segunda-feira, 13 de abril de 2020

A Páscoa do Pe. Dehon


O Pe. Dehon e a Páscoa
A Páscoa e o Pe. Dehon

1843 – A primeira Páscoa
O Pe. Dehon, nas Notas sobre a História da minha Vida escreve – “Nasci a 14 de março de 1843. Era terça-feira da II semana da quaresma. A Páscoa caiu nesse ano a 16 de abril…
Podemos concluir que o Pe. Dehon desde que nasceu começou a caminhar em direção à Páscoa.
A vida é caminho em direção à Páscoa.

1855 – Páscoa em família
Estudante na Flandres – “Eu passei quatro anos em Hazebrouck. Eu só revia a minha família na Páscoa e nas férias grandes… A distância era longa e era preciso procurar várias ligações de comboio.”
Quer durante a toda a infância, quer durante a adolescência, enquanto aluno do colégio de Hazebrouck (1855-1859), Leão Dehon sempre passou a Páscoa em La Capelle, junto da sua família. É curioso que em francês a palavra Páscoa escreve-se no plural (Pâques), talvez mesmo porque a Páscoa deve ser vivida no plural, sempre em família.

1965 – Páscoa em Jerusalém
Como jovem peregrino na Terra Santa – “De 12 a 16 de abril, os grandes dias da semana santa em Jerusalém são tão emocionantes que não se podem exprimir. Podemos acompanhar emocionados todas as etapas da paixão e da ressurreição. Em cada hora do dia, contemplando os mistérios sagrados, podemos dizer: foi aqui! Foi aqui que Jesus nos deu esta marca do seu amor… No dia de Páscoa, participei no pontifical das 08H00 e depois fiz uma visita de despedida aos sítios e santuários mais tocantes da cidade.”
Esta foi a experiência pascal do jovem Dehon em Jerusalém. Para ele a Páscoa foi e sempre será o seguimento de Jesus na sua paixão e ressurreição.

1866 – Páscoa em Roma
Durante os anos de seminário em Roma – “O dia de Páscoa era o mais solene de todos. A missa tinha ainda mais solenidade do que a de Natal. Ao meio dia o Papa Pio IX dava a grande bênção no balcão exterior da Basílica. À noite havia a iluminação da cúpula, da fachada da Basílica de São Pedra e dos pórticos… 360 homens acendiam os 5.000 lampiões com uma rapidez surpreendente e renovavam-nos acesos depois da primeira hora. Mais de 80.000 peregrinos, sem contar com os romanos… uma multidão enchia a praça de São Pedro.”
Em Roma o Pe. Dehon não passou a Páscoa apenas destes primeiros seis anos, mas muitas vezes voltou lá por essa quadra pascal, conjugando-a com a estadia do ofício que tinha no Index (por exemplo nos anos 1887, 1898, 1901, 1902, 1906 sucessivamente até 1909). Pelo menos 14 vezes celebrou a Páscoa em Roma.
É a Páscoa vivida com a Igreja e em Igreja, com Pedro e com o povo peregrino.

1870 – Páscoa em tempo de Concílio
Com a função de estenógrafo do Concílio Vaticano I – “Celebrámos em Abril as festas pascais, em tempo de concílio. A missa do Papa em São Pedro, é muito bela, mas o momento mais solene de todos estes dias é a bênção pontifícia denominada Urbi et Orbi (à cidade e ao mundo).”
É a bênção à Cidade e ao Mundo, a bênção mais católica, isto é, a mais universal.
É a páscoa universal ou da Igreja espalhada por todo o mundo

1871 – Páscoa em comunidade paroquial
Como vigário paroquial em São Quintino – “Em Abril, convidei os meus pais a vir passar a Páscoa comigo… Eles preferiram vir depois das festas.”
Em várias passagens o Pe. Dehon realça as confissões, as comunhões pascais de tanta gente que recebeu a visita pascal.
É a Páscoa da comunidade cristã e do seu pastor.

