Ano A – IV domingo da Quaresma
A)
O evangelista não apresenta o nome do cego curado porquê?
1º porque pode ser eu ou podes ser tu. Cada um pode pôr o seu nome próprio
nessa personagem.
2º porque o objetivo deste episódio não é dar a conhecer o cego curado, mas
sim apresentar Jesus como a luz do mundo, ou luz da vida. A cura do cego converte-se então num
sinal que revela a identidade de Jesus, que proclama: «Eu sou a luz do mundo».
B)
O cego representa o ser humano que deseja ver e compreender, mas não pode
alcançar por si mesmo a plenitude de Cristo e encontrar a verdadeira luz. Jesus
é a luz de que todos precisamos.
C)
Ao longo do relato produz-se um processo de revelação progressivo. O cego
foi descobrindo pouco a pouco quem é Jesus: primeiro ele chama “esse homem”,
depois “profeta”, mais tarde reconhece que vem de Deus e finalmente conhece que
é o Filho de Deus e se prostra diante dele com fé, dizendo – Eu creio, Senhor.
D)
O gesto de Jesus ao misturar a terra e a saliva para fazer barro evoca o
relato da criação do homem no Génesis, formado pelo pó da terra e animado pelo sopro
divino. Aplicando o barro sobre os olhos do cego, Jesus realiza simbolicamente
uma nova criação.
E)
Depois Jesus manda o cego lavar-se na piscina de Siloé, cujo nome significa
Enviado. O evangelista salienta esse significado para indicar que a verdade
enviada é o próprio Cristo. O cego recupera a vista ao obedecer a esta palavra,
antecipando assim o caminho da fé. A água converte-se num sinal do batismo, que
abre os olhos do crente à luz de Cristo.
F)
Na Igreja primitiva, este sacramento chamava-se precisamente “iluminação”,
porque introduzia o homem na vida nova da fé. Os batizados, que antes eram trevas,
são chamados ao caminho como filhos da luz.
À margem:
Não são os olhos grandes ou pequenos, azúis ou castanhos, com ou sem óculos
que veem bem.
O essencial é invisível aos olhos, pois só se vê bem com o coração.
Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração
Quando eu era criança os meus amigos gozavam comigo dizendo que eu tinha os
olhos pequeninos. De facto, ainda hoje são pequenos. Eu então respondia:
- Os meus olhos são pequenos, sim
senhor, mas vejo melhor do que muitos de vocês que precisam de usar óculos para
verem bem.
Foi aqui em Vila Real de Santo António, onde atualmente resido, que
encontrei a melhor e mais poética resposta para os meus olhos pequeninos.
Uma quadra de António Aleixo, nascido nesta cidade em 1899, na sua obra
Este Livro que vos Deixo, dá-me uma explicação eloquente:
Embora os meus olhos sejam,
os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.
Obrigado, poeta Aleixo.
De facto, o que interessa é ver mais fundo, é ver com os olhos do coração,
é ver como Deus, é ver o coração.
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