segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ser Cambado

Alguém veio até à escola pedir-me um favor. Ouvi-o, fiz o que me pediu e disse-lhe:
- Espero que não sejas cambado…
- Isso que quer dizer?
- Como tiveste pés para vir pedir, espero que tenhas também pernas para vir agradecer…
E contei-lhe uma história inventada nesse preciso momento:

“Havia um homem que sonhou que tinha entrado no paraíso. Ficou surpreendido pois viu-se cambado.
- Como era possível ressuscitar no céu só com uma perna quando na terra sempre tive as duas pernas perfeitas? – Foi pedir explicações a São Pedro.
Este, depois de ter lido o Livro das Obras, concluiu:
- Aqui está escrito que durante a tua vida terrena só tinhas pernas para pedir e nunca as tinhas para agradecer. Já eras assim cambado lá na terra… e aqui no céu sempre te reconhecemos só com uma perna.”

É assim que nós rezamos no IX Prefácio do Tempo Comum (Domingo) para que Deus conduza a Igreja para que: nunca deixe de invocá-l’O nas suas tribulações nem de Lhe dar graças nas suas alegrias.
Quem só pede e não sabe agradecer, é como um coxo ou um cambado… não irá longe.

domingo, 18 de janeiro de 2009

À Frente ou Atrás?

Dei a bênção com o Santíssimo Sacramento, no final da adoração na Igreja Paroquial.
Durante a aclamação final, um irmão da confraria veio para a frente do altar com uma cruz processional.
Transladei a Eucaristia da custódia para a teca e pensei - Devo depositar a Eucaristia no Sacrário e devo ir em procissão, pois aqui está uma cruz… - cheguei-me à frente e começámos a andar.
Atrás de nós vieram os acólitos e os outros irmãos da confraria do santíssimo com as suas opas vermelhas. Notei, porém, que havia um certo incómodo dessa gente atrás de mim. Percorremos assim a igreja pelo centro até ao fundo e depois pelo corredor lateral até ao Sacrário: a cruz à frente, eu com o Santíssimo logo a seguir e por fim todos os outros…
Repus a Eucaristia no Sacrário, enquanto se entoava o cântico final, e todos se posicionaram de maneira diferente para se dirigirem para a sacristia: a cruz à frente, os irmãos da Confraria, os acólitos e por fim o sacerdote.
Quando chegámos à sacristia, ouvi em coro a crítica:
- O senhor padre não sabe que deve ir, não à frente, mas no fim do cortejo com o Santíssimo?
- Calminha! – disse eu – Só sei que Nosso senhor nos pediu que O seguíssemos, que fôssemos atrás d’Ele. Portanto, devemos ser nós a ir atrás d’Ele e não Ele a ir atrás de nós…
- Cada cabeça, cada sentença – pensaram todos no seu íntimo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Dia Mais Importante

Ano B - II Domingo Comum

Era por volta das 4 hora da tarde.

É surpreendente esta recordação que os discípulos têm do primeiro encontro com Jesus. Foi uma experiência fascinante que nunca mais esqueceram, lembrando-se de pormenores como a hora precisa, o que estavam a fazer, onde, com quem etc.
Perguntei a uma criança:
- E para ti qual é dia mais importante ou mais feliz?
- Foi o dia da primeira comunhão, ou o primeiro dia de escola.
Recordei que até o Imperador Napoleão respondeu assim. Para ele o dia mais feliz não foi quando venceu a maior batalha ou quando foi coroado imperador, mas o da primeira comunhão. E a criança ficou satisfeita com a coincidência.
- És capaz de adivinhar agora qual é o dia mais importante para mim?
A resposta surgiu em avalanche:
- Foi o dia em que entrou no seminário, o dia da ordenação sacerdotal, o dia da primeira missa ...
- Nada disso. O dia mais importante para mim é hoje. Por isso não tenho saudades do passado. Hoje é mais importante que ontem e amanhã ainda melhor que hoje.
Que todos possamos viver com toda a intensidade o dia de hoje, como encontro pessoal com Deus, sentindo os seus efeitos e progredindo no seu caminho, tal como os primeiros discípulos experimentaram.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vida de Capelão (34)

- Ó Capelão, as gajas da Base andam todas atrás de si.
- Atrás não me interessam. Vai dizer-lhes que se ponham todas à frente.

Criancices (34)

- Olha, porque é que usas a camisola amarrada atrás das costas?
- Não sabe que isto é um avental?
- Ó, eu não sabia que usavas um avental atrás. E para que queres tu um avental nas costas?

domingo, 11 de janeiro de 2009

Baptizados

Ano B - Baptismo do Senhor

Um grupo de crianças estava a competir para escolher qual delas era a mais importante:
- Eu sou o filho do Professor…
- Eu sou o filho do doutor…
- Eu sou o filho do empresário mais rico…
- Eu sou o filho do presidente da Câmara…
- E tu?
- Eu?! Eu sou filho… de Deus!
Foi esta última criança a escolhida. Afinal todos eram filhos de gente importante, mas o mais importante é que todos eram FILHOS DE DEUS. Apenas um se lembrou dessa filiação, a mais elevada, a mais digna de todas.
Celebrar o Baptismo do Senhor é lembrar o nosso próprio baptismo. Afinal ocorreu o mesmo fenómeno: Nesse dia os céus também se abriram para nós e uma voz se fez ouvir: tu és meu filho muito amado… Nesse dia fomos declarados FILHOS DE DEUS.
Saboreemos esse facto! Que delícia é ser FILHO DE DEUS!

Alguém me chamou a atenção:
- Então, se todos os seres humanos são filhos de Deus, por que é que você diz que pelo baptismo nos tornamos FILHOS DE DEUS?
- É que todos são filhos de Deus, mas nem todos o sabem nem o aceitam. Ser baptizado é aceitar essa filiação.
- E os não baptizados não vão para o Céu?
- Estou convencido de que o céu é a casa de felicidade para todos os homens. Todos serão recebidos aí, mas quem é baptizado tem já a porta do céu aberta. No dia do baptismo o céus abriram-se… quando este der entrada no céu nem precisará de bater à porta. Ela estará escancarada para o receber desde o dia do baptismo. Quem não é baptizado, entrará também no céu, sem dúvida, mas a porta só será aberta nessa altura…

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Vida de Capelão (33)

Alguém reparou no cinzeiro bem recheado no meu gabinete junto à Capela:
- Ó Capelão, porque é que você fuma tanto e ainda por cima junto da Capela?
- Sabes, é a única maneira de ter por cá beatas novas.

Criancices (33)

Estávamos a falar à frente da porta do Colégio: duas alunas, a sua mãe e eu.
Passa um carro e eu digo para a Encarregada de educação:
- Olha, parece o carro do teu marido.
As miúdas ao ouvirem tal começam a correr atrás da viatura gritando:
- Pai, pai... - pensando que de verdade fosse o seu pai
A mãe muito depressa atalha:
- Ó pequenas, não me envergonhem...

Ouvir e ser Curado

6ª Feira - depois da Epifania

Do Evangelho de hoje:

“Cada vez se divulgava mais a fama de Jesus e reuniam-se grandes multidões para O ouvirem e serem curados dos seus males.”

A importância de ouvir:

Ouvir para ser curado - ouvir ► ser curado

Ouvir é ser curado - ouvir ═ ser curado

Ouvir e ser curado - ouvir + ser curado

Educador Intergeracional

Pe. Mário Casagrande

Numa aula de Educação Moral o Pe. Mário perguntou à turma:
- Quando é que acham que se deve começar a educar os filhos?
A essa questão a maior parte de nós respondeu:
- Logo à nascença, a começar no próprio dia do nascimento…
- Tarde demais! - concluiu o Pe. Mário – Estou convencido de que este processo deve começar vinte anos antes do filho nascer…
De facto o Pe. Mário via a educação como um processo dinâmico, um investimento a longo prazo, uma sementeira perene, um acto intergeracional.
Conheci este educador nato no Colégio Infante como meu Director e Professor de Matemática, Ciências Naturais, Geografia, Ciências Físico-Químicas e Educação Moral e Religiosa.
Conheci-o mais tarde como confrade da mesma Congregação, como colega no sacerdócio e como colega na leccionação de Educação Moral.
Por ironia do destino, conheci-o também como seu Superior no Colégio Missionário e como seu Director na nossa Escola da APEL.
De tudo o que o Pe. Mário me ensinou, guardo não tanto as lições da vida da escola, mas sobretudo as lições da escola da vida.
Se ele dizia que a educação de uma pessoa começa vinte anos antes de ela nascer, hoje quero dizer que estou convencido de que um educador só acaba de educar vinte anos depois de ter falecido. É por isso que o Pe. Mário ainda hoje continua a educar.
Obrigado Pe. Mário por esta lição intergeracional!

Grande Educador

Pe. Mário Casagrande

Depois de uma entrada no Hospital do Funchal a 17 de Dezembro de 2008 veio a falecer na madrugada de 4 de Janeiro de 2009 o Padre Mário Casagrande.
Foi educador e professor de várias gerações de jovens quer no Colégio Infante D. Henrique quer na Escola da APEL da qual foi co-fundador.
Nascido em Vittorio Veneto, Itália em 1930, quis ser missionário. Entrou na Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos) para aí concretizar o seu sonho. Depois da sua ordenação sacerdotal, em 1957, foi enviado para Portugal e o seu sonho continuou... Foi no Monte, no Colégio Infante D. Henrique, que transformou o seu sonho em realidade – abraçou a missão que Deus lhe confiou junto dos mais jovens, na escola e na Igreja e na sociedade. Foi missionário aqui mesmo: um trabalhador incansável, um homem muito prático, um professor bem acessível, um irmão tão generoso.
Na Escola da APEL, ao longo dos seus 30 anos de actividade, todo ele foi educador: ensinava com o trabalho das suas mãos, educava com a sua presença, incentivava com as suas palavras. Toda a sua vida foi uma contínua lição.
As suas homilias eram breves, mas incisivas. A sua mensagem era divertida, mas acertada. Era um comunicador sensível.
O seu mérito tem sido reconhecido pelos seus alunos, colegas, amigos. Exemplo disso foi a distinção de Comendador da Ordem da Instrução Pública que lhe foi conferida a 28 de Setembro de 1998 pelo Presidente da República.
No dia da Epifania ou dos Reis Magos uma pessoa amiga recordava:
“O Pe. Mário Casagrande seguiu hoje a sua Estrela. E nós temos mais uma no céu para nos guiar…”
O Pe. Mário continuará a ser um grande educador através da sua estrela e através das sementes que tão sabiamente deixou nesta terra.
Começamos já a ter saudades do Pe. Mário Casagrande!

Um Grande Homem e um Homem Grande


Pe. Mário Casagrande

Faleceu às primeiras horas do dia 4, no Hospital do Funchal, o Padre Mário Casagrande, que há quinze a esta parte estava internado com graves problemas de saúde.
Estamos em comunhão orante com ele, pedindo ao Senhor que o acolha junto de Seu Coração.
Que o seu exemplo de vida, totalmente oferecida a Deus e às pessoas, em particular aos jovens no campo da educação, seja incentivo para renovarmos a nossa entrega ao serviço do Reino, neste tempo de Epifania em que procuramos redescobrir a manifestação do Amor de Deus pela Humanidade.