1887 – Páscoa em tempo de consagração e de renascimento
Ao pedir à Santa Sé a aprovação de direito pontifício da Congregação por ele fundada – “Que as graças da Páscoa sejam abundantes! Que haja conversões em toda a parte! Sinto-me feliz por ver Nosso Senhor honrado e louvado. Peçamos-lhe muito hoje, Nosso Senhor não nos recusará nada.”
As dificuldades no começo da fundação da Congregação, a sua supressão temporário (consumatum est) foram um caminho do Calvário para a Páscoa. Foi a oblação ou imolação do Pe. Dehon e da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus.
De facto, sem cruz não há Páscoa

1893 – Páscoa no seminário
Valorizando o trabalho dos mais novos – “Os nossos seminaristas de São Clemente representaram por 3 vezes o drama mudo da Paixão. Eles tiveram um grande sucesso de edificação. Toda a cidade correu para lá e a sala de tornou-se demasiado pequena. Esses alunos de São Clemente apresentam assim muitos mistérios que meditam todos os dias… É uma maneira de apostolado através de meios muito simples.”
Tanto no seminário como no Colégio São João, o Pe. Dehon levava sempre os mais novos a viver profundamente a Páscoa, através dos sacramentos e do apostolado e da conversão.
Páscoa é o testemunho da ressurreição através de todos os meios ao nosso alcance.

1894 – Páscoa na periferia
Como peregrino pela Itália do Sul e Norte de África – “Em Palermo dão às festas religiosas da Páscoa uma grande solenidade. Celebrei a missa da manhã na igreja de São José. Esta grande igreja, outrora rica, tão viva e que exigia numeroso serviço, mas agora está sem padres, sem confessores…”
O Pe. Dehon ao viajar pelo mundo, estuda por este grande livro, observa, regista, aprende, recebe lições mesmo das pessoas ou das comunidades mais humildes.
É a Páscoa dos simples, dos pobres ou do resto de Israel.

1900 – Páscoa dos peregrinos
Ao visitar a Espanha e Portugal – “Descreverei a bela viagem de dois meses, quer na Revista, quer numa Edição Própria. Aqui (nas Notas Quotidianas) indico apenas as datas principais – 15 de Abril, Compostela onde passei a Páscoa.”
Noutro lugar o Pe. Dehon dirá que não há país que dê às festas pascais tal solenidade como a Espanha e que a Salamanca chegam peregrinos de todas as partes da Europa para ganhar indulgência pascal com o Apóstolo Santiago.
É a Páscoa como peregrinação de conversão, Páscoa caminho dos discípulos.

1903 – Páscoa em tempo de perseguição
Em tempos de dificuldades e de despojamento, com o decreto da dissolução das congregações religiosas pelo governo francês – “Enviámos os seminaristas de São Clemente de Fayet para Brugelette. Estamos no tempo dos Hunos e dos Vândalos, as nossas casas de oração esvaziam-se à passagem dos bárbaros. É a semana santa e o discípulo não é superior ao mestre, nós somos perseguidos e apanhados como foi o Salvador em Jerusalém. Passei o dia de Páscoa na solidão. A nossa capela está despojada dos seus ornamentos.”
A páscoa de Cristo espelha a nossa vida e a nossa vida espelha a Páscoa de Cristo.
É a Páscoa da solidão, em tempo de perseguição e intolerância.

1911 – Páscoa no Santo Sepulcro
Na última etapa da sua viagem à volta do mundo o Pe. Dehon passa pela Palestina onde celebra antecipadamente o dia de Páscoa – “Celebrei a missa no Santo Sepulcro. Eu tinha rezado aí em 1865 e tinha comungado. Depois de tanto tempo desejei oferecer o santo Sacrifício sobre a pedra do túmulo, donde Jesus saiu glorioso. Que feliz meia hora! Como o coração esteva dilatado de emoções. Voltei ao Santo Sepulcro à hora da procissão dos Latinos. À volta do túmulo temos o Calvário, a pedra da unção, a cripta da Vera Cruz. É um conjunto de lembranças que impressiona e que santifica.”
No coração de cada um, é Páscoa sempre que o homem quiser.
É a Páscoa vivida com emoção e com o coração.

