segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

O próximo mais próximo


2ª feira – I semana da quaresma

Em geral nós identificamos Jesus como o Bom Samaritano.
Hoje Ele identifica-se como o próximo que é socorrido.

Do Evangelho

O que fizestes ao próximo, a mim o fizestes.

- Entrai benditos de meu pai porque estava ferido na estrada e levastes-me ao hospital.

- Entrai benditos de meu pai porque estava sem dinheiro e fizestes-me um empréstimo sem juros.

- Entrai benditos de meu pai porque fizestes muitas consultas médicas grátis.

- Entrai benditos de meu pai porque estava sem casa e acolhestes-me na tua casa por alguns dias até arranjar alojamento.

- Vinde benditos de meu pai porque sentia-me abandonado e desprezado por todos e tu ao passares por mim sorristes-me.

 

Da 1ª leitura

Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Mar é fazer aquilo que o trecho do evangelho de hoje nos diz.

E quem é o próximo?

Em geral identificamos os nossos vizinhos, colegas de trabalho, amigos ou desconhecidos, mas necessitados de alguma ajuda nossa.

E quem são os próximos mais próximos?

São os nossos familiares, quem está da porta para dentro na nossa casa – o marido, a esposa, os filhos e demais familiares chegados. Estes são o nosso próximo mais próximo a quem devemos amar como a nós mesmos, e precisamente amar a começar por aqui.

É talvez fácil dar uma esmola a quem nos aborda na rua, perdoar um deslise ou sorrir ou agradecer a um desconhecido. Mas a quem está sempre connosco, devido ao desgaste ou cansaço, parece que não somos tão generosos em desculpar, agradecer ou ajudar gratuitamente.

É preciso amar o nosso próximo mais próximo que é a nossa família. Se não a amamos fazemos as obras de misericórdia à nossa família, com que sinceridade faremos aos demais?

 

À margem:

Jesus continua hoje a ter fome, a ter sede. Continua a ser preso, a padecer no corpo… E continua a ser esquecido.

Quem ama o próximo ama a Deus e quem ama a Deus ama o próximo.

“Quem sente a bondade de Deus também sente a desgraça do próximo. Mas quem não sente a bondade de Deus também não sente a desgraça do homem” – assim pregava Lutero. E nós podemos reverter dizendo – Quem não sente a desgraça do homem não sente a bondade de Deus.

Jesus é o próximo mais próximo.

 

Ver também.

Porque tive fome

 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Mudar um coração de pedra


Ano B – I domingo da quaresma

 

1ª reflexão

Tentação e fragilidade.
São Marcos é muito parco nas palavras. Diz simplesmente que Jesus esteve no deserto durante 40 dias e que foi tentado. E nada mais, nem por quem, nem como, nem quantas vezes, nem como venceu…
Quando alguém fica fragilizado fica mais exposto às tentações.
De facto, não é a tentação que fragiliza alguém, mas o contrário. Se está fragilizado então surge a tentação.
O demónio é manhoso. Só vai tentar quem já está fragilizado porque sabe que a pessoa está fraca e resiste menos.
Nós temos mais força do que pensamos. Se tudo está bem, o Demónio não nos tenta porque sabe que somos fortes.
Se estamos fracos, então o Demónio investe porque a nossa resistência é fraca.
A tentação pode ser um termómetro da nossa força ou da nossa fragilidade e não a cauda da fraqueza.

2ª reflexão

Mudar as pedras em pão.

Foi a tentação de Jesus.

A - Ele venceu esta tentação afirmando que nem só de pão vive o homem. Por isso ele podia muito bem passar sem o pão, mas nunca sem a Palavra de Deus e assim recusou transformar a pedra em pão.

B - Jesus não mudou a pedra em pão porque quer quo o seu pão seja sempre fruto do trabalho e do esforço e não aquisição fácil. Para ter pão é preciso semear o trigo, ceifá-lo, moer, amassar a farinha e cozer. Jesus recusa mudar a pedra em pão porque não quer recusar o trabalho e o esforço.

