sábado, 16 de março de 2024

Pe. Dehon em português (2)


Segundo Capítulo da Primeira Biografia do Pe. Dehon em Português

Era feliz

“Estava finalmente no meu meio: era feliz. O seminário era uma casa velha, estreita, alta, escura e triste. Não me importava, era feliz! Puseram-me no quinto ou sexto andar, já não me lembro bem, duma águas furtadas, debaixo do telhado, sobre a capela. O quarto pequeno e nu, o leito duro… que importância tinha! Era feliz” (Diário).

Das suas notas íntimas transparece o entusiasmo da sua dedicação, a seriedade do seu empenho, a delicada e assídua obra da Graça, a sua fidelidade atenta e constante. Já desde o primeiro ano de seminário aparece clara a orientação que Deus dava à sua espiritualidade: uma orientação que desde já revela as futuras inclinações, os grandes ideais e as realizações generosas. “Nosso Senhor tomou conta da minha vida interior e fixou nela as disposições que deviam ser a característica dominante da minha existência: a Devoção do S. Coração, a humildade, a conformidade com a sua vontade, a união com Ele e a vida de amor.” (Diário).

A confidência que o jovem seminarista nos faz: “Ardo no desejo de ser um santo sacerdote!” (Diário); é a mais expressiva que se podia esperar, e diz-nos todo o esforço para purificação, que o faz procurar e chorar as pequenas faltas da vida passada, o zelo e o desejo de expiação “pelos pobres pecadores atormentados pela sua ignorância e pelas suas culpas” (Diário), a oração rica de sentimentos suaves, cheia de doçura e de paz; doçura e paz que se mantêm pelo dia fora. E realiza todos os seus trabalhos “sem deixar de sentir a presença de Deus, sem sair da sua vida de recolhimento!” (Diário). Às vezes surgem impressões mais vivas, mais ardentes, que abalam profundamente a sua alma e criam desejos imensos. É a violência do amor. Então o coração vibra fortemente, o espírito inflama-se, e a fascinação de Deus é irresistível. Não pode deixar de chorar, consolado, ao sentir esta inefável ação divina. “A alma faz tudo por amor, na ânsia de agradar a Deus e fazer amá-lo. Tudo oferece a Deus, desprezando o mundo; obedece docilmente ao seu diretor e aos seus superiores, tem grandes desejos de mortificação; quer cumprir em todas as coisas a vontade de Deus; pratica com perfeição a caridade para com o próximo… Descrevendo estas graças divinas, descrevi, se não é ilusão, o que a inesgotável misericórdia de Deus operou a pouco e pouco na minha alma e com faltas devidas às minhas resistências e imperfeições.” (Diário).

É seminarista fervoroso. Deus já recompensou largamente as suas corajosas renúncias. Mas o estímulo, tão vivo e tão doce, não cessa. Desperta sempre mais clara e intensa a inclinação para a vida religiosa. Quanto mais, na vida religiosa, se ama a Deus, tanto mais fácil é o caminho da santidade! O jovem seminarista fica impressionado pelas palavras de S. Belarmino: - Além dos mártires, há bem poucos santos canonizados que não tivessem estado em conventos”. Uma visita às salas do Cardeal Vigário dá-lhe a mesma impressão: retratos de Cardeais canonizados, mas quase todos de conventos. “Eu amo a coerência, diz então, e por isso quero entrar numa religião, não para ser canonizado, mas para fazer-me santo e para melhor amar e servir a Deus”. (Diário).

Desde então tem sempre nos lábios a mesma oração, a que será também o seu mote, o seu programa: “Domine quid facere?” (Senhor o que queres que eu faça?). Responde, ó Senhor… e eu o farei.

***

Entretanto manifesta-se a primeira prova tangível da vontade de Deus que o chama. É o convite oficial: a S. Tonsura, as Ordens Sacras, o Subdiaconado, o Diaconado. Que alvoroço de comoção depois de tão grande e atormentada espera!

“Desejava tanto realizar a minha separação do mundo, entregar-me todo ao Senhor… Recebendo a Tonsura, deixei cair muitas lágrimas, juntamente com os meus cabelos, na bandeja do Sr. Bispo. Por tanto tempo tinha esperado e lutado para realizar a minha Vocação! Entrava assim na Terra Prometida” (Diário).

