No percurso das minhas caminhadas ao fim da tarde encontro muitas amendoeiras, típicas da região do Algarve. Antes da primavera aparecem
todas floridas. É um espetáculo que enche os olhos da cara e da alma.
Aprendi nessa ocasião a história da
amendoeira, a árvore que enganou o Diabo. Ele viu-a florescer nos fins de
janeiro e, julgando que não tardariam os frutos, sentou-se debaixo dela à
espera. E lá ficou até setembro, altura em que se fartou de esperar e foi
espreitar as outras árvores. Não sabia que nesse mês é que são recolhidos os seus frutos tal como os das outras árvores. Aborrecido, voltou para junto da amendoeira e
viu que, entretanto, as amêndoas também já tinham sido apanhadas. Bem enganado
foi.
Mas eu nunca vi nenhum Diabo debaixo destas
amendoeiras em flor. Vi sim a beleza dessa árvore em flor, que aponta para a
vida e ressurreição. De facto, há quem identifique na amendoeira a figura de
Cristo.
A amendoeira é uma das primeiras árvores a
florescer, rompendo a longa noite invernal e anunciando a primavera. Por isso,
tornou-se símbolo de renovação e esperança.
Também encontrei amêndoas na Bíblia. Jeremias
(1,12), ao contemplar um ramo de amendoeira que floresce, percebe o nascimento
do Messias; o Eclesiastes (12,5), na “amendoeira que abre em flor”, vê a
ressurreição após a morte na cruz; e, em Números (17,23), na vara de Aarão, florindo
e produzindo amêndoas, reconhece a força redentora da Cruz como vara florida.
Tal como a amêndoa guarda um fruto saboroso
atrás de duas cascas, uma amarga e outra rija, a Cruz revela, a princípio,
sofrimento e aflições, mas depois amparo e fortaleza, até se revelar suave e
saborosíssima no seu fruto redentor.
Os povos antigos envolviam as amêndoas em mel. A
partir do século XVI, com a chegada do açúcar os conventos começaram a produzir
amêndoas cobertas de açúcar.
Seja na vida que brota após a aridez do
inverno ou nas tradições dos doces conventuais, as amêndoas da Páscoa continuam
a dizer-nos que há um fruto escondido dentro das cascas amargas da vida,
promessa de ressurreição.
Hoje fiz a minha caminhada com uma amêndoa
doce na boca, para não esquecer que estou a caminho da Páscoa.

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