terça-feira, 31 de março de 2026

Passemos à outra margem

Hoje não tive disposição para a minha caminhada como sempre. O calor excessivo, a humidade pesada ou a preguiça fez-me sair com um livro na mão e sentar-me à sombra de uma árvore, junto ao Guadiana. Aí podia contemplar a outra margem, as terras de Espanha ali em frente. Li algumas páginas do livro de François Xavier Bustillo: Passemos à outra margem (por uma vida religiosa renovada):

- Passar para a outra margem não é fugir de uma dura realidade ou procurar uma margem mais suave, mas sim recentrar o foco.

- A outra margem é lugar de surpresa, de descoberta, de novidade, de outros mares, outros montes, outros desertos.

- Às vezes, ao chegar à outra margem, há surpresas. Nem tudo é melhor ou mais fácil, há outros desafios, tempestades, ventos.

Fechei o livro e fiquei a olhar para a outra margem. Mas o que ocupou o meu pensamento foi uma fábula de Fernando Pessoa.

“O BURRO E AS DUAS MARGENS

É costume contar-se às crianças, quando começam a estar em idade de começar a ser estúpidas, uma história a propósito de um burro que chega à margem de um rio e não consegue passar para a outra margem.

O rio não tem ponte, o burro não sabe nadar, não há barca que o transporte. O que faz o burro? Depois de algum tempo de pensar, a criança diz que desiste. E então a pessoa adulta, que lhe pôs a adivinha, diz: O mesmo fez o burro. O que devia dizer era: És como o burro, porque assim é que a graça tem graça, se é que a tem.

Mas a história não se passou assim, e foi o burro mesmo que m'a contou.

O burro chegou à margem do rio, e queria passar para a outra margem. Verificou, efetivamente, e nesse particular a história é verídica como se narra, que (a) não havia ponte, (b) não havia barco, (c) ele, burro, não sabia nadar.

Então o burro pensou: O que faria um homem no meu caso? E, depois de pensar, pensou: Desistia. Pois bem, decidiu: Sou como o homem.

Porque, nesta adivinha, ninguém pensou numa coisa: é que o homem desistia também…

Moralidade: A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes… Cuidado com os tecidos políticos que se podem virar do avesso.”

Na minha caminhada de hoje fui até à outra margem, sem sair do mesmo lugar. E aprendi a não desistir.

 


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