Aprendamos então nós também a não recusar o que é essencial em vez do que é fácil ou secundário.

Mudar o pão em pedras.

É a nossa tentação.

A – Mudamos o pão em pedra dura quando recusamos partilhá-lo com quem precisa. De facto, quando guardamos o pão só para nós ele torna-se duro porque é duro e pesado o nosso coração egoísta.

Não podemos cair nessa tentação.

B – Mudamos o pão em pedra quando nos queixamos das contrariedades e dos obstáculos que recebemos de Deus. Parece que Deus apesar de ser um Pai bom, dá aos seus filhos pedras duras em vez de pão. Mas afinal isso que dizemos ser pedra (obstáculos, dificuldades e ossos duros de roer), são pães preciosos que nos sustentam e nos dão força para resistir e enfrentar a vida.

Não podemos transformar esse sustento em pedras duras sem mérito nem préstimo nenhum

 

Hoje quero rezar para que Deus me ajude a ser sempre forte, não apenas para resistir à tentação, mas que sendo forte o demónio desista de me tentar.

E rezo para que nunca me sinta tentado nem a transformar as pedras em pão nem para mudar o pão em pedras duras.

O que é preciso mudar não são as coisas (pedras ou pão) mas as pessoas, sobretudo o seu coração.

Ámen.

 

Ver também:

À volta das tentações

Tentações e remédios

 

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Aprender a ver como Jesus


Sábado depois das cinzas

Jesus viu Levi…

E como o viu?

Não como o viam os seus contemporâneos.

Eles viam-no como pecador, com um passado comprometido e um presente duvidoso pelo pecado.

Jesus viu-o já como apóstolo, como evangelista, mártir, como santo. Jesus viu não o que ele era no passado ou no presente, mas o que era seria no futuro com todas as potencialidades.

É assim que Jesus nos vê.

 

Miguel Ângelo Buonarroti dizia que no interior de cada bloco de pedra, há uma estátua, cabendo ao escultor a tarefa de a descobrir. Se tal pode ser o olhar do artista, com muita mais razão assim nos vê Deus: naquela jovem de Nazaré viu a Mãe de Deus; no pescador Simão, filho de Jonas, viu Pedro a rocha sobre a qual podia construir a sua Igreja; no publicano Levi, entreviu o apóstolo e o evangelista Mateus; em Saulo, cruel perseguidor dos cristãos, viu Paulo, o apóstolo dos gentios. O seu olhar de amor sempre nos alcança, toca, liberta e transforma, fazendo com que nos tomemos pessoas novas (palavras adaptadas do Papa Francisco).

Conclusão: um sábio, ao olhar o ovo, sabe ver a águia; ao olhar a semente, vislumbra uma grande árvore; ao olhar um pecador, sabe entrever um santo. É assim que Deus nos olha, em cada um de nós, vê potencialidades, às vezes ignoradas por nós mesmos, e atua incansavelmente, ao longo da nossa vida, a fim de as podermos colocar ao serviço do bem comum.

Aprendamos a olhar assim a vida e os outros porque é esta a maneira ou o jeito de Jesus ver.

 

Ver também:

Jesus passa, vê e chama

O olhar que mais valoriza

 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Aprendendo a dizer não


6ª feira depois das Cinzas

Por que jejuar?

 

Jejuar é aprender a dizer não ao que não é essencial.

Podemos dizer não a uma refeição, mas não podemos dizer não à companhia de Jesus.

Podemos dizer não ao Facebook ou outras redes sociais, mas não podemos dizer não à oração.

Podemos dizer não à televisão, mas não podemos dizer não à missa dominical.

Jejuar é dizer não ao que é secundário para aprender a dizer sim ao que é principal.

 

A melhor maneira para não ficarmos anestesiados pelo progresso é evitar as falsas comodidades ou as necessidades não necessárias.

Um missionário contava que quando chegou à Índia ficou impressionado com um colega que já lá estava há muito tempo que lhe dizia:

- Se posso passar sem isso, portanto deixo de lado.

