Quando tal acontecia, ao ouvir os aplausos, enquanto andava, pensava em Jesus entrando de burro em Jerusalém entre hosanas de uma multidão entusiasmada e ficava contentíssima.
Ela, claro, era o burro que transportava Jesus! Um burro feliz...
(Cf. Nuno Tavar de Lemos, O Principe e a Lavadeira)

Neste dia de Ramos, possamos nós dizer a Jesus:
- Aqui estou, Senhor, um burrinho pobre e sarnento... Em que poderei te servir?
E Jesus poderá responder:
- Filho, um burrinho pobre e sarnento foi o meu trono mais precioso em Jerusalém.

sábado, 16 de abril de 2011

Grande Paixão

Domingo de Ramos ou da Paixão do Senhor
Explicava eu que o Domingo de Ramos é também conhecido como o Domingo da Paixão.
- Porquê?
- Porque é lida a narração da Paixão de Jesus. E tu sabes o que é a Paixão?
- Eu não. Se fosse a minha paixão, eu sabia responder, mas a de Jesus não sei quem é.
- Quem é?! Que queres tu dizer?
- Então o senhor padre não sabe que a minha paixão é a Susana?
Percebi então que para aqueles garotos, uma paixão era um grande amor, uma pessoa concreta. Ter paixão é estar apaixonado por alguém. Pensei então em perguntar às pessoas mais crescidas o que era uma paixão. Responderam que era os sofrimentos que Jesus padeceu. Fiquei a pensar como seria diferente se se compreendesse a Paixão do Senhor como o seu grande amor.

Paixão dos homens é amor, paixão de Deus é sofrimento. Não serão dois aspectos da mesma realidade? O sofrimento não faz parte do amor e vice-versa?
Contemplemos o amor sem medida de Jesus na sua paixão, morte e ressurreição. Essa amor é a força dos fracos e a fraqueza dos fortes.
Todos nós nos revemos no Domingo da Paixão. Todos estamos envolvidos como acusadores ou como vítimas, flagelando e sendo flagelados, crucificando e sendo crucificados, tirando a liberdade e exigindo a nossa liberdade, ferindo e sendo feridos.
A paixão de Cristo é a nossa própria paixão porque um dia a nossa paixão foi a sua própria paixão.





quarta-feira, 13 de abril de 2011

Renúncia quaresmal

O rei D. João II, foi informado de que um dos seus servos estava gravemente doente e não queria tomar o remédio. O rei foi visitá-lo. Confortou-o e tentou convencê-lo a ingerir o medicamento. O doente recusou-se dizendo:
- Eu já sofro muito. Não quero mais sofrimento. O remédio é tão amargo, que não suportarei mais essa dor...
Então o rei, visivelmente impaciente, tomou ele próprio o remédio amargo que o doente recusava e bebeu alguns goles. Depois disse:
- Eu, o rei, são de corpo e de mente, por teu amor tomei esta amarga bebida; e tu, servo doente, não tomarás este pouco que resta por meu amor e para tua salvação?
E o servo, já decidido, ingeriu de uma só vez todo o remédio, para estar ao nível do amor do seu rei, e a cura não se fez esperar.
Jesus Cristo fez o mesmo por nosso amor.
Estamos na Quaresma, tempo de penitência ou sacrifícios, tempo de esforço e de curas. É preciso decidir-se a tomar a cruz para seguir um pouco mais além. Para isso necessitamos do estímulo e do exemplo dos outros, bem como da nossa coragem e discernimento.
Vivemos num tempo em que toda a gente se queixa que já não se aprende a sofrer. Estamos habituados a ter uma vida fácil e sucumbimos ao menor obstáculo. O Papa João Paulo II escreveu sobre o sofrimento no mundo contemporâneo: “O homem é chamado a dar amor através do sofrimento. O sofrimento conduz o homem em direcção ao futuro. Não deveríamos preocupar-nos com quantos de nós sofrem, mas com tantos de nós que não sabem sofrer.”
A renúncia quaresmal é uma oportunidade para exercitar a nossa vontade e coragem e para aprender a assumir os pequenos sofrimentos. Só assim estaremos bem treinados para acolher qualquer dificuldade da vida.
A penitência vivifica o homem. E não é apenas por uma questão de disciplina que nos faz falta. O sofrimento engrandece o homem, por isso o homem pode engrandecer o sofrimento. Como? O que temos a suportar, podemos levá-lo ou como uma coroa ou como um jugo. O que leva a sua dor como uma coroa, enobrece-se, transformando a sua dor em coroa. O que leva a sua dor como um jugo, rebaixa-se.
O Pe. Dehon escreveu no Directório Espiritual: “Carregar a cruz externamente e por necessidade não basta. É preciso abraçá-la com amor, carregá-la com alegria e coragem, desejá-la com ardor.”

