quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

As lições de um barco


5ª feira – II semana comum

 

Jesus ensina sobre um barco

Um barco ensina sobre Jesus

Hoje vamos prestar atenção não ao ensino de Jesus sobre o barco, mas ao ensino do barco sobre Jesus.

O barco ouviu tantas pregações de Jesus.

Hoje vamos dar-lhe oportunidade a que nos diga aquilo que ouviu.

O próprio barco é uma pregação. Ele ilustra muitas palavras de Jesus. Oiçamo-lo:

 

1 – Fazer-se ao largo

O porto é o lugar mais seguro para um barco, mas ele não foi feito para ficar lá. O seu lugar é no alto mar, pois foi feito para navegar, para fazer-se ao largo.

2 – A tempestade e a bonança

A presença de Jesus no barco não dispensa tempestades. Com ou sem Jesus um barco enfrentará vento contrário e tempestades na sua viagem. A presença de Jesus garante que o barco não vai afundar e chegará ao seu destino.

3 – O vento favorável

O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê… que é a força do Espírito Santo que sopra onde quer.

4 – No íntimo do coração

O barco pode estar no meio da água, mas a água não pode estar dentro do barco. O mal interior é que nos estraga e nos leva à perdição. Não deixemos que o mal nos invada.

5 – Bons navegadores

Os grandes navegadores devem a sua reputação aos temporais e tempestades. Também no barco de Jesus há que ser bom piloto nas adversidades, confiar e resistir na luta. Sem coragem perseveramos.

6 – Meio de comunicação

Vai e faz o mesmo, isto é, comunica, une-te ao teu irmão, faz pontes, sê um barco a caminho da eternidade.

7 – A vida é uma viagem

Há partidas e chegadas, há encontros e desencontros, há ir e voltar, há despedidas, saudades, adeus ou até já. A viagem tem sempre um destino. A vida sem fé é um barco sem leme.

 

Ver também

Preparar uma barca

Três lições

A barca de Jesus

Barco= púlpito

 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Aprendendo o português


“Logo no dia 19 de janeiro, domingo, dois dias depois de termos chegado à Madeira, fui celebrar para o povo na Capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso, um pouco acima da Escola Artes e Ofícios. Aquele bom povo, sabendo que havia padres disponíveis, começou a encomendar Missas. Pouco depois, também começamos a celebrar na Capela do Faial, também perto da Escola. Apercebi-me que o meu português era insuficiente para entender e para me fazer entender.” (Memórias do Pe. Ângelo Colombo)

 

Depois de teremos arrumado roupas e livros, fizemos o nosso horário:

05,30 Levantar - Orações – Meditação – S. Missa

08,00 - Pequeno-Almoço

12,00 - Exame particular – Almoço

13,00 - Aulas de Português

17,00 - Estudo

18,00 - Adoração – Ceia – Recreio – Repouso

“Vivíamos numa casinha um pouco afastada do conjunto da Escola e, embora sem grandes luxos, éramos bem tratados e servidos, especialmente no que se refere à alimentação.

O Pe. Colombo, prático e sem complexos, pediu logo a uns professores da Escola que nos aceitassem nas suas aulas. Foram bastantes benévolos e nós sentadinhos naquelas carteiras de crianças, começámos pacientemente a soletrar a pronúncia portuguesa.

Lembro-me do primeiro ditado. Não entendia a maior parte das palavras e, quanto mais o professor marcava as sílabas, maiores dificuldades sentia em as entender. Quando percebia a palavra, então surgia o problema dos acentos e dos ‘s’ e ‘z’ a brigarem entre si. (O Pe. Colombo confessava que estava a perceber cada vez menos. Dizia que os madeirenses têm o mau hábito de comer as sílabas…)

Porém aquele esforço e aquela humildade valeu-nos uma certa prática e domínio da língua.

Aproveitámos muito as aulas da quarta classe do Pe. Plácido. O bom e culto sacerdote dava aulas muito tempo. A sintaxe portuguesa era passada a pente fino. Os complementos, os verbos, as orações, tudo era analisado, classificado e justificado.” (Memórias do Pe. Gastão Canova).