Dizia isto a respeito do chá, costume generalizado na índia, mas que esse missionário não seguia. Não era por não gostar de chá, mas não seguia porque podia passar sem tomar chá.

 

Neste tempo da quaresma posso seguir o mesmo princípio – Se não é essencial, se posso passar sem isto ou aquilo, então devo deixar.

Isto é jejuar.

É libertar-me do que não é necessário para centrar-me no essencial.

Isto traz.me liberdade, disponibilidade e atenção ao que realmente conta.

 

Ver também:

Festa é festa, jejum é jejum

Decálogo do jejum

Jejum ou dieta digital

Formas de jejum

Deus em 1º lugar

 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

A cruz não é opcional


5ª feira depois das cinzas

VALE A PENA PENSAR NISTO:


A – A cruz é um meio e não um fim.

Passar pela cruz é uma condição e não uma opção para seguir Jesus.

Para segui-lo é preciso identificar-se com Ele.

De facto, Ele disse que tinha de sofrer muito e de ser morto para ressuscitar.

Também os seus discípulos devem passar pela cruz.

Deus não precisava do sangue de Jesus, que não veio apenas para morrer, mas Deus usou a sua morte para anunciar o fim da morte.

Jesus não tomou a cruz para que nós tomemos a nossa cruz. Ele tomou a sua cruz para que nós tomemos a sua cruz, porque afinal a sua cruz é a nossa, e a nossa é a sua cruz. Jesus tomou o nosso lugar na cruz para tomarmos o seu lugar no céu.

 

B) – A cruz é um detalhe e não a totalidade

A vontade de Deus manifesta-se mais na totalidade de uma situação do que nos seus detalhes.

Deus não envia, diretamente, dor, sofrimento e doenças. Deus não nos castiga.

Deus não envia acidentes para nos ensinar coisas, embora nós possamos aprender com eles. Nós crescemos com a dor, mas ela não é enviada para nos fazer crescer.

Deus não quer cruzes, obstáculos, terramotos, inundações, secas ou outros desastres naturais. Através da oração pedimos a Deus que nos mude para mudarmos o mundo. Olhar para a cruz é ver apenas um detalhe. É preciso olhar mais além, para a plenitude do mistério, para a vida eterna.

 

C) – No céu não há cruzes

A cruz lembra-nos que não estamos no céu, mas a caminho do céu.

Deus criou o mundo que não é perfeito, e no qual o sofrimento, a doença e a dor são realidades constantes; se assim não fosse, estaríamos no Céu. Alguns desses problemas somos nós que os provocamos a nós mesmos, e culpamos a Deus.

A cruz faz parte da nossa contingência neste mundo.

 

Ver também:

Semáforos dos discípulos

Versão aritmética

Subindo à cruz com Jesus

Sem cruz não há salvação

 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

O tripé da quaresma


4ª feira de cinzas

A experiência quaresmal é um tripé porque perdendo um pé é impossível aguentar-se.

- Jejum

- Oração

- Esmola

Estes 3 elementos são importantes para nós, mas incomodam-nos e mexem connosco. É por isso que este tripé é um desafio.

- O Jejum incomoda-nos porque nos dá fome e necessidade.

- A oração incomoda-nos porque nos rouba tempo para nós e para o nosso prazer e bem-estar.

- A esmola incomoda-nos porque fere o nosso egoísmo ou comodismo.

Mas precisamos disto tudo para equilibrar a nossa vida e para recuperar o nosso relacionamento.

- O relacionamento connosco mesmos através do jejum, do sacrifício ou mortificação.

- O relacionamento com Deus através da oração

- O relacionamento com os outros através da esmola ou caridade.

Quem não se controla a si mesmo, como poderá relacionar-se bem com Deus e com os irmãos?

E quem não tem nenhuma relação com Deus, como poderá unir-se aos irmãos e dominar-se a si mesmo?

E quem não está aberto aos outros, como poderá aceitar-se a si mesmo e abrir-se a Deus?