Impacientou-se

3ª Feira – V Semana Quaresma

No deserto, o povo de Deus impacientou-se…

Dizia o Pe. Ângelo Caminati, SCJ:
Paciência é o que se quer!
É aquela virtude que metade dos homens pratica e que a outra metade faz praticar os outros…

Santa Catarina de Sena dá-nos 3 razões para não perdermos a paciência.
1. Pensar como a vida é breve. Nem do dia de amanhã estamos seguros. Relativamente às dificuldades do passado, nós não mais as sofremos. Resta-nos tolerar o momento presente que é fugaz.
2. Considerar as vantagens do sofrimento. Diz São Paulo que não há comparação entre as dificuldades presentes e o prémio da glória que nos está prometido.
3. Pensar nos males que sobrevêm aos que padecem na ira e na impaciência – tristeza nesta vida, castigo na outra, dor acrescentada agora, pena no além.

domingo, 10 de abril de 2011

Ser reeditado

Ano A - V Domingo da Quaresma
Antigamente havia o curioso costume das pessoas, em vida, prepararem o seu epitáfio. Benjamim Franklin, no seu início de carreira, como tipógrafo, preparou também a sua inscrição tumular, bastante original: “ O corpo de Benjamim Franklin, tipógrafo, como a capa de um velho livro que perdeu a moldura e o título, aqui jaz. Mas a obra não desaparecerá pois, como sempre acreditou, reaparecerá de novo numa edição melhor, corrigida e ampliada pelo Autor.”

A vida parece de facto um livro. Quanto mais avançamos, mais podemos ver o seu sentido, a solução do seu enredo. À medida que vamos desfolhando cada dia, tanto mais nos envolvemos. Parece que somos uma obra-prima à procura do seu Autor. Não há páginas em branco, mas quantos riscos, palavras distorcidas. Cada folha não voltará atrás. Um dia, mais tarde, a edição completa, perfeita, será recebida na biblioteca da eternidade. A morte não é fim, mas fronteira de vida nova.

A experiência de Lázaro, o amigo de Jesus, mostra que tudo o que é velho passou. Regressando à vida, anuncia o renascer da nova edição. A ressurreição de Lázaro é argumento de fé pois muitos, ao verem o acontecimento, acreditaram nele. Jesus ajuda a ler esses acontecimentos da vida.

É morrendo que se ressuscita. É saindo, para fora, que nos caem as ligaduras. O que seremos depois já o somos agora, ressuscitados na fé e na esperança.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Em segredo

6ª Feira - IV Semana da Quaresma

"Jesus partiu também para a festa..., mas em segredo."

Toda a gente deseja este autêntico tempo de festa da vida eterna; é um desejo natural, porque todos os homens querem naturalmente ser felizes. Mas não basta desejar. É por Ele mesmo que devemos seguir a Deus e procurá-lo. Muitos gostariam de ter o antegozo do verdadeiro e grande dia de festa, desse grandioso encontro, e lamentam-se que não lhes seja dado. Quando, na oração, não fazem a experiência de um dia de festa no fundo de si próprios, e não sentem a presença de Deus, entristecem-se. Rezam menos, fazem-no de mau humor, dizendo que não sentem Deus e que é por isso que a acção e a oração os aborrecem. Aí está o que o homem não deve fazer nunca. Nunca devemos fazer nenhuma obra desanimados, porque Deus está sempre presente e, ainda que não o sintamos, todavia ele veio secretamente à festa.

(Cf. Jean Tauler, 1300-1361, Estrasburgo)

E eu acrescento:
Se devemos ter cuidado quando rezamos ou fazemos algo, pois Deus vem marcar a sua presença em segredo, com muito mais razão devemos estar atemtos quando celebramos a Eucaristia, pois Deus às claras está presença e deliberadamente vem ter connosco.


terça-feira, 5 de abril de 2011

Toma a tua enxerga

3ª Feira - IV Semana da Quaresma

No Evangelho de hoje Jesus aconselha a tomar a enxerga e ir em frente...

Isto quer dizer que as nossas limitações, parilisias, pesadelos, frustrações etc devem ser atiradas para trás para que possamos avançar.

Mas também me faz lembrar uma fábula clássica:
Os dois fardos ou as duas sacolas que os homens trazem: um à frente para as virtudes e um atrás para os defeitos. Assim cada um só pode ver as suas virtudes, pois os defeitos próprios estão para trás. Mas consegue ver os defeitos dos outros e os outros vêm os nossos defeitos...

