segunda-feira, 16 de março de 2026

Praganas e amores-de-burro

Hoje na minha caminhada ao fim da tarde tive de atravessar um jardim abandonado ou mal cuidado. Ao regressar ao calçadão senti umas picadas na barriga das pernas. Tive de me sentar e retirar um a um os conhecidos amores-de-burro que se tinham pegado nos meus sapatos, meias e calças.

Não sei porque chamamos amores-de-burro ou carrapichos (no Brasil) a essas plantas herbáceas cujas sementes, pelos ou espinhos se prendem à roupa e aos animais que as roçam. Não me senti incomodado por isso, mas antes pelo contrário, senti-me feliz por colaborar no processo de fertilização dessa planta. Elas apegam-se a quem passa para serem levadas mais longe e aí semeadas num novo terreno. Foi o que fiz para que pudessem reproduzir-se em vários lugares.

Também já me aconteceu enfiar uma pragana pelas calças adentro. E lembrei-me de um sermão de meu pai costumava da eira cheia de espigas de trigo.

Ele era muito divertido, tocava sanfona, machete, gaita de beiços, cantava ao desafio e bailava. E brincava com tudo, às vezes até de maneira irreverente.

Recordo duas quadras (no original com uma palavra mais ordinária ou grosseira) que ele cantava com uma melodia popular, quando alguém chorava por alguma situação desagradável ou dolorosa:

 

Maria Joana

do Pico do Vento

Meteu uma pragana

pela manga adentro.

 

Maria Joana chorava

e a pragana entrava.

Maria Joana ria

e a pragana saía.

 

A lição era clara: Se choras, pioras a situação. Se ris, alivias a situação.

E se mesmo assim continuava a chorar, meu pai continuava a cantar, desta vez: pela calça adentro ou então pela terceira vez: pela saia adentro… até que a criança se calasse.

É preciso encarar a realidade com naturalidade e sem dramatismos. Antes pelo contrário, é uma boa oportunidade para colaborar com a natureza a cumprir a sua missão. Em vez de chorar pelo incómodo da invasão de uma pragana ou de um amor-de-burro, devemos alegrar-nos pela colaboração dada a essas plantas. A natureza agradece.

Não há como enfrentar os supostos incómodos com meiguice e calma, sem estresse nem revolta. Só assim aliviamos a situação.

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