O Pe. Mário nasceu a 25 de Julho de 1930 em Vittorio Veneto, Itália. Aos 11 anos entrou no Seminário dehoniano de Bolonha, sendo ordenado sacerdote a 23 de Junho de 1957.
Como tal veio trabalhar para Portugal, primeiro no Colégio Camões em Coimbra e a partir de 1961 no Funchal. No Colégio Infante D. Henrique onde foi Professor, Educador, Director Escolar e Superior da Comunidade Religiosa. Deixou marcas em muitas gerações sua pedagogia humanista, simplicidade e bom humor. Foi ele o iniciador da co-educação ou do ensino conjunto de rapazes e raparigas.
Esteve nos inícios da Escola da APEL - Associação Promotora do Ensino Livre – então Escola Complementar do Til, onde foi Director Escolar de 1978 a 1984 e de 1987 a 2000, Professor, Educador, Inovador, Construtor, Fundador… de tal modo que falar do Pe. Mário é falar da APEL, pois o rosto da APEL é o rosto do Pe. Mário.
Foi também Capelão do Centro Prisional dos Viveiros durante 20 anos e do estabelecimento Prisional da Cancela e sempre se orgulhou desse serviço.
Foi professor de italiano em várias instituições de ensino entre as quais o Conservatório e a Escola de Línguas
Fundou a AMAPEL - Associação Madeirense de Apoio ao Ensino Livre - a 21 de Janeiro de 1992 para apoiar estudantes universitários que saíam da APEL para o Portugal Continental. Ainda hoje exercia o cargo de presidente da Direcção desta Instituição de solidariedade.
A 28 de Setembro de 1998 o Presidente da Republica, Dr. Jorge Sampaio, conferiu-lhe o grau de Comendador da Ordem da Instrução Pública.
Celebrou Bodas de Ouro Sacerdotais a 23 de Junho de 2007 no Funchal - no Colégio Infante, comunidade onde viveu os primeiros e os últimos anos da sua vida, dedicada à juventude, à educação e a Deus.
Foi homenageado pela ADECOM com o Prémio Educação a 22 de Novembro de 2008.
O Pe. Mário, como o seu sobrenome explicita, era de facto um homem grande ou uma casa grande. Acima de tudo ele foi um grande homem, com grandeza de coração, com uma generosa vocação e uma simplicidade de vida que soube cativar a todos, a começar pelos mais jovens. Foi um grande homem não pelo facto de ter feito o que fez, mas precisamente fez tudo isso porque era um grande homem.
Obrigado Pe. Mário Casagrande!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bem Parecido

Ano B - Baptismo do Senhor

Conta um missionário que, um dia, estava a rezar o breviário e um garoto espreitou a página e viu uma estampa com o Menino Jesus.
- Oh, que lindo! É seu filho?
- Não. Respondeu-lhe, a sorrir, o sacerdote - é meu irmão…
- Ah, está bem. Mas olhe que ele não se parece nada consigo.
- Pois é - Pensou aquele missionário - durante toda a minha vida não faço outra coisa do que procurar ficar parecido com Ele.
Ainda hoje faz-se ouvir a mesma voz de Deus: Tu és meu filho muito amado. Nós somos da mesma Família de Cristo. E como diz a sabedoria popular quem sai aos seus não degenera. Através do Baptismo cada um torna-se parecido com Cristo. Ele deixou-se baptizar para Se identificar connosco e para santificar aquelas águas pelas quais um dia havíamos de passar.
Agora é tempo de nos tornarmos parecidos com Ele, nas palavras, nas obras, na vida e no caminhar. É por isso que rezamos nesta Festa do Baptismo do Senhor: já que Cristo se manifestou aos homens na realidade da nossa natureza, que saibamos reconhecê-lo exteriormente semelhante a nós para sermos por Ele interiormente renovados.
Precisamos muito de alguém que seja em tudo parecido com Cristo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Ser Estrela

Ano B - Domingo da Epifania
Os Magos chegaram a Belém guiados por uma estrela.
É que as pessoas são ou como estrelas ou como cometas:
Os cometas passam, as estrelas permanecem.
Há gente cometa que passa pela vida apenas por instantes, gente que não prende ninguém e a ninguém se prende, gente sem amigos que passa pela vida sem iluminar, sem guiar ou marcar presença.
O importante é ser estrela, estar junto, ser luz, ser calor, ser vida.
Um amigo é uma estrela. Podem passar anos, podem surgir distâncias mas a marca fica no coração.
Há necessidade de criar um mundo de estrelas. Todos os dias poder contar com elas e poder sentir a sua luz e calor.
Ser estrela neste mundo passageiro de pessoas cometas é um desafio e uma recompensa. Recompensa por ter sido luz para muitos amigos, ter sido calor para muitos corações, ter nascido e ter vivido e não apenas existido.
Na nossa constelação cada estrela tem o seu brilho próprio onde o importante não é brilhar mais mas brilhar sempre.
Há um autor desconhecido que escreveu:
"Para que a sua estrela brilhe, não é preciso apagar a minha."

Dia Mundial da Paz

Celebrou-se no 1º de Janeiro o 42º Dia Mundial da Paz

Este ano o Papa Bento XVI escolheu para tema da sua mensagem:
COMBATER A POBREZA, CONSTRUIR A PAZ

Ao ler e reflectir esta mensagem de 7 páginas densas chego a 3 conclusões:


Nas palavras do Papa há diversas pobrezas que devemos combater para sermos construtores da paz:
- A pobreza material
- A Marginalização
- A pobreza relacional
- A pobreza moral
- A pobreza espiritual
- A pobreza cultural
- As pandemias
- A pobreza infantil
- A Crise alimentar…


Os meios para combater a pobreza são:
- Apoiar toda a família humana
- Solidariedade criativa
- Partilhar o supérfluo
- Alterar estilos de vida
- Novos modelos de produção
- Novos modelos de consumo
- Mudar estruturas de poder…


Depois disto tudo só me apetece repetir o que se diz na minha terra:
Casa onde falta o pão, todos ralham e ninguém tem razão.
Ou por outras palavras: combater a pobreza, construir a paz.
Para quê tantas palavras, quando o povo resume numa expressão tão simples?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Natal (9)

Sagrada Família

A porta que dá para a Basílica da Natividade, em Belém, é pequena e tão baixa que só se pode entrar curvando-se à altura de uma criança. O guia explica que foi construída assim para evitar a entrada de intrusos, de animais que na altura abundavam por ali.
Esta porta é uma lembrança e um convite:
Lembra que o Natal é o abaixar-se do Altíssimo que visitou o seu povo, fazendo-se tão pequeno, à medida da nossa estatura.
É também um convite a pôr-se numa posição de pequeno: Se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino dos Céus. Todo aquele que por esta porta entra, humilha-se e ajoelha-se.
Esta atitude de oração é o efeito da contemplação da Sagrada Família. Toda está em oração. A Virgem Maria, segundo a tradição, está de joelhos. São José igualmente recolhido e o Menino, de braços abertos, oferece a Deus Pai a oração de toda a Família. Os pastores que acorreram, prostram-se aos pés de Jesus e regressando cantavam os louvores do Senhor. Até mesmo os Anjos entraram neste clima de oração, dando glória a Deus.
Ao celebrarmos a Sagrada Família somos envolvidos neste clima de oração.
Se o presépio não nos leva à oração, se não nos une a Deus e aos irmãos, para que é que Jesus nascer!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal (8)

Natal no Quartel


Cumpri o meu serviço militar como capelão numa unidade de instrução, mais concretamente numa Base Aérea. A celebração do Natal, neste ambiente, teve para mim um significado mais genuíno em vários aspectos.
O que mais me surpreendeu foi o Presépio e a representação natalícia fora do habitual. Em vez da gruta havia uma tenda de campanha. O berço era um pneumático. Maria e José estavam vestidos, não como há 2008 anos, mas de camuflado. Os anjos tocavam clarim anunciando o nascimento do Menino como nova alvorada. Os pastores não traziam ovelhas pelos campos mas sim um pelotão pela parada. Ninguém se ajoelhava mas, junto à tenda, apresentavam armas ou faziam continência. Os reis magos substituíram os seus camelos por carros de combate e em vez de coroa na cabeça traziam um capacete militar. E tantos outros elementos da vida militar... Terá sido isto um atentado ao espírito do Natal?
Para mim foi uma boa oportunidade para descobrir algo mais do Natal. Não foi apenas o quartel a adaptar-se ao Natal mas este a traduzir-se em linguagem militar. Deus serve-se sempre da nossa realidade para Se manifestar. É nosso tempo, no nosso mundo, na nossa experiência concreta que deve haver Natal. Senti isso de modo especial na tropa.
No quartel vivi o Natal fora da minha terra, fora da minha família tal como o que aconteceu com Maria, José e o Menino.
O primeiro Natal ocorreu em tempo de guerra, num país ocupado por forças estrangeiras. A minha experiência na vida militar, em tempo de paz, fez-me recordar tudo isso.
Não foi mais do que a concretização da frase: “Deus plantou a sua tenda entre nós”. E realizou-se a profecia de Isaías: “Das espadas farão relhas de arado e das lanças forjarão foices”. É que as armas, aos pés de Jesus, ganharam outro sentido.
Estou grato à vida militar por me ter proporcionado um Natal tão sugestivo.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Natal (7)

A Melhor Prenda

Neste domingo acordei com vontade de comprar um presente para o Menino Jesus, afinal, no dia 25 de Dezembro o aniversário é dele. Sentia-me cansado de escolher prendas para tanta gente excepto para a personagem principal de mais um Natal. Também não achava bem continuar a receber tantos presentes dos meus amigos quando Ele ficava preterido para segundo plano.
Saí cedo de casa e fui ao maior shopping da cidade sem pensar ao certo que oferta poderia escolher no meio das sugestões que por lá abundam.
Nas lojas de roupa veio-me à ideia comprar uma nova túnica, talvez bordado Madeira, para o meu Menino. Quando vi que o branco mais branco do linho ainda era cinza perto da sua pureza, fiquei com vergonha e passei adiante.
Numa vitrine vi umas sandálias de couro, mas lembrei-me que também eu não sou digno de desatar as sandálias dos seus pés como referiu João Baptista.
Tinha de escolher algo mais moderno. Talvez uma linda caneta de marca famosa, com o nome de Jesus gravado em ouro. Veio-me então à memória tudo o que Ele falou e mostrou com o exemplo e não o que escreveu.
Já meio desanimado continuei a espreitar entre as lojas à procura de algo para oferecer a Jesus, no seu aniversário. Tudo me parecia supérfluo e não apropriado para partilhar com Alguém com tanta dignidade. Afastei ainda outras duas ideias: Uma coroa de pérola que não servia pois o seu reino não é deste mundo e uma almofada de brocados de ouro pois Ele queixara-se um dia de não ter onde reclinar a cabeça. Ri-me de mim mesmo pois tudo o que via era matéria que o tempo iria corroer e ele era o senhor do tempo.
Confesso que saí frustrado do Shopping sem comprar o presente que Jesus merecia.
Junto ao carro cruzei-me com um rapaz, talvez um arrumador, que me cumprimentou sorrindo e estendeu-me a sua mão. Não sei se foi para me dar um aperto de mão ou para pedir esmola. Só sei que fiquei assustado e, tirando a mão do bolso, entreguei-lhe a nota que não gastei na compra do presente sonhado para o Menino Jesus. Ao chegar a casa achei-me ridículo, verdadeiramente de mãos vazias, com um presente adiado e sem o dinheiro reservado para o comprar. Ao abrir a porta encontrei uma carta no chão com uma mensagem que dizia assim:
”Obrigado pelo melhor presente de aniversário que me podias dar: Fizeste feliz um dos pequeninos deste mundo!” assinado, Jesus.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Natal (6)

O SONHO DE MARIA

“Esta noite sonhei, José, que toda a gente estava a preparar uma grande Festa. Limpavam tudo, decoravam as casas e compravam roupa nova. Saíam às compras e adquiriam muitos presentes. Não pude compreender bem o que se passava mas creio que se tratava de um aniversário natalício. Creio até que se tratava do nascimento no nosso Filho.
O que mais me surpreendeu, José, é que esses presentes não eram para Ele. Envolviam-nos em lindos papéis que atavam com preciosas fitas e colocavam-nos debaixo de uma árvore. Sim, José, devias ver essa árvore brilhante! Toda a gente estava feliz e emocionada com as ofertas. Trocavam prendas uns com os outros mas... não ficou nada para o nosso Filho.
Pareceu-me que nem O conhecem pois nunca mencionavam o Seu nome. Não te parece estranho que as pessoas se cansem tanto para celebrar o aniversário de Alguém desconhecido? Se Jesus batesse à porta seria apenas um intruso.
Tudo estava tão lindo, José, e todo o mundo feliz, mas eu senti vontade de chorar.
Que tristeza para Jesus não ser desejado na sua própria festa de anos.
Estou contente porque foi apenas um sonho, mas que terrível seria se tudo isto fosse a realidade!”

