quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poliglota


Idiomas que o Pe. Dehon falava

Desde os 18 anos Leão Dehon, para além do francês, sua língua materna, dominava bem o inglês.
Enquanto estudante de Paris costumava ir todos os anos à Inglaterra para durante vários meses aperfeiçoar-se na língua inglesa.
Para além do francês e do inglês, teve de dominar bem o italiano (pois viveu e estudou em Roma durante mais de 6 anos).
Há ainda a acrescentar o latim e o alemão, por necessidade dos estudos, do trabalho ou da vida comunitária.
Sempre que visitava um país, procurava conhecer a sua própria língua, ensaiando aqui e ali algumas frases de circunstância para poder comunicar com os locais ou valorizar o património linguístico do lugar.
É o caso do flamengo durante os 4 anos no Colégio de Hazebrouck, do árabe, aquando da sua primeira viagem ao Médio Oriente, do espanhol (viagem para além dos Pirenéus) e do português (sobretudo na viagem Mil léguas na América do Sul).
Podemos ainda acrescentar o curso de Estenografia que frequentou para integrar o grupo de estenógrafos do Concílio Vaticano I.
Não só o Pe. Dehon falava correntemente várias idiomas, como também deu aulas, explicações ou fez de cicerone, guia ou tradutor (inglês, latim…)
Por fim, há a assinalar que a maior parte das suas obras sociais foram traduzidas em diversas línguas: “Eu publico estas conferências sociais em muitos volumes: Catecismo Social – Renovação Cristã – Diretivas Pontifícias. Muitos destes volumes estão traduzidos em italiano, em árabe, em húngaro, em português. Eles tornam-se clássicos em muitos seminários de França e de Itália.” (NQ XXXIX/112, 1916)





























Flamengo
“Durante esses quatro anos, fiz frequentes visitas e passei férias na casa de duas famílias da região, os Vandewalle em Hazebrouck e os Dassonville em Armentières. Não cheguei a conhecer a fundo os costumes dessa terra de Flandres onde passei quatro anos, todavia guardei dela preciosas recordações. O povo só falava flamengo, facto que os preservava das más leituras.” (NHV)

Inglês
“Chegado o mês de Abril (1861), já não me encontrava tão preocupado com o direito. Rapidamente foi traçado um programa. Iria passar três meses em Londres para aprender inglês. Eis-me agora inglês e membro duma família inglesa durante três meses. O tempo passou muito depressa em Londres. Eu estudava inglês e começava já a falá-lo. Algumas saídas, visitas e passeios davam-me também a ocasião de falar um pouco de inglês.
O meu primeiro fim fora o de estudar inglês, agora já o sabia bastante bem e podia manter uma conversação sem marcar demasiado o meu sotaque estrangeiro.” (NHV)
 “Segunda viagem à Inglaterra (1862)
O bom padre Poisson viera juntar-se a mim em Londres. Tinha comigo também o meu primo Wateau. Foi visitando Westwinster que encontrámos Leão Palustre. Partimos então os quatro para percorrer a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda. Eu sabia já bastante inglês para ser o Cicerone e o ecónomo da viagem. (NHV)

Alemão
“Eu parti a 12 de Agosto (1863) para me reunir a Palustre em Estrasburgo. Eu não previa, nesse momento, que o nosso temperamento vagabundo nos levaria até à Noruega. Não voltaríamos senão no último dia das férias, para retomarmos as aulas de Direito em Novembro. Fiz esta viagem como turista sério mesmo como estudante zeloso; porque não pus eu nela mais fé, mais vistas sobrenaturais! Adquiri um certo conhecimento da língua alemã, conhecimento muito imperfeito, mesmo miserável, mas que havia de me prestar grandes serviços na confissão das nossas pias irmãs alsacianas.” (NHV)

