quinta-feira, 17 de julho de 2025

Mártir quer dizer testemunha


Memória facultativa dos beatos Inácio de Azevedo, presbítero e companheiros, mártires, a caminho do Brasil, 1570

A palavra mártir, em grego, significa testemunha. Chama-se mártir a uma testemunha, diz-se que uma testemunha é mártir.

Há uma razão pela qual a palavra mártir significa literalmente "testemunha", e há uma razão pela qual a maior testemunha ao coração de Deus foi precisamente o próprio Deus se tornar um mártir - aceitando a morte nas mãos dos opressores para derrubar não apenas o sistema de Império, mas pecado, morte e opressão em todos os lugares.

A verdadeira testemunha é o mártir, aquele que dá a vida por Cristo, testemunhando radicalmente que só Ele é o Senhor, a verdade e a vida.

O Homem contemporâneo escuta com melhor vontade as testemunhas do que os mestres, ou então, se escutam os mestres é porque eles são testemunhas (Paulo VI Evangeli nuntiandi, 1975).

O sangue dos mártires nunca é derramado em vão.

Tertuliano dizia que o sangue dos mártires é semente dos cristãos.

De facto, o mal não terá a última palavra.

 

À margem 1

Quem são os mártires de hoje?

Os mártires deste dia foram perseguidos pelos calvinistas franceses. Ao longo da história a igreja foi perseguida pelos hereges, pelos pagãos, pelos opressores e pelos próprios cristãos.

Hoje continua a haver martírio.

Quem são mártires dos tempos modernos?

- São os missionários. De facto, o verdadeiro missionário arde de fervor por Cristo e esse fogo aquece e contagia os outros. Ele é uma verdadeira testemunha de Deus, desinstalando-se e arriscando-se numa vida radical em prol do evangelho (nas periferias, bairros sociais, refugiados, descriminados).

- São os que são ridicularizados pelo mundo. Sem derramar o seu sangue, dão testemunho da grandeza da sua fé e da sua confiança em Deus. São mártires através da exigência da sua vida cristã no confronto com o mundo. É uma espécie de martírio anónimo.

- A Igreja é mártir de si própria. Não é preciso sair para longe nem enfrentar o desconhecido ou a perseguição para hoje dar testemunho e ser mártir. Os abusos, a falta de empenho e de conversão é uma maneira de perseguir a igreja e de a tornar mártir, a partir de dentro.

 

Ver também:

Da nossa raça

Na rota do martírio

Inácio de Azevedo

 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Carmelo significa jardim


Memória litúrgica de Nossa Senhora do Carmo

(Virgem Santa Maria do Monte Carmelo)

A palavra "carmelo" significa jardim (Camo, Carmen, Carmel).

Conta a tradição que o profeta Elias se estabeleceu numa gruta, em pleno Monte Carmelo, seguindo uma vida eremítica de oração e silêncio. Nele, e no seu modo de vida, se inspiraram os primeiros religiosos da Ordem por volta de 1220. Mais tarde, uma Regra para a Ordem do Carmo foi sistematizada e proposta por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, e aprovada pelo papa Honório III em 1226. No século XIII os religiosos acabaram por migrar para os países do Ocidente, fugindo das invasões sarracenas.

Por causa disso, dois cruzados ingleses levaram para a Inglaterra alguns Carmelitas que habitavam o Monte Carmelo. Um homem penitente, austero, logo se uniu a eles. Era Simão Stock. Consta que tivesse ele recebido um aviso de Nossa Senhora que viriam da Palestina Monges devotos de Maria e que deveria unir-se a eles. Vieram depois tantos Carmelitas para a Europa que foi preciso nomear um Superior-Geral.

Em 1245 Simão Stock eleito para desempenhar este cargo. Encontrou dificuldades quase insuperáveis. Mandou que os Carmelitas estudassem: isto gerou uma discórdia interna, pois não queriam os mais velhos que os contemplativos estudassem. O clero secular revoltou-se contra eles e pediu a Roma a sua supressão.

Diante de tanta oposição, Simão Stock, aos 90 anos, retirou-se para o mosteiro de Cambridge, no Ducado de Kent, e pediu a proteção de Maria. Rezava na sua cela quando viu um clarão, na noite de 16 de julho de 1251. Rodeada de anjos, Maria Santíssima entregou-lhe o Escapulário, dizendo-lhe:

- Recebe, filho queridíssimo, este Escapulário da tua Ordem: isto será para ti e todos os Carmelitas um privilégio. Quem morrer revestido dele não sofrerá o fogo eterno.

 

Façamos da nossa vida um jardim (Carmelo) sob a proteção de Maria Santíssima, onde possamos florescer dando frutos de amor e de misericórdia.