Boas Festas e não se esqueçam de colocar Jesus no centro do Natal!

Natal (5)

Deus fez-se homem

O Verbo divino se fez carne e habitou entre nós. É este o ponto central do mistério do Natal. Um Deus que se fez homem como nós, excepto no pecado, para elevar a nossa condição humana.
Os meus colegas, professores de biologia, mostraram-me a lista dos elementos que constituem o corpo humano. Depois de saber as proporções e as medidas destes componentes, cheguei à conclusão da pequenez do nosso corpo humano.
Com a água de um corpo humano lavava-se uma toalha.
Com o ferro tirado dos glóbulos vermelhos do sangue podiam fabricar-se sete cravos para uma ferradura.
Com o gesso poderia caiar-se a parede de um quarto individual.
Transformando em grafite ou carvão, proporcionaria matéria para preparar noventa e cinco lápis.
Com o fósforo poderia fazer-se uma caixa de fósforos.
Com o sal obteríamos algumas colherinhas para condimentar uma salada familiar.
Se tivéssemos de comprar tudo isto em conjunto, diria uma empregada doméstica, gastaríamos apenas um euro e pouco.
De facto a nossa condição humana é reduzida, mas Deus, ao assumir um corpo como o nosso, veio dotar-lhe de grandeza e majestade.
Aos olhos humanos valemos pouco mas aos olhos de Deus somos tão importantes que ele quis ser como nós. Deus nasceu como nós para que pudéssemos viver como Ele.
O Natal mostra-nos um Deus que se preocupa com o homem, que desce ao lado do homem, que se avizinha do homem, que se faz homem. Um Deus que se põe na estrada do homem para fazer caminhada juntos, para compartilhar com ele aflições, misérias, lágrimas, angústias e esperanças.
Deus ao nascer menino supera todos os horizontes terrenos. O homem é elevado à condição divina. Deus é um da nossa família humana e nós pertencemos à sua raça. Este mistério manifesta a grandeza do homem e a valorização plena do nosso corpo. Apesar disso nós consideramos Deus como um intruso na nossa vida. Achamos que ele é um desmancha-prazeres, como um inimigo do nosso corpo. Achamos que Ele veio para nos despojar do nosso corpo.
Materialmente nós valemos um pouco mais de um euro. Jesus Cristo veio repor-nos a grandeza ao assumir um corpo como o nosso.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Natal (4)

O MELHOR PRESENTE


Neste Natal, como o momento é de austeridade, tive de cortar no orçamento, poupar no luxo, reduzir as expressões, juntar as visitas. À medida que limitava os gastos, os compromissos e as atenções, vi-me concentrado no essencial do Natal. Para quê tanto folclore se o Natal é tão simples? Natal é apenas isto, e é tão grande: “é o Filho de Deus que Se fez homem para fazer dos homens filhos de Deus.”
Tenho de agradecer à crise económica a oportunidade que me deu de me centrar na especificidade do Natal.
Nesta quadra natalícia, não quero nem posso dar e receber ofertas vazias de sentido, fazer celebrações banais, receber inutilidades – troca de prendas, postais, mensagens de telemóvel, brindes… Nada disto.
Quero apenas estar com os meus amigos e que Cristo seja um deles.
Para todos eles, partilho um episódio que me contaram e que me estimula a viver de maneira diferente o meu Natal:

“Uma senhora ia todos os Domingos à Missa. À porta da igreja, um homem pedia esmola. A senhora passava, o pedinte estendia a mão e uma moeda sempre lá ficava. Fosse Verão ou Inverno, Natal ou Páscoa, a esmola era entregue como ritual de entrada no lugar sagrado.
Um dia, porém, sem saber como, a senhora à porta da igreja reparou que se tinha esquecido da carteira em casa. E agora? O seu pobre lá estava de mão estendida e ela, pela primeira vez, não podia exercer a sua caridade. Toda envergonhada disse:
- Peço-te desculpa. Hoje não te posso dar nada. Esqueci-me do dinheiro em casa!
O mendigo sorriu feliz e respondeu com toda a sinceridade:
- Muito obrigado! Hoje a senhora deu-me muito mais do que todos os outros dias. Hoje dignou-se falar comigo pela primeira vez. Obrigado!”

O Verbo encarnou e habitou entre nós. É este Menino Deus que veio falar connosco que quero celebrar neste Natal.
Dispensarei as ofertas, a dar ou a receber, para estar mais disponível para falar com Ele e estar os outros.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Natal (3)


LAPINHA OU ESCADINHA MADEIRENSE

1. A escadinha
É formado por três ou mais degraus, de aspecto piramidal, tendo no topo o menino Jesus de pé para quem tudo converge.
O Deus Menino desce pelos caminhos dos homens para os elevar até aos Céus. A nossa vida é assim uma escalada que representa esforço e ascese.
É o altar do presépio no qual Deus se nos oferece.
Por fim é a analogia com o Monte Calvário – O Cristo que nasce veio salvar-nos pela sua Cruz e Ressurreição.

2. Searinhas
Criam um ambiente natural, como campo fértil. Cristo como novo Adão passeia por esta terra, novo Éden. É sinal de esperança e de reconciliação.
Representa também o trabalho do homem e a harmonia da natureza.
Por fim é a referência ao mistério da Eucaristia. Desse trigo das searas a crescer, Cristo se servirá, na Última Ceia, como sacramento do seu corpo.

3. A fruta
Espalhada pela escadinha encontra-se a melhor fruta. São oferecidos a Deus os melhores frutos da terra. Dão cor e sabor à nossa vida.
Aos pés do Menino Deus é reposto o fruto que outrora foi roubado da Árvore da Vida pelos nossos primeiros pais.

4. Arco florido
É uma espécie de baldaquino ou cúpula natural de alegra-campo e flores.
Representa a abóbada celeste expressando a antífona: abram-se os céus, germine a terra e chova o Salvador.
O colorido das flores do arco e dos ramalhetes sugere o arco-iris da Nova Aliança que o Messias veio instaurar.
Este céu é de esperança e de alegria realçado pelo alegra-campo.

5. Pastores
Na lapinha madeirense figuram não são os pastores de há dois mil anos, mas também gente tradicional da Madeira. É uma expressão anacrónica com bandas de música, matança do porco, procissões, romarias, igrejas, cenas do quotidiano da nossa terra.
Lembra que Cristo veio não só para o mundo de então, mas também ao mundo do nosso tempo, aqui e agora.
É a valorização do presente e a actualização da redenção.
Os homens precisam de Deus e este precisa dos homens de hoje e de sempre.

6. A lamparina
Permanece acesa durante toda a quadra natalícia.
É o sinal da presença de Alguém. Cristo é a verdadeira luz que veio a este mundo. Na sua presença ninguém vive nas trevas.

7. O Menino de pé
É um vencedor no pódio para onde tudo converge.
Não está a dormir, mas quer caminhar connosco.
Aponta para o alto donde veio e para onde nos quer levar.
Assume a nossa condição humana, como ‘homo erectus’.
Lembra também a sua Ressurreição como Cristo glorioso.
Finalmente, está de braço levantado como que a pedir a palavra.
Deixemo-lo então falar…

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

... Deus, esse desconhecido

Ano B - IV Domingo Advento

Certo dia, uma menina de seis anos veio contar-me, toda satisfeita:
- Senhor Padre, eu ontem fui à catequese.
- Muito bem, Marilisa. E com certeza aprendeste muitas coisas. Diz-me, por exemplo, o que é que já sabes.
- Eu aprendi que o Pai do Menino Jesus não é São José...
- Óptimo! És capaz de dizer então quem é o Pai de Jesus?
A Marilisa põe-se a pensar, esforça-se e desiste:
- É um Senhor que já não me lembra o nome...É verdade, Deus é um Senhor que não conhecemos bem.
Tal como nos diz São Paulo neste IV Domingo do Advento, é "um mistério encoberto desde os tempos eternos mas agora manifestado e dado a conhecer a todos os povos".
Somos limitados para compreender o mistério de Deus mas Ele conhece-nos bem, tal como conhecia a Virgem Maria e os desejos do rei David.
O Natal vem ensinar-nos algo sobre Deus: Ele é Pai. É ao mesmo tempo um Irmão, que nasceu com um rosto humano para nos lembrar que O podemos encontrar no nosso semelhante.
Obrigado, Marilisa, por me teres lembrado que se sabemos pouco de Deus, Ele Se nos revela como Alguém próximo, a caminhar connosco. Ele entrou na nossa história para nos ajudar a conhecer melhor, a Ele e a nós mesmos.

O Caminho do amor

Ano B - II Domingo Advento

Um pai contou-me, emocionado, uma lição que recebera da sua filha mais nova.
Durante a missa do passado fim-de-semana, o Padre falou da preparação que era preciso fazer para o Natal. A miúda, desde a Igreja até casa, não parou de pedir coisas ao Pai, que comprasse isto, aquilo e mais outra coisa e tal. Por fim o pai perdeu a paciência (e só se perde aquilo que se tem):
- Compra-me isto! Compra-me aquilo! - explodiu - E tu? Já pensaste o que é que vais dar aos teus pais? Só falas em ti. E nós? O que tens para nos dar?
A resposta da filha deixou-o sem palavras:
- Só tenho amor. Disse simplesmente.
O amor é o lugar de encontro onde se cruzam os caminhos de Deus e o dos homens. Preparar os caminhos do Senhor é afinal apurar o coração, afinar o amor, partilhar aquilo que afinal todos têm. O amor deve ser a única coisa que quanto mais se dá mais se terá. Deus amou de tal maneira o mundo que lhe enviou o Seu Filho. Foi o amor que nos trouxe o Salvador. Só o mesmo Amor que nos levará até Ele. É preciso amar a Deus servindo os irmãos e ao mesmo tempo amar os irmãos servindo a Deus.