As cinzas desta quarta-feira

Hoje levamos cinzas para casa.

Para quê?

Levamos cinzas porque precisamos delas para 3 coisas:

- Para nos lembrar da nossa humildade e limitações. Somos pó e ao pó voltaremos. Tudo passa. Mas também é verdade que o pó que somos pode transformar-se em homem, imagem e semelhança de Deus.

- Para nos mostrar que precisamos de alguma purificação. Tal como a cinza era usada antigamente nas barrelas para branquear a roupa e tirar nódoas ou arear as panelas, nós precisamos da cinza para nos purificar ou libertar de alguma coisa.

- Para nos recordar que precisamos de revigorar ou fertilizar a nossa produção. Assim como as cinzas são usadas para fertilizar as terras, corrigi-las e torná-las mais produtivas, assim também a cinza quaresmal pode fortalecer-nos e corrigir-nos para darmos mais e melhores frutos neste tempo.

 

Ver também:

O segredo da quaresma

A vida na quaresma

Receita quaresmal

 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Só tinham um pão no barco


3ª feira – VI semana comum

Uma vez sonhei com o evangelho de hoje. Começou por ser um pesadelo, mas depois tudo terminou bem.

Jesus seguia para a outra margem num barco cheio discípulos, mas o barco nunca chegava ao seu destino.

A determinada altura os discípulos começaram a discutir e a acusar-se mutuamente porque se tinham esquecido de arranjar comida.

Jesus interveio perguntando-lhes:

- Quantos pães tendes?

- Temos apenas um pão.

Então Jesus pegou no pão e toda a gente pensou que iria multiplicá-lo como fizera nas outras vezes.

Jesus ergueu os olhos ao céu, partiu e atirou o pão para o mar e os peixes fizeram uma grande festa. Depois perguntou-lhes de novo:

- E agora quantos pães tendes?

- Nem um – responderam atónitos.

Então Jesus lembrou-lhes:

- Ainda não entendeis nem compreendeis? Tendes o coração endurecido? Tendes olhos e não vedes, ouvidos e não ouvis? Não vos lembreis do que vos disse?

- Sim. – Responderam todos. Não esquecemos a multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes…

- E não vos lembreis do pão descido do céu? Não vos lembreis de que me apresentei como o verdadeiro pão descido do céu?

E os discípulos ficaram envergonhados pois estavam a dar mais importância à falta de pão do que à companhia de Jesus.

E Jesus concluiu:

- Não entendeis ainda que eu sou o Pão da Vida?

Com toda a razão diziam que só tinham um pão no barco. Esse pão era Jesus.

Na realidade, Jesus é o verdadeiro, o único pão que nos pode saciar.

Pode faltar o pão na nossa mesa, mas que nunca nos falte o Pão do Céu, que é Cristo Jesus.

Se não nos esquecermos dele, com certeza que arranjaremos maneira de não faltar o pão na mesa de alguém.

Depois disso, acordei com a boca doce.  Senti uma alegria a arder cá dentro do meu coração.

 

Ver também:

Tentação não é pecado

Pão ou companhia

 

Dormir durante o sermão


É Carnaval e ninguém leva a mal

Há um texto dos Atos dos Apóstolos que nunca se lê na igreja.
Qual e porquê?
Talvez porque quem selecionou os textos litúrgicos era pregador e não quis que ninguém seguisse esse exemplo.
Refiro-me a Act 20, 7-12:
“No primeiro dia da semana, (em Tróade) estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que devia partir no dia seguinte, começou a falar com eles e prolongou a sua pregação até à meia-noite. Havia bastantes lâmpadas na sala de cima, onde estávamos reunidos. Ora, um jovem, de nome Eutico, que estava sentado numa janela, adormeceu profundamente, enquanto Paulo se alongava no seu sermão. Dominado pelo sono, caiu do terceiro andar e levantaram-no já morto. Paulo desceu e, lançando-se sobre ele, apertou-o nos baços e disse: Não façais barulho, pois a alma ainda está nele. Depois, voltou para cima, partiu o pão, comeu e falou demoradamente até de madrugada. Só então se retirou. Quanto ao jovem, levaram-no vivo, o que foi motivo de grande consolação.”
 