 

“O trabalho principal era na Escola. Nós é que devíamos fazer assistência aos alunos desde o levantar até ao deitar. Depois da missa matutina e do pequeno almoço, estávamos com eles nos recreios, assim como no estudo, nos intervalos das aulas. (A seguir aos dois primeiros meses, também nas aulas de religião.)

O Pe. Canova era mais dedicado a esse trabalho e em breve entrou na alma daquela instituição e daqueles rapazes. Eu procurava entrar na administração, no movimento de pessoal, no funcionamento das oficinas, na cozinha, no refeitório etc.” (Memórias do Pe. Ângelo Colombo).

 

A vitória da humildade


4ª feira – II semana comum

- Porque é que David foi o vencedor?

- Porque Deus estava a seu lado.

- E porque é que Deus estava a seu lado?

- Porque Deus o tinha escolhido.

- E porque é que Deus o tinha escolhido?

- Porque David era humilde.

- Então David foi vencedor porque foi humilde!

         - E foi humilde apesar de vencedor!

 

Conclusão:

Quando somos humildes, Deus escolhe-nos.

E se Deus nos escolhe, Ele está ao nosso lado.

E se Deus está ao nosso lado somos vencedores.

 

Por outras palavras:

- Qual a principal diferença entre Golias e David que ditou a vitória?

- O tamanho?

- A idade?

- A experiência?

- O armamento?

- A sua aparência?

- A sua fé em Deus ou nos deuses?

- Os seus exércitos?

- A grande diferença está na humildade, antes, durante e depois.

 

 

Ver também:

David e Golias

As pedras de David

Harpa e funda

 

Ver ainda:

Sem descanso

Mão estendida

Mão atrofiada

Mão e coração

Milagre é obedecer

Estender a mão

 

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Estrela da unidade


Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos

18 a 25 de janeiro de 2022

Tema – Vimos a sua estrela no Oriente e viemos prestar-lhe homenagem (Mt).

Foi preparado pelo Conselho das Igrejas do Médio Oriente, sediado em Beirute, Líbano. Enquanto muitos cristãos celebram o Natal, a mais antiga e principal festa de muitos cristãos orientais é a Epifania, quando a salvação é revelada a todas as nações. É esse tesouro que os cristãos do Médio Oriente querem partilhar a favor da unidade dos cristãos de todo o mundo.

 

Durante estes 8 dias podemos contemplar esta estrela sob vários pontos de vista ou perspetivas diferentes:

 

1 – Estrela do Oriente

É sol e farol que orienta e guia todos os crentes.

2 – Estrela da União

Sinal de que Deus quer caminhar com todos os homens juntos.

3 – Estrela da Esperança

Sinal de que havia nascido o esperado das Nações.

4 – Estrela da Paz

Passa por Jerusalém, a cidade da paz.

5 – Estrela do Céu

Sinal de que devemos olhar para o alto, para Deus, para o que nos une.

6 – Estrela da Partilha

A sua luz partilhada levou à partilha dos tesouros.

7 – Estrela da Vida

Sinal da presença amorosa de Deus no mundo, início de uma vida nova.

8 – A estrela de Jesus

Essa Luz só pode ser Jesus que nasceu para iluminar as nossas trevas.

 

Para cada dia há uma oração própria nos subsídios oficiais e que transcrevemos aqui:

 

1 – Senhor Deus, iluminai o nosso caminho com a luz de Cristo que vai à nossa frende e nos conduz. Esclarecei-nos e vinde mirar em nós. Guiai-nos para descobrir uma pequena manjedoura nos nossos corações, onde ainda dorme uma grande luz. Criador da luz, nós vos agradecemos pelo dom desta estrela que nunca se apaga, Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador. Que ele seja um farol orientando a nossa peregrinação. Curai as nossas divisões e levai-nos para mais perto da Luz para podermos encontrar nele a nossa unidade. Ámen.

 

2 – Deus, nosso refúgio e força, nós vos glorificamos porque sois um Deus justo e defensor do direito. Confessamos diante de vós que frequentemente cobiçamos modelos de liderança. Ajudai-nos a buscar o Nosso Senhor Jesus Cristo não nos palácios dos poderosos, mas na humilde manjedoura e a imitá-lo na sua simplicidade. Encorajai-nos a nos esvaziar de nós mesmos à medida em que vos obedecemos servindo uns aos outros. Assim oreamos em nome de Cristo, que convosco e com o Espírito Santo reina para sempre na glória. Ámen.