Natal (2)

NATAL É DOM

Aproxima-se o tempo de Natal. A azáfama é grande nas ruas, lojas, casas e por toda a parte. Preparam-se iguarias, enfeites, presépios e ... muitos presentes. Todos se preocupam para que não falte uma prenda a ninguém nesta quadra natalícia.
Numa loja de brinquedos, entre tantas compras e vendas, um jovem casal mostra-se enervado por entre os brinquedos de várias cores alinhados nas estantes, pendentes do tecto ou em desordem sobre o balcão. Pegam em bonecas que choram e riem, jogos electrónicos, cozinhas em miniatura. Não conseguem escolher um brinquedo ou porque a oferta é diversificada demais ou porque o grau de exigência não corresponde ao exposto.
Aproxima-se então uma funcionária muito simpática com a habitual pergunta:
- Posso ajudá-los em alguma coisa?
- Olhe - explica a mulher - nós temos uma menina muito pequena, mas estamos quase todo o dia fora de casa e, por vezes, até de noite.
- É uma menina de poucos sorrisos pois não se contenta facilmente - explica o marido.
- Nós queremos comprar um brinquedo que a torne feliz – acrescentou a mulher – Não nos interessa o preço ... desde que seja algo com que a nossa filhinha se entretenha, que lhe dê alegria mesmo quando esteja só...
A funcionária olha-os com uma expressão desolada, mas com gentileza avisa:
- Lamento muito não poder ajudar, mas aqui não vendemos pais.
Muitas vezes nós refugiamo-nos por detrás de prendas, procuramos compensar défices de atenção ou de carinho através de presentes ou gestos vazios de significado.
No meio de tanta partilha, saibamos colocar ao dispor dos outros aquilo de que eles mais precisam. Mais do que dispor de coisas, saibamos dispor-nos a nós mesmos e o resto virá por acréscimo. E quanto mais nos dermos em atenção, tempo e companhia, menos necessidade teremos de nos fazer representar por brinquedos ou outros objectos e menos falta irão fazer.
Jesus Cristo veio até nós não para nos trazer coisas, iguarias ou entretenimentos, mas para estar connosco. A seu exemplo que a nossa melhor prenda, neste Natal, seja DISPONIBILIDADE.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Natal (1)


O sonho do jovem cavaleiro

Como prenda de Natal ofereço a reprodução de uma pintura com o comentário do Pe. Dehon (A Crónica do Sudeste, nº 3, Março 1903):
A National Gallery de Londres tem um pequeno quadro de Rafael, do qual todos os jovens deveriam ter uma reprodução.
Aos 16 anos Rafael traçou um projecto de vida, mas como era pintor, tudo fazia pintando. Rezava, meditava, sempre com o pincel na mão, isto é, as suas orações ou reflexões eram pinturas e as suas pinturas eram orações e reflexões.
Escreveu com o seu pincel a reflexão que qualquer jovem faz e que hoje a National Gallery nos mostra: O sonho do jovem cavaleiro.
Um loureiro esguio divide a cena em duas partes. A paisagem é variada, límpida e profunda. Debaixo da árvore, um jovem e belo cavaleiro, armado dos pés à cabeça, bem recostado e com a cabeça apoiada sobre o seu escudo, entrega-se ao sono.
Uma jovem mulher está de pé à sua direita e uma outra à sua esquerda, uma simboliza a virtude e a outra a voluptuosidade. Esta é muito sedutora: tem um rico e gracioso vestido, oferece flores, os seus traços exprimem uma doce despreocupação. Do seu lado a paisagem está em harmonia com este aspecto: um vale fértil e florido, com aliciantes zonas de água e frescas sombras. É o caminho da vida fácil e agradável.
À direita do cavaleiro, a Virtude tem um vestido simples e austero. Apresenta uma espada e um livro, símbolos da luta, do trabalho e da oração. A paisagem deste lado é mais austera, um caminho tortuoso numa montanha escarpada, coroada por um castelo e uma igreja.
Rafael representou assim o cavaleiro que queria ser. Vemo-lo escolher o caminho da virtude e do trabalho, recusar as flores inebriantes da voluptuosidade e agarrar o livro e a espada, símbolos do estudo e da luta.
Jovens cavaleiros, tal deve ser o vosso sonho. Tal deve ser o vosso projecto de vida. O livro e a espada devem caracterizar a vossa vida. O livro é a oração, a leitura, o estudo pessoal. A espada é a luta, a conquista, a acção social.
O livro e a espada, tais são, caros jovens, as armas do vosso brasão.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Criancices (32)

De manhã ao entrar na Sala de Professores, alguém reparou que eu tinha ainda os olhos ensonados. Desculpei-me:
- Levantei-me cedo por causa da missa do parto…
Uma professora, que morava junto à Igreja do Monte, lamentou-se:
- Por causa dessa missa acordei hoje com um corno…
- Ai sim?! Com quem dormiu, Senhora Professora
É que na Madeira, acorda-se o pessoal para a missa do parto com o som de cornos, búzios, campainhas etc…

Vida de Capelão (32)

- Um padre a fumar? Você não devia ter nenhum vício.
- E não tenho! Estou apenas a queimar incenso.
- Ó Capelão, você sabe que isso faz mal à saúde.
- Sim, sim. Morrer por morrer morro satisfeito.

Passados alguns anos, considero-me hoje um FUMADOR NÃO PRATICANTE.

Dizem? Esquecem!

6ª Feira - II Semana Advento

No Evangelho de hoje: "João não comia nem bebia e diziam que era do maligno... Eu como e bebo e dizem que sou glutão..."
O povo tem sempre algo a dizer... Deixai-o.
Presos por ter cão e presos por não ter... Continuemos fieis a nós mesmos.
Não somos mais quando nos lisonjeiam nem somos menos quando nos vituperam...

O poeta Fernando Pessoa escreveu:

Dizem?
Esquecem!
Não dizem?
Dissessem!

Fazem?
Fatal!
Não Fazem?
Igual!

...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Vinde a Mim

4ª Feira - II Semana Advento

A Palavra de ordem deste tempo é MARANATHÁ, VEM SENHOR JESUS.
Jesus no trecho do Evangelho de hoje vem lembrar-nos que o movimento deve ser mútuo: VINDE A MIM...
Jesus virá até nós se nós formos até Ele.
Vem Senhor Jesus, dizemos nós.
Vinde a mim, diz-nos o Senhor.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Pregar no Deserto

Ano B - III Domingo Advento

- Senhor Padre, porque é que João Baptista pregava no deserto?
- Porque era lá que ele vivia - respondi - Para além disso o deserto sempre foi um lugar de encontro consigo mesmo e com Deus. Mas porque é que me perguntas isso?
- É que eu pensava que ele pregava no deserto porque ninguém o ouvia...
De facto, parece que João pregou para o deserto pois, passados 2000 anos, a mesma voz se faz ouvir sem surtir ainda o efeito desejado. E mesmo acordado sonhei.
No meu sonho apresentei-me diante de João Baptista para lhe dizer:
- Repara que ninguém te ouve. Tu não consegues mudar as pessoas. Todos os anos a mesma pregação... Muda o teu discurso...
- Não. Se eu não sou capaz de mudar as pessoas, não serão elas a mudar-me. Endireitai o caminho do Senhor - gritou ainda mais forte.
Ao acordar ainda me soavam essas mesmas palavras. Que fazer para endireitar esse caminho para que esta pregação não ficasse por terra? Lembrai-me então das sandálias de que João falava. Pois é. Em vez de retirar todas as pedras do longo caminho o melhor é calçar uns fortes sapatos para não sentir a aspereza do chão. Pareceu-me então ouvir a mesma voz a dizer: mãos à obra, ou melhor, pés a andar.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sobre a Rocha

5ª Feira - I Semana Advento

Casa construída sobre a areia ou sobre a rocha:

1.Todos somos trabalhadores de construção civil – todos estamos a construir uma casa. Ou construímos sobre a Areia ou sobre a Rocha:
O trabalho é diferente num ou noutro caso:
Cauteloso – R
Imprudente – R
Fácil – A
Inseguro – A
Sensato – R
Precipitado – A
Difícil – R
Seguro –R
Se construímos sobre a Areia o nosso trabalho será mais fácil, mas imprudente, inseguro e precipitado. Por outro lado se construirmos sobre a Rocha o nosso trabalho será mais difícil, mas mais sensato, seguro e cauteloso e sobretudo com mais futuro.
2. Uma situação comum ou constante: Tanto uma casa como outra têm de enfrentar as mesmas tempestades. Pelo facto de ser uma boa construção, não está isenta de enfrentar ventanias e torrentes… O problema não são as tempestades mas a capacidade de resistir com segurança.
3. Nós recebemos Jesus Cristo na nossa morada através da eucaristia, da palavra de Deus e do bem que fazemos. Que tipo de habitação lhe oferecemos a Deus: uma casa segura ou uma morada sobre a areia?

sábado, 29 de novembro de 2008

Saber Esperar

Ano B - I Domingo Advento

Contaram-me, há tempos, um episódio que pode ilustrar este tempo de Advento, de espera ou de preparação.
Numa aldeia indígena, algures em África, um missionário pediu à população local que o ajudasse a transportar um carregamento de material até ao cimo da montanha. Com o fardo às costas, partiram todos cheios de entusiasmo. A meia encosta o pessoal parou, pousou o material no chão e sentou-se. O missionário esforçou-se para os pôr outra vez em marcha mas foi em vão:
- Porque parastes? Estais cansados?
- Não.
- Quereis comer ou beber?
- Não.
- Quereis uma gratificação maior? A carga é muito pesada? Quereis voltar para trás? Então o que é que se passa?
Após um silêncio geral, um dos indígenas explicou:
- É que nós viemos depressa demais. A nossa alma ficou para trás. Ficaremos à espera que ela chegue.
Às vezes parece que somos um corpo sem alma. Sentimo-nos vazios ou a dormir. É preciso aguardar que o espírito nos encha, que a alma nos desperte para continuarmos a caminhar. Eis que Cristo está à porta e bate. Estaremos cheios por dentro?Vivemos numa azáfama contínua. É preciso parar e zelar pela nossa interioridade. Afinal Cristo é a alma da nossa vida, só Ele nos pode encher por dentro.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Vida de Capelão (31)

Durante as férias fui visitar um confrade que fez questão em dar-me uns conselhos morais:
- Sabes, o meio militar é bastante liberal, há muita imoralidade nas conversas e não só… Cuidado, é um perigo para a castidade!
- Não se preocupe – sosseguei-o – olhe que em nenhum convento há tanta continência como na tropa.

