segunda-feira, 9 de julho de 2012

Acerca da Educação (III)


III

         Depois de ter abordado os instrumentos da educação, é preciso falar do método.
         Uma questão fundamental no método da educação é discernir a motivação dos esforços do aluno.
         Conduzi-lo-emos pelo temor, pelo afecto, pelo sentimento da honra ou da fé?
         E antes disso, é preciso aceitar que a criança tem necessidade de uma firme orientação. Ela traz à nascença uma mistura de boas e más qualidades, de maus instintos e boas inclinações.
         A revelação de Moisés e de Cristo explica-nos esta misteriosa luta na alma da criança pela queda original. Há como que dois exércitos de tendências e de inclinações contrárias. Que orientações daremos nós às tendências em ordem ao bem? É preciso um ponto de união para estas forças e como um guião que as agrupe. Este será o pensamento dominador da alma e a impressão sob a qual nós nos meteremos.
         Qual será este pensamento ou este princípio dominador que sustentará a alma da criança no trabalho, no dever, na virtude, na constância?
         Os recursos humanos oferecem espontaneamente o temor, a vergonha ou a honra, e o afecto filial.
         O temor humano: não podemos privar-nos por completo da sua influência, mas fazer dela a principal motivação da criança, não é tornar azedo e seco o seu coração? Não será levá-la à dissimulação? De certeza absoluta só conseguirá extinguir os mais generosos impulsos da sua natureza, e diminuir a sua alma até dar a todas as suas acções este objectivo egoísta e sem nobreza, de evitar uma correcção.
         Vergonha e honra: é o princípio que aparece em primeiro lugar quando a educação não é fortemente cristã. Chama-se ainda a esta motivação, emulação; mas frequentemente o seu verdadeiro nome, é vaidade.
         Este princípio tem o seu valor. É muitas vezes um recurso, mas também amiúde parece superficial e perigosa. Superficial, porque apela às aparências da virtude. Pouco importa, para a maioria, o que diz a consciência, se as aparências são salvaguardadas e se a honra está assegurada. Perigoso, porque desemboca no amor-próprio, egoísmo e auto-complacência. Está aqui uma singular preparação para a vida de entrega, do dever e da generosidade que a sociedade cristã espera desta criança.
Os pais põem a sua confiança numa terceira motivação: o afecto filial. A criança, pensam eles, será fiel ao dever e à virtude para agradar àqueles que ama.
Este sentimento é digno, e queremos que não seja tão esquecido.
Mas será sempre suficiente? Não o vedes falhar na idade em que o adolescente consulta mais a sua imaginação perturbada e as paixões emergentes do que os afectos da sua infância?
 O que temos então para oferecer para preencher todas estas lacunas? Nós temos o princípio cristão, e queremos que seja ele a dar aqui o primeiro passo.
O pensamento de Deus, seu criador e seu mestre, da sua omnipresença, da sua justiça, da sua bondade, das suas promessas, de CRISTO redentor e da sua graça, da acção todo-poderosa da Eucaristia, e a doce influência das nossas festas cristãs, tais são os nossos recursos divinos, que produzirão, estamos certos, uma eclosão maravilhosa de piedade cristã e filial, de trabalho, de doçura, de caridade, de força e de constância.
Além da grande questão da motivação a dar ao aluno, há muitas outras questões de método.
Seria preciso falar da disciplina dos diversos ramos de estudos: letras, ciências, gramática, literatura, filosofia, línguas antigas, línguas vivas, história, geografia; da articulação destas diversas partes do ensino e do lugar a atribuir a cada uma delas. Seria necessário falar dos procedimentos da educação e do ensino, do ensino progressivo, do ensino pelos olhos, da psicologia da criança e do desenvolvimento das suas faculdades. Seria necessário distinguir os estudos úteis e os estudos de luxo.
Mas todas estas considerações seriam intermináveis. Nós temos um meio mais simples de dar a conhecer o nosso método. Ei-lo: tomamos no seu conjunto, o grande método cristão, aquele que começou depois da paz da Igreja, com os Padres da Igreja grega e os da Igreja latina; aquele que se tornou sucessivamente, adaptando-se às necessidades de todas as épocas, mas mantendo sempre os seus grandes princípios fundamentais, o método das escolas monásticas e das escolas episcopais da idade Média, o das grandes universidades do século XII, Bossuet, Fénelon, Fleury; o que foi codificado (legislado) pelo sábio e piedoso Rollin no seu Tratado dos Estudos.