E eu corrijo a fábula:
Os burros de carga têm um alforge com duas sacolas, uma de cada lado.
Nós homens temos também um alforge com duas sacolas, mas uma à frente e outra atrás.
Assim podemos atirar para trás tudo o que nos atrapalha.
Mas ainda bem que assim é, pois se os nossos defeitos ficassem à frente, com certeza iriam pesar mais e dificultariam o nosso andar.

É preciso atirar para trás a nossa enxerga e ir em frente.

domingo, 3 de abril de 2011

O cego e a onça

Ano A - IV Domingo Quaresma

3 ecos da prática do evangelho de hoje


Ser cego é ter vistas curtas.
É preciso alargar os horizontes, ver mais além...


Ser cego é olhar só para si mesmo...
Contaram-me esta história da onça:
Farta de ver os outros animais bem feios, a nça, pintada, sentiu desejo de se ver a si mesma, pois achava-se a única bonita.
Foi então ao cirurgião para que lhe mudasse os olhos: em ves de estarem virados para fora, que ficassem virados para dentro para que pudesse ver-se a si mesma e deliciar-se com a sua própria beleza.
O cirurgião fez-lhe a vontade.
Quando acordou, após uma operação de sucesso, a onça queixou-se que via tudo negro, tudo escuro...
- Mas eu sou tão bonita, porque é que vejo tudo negro?
- É que os olhos foram feitos para ver a beleza dos outros e não para a nossa própria beleza. Os olhos foram feiras para serem virados para fora e não para dentro...
Quando alguém só se vê a si mesmo, é cego e verá tudo negro ou escuro...

3º Ser cego é não ver a luz pequenina que temos dentro de nós.
Mesmo que nós caíssemos na tentação da onça e os nossos olhos ficassem virado para dentro, nós cristãos poderíamos muito bem olhar para dentro e com certeza não veríamos tudo preto ou escuro como a onça porque temos uma luz dentro de nós - é a luz da fé que recebemos no nosso baptismo e que devemos deixar brilhar. Além disso temos também a luz da presença de Deus no nosso coração...

Ser cego

Ano A - IV Domingo Quaresma

Num grupo de jovens, estávamos a reflectir sobre o episódio evangélico da cura do cego de nascença. Pedi que cada um apresentasse uma condição dessa limitação física. Seleccionei estas quatro, que mostram a sensibilidade juvenil:

1º Um cego não pode piscar o olho. Antigamente, piscar o olho era sinal de declaração amorosa. Assim o cego estava impedido de manifestar, desse modo, os seus sentimentos. Jesus repõe-lhe essa capacidade.

2º Um cego só consegue ver com a ponta dos dedos. Ao ser curado, recupera a capacidade de conhecer, não só com a ponta dos dedos mas com todas as suas potencialidades.

3º Um cego conhece o mundo com os olhos dos outros. Por isso, Jesus ao curá-lo, está a devolver a possibilidade de fazer a sua própria experiência. Assim se compreende a reacção dos seus pais: “Perguntai-lho. Ele já tem idade para responder por ele próprio.”

4º Num cego, quais são as janelas da alma? Para uma pessoa comum, são os olhos... O cego de nascença tinha uma grande alma, por isso acreditou em Jesus. Este, curou-o, isto é, abriu-lhe o coração ou a alma. “O Principezinho” descobriu esse segredo: O essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração”.

Também nós somos cegos? Perguntaram os ouvintes de Jesus e perguntemos também nós. E a resposta é sim, quando não nos comunicamos, quando não aprendemos com todo o nosso ser, quando não fazemos a nossa própria experiência e quando fechamos o nosso coração.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Apresentação de Livro

Foi no dia 25 de Março, no auditório do Museu Casa da Luz, a apresentação d um novo livro da Professora Gizela Dias da Silva.













RASGOS DA MINHA INFÂNCIA

Gizela Dias da Silva - Texto
Louisa Isabel Roldão – Ilustração
Editorial Eco do Funchal, Março 2011