 

3 – Ó Senhor, vós nos guiastes para fora da escuridão e nos levastes até Jesus. Iluminastes a estrela da esperança nas nossas vidas. Ajudai-mos a estar unidos no nosso compromisso de trazer aqui o teu Reino de justiça e de paz e assim sermos a luz da esperança para todos os que estão vivendo na escuridão do desespero e da desilusão. Tomai a nossa mão, Senhor, para que possamos ver-vos na nossa vida diária. Ao vos seguirmos, removei o nosso medo e a nossa ansiedade. Ponde a brilhar sobre nós a tua luz e colocai o vosso fogo nos nossos corações para que o nosso amor nos aqueça. Erguei-nos para vós, já que vos despojastes por nossa causa, para que as nossas vidas possam glorificar-vos, vós que sois Pai, Filho e Espírito Santo. Ámen.

 

4 – Bom Pastor, a fragmentação do pequeno rebanho entristece o vosso anto Espírito, Perdoai os nossos fracos esforços e o nosso vagaroso envolvimento no cumprimento da tua vontade. Dai-nos sábios pastores que, tendo um coração como o vosso, reconheçam o pecado da divisão e conduzam as igrejas com correção e santidade para a união em Vós. Nós vos pedimos, senhor, ouvi a nossa prece. Ámen.

 

5 – É Senhor Deus, nosso Pai, enviastes a estrela para conduzir os magos ao vosso Filho nascido em Belém. Aumentai a nossa esperança em vós e levai-nos a perceber o tempo todo que está caminhando connosco, zelando pelo vosso povo. Ensinai-nos a seguir a orientação do Espírito Santo, por estranho que possa parecer o caminho, para que possamos ser conduzidos à nossa unidade em Jesus Cristo, luz do mundo. Abri os nossos olhos ao vosso Espírito e dai-nos coragem na nossa fé, para que possamos confessar que Jesus é o Senhor, adorando-o e alegrando-nos nele como fizeram os magos em Belém. Nós vos pedimos essas bênçãos em nome do vosso Filho Jesus Cristo. Ámen,

 

6 – Compassivo Deus, que destes aos cegos a visão interior para vos reconhecer como seu Salvador, tornai-nos capazes de nos arrepender. Em vossa misericórdia, removei as escamas dos nossos olhos e levai-nos a adorar-vos como nosso Deus e Redentor. No meio da nossa tristeza e apesar da profundidade dos nossos pecados, dai-nos a capacidade de vos amar-vos com todo o nosso coração. Queremos caminhar juntos guiados pela vossa luz, com um só coração e uma só alma, como fizeram os primeiros discípulos. Pedimos que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sobre nós, para que juntos vos glorifiquemos, vivendo na companhia do Espírito santo e sendo de tudo isso testemunhas para todos ao nosso redor. Ámen.

 

7 – Todo o louvor, glória e ação de graças a vós, ó Deus. Fostes revelado na epifania do vosso Filho, tanto para os que esperaram muito tempo pela vossa vinda como para os que não tinham essa expetativa. Conheceis os sofrimentos que nos cerca, a dor causada pelas nossas divisões. Vedes o mundo em luta e a triste situação de hoje no Médio Oriente – o lugar em que escolhestes nascer, que foi santificado pela vossa presença. Nós vos pedimos que capaciteis os nossos corações e as nossas mentes para vos conhecer. Ao nos unirmos aos sábios vindos de longe, oramos para que possamos abrir os nossos corações para o vosso amor e para o amor aos irmãos ao nosso redor. Dai-nos disposição e meios para trabalhar pela transformação deste mundo e para oferecer uns aos outros dons que podem alimentar a nossa comunhão. Concedei-nos os teus permanentes dons e bênçãos. Recebei a nossa oração em nome do vosso Filho Jesus Cristo que vive e reina contigo e com o Espírito Santo. Ámen.