Sim, este belo livro de Rollin parece-me dever ser definitivamente o código da educação. Os homens mais marcantes da universidade contemporânea reconhecem-no eles mesmos, pelo menos aqueles que não se deixam cegar pela paixão anti-religiosa. Vollemain e Nisard serão, em boa verdade, testemunhas autorizadas. Escutemo-los. “Nas coisas da educação, diz M. Nisard, o Tratado dos Estudos, é o livro único ou melhor ainda, é o livro! [1]
Villemain tinha dito: “Eu não analisarei esta obra, um pouco negligenciada nos nossos dias, como se se tivesse, depois de Rollin, descoberto métodos novos para formar a inteligência e o coração. Enfim! Não é assim: não se deu um passo; não se fará um melhor Tratado de Estudos” [2].
Sim, é precisamente a maneira de formar o espírito e o coração que ensina Rollin e esse é o objectivo da educação, e o seu método é mesmo o grande método cristão. Eu queria poder analisá-lo e assinalar-vos como ele é excelente na arte de ensinar as letras e na arte mais preciosa ainda de colocar as letras ao serviço da virtude. Tanto para cultivar os costumes do carácter, como também para o ensino técnico das línguas, da retórica e da filosofia, Rollin disse tudo, e tudo disse excelentemente.
É isto que Chateaubriand nos mostra como professor de história: “A narração do virtuoso reitor, diz ele, é completa, simples e tranquila, e o cristianismo, enternecendo a sua pena, dá-lhe alguma coisa que comove às entranhas. Os seus escritos revelam este homem de bem cujo coração é uma festa perene”. [3]
São estes os nossos mestres e os nossos modelos.
É verdade que este senado de mestres da educação já não está completamente na moda. A sua virtude sobretudo é modesta. É preciso folhear a história e procurar agrupar alguns irregulares do grande exército dos educadores. Fez-se isso nos nossos dias e apareceu Rabelais, Montaigne, Ramus, Condorcet, Rousseau e os Convencionais. Até se incluíram alguns dos seus escritos nos programas.
É preciso boa vontade para fazer deste conjunto uma escola de pedagogia, dita, progressiva, em comparação com os mestres da educação cristã.
Não perco a esperança de que estas buscas conscienciosas dos nossos adversários possam servir à nossa causa.
Os homens de boa fé dirão: Os adversários da educação cristã só encontraram estes nomes para opor aos de Basílio o Grande, de Gerson, de Bossuet, de Fénelon, de Rollin: a sua causa está julgada.
Houve algumas ideias aceitáveis no meio das obscenidades de Rabelais, que não seria muito do nosso gosto ir procurar lá.
Quanto aos inovadores da Revolução, é muitas vezes divertido lê-los.
É Lequinio, que declara que a literatura é inútil e que é absolutamente supérfluo ocupar-se dela [4].
É Lepelletier, maravilhado com os costumes de Esparta, a propor a educação comum das crianças dos dois sexos, em igualdade absoluta. “É preciso, diz ele, que todos tenham um corpo robusto, apto para o trabalho. Para isso, receberão uma alimentação frugal, sem carne nem vinho, e serão exercitados a trabalhar a terra. Se não houver cultura ao seu alcance, irão pelos caminhos a juntar e encaixar pedras”. É suficientemente democrático. De resto, não se lhes falará de religião positiva. É quase Rousseau no seu melhor, e, dos nossos dias ainda, Michelet extasiava-se diante deste projecto de Lepelletier que chamava “Revolução da infância” e “o Evangelho da pedagogia” [5].
É Saint-Just, um deputado eleito pelo departamento de Aisne, que quer também que as crianças sejam ensinadas até aos 16 anos às custas do Estado. É verdade que a sua educação não será dispendiosa. A sua alimentação será composta de frutos, legumes, leite, pão e água. O seu vestuário será de pano em todas as estações [6].
É Barrère propondo que se se desfizesse o mais depressa possível dos livros, “de toda essa papelada que sufoca o género humano”.
É o próprio Fourcroy, o químico, pedindo que deixe de haver colégios. “Instruir, é tiranizar; era preciso, dizia ele, entregar a criança a si mesma”.