Fomos convidados para o lançamento do Livro “Rasgos da minha infância”.
Engana-se quem está à espera da apresentação de um livro.
Não se trata de um livro, de mais um livro, e já lá vão 8 desta mesma autora, mas sim de uma viagem.
De facto é de uma viagem que se trata:
Lemos na página 4: “Agora, que despejei no papel … vou terminar meu relato… Melhor falando: vou pôr um ponto final a esta viagem que me propõe sedução.”
É uma viagem que nos leva longe:
Lemos na página 30: “Que saudade me transporta aos meus tempos de infância”.
Viagem que não esquece malas e bagagens, como lemos na página 32: “ Encerro a bagagem que me deram no trem das minhas memórias.”
Viagem com trajecto delineado, pois lemos na página: “Que lindo trajecto efectuado, por mim, na travessia do meu íntimo”.
Ou na mesma página: “ Apenas trazia consigo o entusiasmo do enfoque e a contenção do percurso.”
Não é uma viagem qualquer: é uma viagem, não para fora, mas ao íntimo de si mesmo.
Mas é uma viagem feita também no terreno: Cancela, Caniço, São Gonçalo – lugares que por coincidência fazem parte também da minha experiência de menino e moço. Mas a geografia da nossa infância é sempre universal, pois não é o local que nos marca, nós é que marcamos o local. Não é a experiência que nos dignifica, nós é que dignificamos a experiência. Enfim, não é o que fazemos que nos valoriza, nós é que a valorizamos tudo o que de mais simples fazemos.
Esta viagem tem 15 etapas – os 15 títulos ou episódios ou memórias de tempos idos, tempos a tempo renascidos.
Viagem reveladora de novas paisagens, largos horizontes, cores diferentes: cada história a sua tonalidade, cada episódio a sua cor, cada memória o seu movimentos. É uma viagem narrada e projectada: é um livro para se ver e ouvir. É uma viagem de texto (Gizela Dias da Silva) e ilustração (Louisa Isabel Roldão).
O risco, a cor, o traço, a forma, o escuro, o claro, o desenho, a pintura, outras histórias fazem dessas histórias. Outros contos, outras perspectivas das mesmas paisagens vieram realçar a vida dessas histórias.
No dia em que a Louisa Isabel Roldão acrescenta mais um ano à sua jovem vida, dá-nos o prazer, pelas suas ilustrações nesta obra, de acrescentar mais vida aos nossos anos, às nossas memórias.
É uma viagem pelo mundo da criatividade, uma viagem misteriosa, que se vai recriando à medida que vamos penetrando “nas origens do infinito” (Momentos de sonho). Tudo é criado e recriado.
Parte-se das simplistas brincadeira de antigamente, onde cada criança fazia os seus próprios brinquedos: as bonecas de trapo, os joeiras, as papoilas transformadas em bailarinas…
Mas a criatividade não se esgotava na arte de confeccionar. Alarga-se também pela personificação, pela vida e dinâmica que se lhes transmite: Ser mamã de uma boneca, ou uma gatinha transformada em brinquedo, ou um canteiro ajardinado pelos anjos, ou pôr as plantas a dormir, ou ainda o sonho de querer casar com as rosas…
A mesma criatividade alarga-se não apenas através da evocação do passado mas também através das ilustrações, como contributos abertos à sua potencialidade máxima. E nós hoje continuamos a viajar e a alargar os horizontes dessa acção criadora através da leitura, da contemplação e da nossa fantasia…
É também uma viagem de recordações… São constantes as evidências deste exercício da memória: rever, recordar, reviver, reencontrar, encontrar-se com o passado, marcas da infância, confrontar o hoje com o ontem, saudade, nostalgia… são alguns exemplos.
E eu posso concluir:
Todos dizem que recordar é viver, é reviver, é trazer do passado, é desenterrar, é ressuscitar, é dar nova vida.
Eu também pensava assim que Recordar é viver!
Mas hoje descobri o contrário, e foram estes rasgos que me despertaram para uma verdade diferente:
Recordar não é viver, viver é que é recordar,
Viver é recordar, é nunca se esquecer, viver é marcar, viver é eternamente celebrar. Mais do que recordações da minha vida, quero manter a vida das minhas recordações, porque recordar não é viver, viver é que é recordar.
Finalmente este livro, mais do que uma viagem é uma peregrinação…é um percurso que nos transcende, é um trajecto que nos engrandece, é uma caminhada envolvida de mensagens, uma escalada ou ascese rumo à eternidade.
Destaco algumas mensagens, ipsis verbis:
“Todo o bem que fazemos fica por Deus registado nas páginas do historial da Humanidade.”
“As tradições respeitam-se e transportam-nos nas asas do tempo…”
“Todas as pessoas têm sonhos… adormecidos no seu peito…”
“A vida é cheia de encontros, ou melhor, de reencontros... Saibamos procurá-los.”
“A vida sem luta é como um campo que nada produz…”

Rasgos da minha infância é pois um livro de viagens…
É uma viagem rasgada, traçada, delineada… mas aberta como sulcos cavados pela criatividade e imaginação, com esforço e dedicação.
Obrigado à autora Gizela Dias da Silva por nos propor desta maneira a viagem mais difícil e a mais importante de se fazer: a viagem até ao mais íntimo do nosso coração.
Obrigado e bem haja!

(Foto de Alfredo Rodrigues, Jornal da Madeira)