Eu tiro as seguintes conclusões ou aplicações:
 
1ª - O jovem Eutico bem podia ser declarado o padroeiro dos fiéis que não conseguem ficar acordados durante as pregações.
2ª - Em vez de dizermos que as pessoas dormem durante o sermão, devíamos dizer, com eufemismo, que estão a fazer a mesma experiência de Eutico. Uns são ouvintes, outros são Euticos,
3ª – A fraqueza de dormir durante as pregações é transversal e não apenas dos mais velhos, mas até dos jovens, quer na antiguidade quer na atualidade.
4ª – Dormir durante as pregações, afinal, parece não ser pecado, pois São Paulo ressuscitou quem caiu nessa fraqueza.
5ª – Quem tem a mesma fraqueza de Eutico e não consegue resistir, pelo menos não se sente na janela do terceiro andar, pois nem sempre há um pregador capaz de fazer o milagre de ressuscitá-lo depois da queda.
6ª – Depois da queda do jovem e da sua ressurreição, São Paulo continuou a sua pregação até de madrugada como se nada tivesse acontecido. O jovem aprendeu a lição, mas parece que o pregador não aprendeu a falar menos tempo.
7ª – Se São Paulo, tão santo e grande pregador, não conseguiu evitar que alguém dormisse durante as suas pregações, quem sou eu para conseguir fazer melhor que ele?
8ª – Parece que São Paulo só adormeceu um ouvinte. Eu sou capaz de adormecer muitos mais.
9ª – São Paulo não ficou embaraçado por ter provocado o sono e a queda do jovem Eutico. Eu ficaria talvez envergonhado ou traumatizado. Quando vejo alguém bocejar, já fico alarmado. Não sei distinguir se a culpa é do ouvinte ou do pregador.
10ª – É certo que no tempo de São Paulo ninguém levava relógio para as pregações, mas todos conseguiram ter a noção das horas. Ter um Eutico pela frente, a dormir, é um despertador para avisar ao pregador que já basta. Mesmo que esteja tão concentrado na sua pregação, esta tem de atender sempre às pessoas a quem se dirige. São Paulo não podia estar tão atento à palavra que se esquecesse dos ouvintes. Quanto a mim, às vezes pareço mais atento às pessoas do que à palavra que prego. Há quem seja santo pregador e quem seja pregador pecador.
11ª – O problema não é um ouvinte adormecer. O pior é quando o pregador é que parece ter estacionado ou adormecido. São Paulo na epístola a Timóteo aconselhava-o a proclamar a palavra, insistir a propósito e fora de propósito, ameaçar e exortar com toda a paciência e doutrina. Se nem assim conseguiu manter acordado o jovem Eutico, o que mais se poderá fazer hoje.
12ª – Acho que descobri o cerne desta situação. Diz o narrador do episódio que Paulo depois de ter ressuscitado o jovem, voltou para cima, partiu o pão e comeu… e depois continuou a pregar. O jovem caiu não apenas por causa do sono, mas por fraqueza. Não basta alimentar-se com a palavra. É preciso alimentar-se com o pão, com o pão do corpo e com o pão da Eucaristia.
 
Episódios da atualidade:
 