Será talvez necessário dizer que a sua união cada dia mais íntima, o seu amor mais fervoroso, a sua generosidade sem reserva? Havia no íntimo do seu coração – verdade seja – uma constante e profunda tristeza: era a dor de ver que “Jesus não era amado” (Diário). E lembrava-se do que dizia o santo Cura de Ars, “Deus fez as aves para cantar, e elas cantam; fez os homens para o amarem e eles não o amam…”

Mas a tristeza das almas que amam, é a mais suave doçura, a mais tranquila e tocante comoção que pode apoderar.se do nosso espírito; sofre-se com Aquele e por aquele que amamos. E como é doce sofrer por amor!

No exercício diário da Via Sacra, o fervoroso Seminarista confirma os seus sentimentos, primeira manifestação de uma chama de Amor e de Reparação que será a luz e o estímulo dos dias futuros.

Na cela de oração e de estudo, há um Crucifixo que é o seu confidente e companheiro: “O S. Coração de Jesus, fonte de alegria, jardim fechado, lugar de refúgio, porto de salvação, fortaleza inexpugnável” (Diário). O que queremos mais?

“Dia de felicidade, de alegria pura. Início da verdadeira liberdade: servir a Deus é reinar!” (Diário). Assim foi o dia 21 de dezembro de 1867, quando foi ordenado subdiácono; assim foram todos os dias daquele ano a que Pe. Dehon chamará “um dos melhores da sua vida. Parece-me que Nosso Senhor me tinha mandado fazer, naquele ano, o meu Noviciado de vida religiosa e que era Ele o próprio Mestre. Julgo que posso hoje compreender o motivo. Naquela época, na Alsácia, começava aquela Comunidade (as Escravas do S. Coração) que se devia unir a nós e ter para connosco uma missão toda maternal.

“As nossas primeiras Madres tonaram o véu em 21 de novembro de 1867. Também elas faziam o Noviciado. O Senhor se comprazia, sem dúvida, na sua bondade, em preparar ao mesmo tempo as duas Obras. As luzes que Deus me dava em todas as minhas meditações daquele ano eram assim, conformes com a nossa Vocação de Sacerdotes Oblatos do S. Coração de Jesus. Os meus apontamentos espirituais de então podiam servir para orientar um Diretório Espiritual da Obra” (Diário).

O pensamento em que mais se insiste é o da união: a união com Nosso Senhor, a união que é “o início da vida do Céu”; união ao S. Coração de Jesus, para se viver sempre em paz, na santa alegria que enche a alma e se espalha à nossa roda. Pe. Dehon fala-nos da sua “alegria cada dia mais forte pela vida íntima de amor a Nosso Senhor” (Diário). Uma expressão do Pe. Libermann: “Viver e morrer numa solidão profunda, desconhecido pelos homens, amado, abençoado e consolado somente por Deus” exprime bem a sua verdadeira vontade. A sua vida interior é-lhe muito favorável: “para conformar-me com a vontade de Deus, unir-me-ei ao Coração de Jesus, seguindo docemente, com paciência e amor a Providência de Deus e a inspiração do Espírito Santo” (Diário).

E do Espírito santo estava ele cheio naquele dia em que tomava esta resolução: 6 de junho de 1868, o dia do seu Diaconado.

Sempre mais visível é o fio que o guia, assim como todas as luxes com que Deus o favorece no decorrer do ano. É assim que ele se exprime: “O Senhor estimulava-me cada vez mais, de dia para dia, a unir-me ao S. Coração” (Diário).

(Continua)


 Ver também:

Pe. Dehon em português (1)



 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Dia mundial do sono


Dizem-me que hoje é o dia mundial do sono, nesta sexta-feira anterior ao equinócio da Primavera.

É uma oportunidade para valorizar a importância do sono para a saúde física e mental. Uma boa noite de sono é essencial para o funcionamento adequado do corpo e da mente, e (porque não também?) da alma.  

 

Rezar dá-me sonhos

Alguém perguntou:

- Senhor padre, quando reza não fica com sono?

- Com sono não, mas com sonhos sim... 

De facto, rezar ajuda-me a sonhar e a fazer dos sonhos de Deus os meus sonhos e vice-versa. Deus não dorme, mas sonha…

 

Existe um sono da alma e um sono do corpo.