Árabe
“Um incidente de fronteira por pouco não interrompia bruscamente a nossa viagem (março 1865 perto de Gaza). Um indivíduo pediu-nos o nosso atestado de saúde passado pelos médicos egípcios. Nós tínhamo-lo. Chamam isso de “Patenta”. É uma palavra italiana. O meu companheiro não percebeu e chicoteou esse importuno, que, aliás, não vestia nenhuma farda oficial. Acontece que era um soldado do Grão Turco. O caso era grave: chicotear um soldado do Nizan. O oficial do posto decidiu que iriam prender-nos primeiro, para nos enviar depois para Constantinopla. O caso virava-se para o trágico. Eu parlamentei, tanto por meio de intérprete como pelas poucas palavras de árabe que sabia. Ofereci uma compensação monetária ao soldado.” (NHV)

Italiano e latim
“Como seminarista em Roma habituei-me depressa às aulas. Sabia alguma coisa de italiano, isso ajudava-me a perceber o latim pronunciado à romana… Nos exames, consegui responder convenientemente em forma escolástica, sobre as principais teses da filosofia. Tive de responder também em italiano sobre a física, a astronomia, a mecânica racional e os elementos do cálculo integral e diferencial.” NHV)

Explicações
 “Como padre novo, na paróquia de Sommeron algumas pessoas pediram-me para confessá-las; preguei várias vezes. Dei também algumas lições de Latim a crianças que mais tarde se tornaram padres… Em Agosto continuei a dar explicações de Latim a vários rapazes que estavam no Seminário Menor ou que desejavam entrar nele.” (NHV)

Português
Será apresentado numa página independente

Curso de estenografia
“Para o Concílio, precisava-se de um grupo de estenógrafos. Foi aprontado. Um sacerdote de Turim, Virgínio Marchese, antigo estenógrafo do senado italiano, foi encarregado de formar os seus auxiliares. Foram escolhidos seminaristas de diversas nações para ter um secretariado familiarizado com todas as pronúncias. Eu fui desse número. Eis os nomes dos privilegiados, tal como aparecem nas Actas do Concílio… O nosso sistema de estenografia era bastante complicado. Baseava-se sobre a ortografia e não sobre os sons; Escrevíamos dois a dois, alternando uma frase cada um. Tínhamos que dar-nos a palavra final, para recomeçar. Escrevíamos só as consoantes; daí um quebra-cabeças chinês para reencontrar as palavras e reconstruir as frases.” (NHV)






















“Um padre é tantas vezes padre quantas línguas sabe”, ensinava o Pe. Prévot, discípulo e colaborador direto do Pe. Dehon. Quem sabe se ele chegou a essa conclusão ao observar a experiência do Pe. Dehon, como poliglota.
“Não haja divisões entre nós. Amemos todas as nações. Não haverá nações no céu” (Souvenirs, 1912). Podemos, para concluir parafraseando o Pe. Dehon: Não haja diferença de línguas entre nós. Falemos todos os idiomas. Não haverá diferença de línguas no céu.


Últimos dias do Pe. Dehon (VIII)


A comitiva parte para São Quintino
Na tarde do dia 17 de Agosto houve mais um momento solene. Reuniram-se todos na capela onde o bispo, D. Grison, deu a última bênção. Depois a dupla urna foi levada para fora e transportada para a estação Sul de Bruxelas. Seguiram-na os padres mais velhos da Congregação em vários carros. À tarde do mesmo dia aproximou-se de mim um conhecido Padre do Conselho Geral e disse-me: “Congratulamo-nos consigo por tudo quanto fez; tudo foi realizado de modo distinto e belo, calmo e comovedor”.
















No Colégio São João de São Quintino
Depois dirigimo-nos para São Quintino. O centro de gravidade da Congregação, por poucos dias, havia-se estabelecido naquela cidade. São João, ao qual estava tão vinculado o Pe. Fundador, acolheu-o defunto e rodearam-no os seus alunos mais fiéis, tanto sacerdotes como leigos. O mais fiel de todos, Octávio Leduc, aproximou-se e disse-me: “Você sabe que tudo quanto se disse contra ele não passa de vil calúnia”. Mesmo assim, alguns faltaram e notou-se a sua ausência. Eram aqueles a quem o Pe. Dehon tinha dado tudo: estudos, continuação nos mesmos e que lhe eram devedores do seu porvir, da sua vocação. Assim quis o Salvador uni-lo a Si: “omnes fugerunt”. Também o Fundador na sua vida teve de viver frequentemente esta dor.