Criancices( 31)

- Senhor padre, venho acusar-me de ter estragado uma bola de futebol.
- Na próxima vez que jogares deves ter mais cuidado…
- Está bem, mas o senhor padre sabia que essa bola já tinha anos?
- Como assim?
- Sim, essa bola já tinha anos.
- Então se a bola tinha ânus, mostra-me então onde é que está o ânus da bola.
E não é que o aluno aponta para um grande buraco da velha bola? … E eu pensava que o malicioso era eu.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Sorrir para Deus

Ano A - Cristo Rei

Uma vez apresentou-se no Céu um homem tão simples, tão humilde que até os santos se espantaram:
- Como é pequena a sua alma! Não tem as vestes brancas das Virgens, nem a coroa dos Mártires, não tem a estola dos Pastores nem a divisa das Ordens Religiosas. Que terá feito de especial para estar aqui?
O homem, já preocupado com isso, ainda tremeu mais ao ouvir as perguntas que Deus fazia a quem se aproximava:
- Partilhaste os teus bens com os pobres? Ensinaste a minha Palavra? Viveste os Mandamentos?
Quando chegasse a sua vez que iria responder? Nada partilhara porque nada de seu tivera. Não ensinou nem viveu os mandamentos porque nunca os aprendeu. Qual seria o seu lugar ali?
Chegado ao trono, Deus abriu o livro da vida, olhou para o homem e disse:
- Aqui está escrito apenas uma coisa: tu sorriste ao teu semelhante. E isto basta para teres o primeiro lugar no céu. Entra na alegria do teu Senhor.
Mais do que isto não quer de nós o Senhor. Não quer obras extraordinárias, não quer grandes jejuns ou longas penitências, não quer milagres, não. Quer a vida simples, com as suas cruzes diárias, com um sorriso nos lábios e a alegria no coração; quer-nos felizes fazendo felizes os outros.

domingo, 16 de novembro de 2008

Semana dos Seminários


Nós precisamos do Seminário e o Seminário precisa de nós.
Nós precisamos que o seminário forme padres e os mande para as nossas paróquias.
Mas o Seminário também precisa que as paróquias lhes enviem vocacionados pois só assim haverá padres novos.


Paróquia que não dá seminaristas, não merece o padre que tem.
É dando que se recebe, ou é dando que merecemos receber…
Se não sabemos dar gente para o seminário como é que podemos esperar ter um padre na nossa comunidade?


Alguém ao visitar um seminário quase vazio perguntava-me:
- Afinal onde estão os padres do futuro? Será que não existem? Onde estão eles?
- Os padres do amanhã não estão nos seminários, mas estão ainda na tua casa, na casa do teu vizinho etc. Estão aí os padres do futuro.
É preciso criar condições para que a semente vocacional se desenvolva no primeiro seminário que é a família e depois possa ser transplantado para o seminário propriamente dito.


Se no mundo há fome de Deus não é por falta de pão, mas por falta de mãos para abençoar e distribuir esse pão.

Se há crise de vocações, não é porque Deus já não chama como outrora. Também não é porque os chamados não ouvem a sua voz. É simplesmente porque essa semente não encontra ambiente favorável para germinar, crescer e dar fruto. Deus continua a dar sementes, as sementes continuam a ser de boa qualidade, mas o terreno é que podia ser melhor.
É preciso criar ambiente favorável, é preciso saber cultivar…

Se a falta de vocações é um problema de todos, a solução dependerá também de todos.

O Coração da Diocese

SEMINÁRIO

Ocorrem-me ao pensamento duas pequenas situações, a propósito da Semana do Seminário.
A primeira é o que se passava comigo, sempre que regressava a casa, vindo do seminário. Um vizinho perguntava-me, todas as vezes, se eu já sabia dizer missa. Eu ficava com vontade de repetir a palavra missa, sem mais, bem pronunciado, para mostrar que há muito que aprendera essa palavra. Mas, sorrindo, respondia apenas que ser Padre era bem mais do que aprender a missa.
A última situação é uma lição por conta própria. Numa conversa de amigos, um aluno dizia-me que o seu irmão proclamava, alto e bom som, de que não precisava de padres para nada. Alguns ouvintes responderam logo que se ele não precisava, havia quem precisasse. Eu limitei-me a perguntar se ele namorava. Meio surpreendido, esse aluno respondeu:
- Sim, mas porquê ?
- É que mais cedo ou mais tarde o teu irmão estará na igreja à procura de um padre para assistir ao seu casamento, depois ao baptismo dos filhos...
Não demorou muito a concretizar-se aquilo que profetizei.
Destas situações posso concluir que a primeira resposta sobre o seminário é simples, evasiva, que ficou aquém daquilo que realmente é ou deve ser um seminário. É um viveiro de vocações sacerdotais, lugar de discernimento vocacional. Já alguém definiu o seminário como o Coração de uma Diocese, com toda a sua simbologia. Lá aprende-se, não a dizer missa, mas aprende-se tudo com o coração. Lá sente-se o vibrar de uma diocese. De lá revitaliza-se as comunidades.
Quanto ao último episódio concluo apenas: Todos nós precisamos do seminário. Mas não devemos esquecer que também o seminário precisa de nós. Eu necessito do seminário porque necessito de animadores das comunidades eclesiais. Ele precisa de mim, da minha promoção vocacional, da minha ajuda material, do meu apoio moral, da minha oração, da valorização do serviço sacerdotal.

Vida de Capelão (30)

- Ó Capelão, este texto tem muitos erros de máquina. Em vez de um Cabo Auxiliar você devia ter uma boa dactilógrafa.
- Eu não me importava, mas quanto melhor fosse a dactilógrafa mais erros eu faria…

Criancices (30)

Um miúdo chegou tarde ao lanche e encontrou a janela fechada. Eu ia a passar e ele perguntou-me:
- Senhor Padre, posso entrar na cozinha para pedir leite?
- Sim, mas pergunta primeiro se a funcionária está muito ocupada.
Quando eu passava junto da janela ouvi o miúdo:
- A Menina N... está muito ocupada?
- O que é que me queres?
- A Menina tem leite?
- Tenho mas não é para ti. Desaparece senão eu chamo o Senhor Padre!
Corri para não ter que responder.

sábado, 15 de novembro de 2008

Vida de Capelão (29)

Acompanhava eu uma visita de estudo de uma Escola Secundária pela Base Militar. Alguém ao contemplar tão esbelta companhia grita-me:
- Ó Capelão, quer ajuda?
- Sim, sim. Vem tu ajudar-me. Este rebanho já tem pastor. Só lhe falta um cão de guarda.

Criancices (29)

- O senhor padre por acaso não me arranja uma peça de fruta em vez de geleia?
- Olhe, só se for uns manguitos...
O aluno fica vermelho e volta para a sua mesa todo envergonhado e eu sem culpa nenhuma dos mangos não terem crescido mais.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Agradecer

4ª feira - XXXII Tempo Comum

"SÓ VOLTOU UM PARA AGRADECER..."



Tudo o que temos é dom de Deus.
Tudo o que somos é dádiva da vida.
Tudo o que usamos é oferta da natureza.
Tudo nos foi oferecido.


Tudo devemos agradecer
porque tudo recebemos.
Quem não agradece
não sabe receber.


Quem não é capaz de dar
nem que seja um simples agradecimento
não merece nada daquilo que tem.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Amar o que se faz

Ano A - XXXIII Domingo Comum


Numa reflexão sobre a Parábola dos Talentos, pedi que me identificassem as suas personagens indicando o que cada uma tinha e com que ficou, fazendo as contas aritméticas. Eis uma resposta:
5 x 2 = 10 + 1 = 11
2 x 2 = 4
1 x 0 = 0
Perguntei então qual o valor do coeficiente ou multiplicando.
- É a quantidade do amor – respondeu um miúdo – Duas pessoas tinham amor de grau dois, a outra não tinha amor e por isso ficou sem nada. Sem amor nada se consegue.
De facto há duas maneiras de fazer as coisas: por obrigação, e então são cansativas, aborrecidas e maçadoras e por amor, e então são suaves, alegres e fecundantes. Um estudante que trabalha naquilo que tem vocação torna-se criativo e produtivo. Um profissional que tem o seu trabalho no coração realiza-se e cria um mundo novo. Fazer as coisas com temor e por obrigação, por muito que alguém se esforce, será sempre um peso doloroso e estéril. O importante é amar o que se faz quando não se pode fazer o que se ama. Só assim desaparece o esforço e surge a alegria. Pelo contrário, quando algo nos custa demasiado não é por ser difícil, o que nos falta é essa força interior que é o amor. Tarefa que não redunda em prazer é porque é feita por obrigação.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Semente de Mostarda


2ª Feira - XXXII Tempo Comum

"Se tivésseis fé do tamanho de uma semente de mostarda ... nada seria impossível."

Não importa ter uma grande fé, ou uma fé pequena, ou então uma fé mediana... o que importa é TER FÉ, porque a fé não se mede pelotamanho, ou pela grandeza, nem pela quantidade...

Uma semente não pode ser medida pela sua dimensão... o que interessa é que seja uma semente de boa qualidade e isso basta para poder germinar e suscitar o milagre da vida.
Tanto faz uma semente pequena ou grande, pois tanto uma como outra podem germinar.

Basta a uma semente ser semente.
Assim também a fé. Basta ter fé...

Morada de Deus

9 de Novembro - Dedicação da Basílica de Latrão

Celebrando esta Festa, ao contemplar um edifício físico, recordo qual a morada preferida de Deus - o coração de cada pessoa.

Uma senhora veio ter comigo no final da missa, no Funchal:
- O Senhor Padre mora no Coração de Jesus?
Sem perceber bem o sentido da pergunta, mostrei-me surpreendido:
- Sou Padre do Coração de Jesus, sim. Em que a posso ajudar?
- Perguntei se morava no Coração de Jesus, no Colégio Missionário.
- Ah, sim… - e fiquei a pensar que de facto nunca me tinha apercebido que morava no Coração de Jesus. É que até então pensava que era o Coração de Jesus que morava em mim e afinal eu é que moro nele…

Muitas vezes procuro preparar-me para entrar no Santuário para louvar o Senhor e esqueço-me de que é Ele quem quer entrar no meu santuário.
E outras vezes quero que Deus esteja comigo e esqueço-me de que Ele quer também que eu esteja n'Ele.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Renunciar

4ª Feira - XXXI Tempo Comum


Diz a sabedoria popular que para se dar é preciso primeiro encher-se.

A Sabedoria divina diz que para se encher é preciso esvaziar-se:

“Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo” diz Jesus no Evangelho de hoje.

Para dizer SIM a Deus é preciso dizer NÃO a muita coisa.

Para ENCHER-SE de Deus é preciso ESVAZIAR-SE de muitas coisas.

Porque dois proveitos não cabem na mesma alma.

E ninguém pode servir a dois senhores…

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Uma só Alma e um só Coração

2ª Feira - XXXI Tempo Comum

Filipenses 2, 1-4

Ter os mesmos sentimentos em Cristo
– É ter uma só alma e um só coração

Sentir a mesma caridade em Cristo
– É ter uma só alma e um só coração

Não fazer nada por rivalidade
– É ter uma só alma e um só coração

Olhar só pelos interesses dos outros
– É ter uma só alma e um só coração

Viver na humildade e simplicidade
– É ter uma só alma e um só coração

Na escuta da palavra proclamamos
– Uma só alma e um só coração

Em cada Eucaristia celebramos
– Uma só alma e um só coração

Unidos na oração nós confessamos
– Uma só alma e um só coração

Na vida em união testemunhamos
– Uma só alma e um só coração

Na partilha da vida anunciamos
– Uma só alma e um só coração

Socorrendo os irmãos realizamos
– Uma só alma e um só coração


Ser Responsável

Ano A - XXXII Domingo Comum
- Hoje, senhor padre, não posso concordar com o Evangelho que foi lido na Igreja. Então aquelas Virgens não quiseram partilhar do seu azeite com as colegas e foram elogiadas? Isso não pode ser pois é um convite ao egoísmo.
- Ainda bem que estavas atento à leitura e não dormiste como aquelas personagens – respondi timidamente. Como és responsável por aquilo que pensas não vás a reboque de ninguém. É isso mesmo que se passa nesta parábola. Ninguém partilhou porque cada uma devia responder pela sua vida. É uma experiência pessoal que não pode ser responsabilizada aos demais.
Não sei se o meu amigo ficou mais esclarecido. Ao voltar para casa fui pensando que afinal é preciso vigiar, estar atento porque na hora em que menos esperamos vem uma lição e de quem não contamos vem uma chamada de atenção. E fui preparando o sermão que devia ter feito:
Estes dois grupos de pessoas representam cada um de nós. Estamos divididos: às vezes preparados, outras vezes pensado em tudo menos naquilo que de facto tem importância. Dentro de nós coexiste o bem e o mal. Ninguém nos poderá emprestar uma parte da sua vida. Devemos ser responsáveis.
O homem prudente é como um alfinete: É a sabedoria, isto é, a sua cabeça que lhe dá a força para ir até onde deve e o impede de ir além de mais.