Todos nós devemos ter o sono do corpo, porque se não tivermos sono desfalecemos e o corpo se enfraquece. O nosso corpo frágil não suporta por longo tempo o peso do espírito desperto e empenhado na ação; se o espírito se empenhar longamente na ação, o corpo frágil e terreno não aguenta, não suporta esta ação contínua, desfalece e sucumbe. Por isso Deus deu ao corpo o sono, reparador das forças corporais, a fim de que seja capaz de suportar o espírito desperto.  No entanto, o que devemos evitar é o sono da alma; o sono desta é um mal. É um bem o sono corporal que restaura a saúde corporal. O sono da alma, porém, consiste em esquecer-se de Deus. E toda a alma que se esquece de Deus dorme. Por isso, o Apóstolo censura a alguns que, esquecidos de Deus, como que em sonho, entregam-se ao delírio do culto idolátrico. Os que adoram os ídolos são como os que sonham; quando acordam, entendem quem os criou e não adoram o que eles mesmos fabricaram. Exorta o Apóstolo a alguns: “Ó tu, que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Queria por acaso o Apóstolo despertar alguém entregue a um sono corporal? Não, pelo contrário, acordava a alma adormecida, e despertava-a para ser iluminada por Cristo. É de acordo com esta vigília da alma que reza o salmista: “Deus, meu Deus, desde o raiar da aurora, estou de vigília a procurar-te”. Não estarias desperto espiritualmente, se não tivesse raiado a tua luz, para te acordar. Pois, Cristo ilumina as almas e as faz vigilantes; se ele retira a sua luz, elas adormecem.  A vossa vida, os vossos costumes devem estar despertos para Cristo, a fim de que os outros, os pagãos mergulhados no sono, acordem ao som de vossas vigílias, sacudam o torpor, e comecem convosco a repetir: “Deus, meu Deus, desde o raiar da aurora, estou de vigília a procurar-te”.

(Cf. Sermão de Santo Agostinho sobre o Salmo 62)

 

Dormir como São José

No meio da correria,

Do faz aqui, resolve ali.

É preciso parar,

Deixar o silêncio falar.

É hora de dormir!

 

É hora de calar,

Para uma só voz, ouvir.

Fechar os olhos e confiar,

Que tens um pai a te guardar.

 

Dormir, ato sincero de quem sabe,

Que dali, nada mais lhe cabe!

Que a força do braço nada pode fazer,

E muito menos a razão poderia resolver!

 

Dormir como José dormiu,

Ouvir tua voz como ele ouviu,

Despertar, e com pressa corresponder,

Como fez José sem tempo a perder!

 

Pés apressados e seguros,

Por saber quem era o Senhor de tudo,

Aquele que no segredo lhe falara,

Era o mesmo que no caminho lhe guardava!

(Cf. Maria Ávila, Shalom.com)

 

Ver também:

Dormir durante o sermão

São José dormindo

São José sonhador

O homem dos sonhos

No mar da vida 

Jesus dorme


Que horas são ?


6ª feira – IV semana da quaresma

 

A hora de Jesus

Ninguém lhe deitou a mão, porque ainda não chegara a sua hora.

A sua hora é de facto quando ele for de todos e para todos.

A hora de Jesus…

será as 3 da tarde

Pai, Filho, Espírito Santo


A nossa hora

- QUE HORAS SÃO?

- ORA… SÃO…

 

HORA DE AÇÃO

ORA E AÇÃO

ORAÇÃO!

 

São sempre horas de rezar, de presença e de união com Deus

Que horas são?

Ora… são… 

Ver também:

Deus é sempre pontual

Jesus em segredo

Jesus é o segredo

A hora de Jesus

Em segredo

 

quinta-feira, 14 de março de 2024

Pe. Dehon em português (1)


A primeira biografia do Pe. Dehon em Português foi publicada no Funchal em 1950 pelo Colégio Missionário, precisamente 25 anos depois da sua morte. Foi escrita pelo Pe. José Girardi e impressa pelo Eco do Funchal com 42 páginas, com 10 capítulos e seis fotografias.

FICHA TÉCNICA

Autor – P. José Girardi, SCJ

Título – PADRE L. JOÃO DEHON

Edição – Colégio Missionário S. Coração, Funchal, Caminho do Monte, 9 – Telef 1346 Madeira

Editora – Composto e impresso nas oficinas do ECO DO FUNCHAL, Travessa do Freitas 10-12, Funchal, Madeira

Imprimatur – Cónego Manuel F. Camacho, Vigário Geral, Funchal, 08-12-1949

Declaração – Nada do que se escreveu nestas páginas seja tomado como juízo antecipado à decisão da Igreja.

 

O ECCE VENIO

“Fui batizado no dia 24 de março de 1843 na humilde igreja de La Capelle pelo digno e venerando Padre Hércart, que havia de ser, por mais doze anos, o nosso Pároco, e que me preparou para a Primeira Comunhão. Em 24 de março era a festa duma criança mártir: S. Simeão, mas era, sobretudo, a véspera da Anunciação. E, senti-me feliz, mais tarde, por poder juntar à recordação do meu Batismo a do Ecce Venio de Nosso Senhor. Esta recordação inspirou-me uma grande confiança. O Ecce Venio do S. Coração de Jesus protegeu e abençoou a minha entrada na vida cristã. Há de, sem dúvida, ser agradável ao Senhor, que eu tome este facto como uma graça especial da Sua Providência em vista da minha atual vocação de Sacerdote- Hóstia do Coração de Jesus” (Pe. Dehon, Diário).