Na Basílica de São Quintino
Inesquecível havia de ficar a cena da entrada na Basílica arruinada pela primeira guerra mundial, este monumento gótico tardio, que domina São Quintino e se vê de muitos quilómetros de distância.
Quantas vezes quando jovem, estando em São Clemente, eu ouvia ao entardecer, o som maravilhoso dos sinos de São Quintino! Hoje estão silenciados por terem sido fundidos durante a guerra. Só era possível celebrar as cerimónias sagradas numa nave lateral.




















D. Binet assiste aos funerais e faz o elogio fúnebre
O bispo de Soissons, D. Henrique Binet, prestou ao Fundador todas as honras.
Era, como dizia, o ornamento da sua diocese. “Uma pena sempre comprometida caiu de improviso das mãos”. Assim começou o elogio fúnebre, que foi recolhido por La Semaine Religieuse de Soissons.
Ao meio-dia voltámos a reunir-nos para almoçar no Colégio São João. Estavam todos unidos, sacerdotes seculares e Sacerdotes do Coração de Jesus, leigos e clero. Depois da oração de acção de graças o Bispo disse: “Estivemos tão felizes e tão unidos juntos; outra coisa não desejo senão que esta união perdure.”
O Assistente geral, sobre quem pesava toda a responsabilidade e o ónus destes dias, prestando homenagem ao Príncipe da Igreja, agradeceu e disse-lhe que sim.
Depois veio a dura realidade, a vida aperta-nos entre as suas garras, e há que cumprir com os próprios deveres.

A última morada
Assim, pois, o Pe. Dehon repousa em São Quintino, na sua cidade preferida, à espera da ressurreição.

(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Outras versões

3ª feira - XX semana comum


É mais fácil passar um camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.





















(foto gloria.tv/Stylita)

Versão do salteador
Nas montanhas havia um passo conhecido como olho da agulha, tão estreito que os mercadores tinham que desmontar dos seus camelos, ficando assim vulneráveis aos salteadores. O camelo passava, mas o rico ficava retido e despojado.
Um rico para entrar no reino dos céus precisa de se apear, de desmontar do seu camelo, de despojar-se do que tem…

Versão do lavrador
O Dinheiro é um bem deste mundo.
Antes de ser dinheiro era terra e da melhor qualidade.
Terra da melhor qualidade chama-se adubo.
O dinheiro (ou as riquezas) e o adubo têm no mundo uma função semelhante:
Um monte de adubo não serve para nada, mas quanto mais espalhado mais fecunda a terra.
Assim também o dinheiro ou qualquer riqueza, quanto mais disperso mais útil e fecundo se torna para a sociedade.
Vai e espalha as tuas riquezas, e depois vem e segue-me!

Versão do cordoeiro
Mais fácil é entrar um calabre pelo fundo de uma agulha, que entrar um rico no Reino do Céu.
Que remédio tem logo um rico para entrar no céu?
Eu o direi.
Desfiar o calabre, e logo fio a fio poderá entrar pelo fundo da agulha.
Vendei o que tendes, e reparti-o com os pobres. (Sermão do Pe. António Vieira)
De facto Cirilo de Alexandria dizia que a palavra Kamêlos (camelo) substituiu erradamente Kamilos (corda ou cabo) gerando confusão. A fórmula inicial seria: É mais fácil passar uma corda pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.
Para isso basta desfiar a corda e fazer passar cada fio pelo fundo da agulha, por mais apertado que ele seja.
Os ricos para entrarem no reino de Deus precisam de repartir o que têm, distribuir, semear, dispersar ou separar como os fios de uma corda.


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

No Céu e na Terra


Santa Maria Mãe de Deus, com a sua Assunção ao Céu, fica mais próxima dos seus filhos cá na terra….

Onde está a mãe aí estão os seus filhos.
Onde estão os seus filhos aí está a sua Mãe do Céu.