É Cofinal, respondendo a Lavoisier que falava em favor das ciências: “Cala-te, a República não tem necessidade da química” [7]
É Bouquier, apresentando, com o aplauso da Convenção, um plano que proscrevia para sempre toda a ideia de estudos especulativos e científicos. “As mais belas escolas, dizia ele, as mais úteis, as mais simples, são as sessões das comissões. A Revolução, estabelecendo festas nacionais, criando sociedades populares, clubes, colocou em toda a parte fontes inesgotáveis de instrução. Não vamos, acrescentava ele, substituir esta organização simples e sublime como o povo que a criou uma organização artificial, baseada em estatutos académicos, que não devem voltar a infectar uma nação regenerada”.
E o seu projecto foi votado a 29 de Frimário do ano 11 (19 de Dezembro de 1793).
Aqui estão as ideias novas com as quais os educadores cristãos não tinham sonhado.
Mas é suficiente para nos divertir.
Preservando quanto à substância do grande método dos antigos, não pretendemos rejeitar as melhorias e as mudanças que o tempo e a experiência nos trouxeram.
Os progressos das ciências exigem que lhes seja dado maior espaço na educação.
A história, enriquecida pelas descobertas orientais e pelo estudo das fontes, deve ser ensinada de maneira mais completa.
A língua latina, não sendo já como outrora a língua do direito, da medicina e da filosofia, já não é necessário que se saiba escrever e falar; basta saber compreender as suas obras-primas.
A facilidade de ralações com o estrangeiro impõe-nos o conhecimento das línguas vivas.
O desenvolvimento da indústria deu lugar à criação de um novo sistema de estudos, que tem o seu espaço entre o ensino primário e as humanidades.
A difusão da gravura forneceu um novo recurso para a utilidade e o agrado dos nossos livros escolares.
Entendemos nada desprezar destas mudanças que se impõem e nada negligenciar destes progressos. Nós preencheremos o quadro comum dos estudos actuais enobrecendo-os com os meios próprios da educação cristã e completando-os conforme a rapidez do tempo o permitir.
Em resumo, sem desconhecer as exigências do nosso tempo para com a formação do espírito das nossas crianças, seguiremos, para a formação do seu coração, o método cristão, o método cristão tradicional que Rollin sintetizava nestas grandes linhas:
Estudar o carácter das crianças, para saber bem como dirigi-las; fazer-se amar por elas mais do que temer; falar-lhes à razão; habituá-las a ser sinceras; educá-las à higiene; tornar o estudo amável; e sobretudo fazer reinar entre elas a piedade, que resume e encerra todas as boas disposições do coração.
Se conseguirmos isto, tenho confiança de que alcançaremos muito apreço de vós, da França e de Deus.





[1] História da literatura francesa, t. IV, p. 122.
[2] Quadro da Literatura francesa no século XVIII, t. I, p. 226.
[3] Génio do Cristianismo, IIIª p. Liv III.
[4] Monitor de 16 de Julho de 1793.
[5] História da Revolução, t. IV.
[6] Obras políticas; Instituições Republicanas.
[7] Ver o Monitor de Outubro a Dezembro de 1793..

sábado, 7 de julho de 2012

Acerca da Educação (II)


II

         Digamos agora o que devem ser, no nosso entender, os instrumentos da educação cristã, os mestres que a distribuem, os livros de que se servem.
         O mestre desempenha, frente ao seu discípulo, a acção de uma verdadeira paternidade espiritual. Ele gera nele verdadeiramente vida e a semelhança da sua alma. A vida intelectual e moral derrama-se da alma do educador para a alma do seu aluno por duas fontes: a palavra e o exemplo. Ele comunica-lhe os seus pensamentos. Revela-lhe o verdadeiro, tal como a sua inteligência o concebe; o belo, tal como ele o compreende e o que ele aprendeu a amar; o bem tal como a sua consciência lho dita.
         Apontar tal missão, é por assim dizer a sua responsabilidade e ao mesmo tempo a sua nobreza. Também entendo que as famílias cristãs sejam exigentes face àqueles que elas aceitam como segundos pais para as almas dos seus filhos.
         Não basta que eles sejam pessoas normalmente virtuosas, e a fama de homem honesto não é para eles, um bilhete de que nos possamos dar por satisfeitos. É preciso que sejam grandes cristãos, de maneira que a criança sinta de alguma maneira, em toda a sua pessoa, o Mestre dos mestres, o CRISTO que eles representam e cuja dignidade os reveste.
