domingo, 15 de março de 2026

Os meus olhos são pequenos


Ano A – IV domingo da Quaresma

A)

O evangelista não apresenta o nome do cego curado porquê?

1º porque pode ser eu ou podes ser tu. Cada um pode pôr o seu nome próprio nessa personagem.

2º porque o objetivo deste episódio não é dar a conhecer o cego curado, mas sim apresentar Jesus como a luz do mundo, ou luz da vida. A cura do cego converte-se então num sinal que revela a identidade de Jesus, que proclama: «Eu sou a luz do mundo».

B)

O cego representa o ser humano que deseja ver e compreender, mas não pode alcançar por si mesmo a plenitude de Cristo e encontrar a verdadeira luz. Jesus é a luz de que todos precisamos.

C)

Ao longo do relato produz-se um processo de revelação progressivo. O cego foi descobrindo pouco a pouco quem é Jesus: primeiro ele chama “esse homem”, depois “profeta”, mais tarde reconhece que vem de Deus e finalmente conhece que é o Filho de Deus e se prostra diante dele com fé, dizendo – Eu creio, Senhor.

D)

O gesto de Jesus ao misturar a terra e a saliva para fazer barro evoca o relato da criação do homem no Génesis, formado pelo pó da terra e animado pelo sopro divino. Aplicando o barro sobre os olhos do cego, Jesus realiza simbolicamente uma nova criação.

E)

Depois Jesus manda o cego lavar-se na piscina de Siloé, cujo nome significa Enviado. O evangelista salienta esse significado para indicar que a verdade enviada é o próprio Cristo. O cego recupera a vista ao obedecer a esta palavra, antecipando assim o caminho da fé. A água converte-se num sinal do batismo, que abre os olhos do crente à luz de Cristo.

F)

Na Igreja primitiva, este sacramento chamava-se precisamente “iluminação”, porque introduzia o homem na vida nova da fé. Os batizados, que antes eram trevas, são chamados ao caminho como filhos da luz.

 

À margem:

Não são os olhos grandes ou pequenos, azúis ou castanhos, com ou sem óculos que veem bem.

O essencial é invisível aos olhos, pois só se vê bem com o coração.

Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração

Quando eu era criança os meus amigos gozavam comigo dizendo que eu tinha os olhos pequeninos. De facto, ainda hoje são pequenos. Eu então respondia:

-  Os meus olhos são pequenos, sim senhor, mas vejo melhor do que muitos de vocês que precisam de usar óculos para verem bem.

Foi aqui em Vila Real de Santo António, onde atualmente resido, que encontrei a melhor e mais poética resposta para os meus olhos pequeninos.

Uma quadra de António Aleixo, nascido nesta cidade em 1899, na sua obra Este Livro que vos Deixo, dá-me uma explicação eloquente:

 

Embora os meus olhos sejam,

os mais pequenos do Mundo

O que importa é que eles vejam

O que os homens são no fundo.

 

Obrigado, poeta Aleixo.

De facto, o que interessa é ver mais fundo, é ver com os olhos do coração, é ver como Deus, é ver o coração.

 

Ver também:

Os olhos do coração

Curar a cegueira

Ver como Deus

Ser cego

O cego e a onça

 

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