 

À margem 1

Na história da Igreja não encontramos nenhum Papa que tenha vindo da Ordem Carmelita. Mas não faltam provas da devoção dos Papas à Senhora do Carmo e do seu Escapulário.

- Bento XV, o pontífice da paz, chamou o Escapulário de a “arma dos cristãos” e aconselhava aos seminaristas que o usassem.

- Pio IX gravou no seu cálice a seguinte inscrição: “Pio IX, confrade Carmelita”.

- Leão XIII, pouco antes de morrer, disse aos que o cercavam: “Façamos agora a Novena da Virgem do Carmo e depois morreremos”.

- Pio XI escrevia, em 1262, ao Geral dos Carmelitas: “Aprendi a conhecer e a amar a Virgem do Carmo nos braços de minha mãe, nos primeiros dias de minha infância”.

- Pio XII afirmava: “É certamente o Sagrado Escapulário do Carmo, como veste Mariana, sinal e garantia da proteção e salvação ao Escapulário com que estavam revestidos. Quantos, nos perigos do corpo e da alma, sentiram a proteção Materna de Maria”.

 

À margem 2

Se a vida do cristão é um Carmelo, um jardim de Maria, então os conventos carmelitas devem ser autênticas estufas ou viveiros de flores.

 

À margem 3

Canto popular português (Alentejo)

 

Nossa Senhora do Carmo,

que está no seu altar,

todos lá vamos ajoelhar

e a cantar e a cantar vamos rezar.

 

1. Senhora que és padroeira 

da nossa terra hospitaleira.


2. Pedimos a uma voz: 

nossa Senhora rogai por nós.


3. Senhora, que és Mãe de Deus, 

olha por nós os filhos teus.


4. Senhor, do vosso altar 

lançai benigno o voss’olhar.


Para ouvir canção Nossa Senhora do Carmo:

Clicar aqui

 

Ver também:

Credo da família carmelita

Escapulário

Arma e armadura

Monte Carmelo

Excelência de Maria

 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Lições de São Boaventura

 

Memória de São Boaventura (1218-1274)

Franciscano, Bispo e Doutor da Igreja

Ensinamentos de São Boaventura

 

Três coisas são necessárias para a vida de todos:

- A verdade da fé que traz o entendimento

- O amor de Cristo que traz a compaixão

- A esperança que traz a perseverança.

 

Toda a nossa vida é um "itinerário", uma peregrinação – uma escalada rumo a Deus. Mas só com as nossas forças, não podemos elevar-nos à altura de Deus. O próprio Deus deve ajudar-nos, deve "puxar-nos" para o alto. Por isso, é necessária a oração. A oração é a mãe e a origem da elevação – "sursum actio", a ação que nos leva para o alto.

Portanto, oremos e digamos ao nosso Senhor Deus:  Conduzi a minha vida pela vossa via, Senhor, e eu caminharei na vossa verdade.  

 

Ver também:

Boaventura, o Santo dos afetos

Boaventura

 

domingo, 13 de julho de 2025

O samaritano das neves


Ano C – XV domingo comum

Versão do bom samaritano nas neves

 

Durante as férias de inverno um grupo de turistas procurou alcançar o cimo de um alto monte, de neves perpétuas. Foi grande a alegria de ter alcançado o objetivo, mas essa alegria deu depressa lugar à inquietação, pois aproximava-se uma grande tempestade de neve. A descida devia ser rápida e no meio do turbilhão de vento e neve. Cada um devia descer com precaução e segurança, sem perder de visto os restantes elementos do grupo.

Logo nos primeiros metros, por nervosismo, pressão ou ansiedade, um deles torceu o pé e não podia caminhar. Com o pé inchado e ferido, precisava de ajuda, mas não havia tempo para isso. Deixá-lo para trás sozinho não seria uma boa solução. Aguardar socorro de fora estava fora questão pois ninguém resistiria. Só havia uma solução – alguém carregá-lo às costas. Mas logo um descartou-se dizendo que não tinha forças para tal, outro disse precisar mais de ajuda do que de ajudar, outro disse que não iria longe e mais valia perder um do que perderem-se dois ou mais.

O chefe da expedição só pensou no ferido – E se eu estivesse no seu lugar? O que gostaria que fizessem?

E sem dizer nada, carregou às costas o necessitado.

O frio era intenso, a tempestade cada vez mais agreste e o esforço cada vez mais esgotante…A determinada altura deixou de sentir frio. Pensou que o corpo do ferido que carregava o estava a aquecer e as suas forças animaram-se. O carregado às costas também começou a aquecer, pensando que era da transpiração de quem o carregava. E cada um agradeceu a Deus.

