segunda-feira, 2 de março de 2026

Aprender a escutar os outros

Aprender a escutar os outros

 

Hoje na minha caminhada no fim da tarde segui o modelo de Fernando Pessoa, para escutar as pessoas, qual espião das suas conversas.

“Um dos meus passeios prediletos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.

E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... “E então ela disse...” e o tom diz da intriga dela. “Se não foi ele, foste tu...” e a voz que responde ergue-se no protesto que já não ouço. “Disseste, sim senhor, disseste...” e a voz da costureira afirma estridentemente “A minha mãe diz que não quer...”

Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer – não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse – o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direção involuntária e baixa, nos seus atravessamentos sujos…

“O gajo estava tão grosso que nem via a escada.” Ergo a cabeça. Este rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente, porque quem descreve esquece-se de si.

A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a horrorosa ignorância da importância do que são... Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.” (Fernando Pessoa in Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, nº 62.)

Uma caminhada é sempre oportunidade para ouvir a Natureza, para ouvir o ambiente envolvente, para ouvir a si mesmo como também para ouvir os outros.

Hoje, foi sobretudo ocasião para escutar quem nem imaginava que estava a ser escutado.

Caminhar é também aprender a escutar.


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