Ser Grande

Ano A - XXXI Domingo Comum
Num acampamento de amigos era necessário escolher alguém para a chefia do grupo. Seria o representante de todos, o coordenador das actividades, o responsável pela ordem etc. Fizeram uma votação. Quando o resultado foi anunciado, o mais votado começou por dizer:
- Eu não sou digno dessa escolha. Há outros que tem mais capacidades do que eu. Não sei se serei capaz de ser o chefe que esperais...
Então um colega sugeriu que se escolhesse outro para o seu lugar.
- Caramba – disse o primeiro – já não se pode fazer um acto de humildade?
E não abdicou do seu novo cargo.
Também nós gostamos de ser importantes.
Jesus Cristo lembra-nos que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado. Ser bom é importante mas o importante é ser bom.
O homem grande é silenciosamente bom. É poderoso, mas sem exibir poder. Adora o que é sagrado, mas sem fanatismo. Carrega fardos pesados, com leveza e sem gemidos. Domina, mas sem insolência. É humilde, mas sem servilismo. Fala a grandes distâncias, mas sem gritar. Ama, sem se oferecer. Faz bem a todos, sem o fazer notar. Renuncia, sem fazer disso um culto. Abre novos caminhos, sem esmagar ninguém. Entra no coração do homem, sem arrombar a porta.

domingo, 2 de novembro de 2008

Vida de Capelão (28)

A RTP estava a passar um filme ousado e eu sozinho na sala de Televisão. Nisto chega alguém e opina:
- Ó Capelão, você devia estar junto de Deus a rezar por esses pecadores.
- Olha, eu prefiro estar aqui a ver isto com o pensamento em Deus, do que lá na Capela a rezar, mas com o pensamento nisto.

Criancices (28)

Fui a uma Secretaria Regional perguntar se havia alguma resposta a um pedido formulado. A recepcionista, querendo fazer-se engraçada diante das colegas, respondeu:
- Ó Senhor Padre, por enquanto não há nada. Vá para casa rezar à Virgem...
- Sim, sim - respondo eu - já que aqui não há nenhuma...

sábado, 1 de novembro de 2008

Viagem Sem Retorno

A vida não passa de uma viagem de comboio, cheia de embarques e desembarques, alguns acidentes, surpresas agradáveis ou tristezas surpreendentes.
Quando nascemos, entramos nesse comboio e deparamo-nos com algumas pessoas que, julgamos, estarão sempre nessa viagem connosco, como por exemplo os nossos pais. Infelizmente, isso não é verdade. Nalguma estação eles descerão e nos deixarão órfãos do seu carinho e da companhia insubstituível... mas isso não impede que, durante a viagem, outras pessoas importantes para nós entrem nessa carruagem. Chegam os nossos irmãos, novos familiares, outros amigos. Uns, mal entram, logo descem. Outros parecem eternos passageiros.
Muitas pessoas tomam esse comboio apenas como turistas ou na desportiva. Outras levam a viagem muito a sério que nem desfrutam da companhia dos outros ou da beleza da paisagem. Outras pessoas circulam pelas cabines, prontas a ajudar a quem precisa. Muitas descem e deixam saudades eternas, outras passam pelo comboio de uma forma que ninguém sequer se apercebe. Alguns passageiros, que nos são caros, acomodam-se noutros vagões diferentes dos nossos e por isso somos obrigados a fazer a viagem afastados deles. De vez em quando vamos ao seu encontro na carruagem seguinte.
É assim a nossa viagem, cheia de atropelos, sonhos, encontros e despedidas. Retornos é que nunca os há.
É possível fazer dessa viagem uma experiência aliciante, tentando relacionar-nos com todos os companheiros, partilhando com eles sonhos e realizações. O grande mistério, afinal, é que nunca sabemos em qual estação vamos descer, muito menos os nossos companheiros, nem quem está sentado ao nosso lado.
Eu fico a pensar nas saudades que sentirei quando chegar a minha vez de descer. Acredito que sim, tal como sinto saudades de todos os que já se apearam.
Até esse dia procurarei criar um ambiente agradável na carruagem onde viajo com os meus amigos. Seguirei viagem com a esperança de chegar à minha estação com as bagagens bem recheadas de tudo aquilo que me fará feliz no além. Quando chegar a hora de desembarcar, o meu lugar ficará vazio, mas as boas recordações e o bem que eu tiver feito, continuarão com aqueles que prosseguirem viagem.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Todos os Santos

1 de Novembro

1ª Mensagem:
Este é o dia em que celebramos todos os que são santos ou celebramos todos, pois todos são santos? Com certeza as duas situações.
Foi em Antioquia que pela primeira vez se chamou aos discípulos de Cristo o nome de CRISTÃOS. E antes como se lhes chamavam? A esses irmãos chamavam SANTOS. Naquele tempo ser discípulo de Cristo era ser santo, ser santo era ser discípulo de Cristo? E hoje?

2ª Mensagem:
Ser santo é ser feliz. Jesus Diz que santo é aquele que apesar de ter lágrimas no rosto, apesar de ser perseguido, maltradado, injuriado, pobre... mantém a sua felicidade. Ser santo é ser feliz aqui na terra sem comprometer a felicidade por toda a eternidade.
Se não sou feliz nesta vida, como posso ser feliz no céu?
Queres saber quanto és santo? Diz-me simplesmente quanto és feliz...
Diz-me como és feliz e dir-te-ei quanto santo és...

3ª Mensagem:
Na minha terra quando alguém não queria pagar uma dívida, dizia simplesmente: vás ter o pagamento no dia de São Nunca à tarde. Como o calendário não apresentava este dia, deixaria assim de cumprir com a promessa.
Mas no dia um de Novembro, celebramos todos os santos e por isso também celebramos este São Nunca. Este é também o seu dia, como o dia de todos os outros santos.
Então hoje é o dia de pormos todas as nossas contas em dia. É dia de cumprirmos com todos os nossos compromissos.
Ser santo é assim ter as contas em dia, é pagar todas as nossas dívidas, é assumir plenamente todos os nossos compromissos, baptismais e não só.

Pão Por Deus

O Primeiro de Novembro
É dia do Pão Por Deus.
Eu vou dar uma esmolinha
Por alma dos entes meus.

Este é um dos significados do dia do Pão Por Deus: dar esmola em memória dos seus parentes defuntos. Eles como já não podem dar esmola, nós damos por eles...

Outra explicação deste dia: No norte da Europa, a partir deste dia começava a haver neve pelos campos. Para que os pobres pedintes não tivessem necessidade de andar pela neve a pedir esmola, então organizavam uma festa para lhes atribuir tudo o que precisavam durante todo o inverno. Era partilhado então o pão e todos os produtos da terra aos pobres por amor de Deus: era o pão por Deus.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Armadura de Deus

5ª Feira - XXX Tempo Comum

Novo Vestuário de Efésios 6, 10-20

Revestir-se com a ARMADURA DE DEUS
(para resistir e perseverar firmes)

. Cinturão da Verdade (bem firmes)

. Couraça da Justiça (bem ajustados)

. Calçados com Zelo (anunciando o Evangelho da Paz)

. Escudo da Fé (para apagar o maligno)

. Capacete da Salvação (que é o comando de tudo)

. Espada do Espírito (a Palavra de Deus)

Qual destas 6 peças de vestuário eu tenho mais necessidade de cuidar, de reparar ou de acertar, hoje na minha vida, para ser um autêntico soldado revestido com a Armadura de Deus?

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Endireitar-se

2ª Feira - XXX Tempo Comum

Naquele tempo apareceu uma mulher doente: andava curvada e não podia endireitar-se. Jesus chamou-a e disse-lhe: estás livre. Ela endireitou-se e começou a dar glória a Deus.

Ela começou a dar glória a Deus e por isso ficou endireitada ou ficou direita e então começou a louvar a Deus?
Quando alguém não é capaz de dar glória a Deus fica curvado, não consegue endireitar-se, não consegue olhar em frente, carrega um grande fardo.
É preciso ouvir o chamamento de Jesus e começar a louvar o Senhor. Só assim endireitamos a nossa vida e vamos longe porque olhamos em frente e apuramos a nossa posição.
Endireitar-se é tomar a posição do HOMO ERECTUS, é ser verdadeiramente homem ou pessoa. Diante de Jesus o homem torna-se realmente homem.
Homens, sede homens!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Fogo à Terra

5ª Feira - XXIX Tempo Comum

"Eu vim trazer o fogo à terra"

O FOGO simboliza a Palavra de Deus, mas também simboliza o juízo divino que purifica o seu povo, passando meio dele. Assim a Palavra de Deus constrói, mas ao mesmo tempo destrói.
O fogo tem o poder de transformar a matéria.
O fogo não tem forma permanente, pois está sempre em movimento, em acção.
O fogo aquece o corpo humano, ilumina o homem, defende-o (os animais são afugentados com o fogo).
O fogo orienta, guia, é comunicação etc…
Deus quer acender em nós este FOGO.
Cada um saberá o que mais precisa que ele faça: ou purificar, ou animar ou aquecer, ou guiar, ou defender, ou comunicar, conforme a sua situação existencial de cada momento.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vida de Capelão (27)

Alguém que me viu junto das Fotocopiadoras:
- Ó Capelão, você muito gosta desta Secção.
- Tens razão. Sempre gostei da reprodução.

Criancices (27)

Numa Segunda-feira uma aluna do 2º Ano ou, como antigamente se dizia, da 2ª classe, toda satisfeita, veio contar-me:
- Senhor padre, eu ontem fui à catequese.
- Muito bem. E aprendeste muita coisa?
- Sim. Aprendi que o pai de Jesus não é São José.
- Muito bem. E como é que se chama o pai de Jesus.
A miúda pensa, faz um grande esforço e desiste:
- É um senhor que já não me lembro o nome.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Vigiar

3ª Feira - XXIX Tempo Comum

No Evangelho de hoje Jesus declara felizes os que ouberem VIGIAR.
Vigiar quer dizer - CONTEMPLAR (olha, vigia...)
Vigiar quer dizer também - GUARDAR

São felizes os que sabem contemplar.
São felizes os que sabem guardar o tesouro que receberam.
Isto é, são felizes os que sabem vigiar.

O Maior Mandamento

Ano A - XXX Domingo Comum

ESTE É O MAIOR MANDAMENTO:
AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS
AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO


- Deus, tu e eu , isto é, NÓS.
O maior mandamento é construir o NÓS,
a comunhão, a família.