1918 – Páscoa em tempo de guerra
No último ano da I Guerra Mundial – “É o tempo de Páscoa na liturgia, mas continua ainda o tempo da penitência na guerra: paciência e confiança, sempre…”
Assim foi a Páscoa durante os quatro anos de guerra.
É a Páscoa em tempo de confinamento e de guerra ou o confinamento e a guerra em tempo de Páscoa.

1925 – A última Páscoa
Na última Páscoa celebrada pelo Pe. Dehon aqui na terra – “Neste mês de Abril nós honramos São João. É o mês em que habitualmente celebramos a semana santa e a Páscoa. São grandes dias de São João: quinta-feira santa quando ele repousa a sua cabeça no peito de Jesus, sexta-feira santa quando manifesta a sua admirável fidelidade que lhe vale tornar-se filho adotivo de Maria. Com São João quero repousar a minha cabeça sobre o Coração de Jesus, dia e noite. Eu quero ser para Jesus um pouco daquilo que São João foi para Ele.”
Sacerdote do Coração de Jesus, o Pe. Dehon quer viver como o apóstolo São João, saboreando o seu amor, descobrindo a sua presença de Ressuscitado. O Apóstolo São João é o modelo da vivência da Páscoa. Por isso o Pe. Dehon afixa nessa página do seu diário a estampa de São João que abaixo apresentamos.
Viver a Páscoa todos os dias, à maneira de São João.

Conclusão:
Podemos completar a derradeira expressão do Pe. Dehon ao morrer a 12 de agosto de 1925:
Por ele vivi, por ele morro… E com Ele vivo para sempre.
É a Páscoa eterna.





domingo, 12 de abril de 2020

Aleluia, aleluia


Ano A – Dia de Páscoa da Ressurreição do Senhor





















1 – Reflexão do Papa Francisco, 08/04/2020
A Ressurreição de Cristo é também a nossa vitória. Boa Páscoa.

2 – Reflexão do Papa Bento XVI, 07/04/2012
Jesus ressuscita do sepulcro. 
A vida é mais forte que a morte. 
O bem é mais forte que o mal. 
O amor é mais forte que o ódio. 
A verdade é mais forte que a mentira. 
A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.

3 – A minha reflexão - Da ausência à presença
Maria Madalena, João e Pedro viram o sepulcro vazio e acreditaram na ressurreição. A ausência foi a confirmação da ressurreição – Jesus não estava lá pois ressuscitara.
Nós hoje fazemos uma experiência contrária – A presença de Jesus no nosso meio é a confirmação da sua ressurreição – Jesus está aqui pois ressuscitou.
O anjo dissera:
- Jesus não está aqui, pois ressuscitou.
Nós dizemos:
- Jesus está aqui, pois ressuscitou.
Para uns a ausência de Jesus foi a prova da sua ressurreição.
Para nós a presença de Jesus é a prova da sua ressurreição.

Ver também:


sexta-feira, 10 de abril de 2020

O trevo da Judeia


6ª feira santa















Jesus orava, no Jardim das Oliveiras, com a fronte inclinada para o chão. Deus ouvia todas as suas súplicas, todas a favor da humanidade. Os seus rogos foram atendidos e o sangue que oferecia pelo pecado alheio admitido.
Quando Jesus se levantou, uma das gotas de sangue que britavam da sua pura fronte caiu no cálice de uma pequena e modesta flor que se achava aos seus pés.
Ia a sair dali, pois a hora da sua prisão aproximava-se, quando ouviu uma voz impercetível, que lhe dizia:
- Senhor, inclina os teus divinos olhos para a terra e olha-me. Os teus castos lábios tocaram não há muito as minhas pétalas inodoras, e o precioso sangue da tua fronte caiu no meu cálice sem perfume. Eu sou a planta mais humilde e mais modesta de Israel. Ninguém olha para mim, ninguém me colhe com amor, porque não tenho virtude alguma; mas Tu podes fazer-me imortal concedendo à minha família uma gota de sangue em cada uma das suas pequenas folhas e um pouco de perfume das tuas divinas palavras na semente que me fecunda. Senhor, não te retires sem m concederes o que te peço.
Jesus inclinou os olhos para o solo.
Aquela voz vinha do cálice de uma flor. Compadecido o Nazareno ante a súplica daquela débil planta, disse:
- Já que presenciaste a minha amargura, já que Deus te concede por um momento o dom da palava, o meu sangue esmaltará desde esta noite as tuas folhas, e a essas três manchas ajuntarei a coroa de espinhos que há de cingir-me amanhã na cidade dos profetas e o perfume delicado dos lírios do vale de Zabulão.
Desde então cresce nos campos uma flor silvestre que ostenta nas suas verdes folhas três manchas de sangue que entrelaçam uma coroa de espinhos. Esta flor chama-se trevo da Judeia.” A felicidade ainda foi maior, pois tornou-se também trevo de quatro folhas, para sorte dos seus admiradores. E cada pétala ficou com a forma de um coração e o seu conjunto com a forma de uma cruz...
(cf. Henrique Perez Escrich “O Mártir do Gólgotha”)


