***

Leão Gustavo Dehon nasceu a 14 de março de 1843 em La Capelle, nos confins da França Setentrional. Seu pai, um gentil-homem reto e de bom coração, ainda que afastado das práticas religiosas, admirava e respeitava muito a vida cristã. Uma luz iluminará, a pouco e pouco, a sua alma, ao +asso que o filho se for aproximando do alto fim para o qual Deus o destinara: - O Sacerdócio. Pelo contrário, a mãe tinha uma fé pura, simples, intensa, cheia duma grande devoção ao S. Coração de Jesus. O Pe. Dehon vê nela um dos maiores dons de Deus e o instrumento de mil graças. “A bela alma de minha mãe, diz ele com satisfação, passou um pouco para a minha” (Diário). A união destes dois corações será sempre caracterizada por uma singular nobreza e uma intimidade profunda: “Quando eu, já Sacerdote, três ou quatro vezes por ano, a encontrava – escreve o Pe. Dehon, – ela pedia-me sempre que lhe falasse sobre a vida interior. Queria estar ao corrente do que em mim se passava, e por fim acabou por fazer a sua Profissão de Vítima do S. Coração de Jesus” (Diário).

No seu primeiro encontro com Jesus na Eucaristia, sentiu “uma forte impressão de Graça… Creio firmemente que Nosso Senhor começou a amar-me naquele dia” (Diário).

Depois, rapaz já de doze anos, deixa pela primeira vez a casa paterna e entra no Colégio de Hazebrouk. É a vida com as suas primeiras lutas, as suas dúvidas, as suas fraquezas e as suas vitórias. Ao passo que os seus estudos decorrem com o maior êxito, mais se abre a sua alma onde ecoa a voz de Deus. O Artista trabalha pacientemente, preparando a sua grande Obra de Arte, formada de bem pouco e até de nada.

A noite de Natal de 1855, passada em oração na capela de Hazebrouk, é o ponto de partida, um novo despertar de fé e de sede eucarística: um convite à Vocação para o Sacerdócio que desabrocha ainda incerta, mas já vivendo no seu pequeno coração: “Nosso Senhor fez-me gostar do espírito de oração, do espírito de pureza, que me lembra a sua vontade para com as crianças da Palestina”.

A leitura da vida dos santos comove-o. Acentua-se sempre mais na sua vontade: “Ser religioso e missionário”.

Não podemos pensar, sem um vivo comprazimento, neste rapaz que desde o início, como ele mesmo nos diz, quer dar-se sem medida e trabalhar ardorosamente; luta, resiste, e não obstante as crises internas e tentações, não desanima e reforça-se na Vocação que o atrai por uma necessidade íntima de união com Jesus e por um zelo ardente pela salvação das almas. Agora já não é o menino dos dias sempre serenos, sempre cheios de sol e de céu azul, sem nuvens nem tempestades, mas sim um rapaz, normal e, por isso, mais agradável, muito mais próximo de nós e das nossas hesitações, do bem e do mal, próprios de cada um; um rapaz, porém, nada comum pela energia com a qual encara as dificuldades, especialmente as mais duras de resolver, as que só a imolação do nosso coração, as nossas lágrimas e o nosso sangue podem vencer.

O pai fica entusiasmado com o brilhante resultado dos seus estudos. Sonha para o filho um lugar de destaque na vida. Custa sempre muito deitar abaixo o sonho dum pai, ainda que esse sonho seja desfeito por uma vontade superior: a vontade de Deus. Começam então a passar.se cenas bem dolorosas todas as vezes que Leão volta a casa dos pais, coroado de novos sucessos.

Mas a voz de Deus não cessa de chamá-lo: “A minha vocação mantinha-se, escreve o Pe. Dehon, e eu dou sempre e sempre mil graças a Deus. Não hesito. Quero ser de Deus!” (Diário).

Em Paris, desde o ano 1859 até o ano de 1864, ainda mais seguro se torna a virtude, em contraste com o meio mundano, e ao trabalho intelectual junta-se a atividade social entre os pobres da metrópole. A S. Comunhão diária é o farol que ilumina estes anos delicados e perigosos.