 

8 – Deus cheio de graça, quando conhecemos apenas um caminho e achamos que é por ele que devemos retornar, e quando pensamos que todas as estradas estão bloqueadas e caímos no desespero, lá sempre vos encontramos, Sois o deus de renovadas promessas. Nós vos encontramos criando um novo caminho diante de nós, algo que não esperávamos. Nós vos agradecemos porque os vossos criativos caminhos nos abrem possibilidades não previstas. Podemos olhar os mapas da nossa vida e não encontrar uma boa rota, mas sempre vos encontramos e nos levais a um caminho ainda mais excelente. Oramos com Jesus Cristo nosso Senhor, na companhia do Espírito Santo, para que sempre sejamos levados até à vossa presença. Ámen.

 

Ver também:

Permanecei unidos

Oito remos

Juntos contra a miséria

Cristãos unidos

A mão direita de Deus

Semana ecuménica

Todos irmãos

Lições de unidade

 

Epílogo da viagem


"No fim da viagem fizemos as nossas conas e, se bem me lembro, tínhamos ficado com a dívida das Missas a aplicar e com 50 e tal escudos, poucos dólares e nem sei com quantas liras italianas. Éramos muito ciros para começar uma obra que não poderia ser considerada nossa.

As nossas bagagens e apetrechos tinham ficado na Alfândega. E no dia seguinte à chegada fomos com o Pe. Laurindo buscar as nossas riquezas (18 de janeiro, sábado). Não aparecia um caixote com um duplicador que me tinham oferecido na minha terra e as buscas resultaram infrutíferas. Concluímos que teria ficado em qualquer ângulo do porão do Carvalho Araújo, que a essa hora já ia a caminho dos Açores. No regresso deste, acompanhado pelo Sr. Eduardo paquete, homem de confiança do Sr. bispo, fui a bordo à procura do caixote. Buscas inúteis! O mesmo Sr. Eduardo Paquete escreveu à Alfândega do porto de Lisboa, donde o navio tinha partido. Tudo inútil e o caixote nunca mais apareceu.

O Pe. Canova também tinha trazido um projetor e algumas filminas, como também uma certa quantidade de santinhos para presentear pessoas amigas. O projetor, que era de corrente alterna, queimou-se ma primeira tentativa de ligação à corrente elétrica da Escola, que era de corrente continua. Muitos das santinhas, a um certo momento, desaparecerem: um dos rapazes (mais esperto) andou a vendê-los por aí…

Éramos ainda ricos demais para começar uma obra que não era nossa. A Providência libertou-nos de tudo, para melhor mostrar que seria Ele a fazer tudo." (Memórias do Pe. Ângelo Colombo)

A Escola Artes e Ofícios do Pe. Laurindo


 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Os nomes de Santo Antão


Memória de Santo Antão, Abade

Os nomes de um santo

Nós chamamos a Santo Antão o Grande, para o distinguir de Santo António e identificamo-lo como Monge, como Cenobita, como Abade…

De facto, ele é Monge porque durante uma parte da sua vida viveu como eremita no deserto (monos = sozinho, apenas um, solteiro).

Ele é cenobita porque fundou comunidades de monges.

É Abba ou Abade porque era o pai espiritual dessas comunidades de monge.

Mas Santo Atanásio, no seu escrito sobre a vida de Santo Antão diz que “todos os habitantes do lugar e os homens honrados que tratavam com ele, vendo um homem assim, chamavam-no amigo de Deus; e uns amavam-no como filho, outros como irmão.

Então ele é Pai, Filho, Irmão, Amigo, Santo.

Ele fez-se tudo para todos…

 

A luta de um santo

Um atleta não pode ser coroado sem ter combatido, também ninguém pode ser cristão sem luta. Quem não suporta as tribulações por amor do Senhor, não participará na glória de Cristo.

Na vida de Santo Antão há um momento em que ele se ostra atónito com Cristo e diz-lhe:

- Senhor, onde estiveste todo este tempo? Porque não apareceste desde o início para colocar fim à minhas dores e lutas.

O Senhor respondeu:

- Eu estava aqui, Antão, mas esperei para ver a tua luta!