- Amar a Deus e amar o próximo:
amar a Deus nos irmãos
amar os irmãos em Deus.

- Amar o próximo como a nós mesmos,
como se ele fosse parte de nós.

Quem Vem Depois

Ano A - XXX Domingo Comum


A catequista estava a interrogar os seus alunos:
- Quem é capaz de dizer qual é o maior mandamento da Lei do Senhor?
- Amar a Deus e amar o próximo – responderam em coro.
- Muito bem, vê-se que os meninos estão atentos na catequese e sabem muitas coisas. Mas qual de vós quer dizer quem é o próximo?
Todos ficaram pensativos até que uma menina, sem hesitação, levantou o dedo para falar:
- O próximo é o que vem depois.
A catequista nem queria acreditar no que ouviu:
- Como? Aquele que vem depois?
- Sim. É o que vem a seguir. Ontem, a minha mãe levou-me ao médico e estava lá muita gente. Cada vez que saía uma pessoa do consultório a enfermeira pedia: o próximo.
- É verdade, é assim... confirmaram todos.
- Bendito seja Deus! – concluiu a catequista. Estes meninos sabem mais do que eu.
É o mesmo Senhor Jesus que continua hoje a revelar a Sua lei: Amar a Deus e ao Próximo, amar a Deus que vem primeiro e amar o próximo que vem depois, amar o Mestre e o discípulo que está a seguir, amar o Senhor e amar aquele que dele precisa, amar a Deus e a quem está perto dele porque todos estamos no seu coração.

domingo, 19 de outubro de 2008

Criancices (26)

Uma Professora estava a lamentar-se da sua falta de tempo:
- Quem me dera ter alguém que me passasse a ferro!
- Oh, eu não sabia que estavas assim tão engilhada...

Vida de Capelão (26)

- Ó Capelão, as freiras usam aliança pois são casadas com Nosso Senhor. E então os Padres? Não usam aliança, mas também são casados com Ele.
- Por quem me tomas. Eu sou casado sim, não com Ele, mas com Ela, a Santa Madre Igreja.
- Santa?! Isso é que era bom.
- Santa sim. Não há esposa como a minha. Posso chegar a qualquer hora da noite, ela nunca resmunga, nunca me chateia nem pergunta onde estive, com quem andei, se venho a cheirar a álcool etc. e tal. Assim, só de uma santa.

sábado, 18 de outubro de 2008

Dia das Missões

BREVE TESTEMUNHO

É preciso ir ao povo, dizia o Pe. Dehon.
Foi a pensar nisto que deixei a minha sacristia na Madeira e parti para Madagáscar para participar na ordenação de D. José Alfredo e visitar as missões dos meus confrades dehonianos, em Março de 2001.
Era a minha vez de ir até aquele povo de quem ouvira falar, de visitar aqueles que deixaram tudo para evangelizá-lo.
Parti com o sonho de ver como se evangeliza e voltei convencido de como somos evangelizados. É preciso ir ao povo, não para evangelizar mas para se deixar evangelizar. Foi esta a conclusão a que cheguei ao dialogar com os seminaristas do colégio Missionário, ao regressar de Madagáscar. Ao explicar aquilo que mais me tinha surpreendido na viagem, fiz a lista das qualidades daquele povo:
- Vive o espírito de pobreza evangélico, contentando-se com o mínimo dos mínimos e apesar disso mostra-se feliz. Tem uma vida pobre mas pura. Encontrei pessoas sempre alegres, felizes. Bastava olhar para elas para se abrirem num sorriso.
- Vive numa fome de aprender e de participar. Fazem grandes caminhadas a pé para celebrar a sua fé. Até mesmo as crianças ficam quietinhas a absorver tudo o que ouvem ou vêem. Com o mínimo das condições, conseguem tirar o máximo na aprendizagem. Não olham para o relógio, não apenas porque não os há mas porque para crescer não medem o tempo. Todos cantam e rezam com entusiasmo. Rezam com a boca cheia, pois ela está vazia de pão mas o coração a transbordar. Cantam com o corpo inteiro com toda a espontaneidade. E dançam num balanço lento que exterioriza uma serenidade contagiante.
- É um povo bastante contemplativo. Frequentemente vê-se alguém sentado a olhar para o infinito. Dizem que é por causa do calor e do esforço das caminhadas ou da dureza da própria vida. O certo é que sabem parar e quase que nem se movem na sua paz ou tranquilidade.
- Gente que não se queixa. À pergunta se está tudo bem, respondem prontamente que sim e só mais tarde é que fazem a ladainha das ocorrências – a tempestade levou-me a casa, o meu parente está doente, o arrozal ficou destruído, mas está tudo bem. Está tudo bem porque estou vivo, não interessa o resto pois tudo se irá compor.
Podia continuar numa exaustiva enumeração destas qualidades. Quando as assinalei, um jovem seminaristas desabafou:
- Então, se os malgaxes são assim tão bons, o que é que eu vou lá fazer? O que é que posso ensinar-lhes? É que eles são melhores do que nós.
- Pois é. Não vamos até eles para os evangelizar mas para nos deixar evangelizar.
Como admiro aquele povo, pobre em condições de vida mas tão rico humanamente!
Como admiro os missionários que comungam da sua vida, com coragem e com fé.
Os malgaxes estão orgulhosos dos seus missionários, como posso ficar insensível a tudo isto. Eu sinto orgulho de uns e de outros.
Obrigado a todos por esta evangelização.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Criancices (25)

.
Na turma do 1º Ano (antiga 1ª Classe), estávamos a fazer uma lista de palavras que começavam pela letra Q. Depois de algumas palavras (quadro, queijo, quarto etc.), a turma ficou a pensar em silêncio, à procura de outras até que um aluno levanta o dedo e diz saber uma outra palavra:
- Quilhões.
- Olha lá, essa palavra só é usada por quem não anda na escola. Há outra palavra mais própria para dizer a mesma coisa. Quem sabe qual é? Eu vou ajudar. Essa palavra começa por T.
A turma, em silêncio, pensava, pensava... até que uma menina prontificou-se para responder. Respirei fundo pois era filha de um médico e de uma enfermeira. Com certeza lá em casa já devia ter ouvido a palavra Testículos.
- Diz lá a palavra certa.
- Tomates.
.

Vida de Capelão (25)

Entro no Bar que estava bem animado. Alguém levanta a voz e pergunta:
- Então, Capelão, como vão as suas ovelhinhas?
- As ovelhas estão bem, graças a mim, mas tenho por aí uns cabrões que me dão cabo do juízo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Teresa de Ávila

15 Outubro - Santa Teresa de Ávila

Este texto não é meu original. Apenas resumi ainda mais o que encontrei.

Santa Teresa nasceu em Ávila (Espanha) no ano 1515. Tendo entrado na Ordem das Carmelitas, fez grandes progressos no caminho da perfeição e teve revelações místicas. Ao empreender a reforma da sua Ordem teve de sofrer muitas tribulações, mas tudo suportou com coragem invencível. A doutrina profunda que escreveu nos seus livros é fruto das suas experiências místicas. O “Castelo Interior” é o ensinamento maior da Santa. Fruto maduro da sua última jornada terrena, reflecte o estádio definitivo da sua evolução espiritual e completa a mensagem das obras anteriores. Aqui fica um breve esquema:

Primeira morada:
entrada no castelo
, converter-se, iniciar o trato com Deus (oração); conhecer-se a si mesmo e recuperar a sensibilidade espiritual.

Segunda morada:
lutar; o pecado ainda cerca; necessidade de uma opção radical; progressiva sensibilidade na escuta da palavra de Deus (oração meditativa).

Terceira morada:
a prova do amor. Estabelecimento de um programa de vida espiritual e de oração; zelo apostólico; mas sobrevêm a aridez e a impotência como estados de prova.

Quarta morada:
brota a fonte interior, passagem à experiência mística; mas intermitentemente: momentos de lucidez infusa (recolhimento da mente) e de amor místico-passivo (quietude da vontade).

Quinta morada:
morre o bicho-da-seda; a alma renasce em Cristo; estado de união por conformidade de vontades, manifestada especialmente no amor.

Sexta morada:
o crisol do amor. Período extático e tensão escatológica. Novo modo de sentir os pecados. Cristo presente.

Sétima morada:
Matrimónio Místico
. Duas graças de ingresso no estado final: uma cristológica, outra trinitária. Plena inserção na acção. Plena configuração a Cristo crucificado.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Criancices (24)

Uma professora veio queixar-se dos seus alunos:
- Ó Senhor Padre, eu não me casei para não ter que aturar filhos e tenho de aturar os filhos dos outros?
- E eu não me casei para não aturar mulher e tenho de te aturar a ti.

Vida de Capelão (24)

Alguém ao ver um Aspirante a falar comigo:
- Ó Capelão, manda-o àquela banda…
- A ti é que te mando a uma lugar que tem cinco letras, começa com M e acaba em A. Vai tu à … MISSA!

Imagem de Deus

Ano A - XXIX Domingo Comum


Um dia as Irmãs da Caridade recolheram um mendigo, lavaram-no, deram-lhe de comer, aconchegaram-no. Quando recuperado e lúcido, este homem pediu à Irmã Teresa de Calcutá:
- Dizei-me o vosso nome. Nenhum humano fazia por mim o que vós fizestes. Vós deveis ser deusas. Que posso fazer para servir a vossa divindade?
- Não, não somos deusas. Tu é que és para nós imagem de Deus. Nós fizemos tudo isto porque reconhecemos em ti o nosso Deus.
É preciso retribuir a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.
A mensagem de Jesus é muito subtil. A moeda deve ser restituída a César, porque nela está impressa a sua imagem. Há uma criatura sobre a qual está impressa a imagem de Deus. Esta é Sua e mais ninguém pode apropriar-se dela.
Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, à imagem de Deus Ele o criou. O Homem é esta criatura que não pode pertencer a mais ninguém senão a Deus. Ninguém poderá dominá-lo, escravizá-lo, oprimi-lo como se fosse um objecto de sua propriedade porque é sagrado.
É preciso respeitar a imagem de Deus que está impressa no rosto de cada pessoa. Não será tarefa fácil pois só os puros de coração verão a Deus.
Dar a Deus o que é de Deus só se entende se eu me der todo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Efeméride (3)


Efeméride (2)


Efeméride (1)


11 de Outubro

100 Anos
No dia 11 de Outubro comemoram-se os 100 anos da Ordenação Episcopal do primeiro Bispo da Congregação que também foi o primeiro missionário SCJ. Trata-se de D. Gabriel Grison ordenado bispo a 11 de Outubro de 1908 em Roma com destino à Diocese de Stanley-Falls como Vigário Apostólico, actual Kisangani no Alto Congo. Manteve-se no cargo até 1934 quando lhe sucedeu outro dehoniano, o Bispo D. Camilo Verfaillie.

50 Anos
Em 1958, também no dia 11 de Outubro outro bispo da Congregação tomou posse da mesma Diocese como Vigário Apostólico, D. Nicolau Kinsch. No ano seguinte é designado Arcebispo mantendo-se aí até resignar em 1967. A partir de então não houve mais bispos dehonianos nessa diocese.