Um dia um orador sagrado assim pregou:
Onde podemos então colocar a nossa padroeira?
Acima dos doutores?
Entre os Anjos celestes?
Acima dos confessores?
Onde colocaremos a nossa padroeira, acima dos mártires?
Onde a colocaremos?
- Oh senhor padre, ponha-a aqui no meu lugar que não me importo de ficar de pé – respondeu uma velhinha tão concentrada na pregação.

A Virgem Maria está bem perto de nós, está connosco, está ao nosso lado...
Por isso nós não nos cansamos de repetir:
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós.

Que ela nos ajude a rezar…
A rezar por Maria
A rezar com Maria
A rezar como Maria.

sábado, 13 de agosto de 2016

Últimos dias do Pe. Dehon (VII)


As honras fúnebres.
Preparativos para o funeral
A notícia do falecimento do Fundador difundiu-se por toda a parte. Ele mesmo, quando ainda estava vivo, falando no recreio, quando se fazia referência à morte, à pergunta “onde queria ser sepultado?” tinha respondido: “Oh, em São Quintino, junto dos nossos Padres!”
Por isso nesse ponto estávamos todos de acordo. Sendo a Assunção de Maria e o Domingo transferido, a Missa solene de defuntos não podia ser celebrada em Bruxelas antes de Terça-feira, dia 17 de Agosto.
Os seus familiares estavam presentes: a sobrinha com o marido e os três filhos, Henrique, João (que era o benjamim do Fundador) e Roberto. Na outra parte da capela ajoelharam-se os membros do conselho geral. No coro estava Sua Excelência D. Clemente Micara, núncio apostólico, o bispo Grison que tinha chegado à pressa e D. Demont, prefeito apostólico de Gariep (África do Sul).













D. Grison, de barbas, nas exéquias do Pe. Dehon

D. Grison junto do féretro
Quando D. Grison regressou de férias, eu tive oportunidade de assistir a uma cena inesquecível.
Antes de se ir embora teve uma última discussão com o Fundador sobre a questão sempre escabrosa do dinheiro para as missões. Depois o Bispo partiu. Todos os dias era informado, como se disse atrás, sobre o estado da doença do Pe. Dehon. Ao chegar, entrando comigo na câmara ardente, e vendo-o no ataúde, caiu de joelhos chorando como uma criança e eu disse-lhe: “Olhe, isto é para si a recordação do Fundador”. Sobre o crucifixo estava gravado: “Fortis ut mors est dilectio” que quer dizer: “O amor é forte como a morte”. Mais tarde o bispo escreveu-me do Congo: “Você sabia muito bem do que eu tinha necessidade quando me deu o crucifixo.”
A Superiora Geral das Servas do Coração de Jesus tinha oferecido a cada Padre um crucifixo igual na primeira profissão perpétua…






















Crucifixo da profissão religiosa de D. Grison

Piedade filial
Posso ainda acrescentar: o Pe. Morel, filho fiel da Congregação e eu tínhamos prestado as últimas honras ao Fundador. Ficámos assombrados: Das suas coxas não restavam mais que pele e osso, nada de musculatura. E assim, naquele homem que, dia a dia, ia e vinha, subia e descia as escadas, se arrastava passeando…, compreendemos o martírio de uma vítima do Sagrado Coração.

A Missa do funeral
A capela encheu-se para os funerais solenes. De todas as partes tinham acudido apressadamente os filhos espirituais do Fundador. O mais ancião e primeiro noviço, Pe. Eugénio Paris presidiu à Missa de Requiem. As orações litúrgicas foram cantadas na perfeição pelos estudantes do Escolasticado. Os noviços de Brugelette estavam todos presentes. Durante a Missa não houve pregação; depois o Assistente reuniu todos os presentes no pátio interno da casa e teve lugar ao ar livre um largo discurso para todos aqueles que estavam de luto pondo em relevo os méritos do Fundador.