A – De pequenino se torce o pepino
Um dia estava eu a celebrar um batismo na missa dominical. Desde que chegou à igreja o bebé não parou de chorar. Não houve maneira de o calar, nem chucha, nem biberão, nem o colo da mãe, do pai, da avó, nem deitado, nem de pé, nem mudar a fralda, nem o refrescar com um leque, nem brinquedos luminosos ou musicais. Era um autêntico circo. Claro que o sacerdote imperturbável fez todos os rituais que devia, com toda a atenção e paciência, como se não houvesse nada de especial. As leituras quase que não foram ouvidas por ninguém. Respirei fundo antes de começar o meu sermão, consciente de que teria pela minha frente um concorrente, pequenino, mas poderoso. E qual não foi o espanto de todos: Assim que comecei a falar o bebé calou-se imediatamente e começou a dormir em paz para sossego de todos. Não resisti em concluir que aquela criatura, há tão pouco tempo na igreja já tinha aprendido dos mais velhos – dormir durante o sermão. Ou será que deixou de gritar para não acordar quem costumava dormir nessa ocasião? Só sei que consegui ultrapassar o Apóstolo São Paulo. Ele, num longo sermão, conseguiu adormecer um jovem, e eu numa pequena homilia consegui adormecer um bebé irrequieto. Graças a Deus! Aleluia, aleluia!
 
B – Quem dorme por último dorme melhor
Uma mulher queixava-se ao marido:
- Já não sei que fazer para conseguir dormir à noite. É uma insónia continuada. Nem com chá, nem com medicação, de jeito nenhum consigo dormir.
O marido ouviu com toda a paciência e por fim disse:
- Conheço uma maneira eficaz para dormires durante toda a noite.
- Porque é que só agora me dizes isso? Fala depressa…
E muito sério continuou:
- É simples. Grava os sermões do padre da nossa paróquia para ouvires à noite na cama. Não vais resistir… é tiro e queda. O que é que fazes na igreja quando o padre prega? Começas logo a dormir, assim o dizes. Então experimenta ouvi-lo cá em casa e o sono chegará depressa.
- Estás a gozar comigo – lamentou-se a mulher – como é que eu posso gravar os sermões se estou a dormir na igreja?
- Pede à vizinha do lado…
- Impossível! Ela está a dormir também…
- Então pede ao padre que venha pregar aqui de viva voz – gracejou o homem.
- É uma boa ideia, mas não sei se o padre tem insónias para estar acordado a essas horas.
E um milagre aconteceu.
Depois desta conversa a mulher foi para a cama, pegou no sono sem demoras e dormiu toda a noite e até sonhou com o padre a pregar…
Na noite seguinte foi o marido que sofreu de insónias. Cheio de ciúmes não conseguiu dormir ó em pensar que a sua mulher estaria a sonhar com o padre.  
Cá se fazem, cá se pagam.

Conclusão
De facto, não há hora nem lugar mais abençoado para dormir do que na igreja.
Se na cama eu posso rezar, também na igreja posso dormir.
Daqui para a frente terei cuidado para não escrever a metro nem pregar à hora.
 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Margarida vai à fonte


Porque é Carnaval, ninguém leva a mal.

No folclore madeirense há, numa rapsódia, a adaptação da letra e da música de um fado antigo português (1903/04?), chamado Margarida Vai à Fonte. O fado original começa assim:

Margarida vai à fonte (bis)

Vai encher a cantarinha

Brotem lírios pelo monte

Vai sozinha para a fonte

Vai à fonte e vem sozinha.

         Brotem lírios pelo monte

         Vai à fonte e vem sozinha.

 

Na versão madeirense há apenas o início adaptado de maneira brejeira explicando por que é que a Margarida vai à fonte. Ela vai à fonte não por interesses pessoais, como imaginam as mentes perversas, para namorar ou para saciar a sua sede, mas por pura caridade, não a pensar em si, mas nos outros, pois reza assim:

Margarida vai à fonte (Bis)

Vai à fonte e logo vem.

Vai buscar um balde de água (bis)

Pra lavar os pés à mãe

Vai buscar um balde de água

Pra lavar os pés à mãe.

 

E no folclore madeirense tudo fica por aqui, pois não há mais nada sobre a Margarida. Mas pensando melhor, a Margarida não é só filha da mãe, mas também filha do pai. Então porque é que não se refere nenhum préstimo ao seu progenitor? Aqui vai uma proposta para colmatar essa discriminação e promover a igualdade de género ou de outra espécie de fonte:

Margarida vai à adega (Bis)

Vai à adega e alegre vai.

Vai buscar um jarro de vinho (Bis)

Pra dar de beber ao pai.