Em 1864, volta a La Capelle. É formado em Direito e advogado, aos 21 anos. A grande alegria da família tem a ensombrá-la sempre a mesma nuvem: pai e filho não concordam com o futuro. Uma viagem pelo Oriente daria bom resultado, na opinião do pai, para o distrair daquela ideia fixa; mas nos planos de Deus a visita aos lugares santos seroa uma confirmação: “Q minha fé e a minha Vocação deviam encontrar nesta viagem tanta força!” (Diário).

No regresso, de passagem por Roma foi escolhido também o lugar onde devia fazer os seus estudos sagrados. Pio IX tinha-lhe aconselhado o seminário de Santa Clara, e Leão Dehon teve ali o primeiro encontro com o seu futuro diretor Pe. Freyd, “um homem de Deus, um santo, como dizia Pio IX” (Diário).

Veio a calma! Quanto alívio e quanta consolação exprimem estas simples palavras: “eu já estava em paz”! (Diário). A paz conquistada com tenacidade e irredutível vontade do bem, a paz que contém em si o segredo de tanta força contra todos os ataques.

E o último ataque esperava-o no regresso, o último e o mais tremendo. Até sua mãe com a qual tinha todo o direito de contar, abandonava-o. “Ela era piedosa, queria.me piedoso, mas o Sacerdócio assustava-a. Julgava que eu não pertenceria mais à família, e que ela me perderia para sempre. Tive de endurecer o coração para poder resistir a todos os assaltos.” (Diário).

O Ecce Venio não era só uma fórmula vã. Leão Dehon há de doravante sentir isto mesmo, cada vez mais. E com toda a alma repete e repetirá: “como Tu, ó Senhor, segundo a santa vontade do Pai, aqui estou: pronto! Já vou!”. 

(continua)

 


As ações falam mais alto


5ª feira – IV semana da quaresma

As ações falam melhor que a língua e mais alto do que as palavras

Mas Eu tenho um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai Me deu para consumar – as obras que Eu realizo – dão testemunho de que o Pai Me enviou – disse Jesus.

 

A melhor maneira de mostrar, de dar testemunho, de falar é através de obras, de ações e do exemplo.

 

De facto, as palavras passam, levam-nas o vento, mas as ações permanecem, os gestos ficam.

 

Todas as palavras são mentirosas, até que as atitudes provem o contrário.

Não são as palavras que devem provar as atitudes, mas estas que validam as palavras.

 

Ver também:

Rezar com o coração

Dura cerviz

Manual de oração

 

quarta-feira, 13 de março de 2024

Viva o Papa Francisco


11º aniversário da eleição do Papa Francisco.

Citações e imagens diversas de um papa do nosso tempo

 

Antigamente os católicos apreciavam e defendiam o seu Papa enquanto os não católicos e os ateus acusavam e denegriam-no.

Hoje é o contrário. Os de fora da igreja apreciam e defendem o Papa, enquanto os de dentro dizem mal dele, desejam-lhe mal e ridicularizam-no. É uma nova maneira de o martirizar.

Diz um pai de família: “Que coisa terrível para um católico, supostamente fiel, odiar o papa. O ódio é uma palavra muito forte, mas é o que se vê. Quão terrível então não gostar do papa, ficar zangado com o papa, até mesmo suspeitar dele. Certos blogs e sites tradicionalistas encabeçam a reação contra o Papa. Ainda o Papa Francisco não tinha sido eleito havia menos de duas horas e o vitríolo começou a aparecer nas caixas de comentários. Muitos da multidão tradicionalista reagiram contra o Papa Francisco com palavras que eram francamente ofensivas. Se um dos meus filhos falasse assim sobre um padre (ou qualquer homem mais velho, aliás), o meu filho teria um traseiro dolorido e uma longa permanência em um quarto escuro.”

De facto, nunca vi tal violência contra um Papa. Será que antes não havia gente do contra? Ou será que as pessoas não se manifestavam ou não publicavam como agora nas redes sociais? Ou será que a educação das pessoas é diferente, é mais desadequada ou mais convencida? Mas, afinal, que sei eu melhor do que o Papa para o criticar?

“Agnóstico me confesso, mas acredito convictamente neste Papa, no seu papel reformista que, estou certo, deixará marca indelével e fará da instituição católica uma nova igreja abrangente e inclusiva. Porque ao invés de tentar levar os homens a Deus, Francisco traz Deus aos Homens.” (Pedro Abrunhosa, músico)

Num encontro com crianças de todos os continentes uma menina de Singapura perguntou ao Papa Francisco – Quais são os seus santos preferidos? O Papa respondeu – Tenho muitos santos amigos e não sei qual deles admiro mais. Mas sou amigo de Teresinha do Menino Jesus, de Santo Inácio e de São Francisco, de cada um por uma razão diferente.