         E se, com tudo o que eu acabo de supor, o educador católico recebeu do céu uma vocação que não só o convida à prática do dever mas ao heroísmo da virtude; se ele fez o juramento, não somente da honestidade, mas da santidade; se ele acrescenta a dignidade que lhe vem da sua missão a grandeza que recebeu da unção divina e de um carácter sagrado, oh! então ninguém pode dizer o que produzirá na criança esta acção poderosa e eleva-se acima da natureza.
         Não quer dizer com isso que só o padre pode dar à infância o benefício da educação cristã. Todo o homem profundamente cristão, padre ou leigo, religioso ou secular é suficiente, mas um cristão não pode negar que a entrega especial a JESUS CRISTO, resultante da unção sacerdotal ou dos votos religiosos, não seja, em geral, na educação uma força e uma vantagem suplementar.
         Este facto tem sido admitido inclusivamente por educadores laicos imparciais. Eis aqui, por exemplo, alguns pensamentos expressos por um professor da Faculdade numa obra coroada pela Academia.[1]
         “Há certamente muito a dizer em favor do ensino ministrado e dirigido por eclesiásticos ou por religiosos. A nossa preferência pelo ensino laico não nos impede de reconhecer vantagens consideráveis sobre alguns pontos que o seu carácter assegura aos professores eclesiásticos. A independência absoluta frente ao mundo, a supressão de todos os laços que unem cada um de nós à família e à sociedade civil, a renúncia a todo o interesse terreno, a ruptura com as paixões perturbadoras que desgastam as energias e devoram o tempo, a solidão e a paz que impedem a dispersão do pensamento sobre as curiosidades do mundo e as vicissitudes da vida, e que permitem à reflexão concentrar-se num único objecto; a elevação do pensamento necessariamente familiar a quem quer que creia trabalhar para a eternidade; o hábito da disciplina que é mais fácil impor aos outros quando se é o primeiro a conformar-se com ela; enfim, e acima de tudo, a força moral, a autoridade que nunca é maior do que no homem que se esquece de si mesmo para falar e actuar em nome da divindade: eis as condições favoráveis em que estão situados o padre ou o religioso que se torna professor.”
         Não seríamos capazes de referir melhor as vantagens do ensino eclesiástico.
         Outro professor eminente da Universidade [2] prestava igual justiça à abnegação, à dedicação, ao zelo profissional dos sacerdotes e dos religiosos na educação, zelo sem o qual o mestre mais hábil e mais distinto é impotente para fazer o bem, e apresentava, entre outros motivos, o seguinte: “é difícil aproximar a juventude sem a amar, e isso é tanto mais possível para os homens que renunciaram à sua família natural: eles encontram aquilo que perderam.”
         Há nisto alguma verdade. É, de facto, nestas condições que vimos até vós. Independentes face ao mundo, despojados de qualquer interesse pessoal, seremos tudo para a nossa obra, tudo para os vossos filhos. Trabalhando para eles, acreditamos que trabalhamos para Deus. Eis o segredo da nossa dedicação, os segredos do ardor e do zelo que pomos em ajudar os vossos filhos na sua formação para que correspondam às vossas expectativas e às de Deus que no-los confia.
         Sem insistir mais no ideal do mestre segundo a nossa perspectiva, falemos do que pensamos sobre os livros, que são eles também como mestres e instrumentos de educação.
         O livro é um dos conselheiros da criança. Ele segue-a a cada passo. Ensina com o mestre e contra ele. Ele influencia consideravelmente a sua alma de discípulo.
         Voltando aos nossos anos passados, quem de entre vós não encontra, na sua alma, a marca profunda de algum livro a que atribui a orientação do seu espírito, determinada ideia predominante na sua vida.
         E para só falar de influências inocentes, uma criança encontrará no relato impressionante de náufragos fabulosos nalguma ilha maravilhosa, o gosto pelas aventuras que toma como uma vocação para enfrentar os perigos do mar. Nós conhecemos estes marinheiros improvisados, que, graças a este género de leituras, se declaram decididos numa idade em que ainda não puderam reflectir. Entretanto a ternura inquieta das suas mães agita-se à volta dos seus projectos ameaçadores. Felizmente a experiência intervém para impor aos seus desejos prematuros, e estes heróis, que se contam às centenas no princípio da adolescência, vêem pouco a pouco os seus planos clarificarem-se. Então as reais aptidões aparecem, as vocações sérias desenham-se, e a vida melhor ponderada toma a sua verdadeira direcção.