Então ele fez tudo para estar à altura de Cristo…

Ver também:

Morreu sorrindo

Antão

Santo Antão

Profecia de Santo Antão

Santo Secular

 

Desembarque no Funchal


Este foi um grande dia e um dia grande.


"No dia 17 de janeiro de 1947, pelas oito horas da manhã, avistámos a esplêndida terá da Madeira. Levantei-me restabelecido do enjoo, agarrei-me ao peitoril do tombadilho a olhar para aquele cenário de fadas. Era a minha linda Madeira: a terra sonhada tantas vezes, mas nunca imaginada tão bela! Tínhamos chegado!" (Memórias do Pe. Gastão Canova)

"Muito antes da primeira claridade do dia 17 de janeiro, já eu estava de pé, pois tinham anunciado a chegada ao Funchal logo para a manhã cedo. Rezei as orações da manhã, fiz a meditação, recitei o Breviário e… esperei, olhando para o horizonte na minha frente. Mas nada aparecia! Finalmente, no lado poente, lá ao longe, aparecia uma luzinha.

- É a Madeira? – perguntei a um marujo.

- Não! É o farol do Porto Santo. Daqui a duas horas estaremos na Madeira!

O mar estava calmo, o céu sereno. A oriente, aparecia uma claridade suave preanunciando a chegada do astro, enquanto, lá no alto, as estrelas desapareciam. Aos poucos, na superfície do oceano, viam-se reflexos dourados… brilhantes. Depois, quase improvisamente, uma meia lua surgia das ondas… Foi crescendo… tornando-se redondo…transformando-se em esplendor. Era o sol!

Eu não era poeta, mas naqueles instantes até me veio à mente a exclamação de um poeta: C’est lui! C’est la vie!

- Ainda um pouco e estaremos na Madeira! – disse comigo.

Apareceu o farol de São Lourenço que depois de uma longa meia hora, o dobrámos e entrámos no mar da Madeira.

Agora, já muita gente estava na a murada do lado poente do navio a contemplar a costa madeirense. Eis Machico, a primeira baía visitada pelos descobridores…. Eis Santa Cruz! Eis as Lombadas de Gaula e as encostas do Caniço! Todos os olhos descansavam na visão verde das bananeiras, dos ‘poios’ de batata doce, dos bosques de pinheiros e eucaliptos lá ao alto!

Passámos um cabo, um rochão escuro e a pique sobre o mar e eis a baía do Funchal, com o seu casario em anfiteatro subindo do mar até aos bosques da serra, espraiando.se de São Gonçalo a São Martinho.

Mas não fiquei muito tempo extasiado na contemplação.

- Vamos! Vamos buscar as nossas malas! – disse-me o Pe. Canova que viera até mim e observava a movimentação dos barquinhos que já rodeavam o ‘Carvalho Araújo’. Aí estavam os garotos que acenavam e gritavam, numa mistura de vozes: Senhor! Mister, Madame! Money… Money, uma moeda! E mergulhavam, de cabeça para baixo, para apanharem, debaixo de água, a moeda atirada lá de cima.

Com as malas perto de nós, encostámo-nos à amurada de levante, à espera da possibilidade de descer, eram cerca das 10 horas. Avistámos dois eclesiásticos, que deviam estar à nossa espera porque acenavam e faziam sinais. Respondemos, incertos entre o sim e o não, Mas logo que baixaram a escada e nós descemos, vieram ao nosso encontro e nos cumprimentaram e ajudaram a levar as malas para a Alfândega. Um era o Sr. Pe. Laurindo Leal Pestana e o outro era, o então seminarista, Agostinho Jardim Gonçalves. Pouco depois, subimos para um carro descoberto que nos levou diretamente par a residência do Sr. Bispo. Sua Excia. Revma. O Sr. D. António Manuel Pereira Ribeiro acolheu-nos efusivamente, apesar do ser porte cheio de dignidade e gravidade: Sede bem-vindos! É o Senhor que vos traz! E a viagem foi Boa? Mas devem estar cansados – disse-nos. Depois virando-se para o Sr. Pe. Laurindo: Talvez desejem também rezar a Missa e já passa das onze. Leve-os para a sua casa e nos veremos ainda esta tarde.