O imã do Al-Azhar, que se encontrou há pouco tempo com o Francisco, teceu grandes elogios ao Papa e disse que os homens sem religião são uma ameaça para o seu próximo. De facto, homens sem fé são perigosos.

Desde o início do seu Pontificado o Papa Francisco habituou-nos a uma linguagem diferente.

A linguagem do Papa Francisco:

- É uma linguagem implicativa – não se colocar fora.

- Uma linguagem hospitaleira – compreender as dores do outro

- Uma linguagem reveladora – fazer Deus presente no mundo.

A fé segundo o Papa Francisco:

- Uma fé que não nos questiona é uma fé sobre a qual nos devemos questionar.

- Uma fé que não nos anima é uma fé que deve ser animada.

- Uma fé que não nos sacode é uma fé que deve ser sacudida.

- Uma fé que não nos põe em crise é uma fé em crise.

Perguntaram ao Papa Francisco:

- Neste tempo de Pandemia, onde está Deus?

O papa mostrou-lhes a Cruz e o Evangelho, dizendo:

- Deus está onde sempre esteve. Deus está na cruz a sofrer connosco e por nós e está no Evangelho a falar e a confortar todos os que precisam…

Perguntaram ao Papa Francisco se deseja mesmo reformar a Igreja?

A sua resposta foi simples:

- Não. Só quero colocar Cristo cada vez mais no centro da Igreja. Será Ele quem fará as reformas.


terça-feira, 12 de março de 2024

Um milagre na piscina


3ª feira – IV semana da quaresma

A cura do paralítico na piscina de Betsatá

 

1 - Jazia ali um enfermo há trinta e oito anos. Nunca é tarde para ser curado, ninguém é demasiado velho para se converter. O tempo não pode ser impedimento para se desinstalar. Ninguém pode resignar-se e perder a esperança.

2 - Para haver cura, conversão ou milagre é preciso descer. Descer é passar pelas águas do batismo e da purificação. A humildade é reconhecer a nossa pequenez diante de Deus que faz o milagre.

3 - Para ser curado ou converter-se basta querer e aceitar a ajuda de Jesus. Os outros podem ajudar-nos, mas a melhor ajuda vem da nossa vontade e da nossa entrega nas mãos de Deus.

4 - Carregar o nosso leito de sofrimento é tomar consciência que nós somos mais fortes do que a doença ou o pecado. Não é o pecado que nos leva, mas nós é que carregamos o nosso mal ou o nosso pecado.

5 - Era dia de sábado, mas Jesus é o Senhor do sábado. O bom exemplo e o bem tem mais força do que todas as regras ou preceitos.

 

Ver também:

A culpa é dos outros

A cura de um preguiçoso

 

quinta-feira, 7 de março de 2024

Diabo não expulsa diabo


5ª feira – III semana da quaresma

Não há meio termo:
Quem não está comigo está contra mim.

O dedo de Deus contra Belzebu

Lc. 11, 14-23 – Jesus sente compaixão por todos aqueles que sofrem no corpo ou na alma.

Expulsa um demónio e o povo exulta de alegria, mas os fariseus ficam com raiva espalham discórdia murmurando:

- Ele expulsa os demónios em nome de Belzebu, o príncipe dos demónios.

Jesus ri-se dessa estupidez e diz como é possível que o demónio expulse um outro demónio? Um reino desunido em si mesmo se divide morre, só a força de Deus pode expulsar os demónios.

Mas hoje como podemos nos defender dos demónios?

O Santo Cura d’Ars diz: o diabo tem medo, foge das pessoas que pregam, que rezam ou que vivem os sacramentos.

Nunca devemos dialogar com o diabo e nem pensar que ele se converte, ele sabe como nos enganar fazendo ver as coisas como boas.

 

Escutar é não fechar o coração

- (Na 1ª leitura e salmo) –  Se Deus fala – escuta e não feches o teu coração.

- (No Evangelho) – O mudo falou – Deus escutou e não fechou o seu coração.

 

Jesus curou um mudo para lembrar que sempre que alguém fala a Deus, Deus escuta-o e nunca fecha o seu coração tal como sempre que Deus fala o homem deve escutar e não fechar o seu coração.

 

À margem:

Uma senhora só ia à igreja uma vez por ano. Uma vez ao chegar à igreja estava o padre a ler o evangelho de hoje:

- Quem não está comigo está contra mim e quem não junta comigo dispersa.

A mulher a ouvir isto começou a chorar pois tinha compreendido a mensagem como se fosse precisamente para ela.