         Mas poderão os conselhos da sabedoria, úteis nestas circunstâncias, ser sempre dirigidos com fruto a espíritos profundamente marcados por um outro género de leituras? Suponhamos que a razão da criança seja tomada desde cedo pela falsidade, que as noções da justiça sejam subvertidas no seu espírito, que as suas paixões sejam despertadas por imagens suspeitas, e que o seu coração seja desviado por escritos maldosos que circulam, com a atracção do mistério, por entre os alunos de certas casas, a sabedoria dos pais e dos mestres não terá somente de lutar contra os erros de uma imaginação juvenil e desprevenida; o combate será mais sério e a vitória menos garantida, porque não se trata de discutir esta ou aquela forma acidental da vida, mas de arrancar a própria vida de uma direcção funesta.
         Este perigo pode encontrar-se no próprio ensino e nas leituras de lazer que acompanham o ensino. No ensino, há o elemento pagão que deve ser apresentado com prudência.
         Os autores profanos ocupam um amplo espaço nos nossos programas oficiais, um espaço demasiado grande. O Conselho superior de educação pública, em 1875, tinha feito justiça, se bem que muito imperfeitamente ainda, aos clássicos cristãos colocando-os no programa do terceiro ano para o grego, e no segundo ano para o latim, e incluindo-os entre os autores da licenciatura.
         A Igreja quereria o ensino misto destas duas literaturas, que têm cada uma as suas obras-primas e pertencem a civilizações diferentes; mas quereria também que o ensino dos autores profanos fosse rodeado de precauções preventivas muito especiais[3].
         Não é o belo o esplendor da verdade, segundo a definição de Platão? Da mesma maneira que o belo, na ordem natural, próprio da civilização pagã, se encontra na primeira literatura latina, o mesmo belo, o sublime, natural e sobrenatural, abunda e resplandece na segunda.
         Não é a arte de bem-falar, considerada na sua origem primitiva, uma maravilhosa emanação do Verbo de Deus, da Palavra de Deus Pai? Como se poderá então crer que o Verbo encarnado, tenha dignado dispensar o dom da palavra às nações que não O conhecem, O tenha depois recusado à Igreja, a sua esposa, conquistada com o preço do seu precioso sangue?
         A Igreja nunca excluiu do ensino os autores profanos. Com a sua prática tal como com a sua doutrina, ensinou-nos que eles podem ser auxiliares da verdade, admitindo-os em concorrência com os autores cristãos.
         Não é vantajoso estudar o belo e o sublime onde quer que eles se encontrem? Devemos ter em consideração homens de génio, mesmo se não tenham tido a felicidade de professar a verdade completa. Homero e Virgílio serão sempre objecto de admiração, enquanto a poesia continuar a ser uma das preocupações do género humano; e enquanto for preciso ensinar as normas da eloquência, os modelos indicados serão sempre Demóstenes e Cícero.
         Tal tem sido, indiscutivelmente, o ensino tradicional e constante da Igreja[4].
         “Os livros profanos, dizia São Basílio o Grande, são para os Livros santos o que a folhagem da árvore é para os frutos: precedem-nos, cobrem também e servem-lhes de adorno”[5]. E este santo doutor admirava, na literatura profana, não somente a forma brilhante e a perfeição do estilo, mas ainda a beleza dos exemplos e a elevação dos pensamentos. Pedia sempre que se fizesse uma escolha de autores, e que se os lesse como as abelhas actuam nas flores recolhendo delas apenas o mel. Mas queria, ele também, que fossem auxiliares da verdade e que se fossem estudados conjuntamente com os autores cristãos.
         O seu sentimento faz-se autoridade na Igreja. “O costume constante na Igreja, lembrava-nos ainda recentemente o nosso venerado pontífice Pio IX [6], é ensinar o latim aos jovens pelo estudo misto de autores sagrados e profanos”.
         Ninguém põe em dúvida que essa foi a prática dos primeiros séculos da época dos doutores da Igreja. Na própria Idade Média, a Igreja, nas escolas monásticas, manteve o uso dos grandes clássicos pagãos com o dos autores cristãos.
         Se Carlos Magno pôde reanimar o culto da literatura e produzir, com a ajuda de Alcuim, um primeiro renascimento, foi porque encontrou em Roma, nas escolas pontifícias, tradições, mestres e livros que só teve de levar para a França, sabe-se que se trata das obras de arte das literaturas grega e latina conjuntamente com os principais escritos dos Padres da Igreja.
