sábado, 7 de março de 2026

Santa Teresa e a Samaritana


Ano A – III domingo da Quaresma

Quadro conservado no museu do Mosteiro da Encarnação de Ávila. Segundo a tradição, veio da casa de D. Afonso, pai de Santa Teresa de Ávila.

A relação de Santa Teresa de Jesus com a mulher samaritana marcou profundamente na sua vida espiritual.

Desde criança Teresa foi cativada por este episódio bíblico. O mosteiro da Encarnação de Ávila conserva um quadro que representa a samaritana, procedente da casa do pai de Teresa, diante do qual a jovem passava longos momentos de contemplação. Esta imagem deixou uma sombra indelével na sua formação espiritual.

Para Teresa, a samaritana não é simplesmente uma figura histórica, mas o arquétipo da alma humana, que procura saciar a sua sede em fontes erradas.  No "Caminho de perfeição", ela faz uma reflexão sobre esta busca errante: "Ó valha-me Deus, Senhor meu, como se parece isso com o que se passa no mundo! Andamos buscando conteúdo nas criaturas, que é como buscar água na cisterna que não tem água".

A samaritana teve cinco maridos e vivia com um homem que não era o seu esposo, tentando preencher o seu vazio existencial nas relações humanas. Teresa identifica esta situação com a condição geral do ser humano.

O diálogo entre Jesus e a samaritana gira em torno da água viva que Cristo oferece. Esta imagem converte-se numa metáfora central na obra teresiana, sobretudo na sua doutrina sobre os graus de oração. No "Livro de la Vida" (capítulos 11-22), desenvolve-se a alegoria das quatro maneiras de regar um horto, inspirada diretamente na água prometida à samaritana:  desde tirar água do poço com muito muita dificuldade, passando pela nora e pelo rio, até à chuva que rega sem esforço nosso. Esta progressão reflete o itinerário espiritual que a mesma samaritana experimentou.

Para Santa Teresa, o mais significativo do episódio é a transformação radical que produziu o encontro com Cristo. A mulher foi para o poço ao meio dia, possivelmente para evitar as outras mulheres que a julgavam, e converteu-se na primeira evangelizadora do seu povo. Teresa vê a samaritana como o paradigma da sua própria conversão. No "Livro de Vida", descreve o seu próprio "poço" de vaidades: Comecei de passatempo a passatempo, de vaidade a vaidade e de ocasião em ocasião, a meter-me tanto em muitas ocasiões.

O encontro pessoal com Cristo é que muda tudo. Teresa insiste na importância deste trato íntimo. A samaritana pede: Senhor, dá-me dessa água para que não tenha mais sede. Teresa compreende profundamente esta sede da alma que só Deus pode saciar.

A transformação culmina quando a samaritana deixa o seu cântaro (símbolo da sua vida anterior) e apressa-se a anunciar Cristo. Teresa vive esta mesma dinâmica quando funda os seus conventos: Parece-me que me abrasava com desejos de aproveitar algumas almas.

O quadro que a menina Teresa contemplava segue interpelar-nos: onde procuramos saciar a nossa sede? Estamos mesmo dispostos a receber água viva?

 

À margem:

A samaritana

 

Dos amores do Redentor

Não reza a História Sagrada

Mas diz uma lenda encantada

Que o Bom Jesus sofreu de amor.

 

Sofreu consigo e calou

Sua paixão divinal,

Assim como qualquer mortal

Que um dia de amor palpitou.

 

Samaritana,

Plebeia de Sicar,

Alguém espreitando

Te viu Jesus beijar

De tarde quando

Foste encontrá-Lo só,

Morto de sede

Junto à fonte de Jacob.

 

E tu, risonha, acolheste

O beijo que te encantou,

Serena, empalideceste

E Jesus Cristo corou.

 

Corou por ver quanta luz

Irradiava da tua fronte,

Quando disseste: - Ó Meu Jesus,

Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte.


Para ouvir o fado – clicar aqui


Este Fado de Coimbra foi escrito na primeira década do século XX e muito cantado nos anos 60. Era particularmente desagradável à Igreja, por motivos que serão óbvios.

Quanto a mim, não me sinto perturbado por esta interpretação do episódio da Samaritana. Aliás, fala da grande sede que Deus tem por cada um de nós, do seu amor por todos, independentemente dos pecados de cada um. Ninguém fala do amor carnal… Cada um pode interpretar consoante a sua mente, mais ou menos perversa.

O mesmo se pode dizer do episódio da Maria Madalena que foi lavar com as lágrimas os pés de Jesus.

Além disso, os próprios discípulos, neste episódio, foram os primeiros a sugerir um relacionamento menos espiritual de Jesus com a samaritana: “Quando chegaram os discípulos ficaram admirados por Jesus estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles lhe perguntou: Que pretendes? ou então, porque falas com ela? …Entretanto os discípulos insistiam com ele, dizendo Mestre come. Mas ele respondeu-lhes: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Os discípulos perguntavam uns aos outros: Porventura alguém lhe trouxe de comer? Disse-lhes Jesus: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.”

Há quem garanta que este tema musical é de origem espanhol, adaptado e adotado pelos estudantes de Coimbra…

 

Ver também:

Extratos de um diário

Sede de Deus

Água viva

 

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