quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O homem, o menino e o cão

Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde lembrei-me da história do Velho, o Menino e o Burro que todos conhecemos.

Tudo começou de forma simples.

Um pai regressava a casa a pé com o filho pequeno e o cão. O menino caminhava ao seu lado. O cão estava acomodado debaixo do braço do homem, como um pão.

Para os meus olhos a cena não batia certa.  A criança andava. O cão ia ao colo?

A gente que passava tirava rapidamente a mesma conclusão.

Uma mulher abordou-o. Educada no início, depois nem tanto.

- Como pode carregar o animal enquanto o menino faz tanto esforço por acompanhá-lo?

O homem olhou para ela. Olhou para o filho.

Então, explicou que o cão tinha sofrido uma lesão grave na semana anterior. Um ligamento rompido, dissera o veterinário. Três a quatro semanas sem colocar peso na pata; caso contrário, a lesão tornar-se-ia permanente. O cão não entendia isso. Se fosse deixado no chão, caminharia apoiando a pata de qualquer maneira, pois os cães não negoceiam com a dor como as pessoas fazem. A única solução era carregá-lo.

O menino, por sua vez, tinha quatro anos e gozava de perfeita saúde. Ele conseguia andar. Queria andar. De vez em quando estendia a mão para acariciar o cão.

Uma outra versão diz simplesmente que o alcatrão estava muito quente e o cão não tinha sapatos.

A mulher que os tinha mandado parar ficou em silêncio. O que parecia negligência era, na verdade, o oposto. Um pai que seguira atentamente as indicações de um veterinário. Um pai a cuidar de dois dependentes ao mesmo tempo.

O menino não precisava de ser carregado. O cão, sim. Ele sabia a diferença.

Existe uma versão desta história que termina com a multidão a aplaudir ou a mulher a pedir desculpa de forma dramática.

As pessoas que julgam rapidamente tendem a avançar com a mesma rapidez quando o julgamento se desfaz.

Mas o homem continuou a caminhar. E, algures atrás deles, uma multidão de pessoas muito convictas teve de encontrar um novo motivo para se sentir convicta e julgar qualquer coisa.

Não me lembro quem me inspirou isto. Só sei que todos nós, mesmo quando corremos, somos ainda mais rápidos a formular juízos negativos sobre os outros, como estou a fazer agora…

 

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