Ó feliz atraso que me salvou
Não sei se não gosto de esperar porque não
gosto de atrasos ou se não gosto de atrasos porque não gosto de esperar.
Sinto-me incomodado, para não dizer revoltado, nas duas situações.
Há dias combinei com um amigo fazer juntos a
caminhada ao fim da tarde e depois sentarmo-nos numa determinada esplanada para
tomar um refresco.
À hora marcada nem via a sombra do meu amigo.
Esperei impaciente, mas quando chegou não comentei o seu grande atraso.
Por fim quando chegámos à esplanada
escolhida, com uma hora de atraso, fomos surpreendidos com uma agitação
anormal. Um carro descontrolado tinha invadido esse local, ferindo alguns
utentes, precisamente uma hora antes. A minha amargura pelo atraso desvaneceu-se
imediatamente e declarei:
- Ó feliz atraso que nos valeu poupar-nos de
um susto.
E foi este o tema da nossa conversa durante o
resto da tarde. Recordamos, por exemplo o 11 de setembro de 2001 em que
centenas de pessoas sobreviveram aos ataques às Torres Gémeas porque estavam
simplesmente atrasadas: Uma chávena de café derramada, um engarrafamento, uma
bolha nos pés por causa de sapatos novos. Estas pequenas frustrações salvaram
vidas.
As pessoas que trabalhavam no World Trade
Center deveriam estar lá nessa hora e não estavam por causa de corriqueiros
atrasos.
Estes não foram atos heroicos ou dramáticas.
Foram irritações ou frustrações que os fizeram praguejar baixinho e olhar para
o relógio ansiosamente.
Para centenas de pessoas naquele dia 11, os
atrasos significaram tudo. Não faziam ideia de que foram salvas por causa
deles.
No fim, o meu colega lembrou-me:
- Estás a ver? Não vale a pena sofrer por
causa dos atrasos. Às vezes são eles que nos salvam.
E eu respondi:
- Com certeza também alguém ainda estava
naquele local por causa de algum atraso. Infelizmente não está aqui para
testemunhar a consequência disso.
O que interessa é que Deus nos encontre na
hora e no lugar onde ele quer que estejamos.
Quanto a nós, porque é que não estamos no
local e na hora que combinámos?
Deus não se atrasa nem se adianta.
Nós é que não sabemos a quantas andamos.

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