Ver também:


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Da Cruz à Ressurreição

Aos meus amigos
a minha mensagem
nesta Páscoa em tempo de quarentena
ou nesta quarentena em tempo de Páscoa,
ou seja, da Cruz à Ressurreição
ou do sacrifício à vida nova.






Celebra missam ut primam


Quinta-feira Santa

Na Última Ceia Jesus celebrou a Eucaristia como se fosse a primeira, a única e a última para que nós celebremos sempre cada missa como se fosse a primeira, a única e a última.

















Ver também:


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pequenos Judas


4ª feira – semana santa












Reflexão do Papa Francisco, hoje mesmo:
“Pensemos nos muitos Judas institucionalizados neste mundo, que exploram as pessoas.
Pensemos também no pequeno Judas que cada um de nós tem dentro de si na hora de escolher: entre lealdade ou interesse. Cada um de nós tem a capacidade de trair, de vender, de escolher pelo próprio interesse. Cada um de nós tem a possibilidade de se deixar atrair pelo amor ao dinheiro, aos bens ou pelo bem-estar futuro. “Judas, onde estás?” Mas  faço esta pergunta a cada um de nós: “Tu, Judas, o pequeno Judas dentro de mim: onde estás?”.

Reflexão de Santo António (+1231):
“ – Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus? – perguntou o traidor.
Que grande dor! Ó Judas, queres vender o Filho de Deus como se fosse um vil escravo, como se fosse um cão morto? E não procuras saber que preço darias Tu por Ele, mas que preço dão os compradores?
– Que estais dispostos a dar-me?
Ainda que eles te dessem o Céu e os seus anjos, a Terra e os seus homens, o mar e tudo o que ele contém, tal bastaria para comprar o Filho de Deus, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento? Poderá o Criador ser comprado ou vendido por uma criatura? Diz-me: Em que é que Ele te ofendeu? Que mal te fez para que digas: – Entregar-vo-lo-ei?
Quantos Judas Iscariotes há ainda hoje, que, em troca de algumas vantagens materiais, vendem a verdade, entregam o próximo, e se enforcam na corda da condenação eterna!”

Conclusão:
A palavra Judas, está no singular ou no plural? 
O nome JUDAS parece estar no plural porque todos somos um pouco como ele.

Ver também


terça-feira, 7 de abril de 2020

A Paixão na poesia portuguesa


A poesia da Paixão
e a Paixão na poesia

Os hinos da Liturgia das Horas da Semana Santa ou da Festa da Exaltação da Santa Cruz apresentam praticamente apenas a poesia de Frei Agostinho da Cruz (séc. XVI). Há, no entanto, outros poetas portugueses que ao longo dos séculos contemplaram o mistério da Paixão de Cristo. Aqui vão alguns exemplos para ler, reler e meditar nesta semana santa:

1º - Anónimo do século XVI-XVII

Se sois riqueza, como estais despido?
Se omnipotente, como desprezado?
Se rei, como de espinhos coroado?
Se forte, como estais enfraquecido?