Vai buscar um jarro de vinho

Pra dar de beber ao pai.

 

Assim está melhor, pois vemos bem a dedicação da Margarida quer à mãe, quer ao pai, lavando a garganta a um e os pés à outra. Mas isto não pode ficar por aqui. E para a avó não vai nada, nada, nada? A Margarida sabe cuidar bem de todos, novos e velhos. Eis a prova disso:

         Margarida vai à horta (Bis)

         Vai à horta e não vem só.

         Vai buscar umas couvinhas (Bis)

         Pr’o jantar da sua avó.

         Vai buscar umas couvinhas

          Pr’o jantar da sua avó.

 

A Margarida é de facto uma moça muito prendada. É pena estar solteira. Não é por falta de atributos, como se vê, nem por falta de vontade. Então porque é que ainda não encontrou namorado? Talvez porque não tem procurado no lugar certo. Vejamos:

         Margarida vai à igreja (bis)

         Vai de peito apertado.

         Vai rezar a Santo António (Bis)

         Que lhe dê um namorado.

         Vai rezar a Santo António

         Que lhe dê um namorado.

 

Já que Santo António ainda não atendeu o sonho da Margarida, há aqui alguém que queira dar uma ajudinha? Não é ajudar a ir à fonte, à adega ou à horta, mas ajudá-la a encontrar um noivo. Nem é preciso ir com ela à igreja para rezar. Basta aproximar-se assim:

         Margarida vem aqui (Bis)

         Vem aqui qu’eu não te vejo.

         Aproxima a tua boca (Bis)

         Para me dares um beijo.

         Aproxima a tua boca

         Para me dares um beijo.

 

Quem sabe se a Margarida toma o gosto e haja casamento. Por enquanto não podemos exigir mais da Margarida. É uma moça generosa, mas muito respeitada. Querem continuar esta história? Respeito é uma das poucas coisas que se recebe quanto mais se dá. Fiquemos então por aqui:

         Margarida vai-te embora (Bis)

         Vai-te embora descansar.

         Quem quiser mais de ti (Bis)

Vai ter muito qu’esperar.

         Quem quiser mais de ti

         Vai ter muito qu’esperar.

 

Para ouvir a canção original

Clicar aqui

 

Nenhum sinal vos será dado


2ª feira – VI semana comum
 
Pediram-lhe um sinal do céu.
Jesus disse:
- Não se dará nenhum sinal a esta geração.
- Porque não quereis ver o sinal…
E dito isto, deixou-os, voltou para o barco e foi para a outra margem.
 
De facto, Jesus é o sinal para ser visto, mas eles não queriam ver…
Então Jesus retirou-se, isto é, tirou-lhe o sinal para levá-lo para a outra margem.
É como ter um livro na mão para ler, mas querer continuar com os olhos vedados.
Os fariseus queriam que Jesus lhes desse uma prova (um sinal) da sua divindade.
Porque é que faziam isto?
Porque não conseguiram mostrar que ele não era o Messias, então exigiam que ele lhes mostrasse quer era de facto o Messias.
 
Isto faz-me lembrar alguns casos de justiça em que não podendo provar a acusação de alguém, se exige que o acusado prove a sua inocência. Se o não fizer, será condenado. Ou seja, pretende-se condenar alguém de um roubo, não porque temos provas de que roubou, mas porque ele não consegue provar que não roubou.
 
Jesus escusa-se a responder a este pedido.
Jesus não quer provar nada disso, mas quer apenas que os próprios interlocutores descubram esses sinais por si mesmos.
Jesus é o Messias, não apenas porque diz sê-lo, nem porque impõe provas disso.
Ele prefere que os seus ouvintes vejam pela sua ação e pela sua vida e missão que é de facto o Messias, o Filho de Deus enviado a este mundo.
 
Não nos queixemos então da nossa pouca fé naquele que Deus nos enviou.
Se ainda não acreditamos não é por falta de provas de Deus, mas porque ainda não O descobrimos.
 
Ver também:
Discutir só para destruir