Fomos, sempre de carro descoberto, para a Igreja de Nossa senhora do Socorro (ou de Santa Maria Maior) residência do Sr. Pe. Laurindo. Descansámos por alguns momentos, celebrámos a nossa Missa em agradecimento a deus pela feliz chegada à Madeira, destino da nossa viagem. À celebração da missa seguiu-se o almoço... um almoço de festa. Lembro-me sempre que o nosso anfitrião abriu uma garrafa de vinho Madeira de 1847. Cem anos a festejar a nossa vinda. Que honra! pensámos nós.

Pela tardinha, depois de descansarmos um pouco, o Sr. Pe. Laurindo levou-nos novamente à casa do Sr. Bispo. O Sr. D. António falou-nos da correspondência com Roma e com o Cardeal D. Teodósio de Gouveia. Disse-nos que era com gosto que nos recebia na sua Diocese e concluiu dizendo que, por enquanto, ficaríamos al9jados na Escola de Artes e Ofícios do Sr. Pe. Laurindo; depois se veria.

Saídos da casa do sr. Bispo, o mesmo Pe. Laurindo nos levou de carro à sua Escola de Artes e Ofícios, a meia encosta do anfiteatro do Funchal. Ficámos impressionados e receosos quando o carro subia aquelas ruelas ‘empinadas’… mas tudo passou quando chegámos, acolhidos por todos os alunos, com gritaria, salva da palmas e banda de música a tocar…

Fomos levados para uma pequena casa na quinta. Lá encontrámos dois quartinhos, simples e pobres, que nos eram destinados. Depositámos as nossas coisitas e estávamos tricando as nossas impressões e descansando um pouco, sentados na beira da cama, quando nos vieram buscar para o janar de festa. A seguir houve entretenimento com música, poesias, bailinhos e cantos. Lembro ainda com saudade uma dessas canções: Oh! A minha casinha.

Já noite, fomos saborear uma cama que não baloiçava, consolados e bem impressionados com o bom acolhimento e a festa. Só mais tarde é que viemos a saber que toda aquela festa era para celebrar o aniversário do sr. Pe. Laurindo, que coincidiu com a nossa chegada. E nós a pensarmos que a festa era para nós!" (Memórias do Pe. Ângelo Colombo)

 

domingo, 16 de janeiro de 2022

Uma viagem atribulada

De manhã no dia 16, alguns passageiros nem se levantaram. Outros, mais afoitos, andavam, ou se sentavam, com ar perdido, agarrando-se a tudo quanto podiam. O pobre Pe. Canova foi uma das vítimas. Levantou-se… mas andava com uma cara que nem de morto. Não teve outro remédio senão refugiar-se no seu beliche. E assim passou quase toda a viagem. Eu tive sorte e defendi-me melhor, pois tinha aprendido algo na anterior navegação. De celebrar, nem palavra: no Carvalho Araújo não havia capela.

Dando voltas a bordo, reencontrei o Cônsul da Itália com a sua família:

- Como?! – exclamou ele ao ver-me – como conseguiu passagem? Este barco anda sempre superlotado! Eu tive dificuldade em marcar lugar, já há um mês atrás, em Génova.

- Ah! Mas nós andamos ao serviço de um ‘Patrão’ que é dono de tudo e de todos! – Foi a minha resposta.

(Memórias do Pe. Ângelo Colombo)

 

sábado, 15 de janeiro de 2022

A terceira Epifania


Ano C – II domingo comum

1 – Enquadramento

Dizem que esta é a 3ª epifania.

A 1ª foi a manifestação de Jesus Menino, o Messias, aos povos de todo o mundo, guiados por uma estrela. É a epifania ou a manifestação do Espírito Santo que guiou os magos. É a manifestação que leva à adoração.

A 2ª epifania ou manifestação foi no batismo de Jesus: Este é o meu Filho, muito amado, escutai-O. É a epifania feita pelo Pai. É a manifestação para escutar.

Hoje temos a 3ª manifestação em que o próprio Jesus se apresenta como através de sua mãe: Fazei tudo o que ele vos disser. É a epifania para fazer, para viver.