O nosso grande século clássico, o século XVII, não procedeu de maneira diferente. Os autores cristãos eram a base do ensino. Os autores profanos juntavam-se-lhes, como convém, no fim dos estudos.
Fénelon não é suspeito, com certeza, de ignorância ou de desprezo pelos clássicos, e sabe-se que rumo deu à educação do duque de Borbonha. Começou por fazê-lo estudar os Livros sapienciais da Sagrada Escritura, depois alguns livros escolhidos de S. Jerónimo, de Santo Agostinho, de S. Cipriano, de Santo Ambrósio, algumas poesias de Prudêncio e de S. Paulino e a História de Sulpício Severo[7]. Só depois destes primeiros estudos é que o iniciou nas letras pagãs, ensinando-lhe a colocá-las ao serviço da sabedoria pagã, como exemplifica no seu Télémaque e nos seus Diálogos dos Mortos.
É assim que se deveria usar a literatura profana, para que sirva a fé e não a destrua.
Nós estamos hoje longe disso. Os estudantes dos nossos colégios chegam ao seguinte resultado: conhecem melhor a mitologia do que a História Sagrada, os factos e as gestas dos deuses do paganismo do que dos heróis cristãos.
Montalembert fazia notar na introdução ao seu belo livro sobre os monges do ocidente: “Não saímos todos do colégio, dizia ele, sabendo de cor os traços pouco edificantes da história de Júpiter, e ignorando até o nome dos fundadores destas ordens religiosas que civilizaram a Europa e tantas vezes salvaram a Igreja?”
Nós reagiremos contra este abuso na medida do possível, tendo em conta os programas que nos impõem os exames.
Quanto às leituras de lazer, estaremos atentos para que sejam escolhidas com uma delicada prudência, a fim de que não pequem nem por excesso de seriedade nem de infantilidade. Não gostamos nem dos espíritos levianos nem dos doutores demasiado precoces. A infância é a primavera da vida. É mais a idade das flores do que dos frutos. O florescimento e a frescura são-lhe mais convenientes do que a maturidade. Deus dá frequentemente à criança a beleza, e a sua ingénua bondade é como um perfume que alegra.
Possamos nós ser, aos olhos das nossas crianças, dignos instrumentos de CRISTO! Possamos nós responder a tão bela missão e possuir, com as qualidades do mestre cristão, algo de particularmente elevado, suave e puro, que não pode deixar de vir-nos da imitação do amável Apóstolo tão devotado às crianças e a união especial ao Sagrado Coração de JESUS, este Coração tão amigo das crianças e tão cheio de graças para elas!



[1] G. Comoayré, História crítica das doutrinas da educação na França.
[2] M. Bersot, Estudos sobre o sec. XVIII, 1855, pag 224 e seg.
[3] Ver o breve de Pio IX a Mons. D’Avanzo, de 1 de Abril de 1875.
[4] Ver, sobre o assunto, a carta do cardeal d’Avanzo de 4 de Novembro de 1874, que é um verdadeiro tratado sobre a matéria. (Livraria da Sociedade de S. Paulo).
[5] Discurso sobre a utilidade que os jovens podem tirar da leitura dos autores profanos.
[6] Breve a Mons. D’Avanzo, de 1 de Abril de 1875.
[7] Carta ao abade Fleury, citado pelos Arquivos das Missões científicas, Agosto de 1850.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Acerca da Educação (I)


ACERCA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ
Seu objectivo – Seus instrumentos – Seu método – Seus frutos[1]


SENHORES,
         Apresentamo-nos diante de vós como homens de educação. Estamos plenamente conscientes da importância da obra que empreendemos. Compreendemos toda a nossa responsabilidade perante os pais e as mães de família que nos confiaram o que têm de mais querido, perante a socade para a qual iremos formar alguns membros escolhidos, perante Deus que tanto ama a infância e quer que se a trate com um soberano respeito.
         Esta importância da educação é, de resto, uma verdade de senso comum. O céu proclamou-a através da Sagrada Escritura, e todos os ecos da terra a repetiram.
         “É proverbial, dizia Salomão, que o homem siga durante toda a sua vida o caminho da sua juventude”.[2]
         Platão dizia: “os inícios estão tudo numa natureza jovem e tenra, em que todas as partes guardam a marca que se lhes dá”.[3]
         E Leibnitz: “Sempre pensei que se reformaria o género humano, se se reformasse a educação”.[4]
         Basta citar estes dois filósofos entre mil.