Pelo caminho encontraram vários corpos presos pela neve…

Depois de uma longa caminhada chegaram a um abrigo seguro onde foram recebidos pela equipa de socorro.

- E os outros já chegaram? - perguntou o chefe da expedição.

- Sois os primeiros.

E não chegou mais ninguém.

- Tu salvaste a minha vida – disse o ferido.

- Não, tu é que salvaste a minha vida. Se eu não te carregasse, não teria o calor suficiente para aguentar, tal como aconteceu com todos os outros que vieram sozinhos...

- É o calor do coração de sempre nos salva – concluíram todos.

De facto, quem ajuda é ajudado.

O bom samaritano das neves salvou e foi salvo.

 

À margem 1

Os primeiros personagens a passar junto do homem assaltado pensaram:

- Se eu parar e ajudar aquele homem, o que me pode acontecer?

Ficarei sujo, chegarei tarde aos meus compromissos, meto-me em trabalhos e preocupações, poderei também ser roubado e atacado.

O samaritano ao aproximar-se do homem assaltado pensou:

- Se eu não parar e ajudar este homem, o que lhe poderá acontecer?

Ficará sozinho a sofrer, não prestará para mais nada, talvez vá morrer sem assistência.

 

Um pensou em si – e prosseguiu sozinho – e o ferido continuou parado e só e a sua dor não acabou.

O samaritano pensou no outro – e juntos seguiram mais seguros e cearam os dois – e foram nós.

 

O bom samaritano é como Deus

Deus é como o bom samaritano

 

Se eu penso em mim, tu ficas sós

Se eu penso em ti, seremos nós

A tua dor vai acabar

E eu mais seguro vou caminhar

 

À margem 2

Quem é quem na parábola do Samaritano?

Hipótese A:

Jesus é o samaritano que desceu até à Terra e socorre a humanidade e a sua igreja ferida.

Esta identificação deve despertar em nós o sentimento de Gratidão.

Agradeçamos Jesus, nosso bom samaritano, por pensar em nós, por cuidar de nós e por nos curar e salvar.

Hipótese B:

Cada um de nós é o bom samaritano que deve pensar no outro que precisa da sua assistência e cuidado – daí o desafio final: Vai e faz o mesmo.

Esta identificação deve despertar em nós o sentimento de serviço e de ajuda ao próximo.

Peçamos a graça de fazer aos nossos irmãos o mesmo que Jesus fez por cada um de nós.

 

À margem 3

Alguém sabe o nome do homem assaltado e ferido nesta parábola?

Alguém sabe o nome dos ladrões que o assaltaram?

Alguém sabe o nome dos dois homens que passaram ao lado ignorando o homem ferido?

Alguém sabe o nome do samaritano que lhe prestou assistência?

Ninguém sabe o seu nome e eu também não.

Porque é que não ficou registado nenhum desses nomes?

Porque podes ser tu, posso ser eu. Posso ser o homem assaltado, mas também o homem que assaltou, que passou ao lado ou que prestou assistência.

O seu nome pode ser o seu nome.

 

Ver também:

Sem amor não há unidade

O nome do bom samaritano

O coração do samaritano

Jesus samaritano

Um samaritano

Versão alegórica

Versão alternativa

Ver com o coração

Quem é o meu próximo

Fazer o mesmo

Encontro

Bom samaritano

Vai e faz o mesmo

 

sexta-feira, 11 de julho de 2025

A Regra de São Bento


Festa de São Bento, Abade, Padroeiro da Europa

A Regra de São Bento, composta a partir do ano 529 para a nascente comunidade monástica de Monte Cassino, contém as normas que governam todos os aspetos da vida espiritual e material do monge e de toda a comunidade para chegar à perfeita união com Deus. É uma Regra equilibrada e completa, humana e espiritualmente porque apresenta um tempo para tudo:

 

1 – Tempo para o corpo – Labora – Manter-se em atividade física através do trabalho e da ação sem espaço para o ócio.

2 – Tempo para a mente – Ler e escrever, estudar e argumentar, numa espécie de ginástica mental.

3 – Tempo para a alma – Ora – rezar, meditar, pregar, adorar, celebrar a liturgia comunitária com devoção e dignidade.

4 – Tempo para a comunidade e para os irmãos – Vede como eles se amam para amar como eles se olham ou se veem. Todos os hóspedes que chegarem serão recebidos como o próprio Cristo.

5 – Tempo com a natureza – cuidar da criação, mas também unir-se em louvor juntamente com todas as criaturas para recuperar o paraíso inicial, sem esquecer a dimensão lúdica.