 

2 – Reflexão

Podemos resumir a página do evangelho de hoje em 3 aspetos:

- Jesus apareceu entre nós para ser nosso convidado, para se sentar à mesa connosco e para abençoar os nossos encontros.

- Jesus está entre nós para que possamos fazer aquilo que ele nos disser, segundo a sugestão de Maria.

- Jesus veio a este mundo para transformar a água em vinho e através disso apontar para outro milagre ou outra transformação – transformar o vinho no Seu sangue. A Eucaristia é o verdadeiro e o mais eloquente milagre de Caná. Em Caná Jesus transformou a água em vinho para dizer que na Eucaristia iria transformar o vinho em Sangue da nova aliança.

 

3 – Aplicação

Qual é o conteúdo das 6 talhas de pedra que Jesus quer transformar hoje. E transformará em quê?

- A 1ª talha está cheia de ira e Jesus quer transformar em paciência.

Naquele momento da festa, alguém deve ter ficado chateado, cheio de raiva, porque o vinho tinha acabado. Jesus disse – Calma, ainda não chegou a minha hora. A ira atrapalha o relacionamento e a visão da situação. Jesus transforma isso em paciência. De facto, a Escritura diz que o amor é paciente.

- A 2ª talha está cheia de deceção e Jesus vai transformar em esperança. Os convidados, os servos, os noivos, ficaram todos dececionados. Sonharam tanto com aquela festa… e agora tudo se esvaía. A deceção faz parte da vida, nas é preciso não perder a esperança. De facto, ela é a última a desaparecer, mas tem de ser sempre a primeira a aparecer. Jesus transforma a deceção em esperança.

- A 3ª talha estava cheia de descrédito e Jesus transformou em confiança. Aquele casal e suas famílias teriam o descrédito total da vizinhança e conhecidos se a festa acabasse pela falta de vinho. Eles iriam cair na boca do povo. Mas Jesus devolveu-lhes a confiança, e afinal ainda hoje falam do vinho extraordinário guardado para o final. Só Jesus é capaz de transformar o descrédito em confiança.

- A 4ª talha tinha a ansiedade que se transformará em paz. A ansiedade provoca o sofrimento antecipado. O casal precisava ter paz e foi isso que aconteceu. Com Jesus a ansiedade virou paz.

- A 5ª talha tinha a tristeza que foi transformada em alegria por Jesus. O casamento quase que terminava em tristeza, mas a tristeza não pode ser o fim. A presença de Jesus az com que a tristeza se transforme em alegria.

- A 6ª talha era da frieza ou da indiferença que Jesus transformou em caridade ou amor. Muitos convidados e até mesmo os servos não se preocuparam em arranjar solução para a falta de vinho. Maria não ficou indiferente e procurou uma solução. A frieza ou a indiferença não pode permanecer na presença de Jesus. Ele transforma a indiferença em caridade e amor.

O que é que eu mais preciso que Jesus transforme na minha vida: A ira, a deceção, o descrédito, a ansiedade, a tristeza ou a indiferença?

Ou então o que é que eu mais tenho falta? Paciência, esperança, confiança, paz, alegria ou amor?

 

Ver também:

Bodas de Caná

Novo milagre de Caná

Casamento em Caná

Transformar a água

 

Partida para o Funchal


“Pelo meio-dia do dia 15 de janeiro de 1947, os dois fundadores da Província Portuguesa SCJ, os pobres D. Quixote e Sancho Pança, largavam do maravilhoso estuário do Tejo para a sua terra prometida: a Madeira.” (Memórias do Pe. Gastão Canova)

“Despedimo-nos agradecidos das boas Irmãs Doroteias e dizendo um até logo aos nossos missionários, embarcámos pontualmente no ‘Carvalho Araújo’. Pela tardinha, nós os dois, estávamos na amurada do navio saudando Lisboa que se afastava aos poucos. Lá foi andando o nosso barco e logo, barra fora, começou o baile. O ritmo do baile aumentou à passagem do enfiamento do estreito de Gibraltar. Estávamos, porém, nos nossos beliches durante a noite.” (Memórias do Pe. Ângelo Colombo)


sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Crónica de um santo (9)


Crónica de um santo na Madeira

 

9ª semana – A alegria de um santo

O Beato Carlos agradecia tanto as alegrias como as adversidades da vida porque para ele, tudo era dom de Deus. Também gostava de repetir com frequência: “Encontramo-nos nas mãos da Divina Providência. Tudo o que nos acontece está bem. Apenas confiemos.”