         As questões da educação apaixonaram todas as gerações. Sempre exerceram sobre os espíritos uma atracção irresistível. Não existe pensador que não tenha exposto os seus pontos de vista sobre a educação. Os filósofos viram-na como meio de moralização, os políticos como meio de influência. Todos os legisladores procuraram organizá-la e dirigi-la. Não existe matéria que tenha sido tratada por tão grande número de escritores.[5]
         Esperais de nós a nossa profissão de fé sobre a educação e o ideal que nos propusemos, sobre os seus instrumentos, sobre o método que preferimos, sobre os frutos que esperamos; vamos expô-los com lealdade.
I
         Em que consiste então esta obra importante da educação e qual o seu objectivo?
         Um homem do mundo, daqueles que vivem fora do nosso contexto cristão e que não levanta muito alto os seus olhares, poderia responder-me: “A educação, é a aquisição de conhecimentos requeridos para submeter-se com sucesso a um exame, para abraçar uma carreira profissional e alcançar reputação de homem instruído. É ainda a formação para a urbanidade, para aquilo que é de bom tom, de boas maneiras, em tudo o que é preciso, numa palavra, para percorrer o seu caminho neste mundo”.
         Tudo isso é bom, mas será tudo?
         Eis agora aqui o pensamento cristão, através da linguagem elevada e poética de um dos bispos mais eloquentes deste século.[6]
         “Todo o cristão baptizado é uma flor divina, ou antes é um deus em flor; cada um dos seus actos deve ser um passo em direcção à maturidade, à idade perfeita, à grandeza e estatura divina.
         Filhos do baptismo, da primeira comunhão, a Igreja vossa Mãe sugeriu-vos imensas aspirações, mostrou-vos a vossa natureza divina, inspirou-vos ódios sagrados contra o mal, contra a paixão, contra o demónio.
         Não é um verdadeiro cristão eminentemente superior a um homem que apenas seja rei? Não deve ter uma alma maior, praticar as mais nobres acções, cingir uma coroa mais bela? Instruí-o desde a mais tenra infância, ou fazei-o instruir, cada dia, acerca da grandeza dos seus destinos. Acautelai-vos de deixar cair por terra o seu pensamento e os seus desejos. Revesti-o destas virtudes evangélicas que serão o seu manto de glória. Isto não é educação de um rei, é uma educação divina que se impõe para elevar a toda a sua altura quem deve ser um émulo de Deus no caminho da perfeição e seu comensal no banquete da eterna felicidade.”
         Digamos estas grandes coisas de maneira mais simples.
         No fundo de todo o sistema de educação, há um pensamento dominante e essencial, um objectivo, um ideal. Esse objectivo está sempre relacionado com as doutrinas políticas e religiosas do filósofo que concebe tal sistema de educação, ou da sociedade que o institui. O rumo impresso à educação depende particularmente da ideia que se tem acerca do homem perfeito. A imensa superioridade da educação cristã sobre qualquer outra vem do facto que ela considera a perfeição total e sobrenatural do homem nesta vida e na outra como seu fim e seu ideal.
Platão, entre os gregos, tinha vislumbrado este nobre objectivo. Ele deu da educação a mais bela definição: “eu chamo educação, dizia ele, aquilo que dá ao corpo e à alma toda a beleza e toda a perfeição de que são capazes”.[7] E nesta perfeição da alma, ele não tinha em vista apenas a vida presente. “É uma loucura, para uma criatura mortal, diz ele noutro lado falando ainda da educação, preocupar-se mais com esta breve existência que com a eternidade”.[8] Mas estas perspectivas elevadas de Platão foram excepcionais e mantiveram-se um ideal sem realidade.
         Para melhor compreender o ideal cristão e o realçar, procuremos na história o que ela nos oferece fora dele.
         Existiu o ideal dos povos primitivos, como o de Esparta, o de Roma antes das guerras púnicas. Para esses povos, o homem perfeito é o soldado valoroso, resistente à fadiga, dócil à disciplina. A educação, para eles, reduzia-se quase ao desenvolvimento das forças físicas e do domínio do corpo.