(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Últimos dias do Pe. Dehon (VI)


Os últimos instantes, 12 de Agosto
Chegou o dia derradeiro. Era quarta-feira, tal como terça-feira dia 4, fora o da sua última Missa. Falava frequentemente da morte e costumava dizer quando ouvia falar da agonia: “A coisa mais bela é adoecer durante três dias: No primeiro a pessoa põe em ordem todos os assuntos, confessa-se, recebe os últimos sacramentos e no terceiro parte para o bom Deus”. Pode-se dizer que, mais ou menos, foi o que se passou com ele. O ecónomo geral foi informado, assim como o procurador geral, o Pe. Octávio Gasparri, que chegou de Roma e trouxe uma bênção especial do Santo Padre para o enfermo grave. Por volta das dez horas fui junto do Pe. Fundador e disse-lhe: “Permita que vá com o Pe. Falleur ao banco para regularizar vários assuntos”. (O Pe. Falleur era o ecónomo geral). Conseguimos mudar quanto estava no nome pessoal do Pe. Dehon. Regressados a casa demo-nos conta de que tinha chegado o último momento.
Reunimo-nos para a oração pelos agonizantes e, entretanto, chegaram os familiares do Pe. Dehon.
Recitámos juntos as orações pelos moribundos. Ele pôde acompanhar tudo e estava em perfeita tranquilidade, até que pelas 12,10 deixou de respirar sem agonia.
Era o final de uma vida de trabalho e sacrifício.
(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)

















Relógio de bolso do Pe. Dehon 

O meu Testamento
Peço perdão a Deus e aos homens de todas as minhas faltas. Imploro a misericórdia do Coração de Jesus. Suplico à Santíssima Virgem Maria e a São José para interceder por mim no meu julgamento.
Nomeio como legatário universal e executor testamentário o Pe. Teodoro Falleur, que tem sido sempre meu amigo e colaborador, e na sua ausência o Monsenhor Abbot Crinon, Cura de São João. Deixo pouca coisa, tendo gasto tudo em boas obras, especialmente nas missões longínquas e em Roma.
Se houver valores e algum dinheiro como meu património, o meu legatário terá de pagar as taxas de propriedade e dívidas que eu possa deixar. Ele fará celebrar um trintário e outras missas pelo descanso da minha alma. Ele oferecerá à minha família o que encontrar nos meus haveres e algumas pequenas lembranças. A minha família sabe que as minhas obras esvaziaram-me dos bens terrenos.
Recomendo-me às orações de todos aqueles que tiveram por mim algum afeto.
Quero morrer como um discípulo e apóstolo do Coração de Jesus.
Feito em Bruxelas, 08 de dezembro de 1924
Assinado Leão Dehon
(cf. Inv. 460.01 B. 22/10)





















- A morte do Sacerdote do Coração de Jesus é como uma missa suprema pela qual ele conseguirá sobre a terra adorar, dar graças, rezar, acreditar na misericórdia em união com Jesus imolando-se na cruz e no altar, com Maria co-redentora e rainha do clero. (CC 10/81919)
- A nossa vida é uma morte contínua. (NHV, volume III, Outubro 1865 – Outubro 1869)
- O Coração de Jesus resume toda a minha vida: por Ele vivi, por Ele morro. (TRP Dehon, G. Konters, Bruges, 1930 I)
- O meio de morrer bem, é viver bem. (NHV, volume VI, Janeiro 1874 – Dezembro 1876)
- Quero morrer como discípulo e apóstolo do Coração de Jesus. (testamento de 8/12/24).

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Últimos dias do Pe. Dehon (V)


O mal agrava-se
Os padres vindos para celebrar o onomástico ficavam felizes por visitá-lo, um a um. Reconheceu a todos e para todos teve uma palavra boa e afectuosa. Os médicos diagnosticaram que, dificilmente, restava alguma esperança e o especialista observou: “Em conclusão, morre curado!” Queria dizer que a inflamação intestinal tinha passado, mas que o coração estava a falhar. Estávamos todos preocupados, e às três da tarde, chegou o momento de administrar os Santos Sacramentos ao doente grave, que conservou a plena lucidez durante todo o dia. Reuniu-se toda a comunidade, Irmãos e Padres, todos estavam presentes. Entrámos no quarto do enfermo. Disse-lhe que queríamos administrar-lhe os últimos Sacramentos. Com breves palavras exortei-o a cumprir a vontade de Deus.