Era amável, respeitoso e cortês, sempre, em toda a parte e para com todos. Era impossível ver algum sinal de amargura em seu rosto ou ouvi-lo dizer qualquer palavra ríspida ou impaciente.

É por isso que os santos são chamados bem-aventurados, isto é, felizes.

Eles são felizes não por não sofrerem, mas apesar de sofrerem são felizes.

Não esperam rir para serem felizes. A sua alegria vem do seu interior e não depende das circunstâncias externas.

Segundo São Francisco de Sales, um santo triste é um triste santo.

Ao rever o Imperador a correr para partilhar uma alegria, vejo-o como missionário da alegria.

Ao revê-lo num passeio pela natureza em companhia de amigos, vejo-o como mensageiro da amizade e gratidão.

Eu nunca vi um santo triste!

14 de janeiro de 1922 – sábado

O arquiduque Roberto foi operado na Suíça, sem complicações.

Quando o Imperador recebeu a notícia, como lembrava o Cónego António Homem de Gouveia, correu solícito, mais de um quilómetro de distância, debaixo de uma chuva torrencial, para transmitir-lhe a notícia, exclamando: “Uma grande preocupação a menos na minha vida, e quanto agradeço a Deus.”

 

15 de janeiro de 1922 – domingo

 

16 de janeiro de 1922 – segunda-feira

 

17 de janeiro de 1922 – terça-feira

O Imperador não era só admirado e apreciado pelo povo simples, devoto e humilde. Também grandes personagens deram o seu testemunho de reconhecimento público. Foi o caso, de entre tantos, de Roosevelt que o achava como o “homem público, perfeito que a Europa possuía.” Também o poeta Anatole France o elogiava dizendo ser o Imperador Carlos “o único nome digno e grande na conflagração mundial 1914-1918.”

 

18 de janeiro de 1922 – quarta-feira

 

19 de janeiro de 1922 – quinta-feira

O Imperador, acompanhado pelo Cónego António Homem de Gouveia e por D. João de Almeida, foi em passeio a cavalo até ao Ribeiro Frio.

 

20 de janeiro de 1922 – sexta-feira


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Quem é a sogra de Simão


4ª feira – I semana comum

 

Este texto do Evangelho de Marcos 1, 29-39, tão conciso e pormenorizado, numa jornada típica de Jesus, é o relato que o velho Simão Pedro conta ao jovem Marcos.

Há vários aspetos que intrigam.

1. É o primeiro milagre que Jesus faz fora da sinagoga, o lugar santo agora é a casa, a pequena igreja familiar ou doméstica.

2. Quem é a “sogra doente”? É a comunidade, que tem febre, precisa ser curada para poder servir. Jesus não diz uma palavra: toca-a, toma-a pela mão, levanta-a.

3. Devemos ser curados para poder servir, nós mesmos estamos doentes e se não nos curamos como podemos servir?

4. Todos correm para serem curados, não entram em casa, permanecem fora e muitos são curados e se colocam a servir.

5. Jesus, mesmo cansado, vai rezar, mas todos o “procuram” e Pedro o “repreende” docemente.

6. Jesus não busca a fama, os louvores, os agradecimentos, mas vai... para continuar a sua missão.

 

Conclusão:

A velha Igreja “sogra” está doente, precisa ser curada, levantar-se para servir. Este é o caminho para sair de nós mesmos, para rezar, para não ficar cheio de autorreferência, para servir à nossa volta e ir mais além.

A nossa missão é ...ir...ir para outros lugares. Ir porque Jesus vai. Afinal Ele não vai connosco; nós é que vamos com Ele.

 

Ver também:

A nossa febre

A febre e a oração

Paciência, caridade e humildade

A sogra de Pedro

Em todo o lugar

Um dia em cheio

In+firmus

Ser mão

Em lugar deserto