segunda-feira, 23 de março de 2026

As amendoeiras em flor

No percurso das minhas caminhadas ao fim da tarde encontro muitas amendoeiras, típicas da região do Algarve. Antes da primavera aparecem todas floridas. É um espetáculo que enche os olhos da cara e da alma.

Aprendi nessa ocasião a história da amendoeira, a árvore que enganou o Diabo. Ele viu-a florescer nos fins de janeiro e, julgando que não tardariam os frutos, sentou-se debaixo dela à espera. E lá ficou até setembro, altura em que se fartou de esperar e foi espreitar as outras árvores. Não sabia que nesse mês é que são recolhidos os seus frutos tal como os das outras árvores.  Aborrecido, voltou para junto da amendoeira e viu que, entretanto, as amêndoas também já tinham sido apanhadas. Bem enganado foi.

Mas eu nunca vi nenhum Diabo debaixo destas amendoeiras em flor. Vi sim a beleza dessa árvore em flor, que aponta para a vida e ressurreição. De facto, há quem identifique na amendoeira a figura de Cristo.

A amendoeira é uma das primeiras árvores a florescer, rompendo a longa noite invernal e anunciando a primavera. Por isso, tornou-se símbolo de renovação e esperança.

Também encontrei amêndoas na Bíblia. Jeremias (1,12), ao contemplar um ramo de amendoeira que floresce, percebe o nascimento do Messias; o Eclesiastes (12,5), na “amendoeira que abre em flor”, vê a ressurreição após a morte na cruz; e, em Números (17,23), na vara de Aarão, florindo e produzindo amêndoas, reconhece a força redentora da Cruz como vara florida.

Tal como a amêndoa guarda um fruto saboroso atrás de duas cascas, uma amarga e outra rija, a Cruz revela, a princípio, sofrimento e aflições, mas depois amparo e fortaleza, até se revelar suave e saborosíssima no seu fruto redentor.

Os povos antigos envolviam as amêndoas em mel. A partir do século XVI, com a chegada do açúcar os conventos começaram a produzir amêndoas cobertas de açúcar.

Seja na vida que brota após a aridez do inverno ou nas tradições dos doces conventuais, as amêndoas da Páscoa continuam a dizer-nos que há um fruto escondido dentro das cascas amargas da vida, promessa de ressurreição.

Hoje fiz a minha caminhada com uma amêndoa doce na boca, para não esquecer que estou a caminho da Páscoa.



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