Os últimos sacramentos
Antes de começar o sagrado acto disse-lhe: “Quer, talvez, pedir perdão diante de todos?” Então ele disse estas simples palavras, que lhe saíam do coração: “Sim, comprometi a Obra com as minhas culpas e imprudência. Mas não tenho medo; o Coração de Jesus é tão bom …” Era a humildade, a humildade mais profunda unida a uma confiança inabalável, esta confiança que nunca o abandonou, não somente durante a enfermidade, mas que o foi animando durante toda a sua vida. Se a Congregação existe, pode existir e existirá, não é senão pela confiança no divino Coração. Este é o testamento do Fundador para as futuras gerações. Deu-se início à liturgia, mas antes convidei a todos os meus confrades a pedir perdão de todas as faltas tanto na vida religiosa como contra a sua pessoa. Ele deu-nos a sua bênção paterna. A liturgia chegava ao seu fim. O Assistente administrou a Unção sagrada e depois a indulgência plenária in articulo mortis, acompanhada do acto de aceitação humilde e confiante da vontade de Deus.




















Visita dos familiares
Um pouco mais tarde chegaram os seus familiares, foram levados à presença do doente e causaram-lhe uma alegria visível. Aproximaram-se dele com sincero respeito e chamaram-lhe singelamente “nosso santo tio”. Junto dele velava o Pe. Kanters, holandês mas que sempre tinha vivido na França, e que por muito tempo tinha sido pároco na diocese de Tournay e portanto prático nos cuidados pastorais. Entregou à sobrinha do Pe. Dehon um copo e ela deu-o a beber a seu tio. Esta foi uma alegria, era o último acto da família para com o seu parente, o último descendente de uma família distinta.

Uma lembrança: o onomástico de uma alma vítima
Terminado o rito sagrado voltou-se para mim e disse-me: “Clara Baume”. Eu não entendia, porque nada sabia deste nome e desta pessoa. Isto é uma prova que mostra com que discrição e com que santo temor ele tratava a correspondência de alma a alma e as relações com todos os religiosos da Congregação. Um padre que estava ao corrente disse-me: “É uma alma vítima, que vive na França meridional e se chama Clara. O Fundador queria dizer que felicitasse em seu nome esta pessoa no dia do seu onomástico”. Fi-lo imediatamente. Esta grande alma tinha sido atormentada na sua juventude. De pais abastados, juntamente com a sua irmã Berta, viu-se com falta de dinheiro devido a grandes revezes do seu património e por fim conheceu os apertos da pobreza.
Na sua juventude, uma monja lhe disse: “Só há uma pessoa que pode ajudar e encontra-se na Holanda”. Com a permissão dos seus superiores o Pe. André Prèvot, que percebia destas coisas, aceitou a direcção desta alma e guiou-a pela vida do sacrifício, escrevendo sempre nas suas cartas: “Querida alma”. Depois da sua morte, O Pe. Fundador assumiu a sua direcção, e morto este, eu quis continuar com esta herança, até que a nova chamada para bispo de Luxemburgo me separou dela. Estas almas vítimas, que vivem desconhecidas no mundo, que não são nem nomeadas, têm sido o segredo que assegura o êxito dos Sacerdotes do Coração de Jesus. São a reserva ou o capital de reserva da florescente Congregação. Na Casa Geral existia a correspondência com Clara Baum.
O Pe. Holandês, Gerardo Frey, insistiu comigo para que lhe cedesse esses documentos preciosos para escrever a vida do Pe. André. Apesar das minhas graves dúvidas, confiei-lhos. Nem se sentiu na obrigação de informar-me onde foram parar.
(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Últimos dias do Pe. Dehon (IV)