Ela dizia:

- E eu que não estou com Ele… Quer dizer que estou contra ele! Perdoai-me, Senhor. Não quero mais dispersar as oportunidades.

E foi o início de uma vida dedicada ao lado de Jesus.

 

Ver também:

Um demónio que era mudo

 

terça-feira, 5 de março de 2024

Assim se vive o perdão

 

3ª feira - III semana da quaresma

Assim pregava Albert Schweitzer

Muitas vezes o valor de um ensinamento se perde porque aquele que o transmite não tem a delicadeza e a humildade de adaptar as suas palavras ao modo de entender daquele que ouve.   A respeito disto, o grande teólogo, pastor luterano, filósofo e médico Albert Schweitzer, que viveu como missionário em África, deixou-nos uma bela lição:

 

“Prego todos os domingos pela manhã na minha missão de Lambaréné, no Gabão, África.  A maioria da minha comunidade nada sabe sobre o cristianismo.  São trabalhadores em trânsito, vindos de pontos distantes do interior.  Dentro em pouco, voltarão para a sua terra onde comprarão uma esposa e se casarão. Pouco a pouco os meus doentes e os seus acompanhantes aparecem, sentando-se entre os alojamentos e a encosta da montanha, à sombra dos telhados.  Toco num pequeno órgão portátil.  A assembleia não pode cantar em conjunto, pois é formada de indígenas que falam seis dialetos diferentes.  Não exijo que fiquem sentados e em silêncio.  Acendem o fogo para preparar comida, dão banho aos filhos mais novos, penteiam, consertam as suas redes de pesca.  Dois intérpretes traduzem o que digo. Os meus sermões têm de ser muito simples.  Os que me escutam nunca ouviram falar de Adão e Eva, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Evangelistas, de Jesus.  Mas quando falo da diferença entre o coração inquieto e o coração em paz, até os mais selvagens entre eles sabem o que estou querendo dizer.  E quando apresento Jesus como aquele que traz a paz com Deus, eles compreendem.  Se da minha prédica eles podem levar consigo alguma coisa do Evangelho do Cristo, plantei uma semente. Tenho de falar de maneira concreta para ser compreendido. 

 

Setenta vezes sete

Por exemplo, a pergunta de São Pedro a Jesus sobre se basta perdoar sete vezes não pode ser deixada assim, como uma generalidade.  Tenho de esclarecer o conceito com exemplos tirados da vida deles.  Disse-lhes recentemente o seguinte: Aparece alguém que se sabe que não presta.  Essa pessoa insulta-te, mas Jesus diz que se deve perdoar, e tu ficas calado. Mais tarde, a cabra do vizinho come as bananas do teu almoço.  Em vez de puxar discussão, tu dizes apenas que a culpa é da cabra e que, portanto, é justo que ele te dê outras bananas.  Se ele não concordar, tu sais em silêncio, pensando que Deus faz as bananas crescerem com tal abundância no teu sítio, que não tens necessidade alguma de brigar por tão poucas. Depois disso, um homem que levou os teus quatro cachos de bananas para vender na feira juntamente com os dele, só te dá o dinheiro correspondente a três cachos, dizendo que foi só isso o que tu lhe entregaste.  Tu tens vontade de dizer-lhe na cara que ele é um mentiroso.  Mas pensas que há muitas mentiras de que só tu sabes e que Deus tem de perdoar, e voltas para a tua cabana sem nada dizer. Quando vais acender o fogo, percebes que alguém levou parte da lenha que foste buscar ontem no mato.  Mais uma vez forças o coração a perdoar e deixas de procurar o ladrão para entregá-lo ao chefe. À tarde, vais sair para trabalhar na roça, quando descobres que alguém levou a tua boa faca de mato, deixando em seu lugar uma velha faca cheia de dentes que reconheces a quem pertence.  Pensas então que já perdoastes quatro vezes e podes perdoar a quinta.  Embora fosse um dia em que muitas coisas desagradáveis aconteceram, sentes-te feliz, como se o dia tivesse sido dos mais calmos.  Por quê? Porque o teu coração está alegre, tendo obedecido à vontade de Jesus. À noite, queres ir pescar.  Não encontras o seu facho.  Ficas furioso e chegas à conclusão de que já perdoastes demais nesse dia.  Mas de novo Jesus, o Senhor, domina o teu coração.  Pedes um facho emprestado e desces para o rio. Chegando lá, não encontras a tua canoa.  Alguém foi pescar com ela.  Então escondes-te, furioso, atrás de uma árvore, com a ideia de tomar todo o peixe do intruso quando ele voltar e depois entregá-lo ao comandante do distrito.  Mas, enquanto esperas, o teu coração começa a falar.  Repete muitas vezes o que Jesus disse: Deus não pode perdoar os nossos pecados, se não perdoarmos aos nossos semelhantes.  Quando o homem voltam afinal, sais detrás da árvore diz-lhe que Jesus forçou-te a deixá-lo ir em paz.  Não exiges nem o peixe, mas acredito que ele te dê, espantado com o facto de não quereres brigar. Depois vais para casa, feliz e orgulhoso de ter conseguido perdoar sete vezes.  Mas se nesse mesmo dia Jesus chegasse à tua aldeia e tu passasses diante dele, pensando que ele iria elogiar-te, Jesus te diria apenas, como disse a São Pedro, que não basta perdoar sete vezes, que é preciso perdoar mais sete vezes e mais sete e muitas mais, até que Deus possa perdoar os teus muitos pecados.