Primeiro Missionário
O Bispo D. Gabriel Grison é considerado também o primeiro missionário dehoniano. De facto foi ele o primeiro a partir para a missão do Equador, na América Latina em 1888. Depois da expulsão dos missionários do Equador em 1896, o Padre Gabriel Grison partiu no ano seguinte para abrir a primeira missão africana da Congregação no Congo Belga, onde se manteve como missionário e depois também como bispo desde 1908 até 1942, ano da sua morte.
Escreveu as memórias da sua primeira missão no Equador e uma “Crónica de Stanley-Falls” publicada em 1936 na revisa “O Reino do Coração de Jesus” de Lovaina (Bélgica).

Primeiro Bispo
D. Gabriel Grison foi o primeiro bispo dehoniano de toda a Congregação. Segundo o actual Elenchus a nossa Congregação já deu à Igreja 40 bispos, dos quais 22 vivos (incluindo os dois únicos Cardeais, o Brasileiro Óscar Scheid e o Polaco Estanislau Nagy).
Mártires
Quando D. Gabriel Grison morreu em 1942 com 81 anos de idade, já 52 missionários o tinham precedido na morte, grande parte em idade jovem.
Para a sua sepultura escolheu um espaço à frente da Gruta de Lurdes no exacto lugar onde celebrou a sua primeira missa de Natal na Missão de S. Gabriel quando chegou às terras africanas. O Papa João Paulo II, visitando o Congo em 1980, rezou ajoelhado na campa de D. Gabriel Grison.
Recordando os seus missionários que sacrificaram a sua vida, o Padre Dehon escreveu em Fevereiro de 1925 nas notas quotidianas: “Alguns morreram generosamente na missão no Congo, no Brasil”.
Nos “Souvenirs” ao recordar os “nossos defuntos” o Fundador confessou que “um santo cardeal lhe dizia que só pelo facto de terem ido para longe, expondo-se a uma morte iminente, estes missionários mereciam a palma do martírio”.
Mais tarde o martírio continuou mais explícito: Durante a rebelião dos Simbas, após a proclamação da independência do Zaire a 30 de Junho de 1960. Dos 144 missionários assassinados, 29 foram dehonianos.


Bilhetes de Identidade
D. Gabriel Grison:
Nasceu a 24 de Dezembro de 1860 em Verdún
Ordenado Presbítero a 30 de Novembro de 1883 = 125 anos
Primeira Profissão a 13 de Setembro de 1887
Partiu para o Equador a 10 de Novembro de 1888
Expulsão do Equador a 12 de Junho de 1896
Partiu para o Congo a 6 de Julho de 1897
Ordenado Bispo a 11 de Outubro de 1908 = 100 anos
Resignou em 1934
Morreu a 13 de Fevereiro de 1942
Era de estatura pequena, mas robusta, de temperamento nervoso, inteligente, com uma vontade tenaz e um coração generoso. Possuía uma alma poética que se entusiasmava diante das belezas da natureza. Era um excelente mestre, especializado em Ciências Naturais e tocava bem guitarra.

D. Camilo Verfaillie:
Nasceu a 4 de Julho de 1892
Primeira Profissão a 23 de Setembro de 1912
Ordenado Presbítero a 13 de Julho de 1924
Ordenado Bispo a 27 de Maio de 1934
Resignou em 1958 = 50 anos
Morreu a 22 de Janeiro de 1980

D. Nicolau Kinsch:
Nasceu a 31 de Outubro de 1904
Primeira Profissão a 22 de Setembro de 1926
Ordenado Presbítero a 12 de Julho de 1931
Ordenado Bispo a 11 de Outubro de 1958 = 50 anos
Resignou em 1967
Morreu a 23 de Março de 1973

Documentos

Carta do Pe. Dehon : 28.03.1908 Destinataire : Madame von Christierson Inventaire : 1152.09 AD : B104/1
Madame, … A nossa Congregação acaba de obter uma grande graça da Santa Sé. A nossa missão do Congo foi erigida Vicariato Aostólico, e o Pe. Grison, da nossa Congregação, foi nomeado bispo. Recebei os meus respeitosos votos. L. Dehon


Carta do Pe. Dehon : 13.10.1908 (mardi) Destinataire : Louis Julliot Inventaire : 861.01 AD : B62/4
Mon cher Louis,… Neste momento, estamos todos reunidos em Roma. Nós tivemos no Domingo a sagração de D. Grison. Isto é narrado no Jornal La Croix. Foi o Cardeal Gotti que fez a sagração. Ele tinha uma bela assistência : quatro bispos, prelados, príncipes romanos, o embaixador da Bélgica, etc. Que bela cerimónia ! As promessas do novo bispo, a prostração, as unções, a imposição das mãos, a bênção da mitra, da cruz, do anel, com as fórmulas que explicam o simbolismo, tudo isto impressiona vivamente. O Pe. Mathias está aqui, o Pe. Jeanroy, o Pe. Falleur, o Pe. Duborgel. Eles vão visitar as sete basílicas, as catacumbas, etc. etc. Terão assim muito que contar durante todo o inverno. Hoje haverá uma grande recepção na nossa casa. Amanhã, haverá uma segunda audiência do Papa. Ele já ofereceu a D. Grison uma bela cruz peitoral em ouro, ornamentada com filogramas, pérolas e safiras. Mais dois ou três dias e toda a gente regressará. Eu ficarei até 15 de Novembro… Teu devotado L. Dehon

O Adeus de D. Grison ao Pe. Dehon
Das lembranças de D. Philippe, escritas em 1952, em alemão, traduzidos em italiano pelo Pe. Lellig para o Pe. Memolo, segundo parece demasiado literalmente o que torna a sua leitura difícil. (pp. 286.296):
“Quando D. Grison veio de férias tive a ocasião de ver uma cena inesquecível.
Antes de ir embora houve uma última discussão com o Fundador sobre a questão sempre escabrosa do dinheiro para as missões. Depois o Bispo partiu. Cada dia estava informado, como se disse atrás, sobre o estado da doença do Pe. Dehon. Ao chegar, entrando comigo na câmara mortuária, e vendo-o no ataúde, caiu de joelhos chorando como uma criança e eu disse-lhe: “Olhe, isto é para si a recordação do Fundador”. Sobre o crucifixo estava gravado: “Fortis ut mors est dilectio” que quer dizer: “O amor é forte como a morte”. Mais tarde o bispo escreveu-me do Congo: “Você sabia muito bem do que eu tinha necessidade quando me deu o crucifixo.
A Superiora Geral das Servas do Coração de Jesus tinha oferecido a cada Padre um crucifixo igual na primeira profissão perpétua…”

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Criancices (23)

.
Durante o tempo de estudo fui até junto a um aluno que se ria descontroladamente:
- Que se passa? Qual o motivo dessas gargalhadas?
- É que Fulano deu um peido.
- Ó rapaz, há uma palavra mais cuidada para nomear isso. Diz-se flato.
Ao mesmo tempo escrevi o termo no seu caderno. Ao regressar ao meu lugar notei que o seu colega lhe perguntava que palavra era aquela. A resposta foi por escrito: Flato = peido de padre.

Vida de Capelão (23)

- Ó Capelão, você hoje está chateado. Venha dar uma volta de avião.
- Não, muito obrigado. Neste estado prefiro ficar cá em baixo, longe do meu chefe.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Banquete do Reino

Ano A - XXVIII Domingo Comum

Jesus Cristo, com frequência, compara o Reino dos Céus a um banquete. A este propósito recordo uma metáfora oriental já muito divulgada:
Um certo homem faleceu e antes de entrar no céu quis dar uma espreitadela pelo inferno. Reparou que numa sala havia uma mesa e ao centro um pratão de arroz com colheres enormes, de um metro de cumprimento. Nisto chegaram os convivas. Cada um tentava comer com aquelas colheres gigantes mas era impossível e toda a gente passava fome.
Ao entrar no paraíso viu, para seu espanto, uma mesa igual, o mesmo prato de arroz e as mesmas colheres enormes.
- Mas como é possível comer aqui no céu?
- Espera e já verás que isto não é inferno nenhum, respondeu-lhe um anjo.
Aproximaram-se os santos do Paraíso, sentando-se pegaram nas colheres, e cada um dava de comer àquele que estava no outro lado da mesa.
- Eis a diferença. No inferno cada um pensa em si e todos passam fome. No paraíso todos servem os outros numa refeição fraterna e há alegria e paz. A mesa é igual, as pessoas é que são diferentes.
Já que o Reino dos Céus é um grande banquete, treinemos aqui na terra a partilhar, servindo e pensando nos outros para não haver surpresas para ninguém na eternidade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Vai e Faz o Mesmo

2ª Feira - XXVII Tempo Comum


Bom Samaritano: Aprender dele é fazer o mesmo:

- Ocupar-se das misérias dos outros
empregar o nosso tempo e a nossa vida
a favor dos infelizes.

- Não reprovar ninguém,
mas como Cristo narrar apenas os factos
sem julgar ou censurar.

- Passar como o Samaritano
olhar e ver quem precisa de si.
Ser um homem atento, sempre alerta.

- Como o Samaritano não se desviar
nem um centímetro do seu caminho.
Não é preciso procurar ninguém.

- Amar o nosso próximo é
amar o nosso Samaritano,
isto é, amar quem nos ajuda.


- não se desviar do nosso caminho
voltando as costas aos outros.
Dar vitalidade a quem precisa mas não mais.

- Não ficar retido
por aquele que salvamos.
Lembrar-se que devemos
a nossa sobrevivência a outrém,
e fazer por outro o que esse fez por nós.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Vida de Capelão (22)

- Ó Capelão, você deve vir mais vezes à oficina, abençoar estes motores para não nos darem tanto trabalho. E traga também a água benta.
- Posso deitar água benta, mas garanto-lhes que os motores ficarão ainda mais enferrujados...

Criancices (22)

No Colégio dois alunos começaram a namorar.
- Quem são? - Perguntaram-me curiosos os professores.
- É a Cláudia que não é Virgem, é Vargem e o Gonçalo que não é Casto, é Castro.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Vida de Capelão (21)

Ao visitar uma secção:
- Boa tarde, senhores trabalhadores!
Olharam-me com ar surpreendido pela saudação e por isso acrescentei imediatamente:
- Ó, desculpem se ofendi alguém.

Criancices (21)

Durante o recreio do almoço, um Padre ao passar no corredor notou algum movimento na Capela. Abriu a porta e viu três miúdas do 1º Ano, de joelhos a passear entre os bancos.
- Ó meninas, este não é o lugar apropriado para essas brincadeiras, vamos lá para fora.
Elas obedeceram envergonhadas, mas o Padre ficou com problemas de consciência. Contou depois:
- Fiquei a pensar que talvez Deus estivesse a gostar daquela brincadeira e eu tirei-lhe esse prazer.

Santa Teresinha

1 de Outubro

Três palavas, no princípio, no meio e no fim da breve, mas perfeita vida de Santa Teresinha do Menino Jesus, Virgem, Doutora da Ireja e Padroeira Mundial das Missões.

- No Princípio - CÉU - Ela testemunha que a primeira palavra que leu sozinha foi "céu". E com isso o compromisso de "passar o seu Céu a fazer o bem sobre a Terra".

- No Meio - SANTA POR INTEIRO - "Não quero ser Santa pela metade, escolho tudo". Todos os gestos e sacrifícios, do menor ao maior, oferecidos a Deus pela santificação de todos.

- No Fim - AMOR - Ao morrer Santa Teresinha exclamou "Meu Deus, eu vos amo... eu vos amo!" Foi o coroamento da sua vocação: no coração da Igreja a sua vocação foi o amor.