Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde
lembrei-me da história do Velho, o Menino e o Burro que todos conhecemos.
Tudo começou de forma simples.
Um pai regressava a casa a pé com o filho
pequeno e o cão. O menino caminhava ao seu lado. O cão estava acomodado debaixo
do braço do homem, como um pão.
Para os meus olhos a cena não batia
certa. A criança andava. O cão ia ao
colo?
A gente que passava tirava rapidamente a
mesma conclusão.
Uma mulher abordou-o. Educada no início,
depois nem tanto.
- Como pode carregar o animal enquanto o
menino faz tanto esforço por acompanhá-lo?
O homem olhou para ela. Olhou para o filho.
Então, explicou que o cão tinha sofrido uma
lesão grave na semana anterior. Um ligamento rompido, dissera o veterinário.
Três a quatro semanas sem colocar peso na pata; caso contrário, a lesão
tornar-se-ia permanente. O cão não entendia isso. Se fosse deixado no chão,
caminharia apoiando a pata de qualquer maneira, pois os cães não negoceiam com
a dor como as pessoas fazem. A única solução era carregá-lo.
O menino, por sua vez, tinha quatro anos e
gozava de perfeita saúde. Ele conseguia andar. Queria andar. De vez em quando
estendia a mão para acariciar o cão.
Uma outra versão diz simplesmente que o
alcatrão estava muito quente e o cão não tinha sapatos.
A mulher que os tinha mandado parar ficou em
silêncio. O que parecia negligência era, na verdade, o oposto. Um pai que
seguira atentamente as indicações de um veterinário. Um pai a cuidar de dois
dependentes ao mesmo tempo.
O menino não precisava de ser carregado. O
cão, sim. Ele sabia a diferença.
Existe uma versão desta história que termina
com a multidão a aplaudir ou a mulher a pedir desculpa de forma dramática.
As pessoas que julgam rapidamente tendem a
avançar com a mesma rapidez quando o julgamento se desfaz.
Mas o homem continuou a caminhar. E, algures
atrás deles, uma multidão de pessoas muito convictas teve de encontrar um novo
motivo para se sentir convicta e julgar qualquer coisa.
Não me lembro quem me inspirou isto. Só sei
que todos nós, mesmo quando corremos, somos ainda mais rápidos a formular
juízos negativos sobre os outros, como estou a fazer agora…

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