Se luz, como a luz tendes perdido?
Se sol divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se vida, como estais amortecido?

Se Deus? estais como homem nessa cruz?
Se homem? Como dais a um ladrão,
com tão grande poder posse dos céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
e redimindo Adão enquanto Deus.


2º - Baltazar Estaço, século XVII
A morte de Cristo

Aqui onde venceu a morte a vida,
aqui vencido tem a vida à morte,
aqui onde subiu mais alto a morte,
aqui a fez descer mais baixo a vida.

Aqui onde matou a morte à vida,
aqui morta deixou a vida à morte,
aqui onde se viu mais dura a morte,
aqui também se vê mais forte a vida.

Pra que pudésseis dar tão alta vida,
quisestes padecer tão baixa morte;
assim que em vossa morte tenho vida,

pois sendo vossa a vida e vossa a morte,
com vossa vida compro a doce vida,
com a vossa morte pago a dura morte.


3º - Barbosa du Bocage, + 1805
À paixão de Jesus Cristo

O filho do grão rei, que a monarquia
tem lá nos céus e que de si procede,
hoje mudo e submisso à fúria cede
de um povo, que foi seu, que à morte o guia.

De trevas, de pavor se veste o dia,
inchado o mar o seu limite excede,
convulsa a terra por mil bocas pede
vingança de tão nova tirania.

Sacrílego mortal, que espanto ordenas,
que ignoto horror, que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu juiz!... Teu Deus condenas!

Ah! Castigai, Senhor, o mundo ingrato;
caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas,
também eu morra, que também vos mato.


4º - Antero de Quental, + 1891
A um crucifixo

Não se perdeu teu sangue generoso
nem padeceste em vão, quem quer que foste,
plebeu antigo, que amarrado ao poste
morreste como vil e faccioso.

Desse sangue maldito e ignominioso
surgiu armada uma invencível hoste…
Paz aos homens e guerra aos deuses! – pôs-te
em vão sobre o altar o vulgo ocioso…

Do pobre que protesta foste a imagem:
um povo em ti começa, um homem novo;
de ti data essa trágica linhagem.

Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
lembraremos, herdeiros desse povo,
que entre nossos avós se conta Cristo.


5º João de Deus, + 1896
crucifixo

Minha mãe, quem é aquele
pregado naquela cruz?
- Aquele, filho, é Jesus…
É a santa imagem d’Ele.

- E quem é Jesus? – É Deus!
- E quem é Deus? – Quem nos cria,
quem nos manda a luz do dia
e fez a terra e os céus,

e veio ensinar à gente
que todos somos irmãos
e devemos dar as mãos
uns aos outros, irmãmente:

todo amor, todo bondade!
- E morreu? – Para mostrar
que a gente, pela verdade,
se de deixar matar.


6º - Gomes Leal, + 1921
O último golpe de lança

Quando ele, enfim, morrendo, ele, o cordeiro,
rola mansa no ar calado e imundo,
pendeu, bem como um lírio moribundo,
sobre a haste do trágico madeiro…

Quando, lançando o espírito profundo
ao reino belo, grande, verdadeiro,
caiu, enfim, chagado, justiceiro,
ainda, ainda perdoando ao Mundo…

Um soldado romano, vendo-o exposto
e já morto na Cruz, lívido o rosto,
com um golpe de lança o trespassou.

Saiu daquela chaga sangue e água:
- Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.
- Água de pranto ainda que chorou!


7º - Cantos populares Portugueses

Tocam os sinos em Mafra,
ai Jesus! Quem morreria?
Foi Cristo nosso Senhor,
filho da Virgem Maria.

Se passares pelo adro
tirai o chapéu à cruz,
que deveis considerar
que nela morreu Jesus.

O Senhor quando morreu
logo fez seu testamento,
p’ra memória nos deixou
o Santíssimo Sacramento.

Eu subi ó altar mor
p’ra ver o Senhor Jesus,
e puze-me de joelhos,
p’r’ó aliviar da cruz.

Oh almas, se tendes sede
vinde ao Calvário a beber,
que o meu Deus tem cinco fonte
todas cinco a correr.