O onomástico do seu Assistente, 10 de Agosto
Durante toda a sua vida o Pe. Fundador esteve sempre muito atento, em todas as circunstâncias, a proporcionar uma alegria, e com este motivo convidava pessoalmente todos os anos as casas vizinhas para o aniversário onomástico do Pe. Assistente Lourenço Philippe. E, como estava doente, perguntei-lhe que se podia fazer, e respondeu: “Celebre a festa como todos os anos”.
A 10 de Agosto, reuniram-se todos os padres mais idosos da Bélgica e França. Celebrámos o onomástico com ânimo triste mas sereno. Nesses dias o Pe. Dehon sabia proferir palavras verdadeiramente afectuosas, que lhe saíam do coração. Era um mestre em unir as relações recíprocas, ou como disse Goethe, as afinidades por eleição.
Todos os anos sabia apresentar São Lourenço como Padroeiro do Assistente. Seja a grelha com as brasas, seja a fidelidade do diácono para com o seu senhor o Papa São Sixto, eram sempre palavras sinceras, cheias de afecto. Isto não faltou este ano. Manifestou também as suas felicitações pessoais, e deu ao filho festejado, como sempre costumava fazê-lo, uma importante quantia de dinheiro, dado que não tivera tempo de o levar ao Irmão Justen, para enfeitar a mesa na qual se colocavam os ornamentos sagrados e enfeitar a sacristia como tanto desejava o Pe. Dehon. Costumava repetir ao Irmão Justen, regressado de Roma, depois da primeira guerra mundial: “Teremos uma formosa capela e uma bela sacristia.”
(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)

















(escritório do Pe. Dehon em Bruxelas,)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Paisagens do Céu (27)
















Espelho do céu

Para ver o céu nem é preciso olhar para cima
pois esta terra é o espelho do céu.















Parafraseando Fernando Pessoa:
Deus ao Pico do Fogo o perigo e o abismo deu
mas na sua Lagoa é que espelhou o céu.

Estarei atento para descobrir algum anjo 
a contemplar-se neste espelho celeste.


domingo, 7 de agosto de 2016

Últimos dias do Pe. Dehon (III)


Os médicos assistentes, 7 de Agosto
Ainda que a evolução da enfermidade do Pe. Dehon não desse motivos de apreensão, pedi ao médico que o atendia que consultasse outro médico, para atenuar diante do público e da Congregação, como fiz notar, a minha responsabilidade. Prometeu-me e veio com um médico que tinha trabalhado muito tempo no Congo. Apesar de não ser praticante, estimava os missionários e, de modo especial o nosso sacristão o fiel Irmão Justen, que sofria de uma doença crónica, e de quem dizia: “ Todo ele é coragem”.
Era particularmente especializado em medicina interna, pelo que podia melhor tratar do enfermo. Os médicos descobriram no seu paciente uma tuberculose há já muito tempo cicatrizada, e isto fez-nos pensar na doença grave de 1878, quando a vida do Fundador esteve em grande perigo.













Quarto do Pe. Dehon em Bruxelas, onde viveu os últimos anos

Uma crise superada com dificuldade
Durante a enfermidade, uma vez, de noite, veio ter comigo o Irmão que o velava, o querido Irmão Jerónimo Van Vliet, holandês, e disse-me: “Venha depressa!”
De facto o Fundador estava cada vez mais sensível e fraco. Fez-se levantar um pouco para encontrar algum descanso, mas quando foi posto na cama sobreveio-lhe asfixia por falta de respiração. Procurou, pouco a pouco, tomar forças, mas tardou mais do que nas outras ocasiões, o que me preocupou porque, evidentemente, cada vez se ia debilitando o coração.

A última confissão
De facto assim foi: Pouco depois, ao visitá-lo pela manhã, o enfermo disse-me: “Por favor, sente-se. Quero confessar-me”. Isto era algo novo. De facto o Fundador com a regularidade de um relógio, todos os sábados, às nove, ia aos Sacramentinos, aos filhos do Pe. Eymard, para fazer a sua confissão semanal. À proposta de chamar o seu confessor, disse: “Não, confesso-me a si”. E fez a sua confissão ao Assistente.
Assim iam passando os dias e as noites alternando entre a apreensão e a calma.

(Das Memórias de D. Philippe, Vice Geral do Pe. Dehon e seu sucessor)