Ano A – III domingo da Quaresma
Quadro conservado no museu do Mosteiro da Encarnação de Ávila. Segundo a
tradição, veio da casa de D. Afonso, pai de Santa Teresa de Ávila.
A relação de Santa Teresa de Jesus com a mulher samaritana marcou profundamente
na sua vida espiritual.
Desde criança Teresa foi cativada por este episódio bíblico. O mosteiro da
Encarnação de Ávila conserva um quadro que representa a samaritana, procedente
da casa do pai de Teresa, diante do qual a jovem passava longos momentos de
contemplação. Esta imagem deixou uma sombra indelével na sua formação
espiritual.
Para Teresa, a samaritana não é simplesmente uma figura histórica, mas o
arquétipo da alma humana, que procura saciar a sua sede em fontes erradas. No "Caminho de perfeição", ela faz
uma reflexão sobre esta busca errante: "Ó valha-me Deus, Senhor meu, como
se parece isso com o que se passa no mundo! Andamos buscando conteúdo nas
criaturas, que é como buscar água na cisterna que não tem água".
A samaritana teve cinco maridos e vivia com um homem que não era o seu
esposo, tentando preencher o seu vazio existencial nas relações humanas. Teresa
identifica esta situação com a condição geral do ser humano.
O diálogo entre Jesus e a samaritana gira em torno da água viva que Cristo
oferece. Esta imagem converte-se numa metáfora central na obra teresiana,
sobretudo na sua doutrina sobre os graus de oração. No "Livro de la
Vida" (capítulos 11-22), desenvolve-se a alegoria das quatro maneiras de
regar um horto, inspirada diretamente na água prometida à samaritana: desde tirar água do poço com muito muita
dificuldade, passando pela nora e pelo rio, até à chuva que rega sem esforço
nosso. Esta progressão reflete o itinerário espiritual que a mesma samaritana
experimentou.
Para Santa Teresa, o mais significativo do episódio é a transformação
radical que produziu o encontro com Cristo. A mulher foi para o poço ao meio
dia, possivelmente para evitar as outras mulheres que a julgavam, e
converteu-se na primeira evangelizadora do seu povo. Teresa vê a samaritana
como o paradigma da sua própria conversão. No "Livro de Vida",
descreve o seu próprio "poço" de vaidades: Comecei de passatempo a
passatempo, de vaidade a vaidade e de ocasião em ocasião, a meter-me tanto em
muitas ocasiões.
O encontro pessoal com Cristo é que muda tudo. Teresa insiste na
importância deste trato íntimo. A samaritana pede: Senhor, dá-me dessa água
para que não tenha mais sede. Teresa compreende profundamente esta sede da alma
que só Deus pode saciar.
A transformação culmina quando a samaritana deixa o seu cântaro (símbolo da
sua vida anterior) e apressa-se a anunciar Cristo. Teresa vive esta mesma
dinâmica quando funda os seus conventos: Parece-me que me abrasava com desejos
de aproveitar algumas almas.
O quadro que a menina Teresa contemplava segue interpelar-nos: onde
procuramos saciar a nossa sede? Estamos mesmo dispostos a receber água viva?
À margem:
A samaritana
Dos amores do Redentor
Não reza a História Sagrada
Mas diz uma lenda encantada
Que o Bom Jesus sofreu de amor.
Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal,
Assim como qualquer mortal
Que um dia de amor palpitou.
Samaritana,
Plebeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-Lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacob.
E tu, risonha, acolheste
O beijo que te encantou,
Serena, empalideceste
E Jesus Cristo corou.
Corou por ver quanta luz
Irradiava da tua fronte,
Quando disseste: - Ó Meu Jesus,
Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte.
Para ouvir o fado – clicar aqui
Este Fado de Coimbra foi escrito na primeira década do século XX e muito
cantado nos anos 60. Era particularmente desagradável à Igreja, por motivos que
serão óbvios.
Quanto a mim, não me sinto perturbado por esta interpretação do episódio da
Samaritana. Aliás, fala da grande sede que Deus tem por cada um de nós, do seu
amor por todos, independentemente dos pecados de cada um. Ninguém fala do amor
carnal… Cada um pode interpretar consoante a sua mente, mais ou menos perversa.
O mesmo se pode dizer do episódio da Maria Madalena que foi lavar com as
lágrimas os pés de Jesus.
Além disso, os próprios discípulos, neste episódio, foram os primeiros a
sugerir um relacionamento menos espiritual de Jesus com a samaritana: “Quando
chegaram os discípulos ficaram admirados por Jesus estar a falar com aquela
mulher, mas nenhum deles lhe perguntou: Que pretendes? ou então, porque falas
com ela? …Entretanto os discípulos insistiam com ele, dizendo Mestre come. Mas
ele respondeu-lhes: Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Os
discípulos perguntavam uns aos outros: Porventura alguém lhe trouxe de comer?
Disse-lhes Jesus: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.”
Há quem garanta que este tema musical é de origem espanhol, adaptado e
adotado pelos estudantes de Coimbra…
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