Vejo pelos rostos dos que me ouvem como estão comovidos.  Muitas vezes pergunto-lhes se o coração deles está de acordo com o que foi dito.  Respondem que sim, quase sempre.

No fim do sermão, peço para juntarem as mãos e muito lentamente faço uma breve oração.  Muito tempo depois do “Amém”, as cabeças ainda estão curvadas sobre as mãos.  Quando a suave música recomeça, as cabeças se erguem.  Ficam imóveis até que os últimos acordes se dissipam.  Quando me retiro, o meu povo se levanta.  Retira-se com a Palavra de Deus bem viva dentro de si.”

 

À margem:

Alberto Schweitzer era primo de Jean-Paul Sarte (o pai de Albert era irmão da mãe de Sartre). Sobre as obras do primo, Albert diria mais tarde, segundo Cohen-Solal (biógrafa de J.P. Sartre), que "todas as opiniões são respeitáveis quando são sinceras, e por conta disso Deus seguramente o perdoará".

 

Quem foi Albert Schweitzer

Albert Schweitzer nasceu em Kaysersberg a 14 de janeiro de 1875 e morreu em Lambaréné, Gabão, a 4 de setembro de 1965.

Formou-se em teologia e filosofia na Universidade de Estrasburgo, onde, em 1901, o nomearam docente. Em 1900 foi ordenado ministro luterano e serviu na paróquia de São Nicolau em Estrasburgo até 1911, onde também tocava órgão. Tornou-se um dos melhores intérpretes de Bach e uma autoridade na construção de órgãos.

Aos trinta anos, gozava de uma posição invejável: trabalhava numa das mais notáveis universidades europeias; tinha uma grande reputação como músico e prestígio como pastor da sua Igreja. Porém, isto não era suficiente para uma alma sempre pronta ao serviço. Dirigiu a sua atenção para os africanos das colónias francesas que, numa total orfandade de cuidados e assistência médica, debatiam-se na dura vida da selva.

Em 1905 iniciou o curso de medicina, e seis anos mais tarde, já formado, casou-se e decidiu partir para Lambaréné, no Gabão, onde uma missão necessitava de médicos. Ao deparar-se com a falta de recursos iniciais, improvisou um consultório num antigo galinheiro e atendeu os seus pacientes enfrentando obstáculos como o clima hostil, a falta de higiene, o idioma que não entendia, a carência de remédios e de equipamentos. Tratava de mais de 40 doentes por dia e paralelamente ao serviço médico, ensinava o Evangelho com uma linguagem apropriada, dando exemplos tirados da natureza sobre a necessidade de agirem em benefício do próximo.

Com o início da Primeira Grande Guerra os Schweitzers foram levados para a França, como prisioneiros de guerra. Passaram praticamente todo o período da guerra confinados num campo de concentração.

Com o final da guerra, retomou seus trabalhos.

Realizou uma série de conferências, com o único intuito de colher fundos para reconstruir a sua obra na África. Tornou-se muito conhecido em todos os círculos intelectuais do continente, porém, a fama não o afastou dos seus projetos e sonhos.

Após sete anos de permanência na Europa, partiu novamente para Lambaréné. Dessa vez acompanhado de médicos e enfermeiros dispostos a ajudá-lo. O hospital foi erguido numa área mais propícia, e com o auxílio de uma equipa de profissionais, Schweitzer pôde dedicar algumas horas do seu dia a escrever livros, cuja renda contribuía para manter os pavilhões hospitalares.

Foi laureado em 1952 com o Prémio Nobel da Paz, como humilde homenagem a um “grande homem”.

(https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Schweitzer, 22:07, 04/03/2023)

 

Ver também:

Perdoar, verbo sem conta

As contas do perdão