 

À margem 1:

São Bento, o Pai dos Monges, faleceu aos 67 anos, em 547, mas a sua Regra continua a inspirar a vida e a santidade de muitos discípulos. Os frutos do seu trabalho são históricos e contabilizados. Dos mosteiros beneditinos até hoje saíram 23 papas, 5 mil bispos e 3 mil santos canonizados.

 

À margem 2:

São Bento apresenta a ligação de trabalho e oração (Ora et Labora). A oração permanente é assegurada pelo monge também durante o trabalho. No meio do trabalho, a oração interior continua. O monge não está sempre a pensar em Deus, mas no fundo da sua alma, está ancorado em Deus. Interiormente reconhece a presença de Deus. Da mesma forma que gostamos mais de trabalhar num dia de sol do que num dia de chuva, sem estarmos sempre a pensar no sol, assim também a presença purificadora e salvadora de Deus é um prazer para quem a tem. A presença de Deus é o espaço em que trabalhamos. Ela influencia o nosso trabalho. A oração interior lembra-nos sempre da presença do amor de Deus.

 

À Margem 3:

No refeitório, depois da oração inicial, a distribuição dos alimentos ocorre ao sinal do abade; no mesmo momento, o “lector hebdomadarius” inicia a leitura espiritual em alta voz, enquanto que os monges escutam no mais absoluto silêncio. À mesa leem-se alguns versículos da Bíblia, seguidos de excertos de obras espirituais, históricas e edificantes, de modo que enquanto se alimenta o corpo, se possa também nutrir o espírito.

 

À margem 4:

Corre enquanto tens a luz da vida, para que as trevas da morte não te alcancem. (Prólogo da Regra de São Bento, referindo-se a Jo 12,35).

 

À margem 5:

Na Regra de São Bento não se fala ainda de votos. Tirando o texto dobre a obediência ao abade, a Regra não fala explicitamente dos três votos religiosos ou conselhos evangélicos (Pobreza, Castidade e Obediência). São Bento prefere falar da CONVERTIO MORUM, a conversão da nossa maneira de viver. Esta conversão será sempre uma conversão para Cristo e o seu Evangelho.

 

Ver também:

A atualidade de São Bento

A cruz, o livro e a charrua

O trabalho é oração e vice-versa

As 3 brechas

Oração e ação

Oração de São Bento

São Bento de Núrcia

Ora et labora

 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Cada Apóstolo é como Maria


5ª feira – XIV semana comum

Não é Maria que é parecida com os apóstolos.

Os apóstolos é que são parecidos com Maria.

 

Maria é exemplo vivo do perfil destes mensageiros do evangelho:

- Proclama que o Reino está perto – Donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor.

- Atende os necessitados (curai os enfermos, sarai os leprosos...) – Não têm vinho.

- Recebeu de graça, deu de graça – Ave Cheia de graça.

- Não leva duas túnicas, nem ouro nem prata – Mala vazia, mas o coração cheio.

- Trabalhadora que merece o seu salário – Eis a serva do Senhor.

- Deixa a paz – ao ouvir a tua saudação, o menino exultou no meu seio.

- Fica nessa casa até partir – Maria ficou cerca de três meses, depois regressou a sua casa.

 

É por isso que Maria é a mãe dos Apóstolos e o modelo da sua missão evangélica.

De facto, Jesus ao apresentar estas condições aos seus apóstolos, estava a pensar no modelo de sua Mãe, a primeira missionária.

 

Ver também:

Mala vazia, coração cheio

Evangelizar é viver

Missão de paz

Tanto verbo

Uma túnica só

Não levar duas túnicas

 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

É Jesus quem chama e envia


4ª feira – XIV semana comum

Jesus chamou a si os seus doze discípulos…

Chamar, aqui, tem três significados:

1º - Chamar é congregar, é juntar, reunir em assembleia, convocar em igreja. A palavra chamar tem a mesma raiz que a palavra igreja (ecclesia).

2º - Chamar é designar, é dizer o seu nome próprio, é identificar, é conhecer – São estes os nomes dos doze.

3º - Chamar é dar uma nova identidade – chamou-os apóstolos – definiu-os como enviados, de facto Jesus enviou estes doze.

 

Ver também:

Os companheiros de Jesus

Cada apóstolo a sua missão

Ide a José e fazei

Jesus é o protagonista

Corresponsabilidade

Apóstolos a postos

Apóstolos de Jesus e o Jesus dos apóstolos

Aprendendo com Judas

Deus é quem escolhe

Sou porque somos

Contrato

Seguidores

Escolher

Subir ao monte

Doze apóstolos