Hoje não tive disposição para a minha caminhada
como sempre. O calor excessivo, a humidade pesada ou a preguiça fez-me sair com
um livro na mão e sentar-me à sombra de uma árvore, junto ao Guadiana. Aí podia
contemplar a outra margem, as terras de Espanha ali em frente. Li algumas
páginas do livro de François Xavier Bustillo: Passemos à outra margem (por uma
vida religiosa renovada):
- Passar para a outra margem não é fugir de uma
dura realidade ou procurar uma margem mais suave, mas sim recentrar o foco.
- A outra margem é lugar de surpresa, de
descoberta, de novidade, de outros mares, outros montes, outros desertos.
- Às vezes, ao chegar à outra margem, há
surpresas. Nem tudo é melhor ou mais fácil, há outros desafios, tempestades,
ventos.
Fechei o livro e fiquei a olhar para a outra
margem. Mas o que ocupou o meu pensamento foi uma fábula de Fernando Pessoa.
“O
BURRO E AS DUAS MARGENS
É
costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser
estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e
não consegue passar para a outra margem.
O
rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que
faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E
então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que
devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é
que a tem.
Mas
a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.
O
burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou,
efetivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a)
não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.
Então
o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou:
Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.
Porque,
nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também…
Moralidade:
A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras
diferentes… Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.”
Na
minha caminhada de hoje fui até à outra margem, sem sair do mesmo lugar. E
aprendi a não desistir.

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