Aprender a escutar os outros
Hoje na minha caminhada no fim da tarde segui
o modelo de Fernando Pessoa, para escutar as pessoas, qual espião das suas
conversas.
“Um
dos meus passeios prediletos, nas manhãs em que temo a banalidade do dia que
vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas ruas fora,
antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de frases que
os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam cair, como
esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é
sempre a mesma sucessão das mesmas frases... “E então ela disse...” e o tom diz
da intriga dela. “Se não foi ele, foste tu...” e a voz que responde ergue-se no
protesto que já não ouço. “Disseste, sim senhor, disseste...” e a voz da
costureira afirma estridentemente “A minha mãe diz que não quer...”
Outros,
que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as vozes todas
são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso dizer – não ouso
dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse – o que tenho visto
nos olhares casuais, na sua direção involuntária e baixa, nos seus
atravessamentos sujos…
“O
gajo estava tão grosso que nem via a escada.” Ergo a cabeça. Este rapazote, ao
menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que quando sente,
porque quem descreve esquece-se de si.
A
intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o
contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente da
própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco, a
horrorosa ignorância da importância do que são... Tudo isto me produz a
impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário dos sonhos,
das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das sensações.” (Fernando
Pessoa in Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, nº 62.)
Uma caminhada é sempre oportunidade para
ouvir a Natureza, para ouvir o ambiente envolvente, para ouvir a si mesmo como
também para ouvir os outros.
Hoje, foi sobretudo ocasião para escutar quem
nem imaginava que estava a ser escutado.
Caminhar é também aprender a escutar.

Sem comentários:
Enviar um comentário