         Existiu o ideal político. É o dos poderes estabelecidos pela força. Era o da convenção de 1792. A política tornou-se então a preocupação quase exclusiva dos organizadores da educação nacional. Tudo o resto – religião, delicadeza de costumes, cultura do espírito, nobreza do coração – encontra-se absolutamente menosprezado e relegado para segundo plano. O homem parece não passar de um animal político, que veio ao mundo só para conhecer, amar e servir a Constituição. A Declaração dos direitos do homem era já, para Talleyrand, o catecismo da infância.[9] Para Lepelletier de Saint-Fargeau, Barrère, Danton, e para a Convenção que os aprova, a família deve abdicar dos seus direitos frente ao Estado. As crianças pertencem à grande família social, antes de pertencer à sua família privada.[10]
         Sobre esta base ergueram-se sistemas que gostaremos de reler, que mais não seja a título de passatempo. Propunha-se, por exemplo, a educação comum de todas as crianças fora da sua família, a partir da idade dos 5 anos, educação limitada aos conhecimentos elementares e confundida com a aprendizagem profissional, sem distinção de sexo, e até mesmo com vestuário idêntico.[11]
         Não é este, pensais bem, o nosso ideal.
         O ideal político não foi estranho nem sequer à primeira organização da Universidade com o seu monopólio exclusivo, durante o Consulado e o Império. Há ainda o ideal utilitário. É o de uma numerosa escola britânica contemporânea, a dos positivistas na França. Todo o desenvolvimento da pessoa humana reduz-se para eles à actividade física e industrial. O homem não é senão um ser material. A alma, a moral, a cultura intelectual, a religião, estão fora de questão.
         Existe, por fim, o ideal que chamarei crítico, ou da arte pela arte. É o de um grande número de membros do ensino oficial do nosso tempo. Cultivam as letras e a filosofia, mas não têm o culto senão o da forma na literatura e na arte. Rejeitam todo o princípio religioso. Para eles, Deus não passa de uma ideia e todas as religiões são evoluções progressivas do espírito humano.
         Somente o ideal cristão abarca todos os elementos da perfeição humana.
         A educação cristã não negligencia o que importa ao desenvolvimento físico. Preocupa-se com a higiene e com os exercícios do corpo. Considera as letras e as ciências como necessárias para desenvolver as faculdades mais essenciais do espírito. Ela forma o raciocínio por meio da filosofia e da história, o gosto por meio do conhecimento dos modelos da literatura e da arte, a vontade e o coração por meio da religião, os costumes e o carácter por meio de comportamentos delicados em uso na melhor sociedade.
         Educar um cristão, não é somente dar-lhe noções de ciência humana que o ajudarão a alcançar uma posição na vida. Não é somente ensinar-lhe boas maneiras, dar-lhe uma ciência profunda e fazer dele um homem que possa e queira integrar-se em todos os progressos do génio humano. É também e antes de tudo formar nele um nobre e grande carácter, costumes impolutos, virtudes vigorosas. É fazer crescer na sua alma a fé que abre à compreensão do mundo invisível, a esperança que fortalece o coração através da perspectiva de uma felicidade merecida, e o amor que torna Deus sensível nas frias sombras da vida.
         Educar um cristão é ainda formar um homem de coração, um homem de sacrifício e de dedicação, um homem que tenha sacudido o jugo do egoísmo. Qualquer que seja a carreira que abrace mais tarde – padre, soldado, agricultor, industrial ou magistrado – o discípulo da educação cristã levará consigo a convicção ardente e profunda, de que ele tem uma influência regeneradora de palavra e de exemplo a exercer.
         Tudo o que Deus lhe deu de talento ou de génio, tudo o que a educação lhe comunicou de forças intelectuais e morais, tudo isso não será para ele apenas o meio de tornar honrada a sua vida; será também o instrumento do bem que deve praticar. Na esfera da acção em que a Providência o colocar, ele será o missionário da virtude e a imagem viva de Jesus Cristo.
         Tal é o objectivo da educação cristã. Tal é o nosso. E se as nossas expectativas não forem frustradas, os nossos alunos, ao menos aqueles que responderam plenamente aos nossos cuidados, encontrarão no espírito que daremos à casa, no culto particular ao Sagrado Coração de Jesus e na protecção do seu amável discípulo São João, uma graça especial de pureza, de doçura, de piedade e de zelo pelo bem.
         Tal é o nosso ideal. E também o vosso, não é verdade?



[1] Discurso pronunciado na Casa de Ensino de São Quintino, dirigida por M. Lecomte. A 4 de Agosto de 1877. V. e “A Semana Religiosa da Diocese de Soissons e Laon”, 4º Ano, 1877, p. 440, São Quintino. Instituição São João.
[2] Prov XXII, 6. “Proberbium est: adolescens juxta viam suam, etiam  cum senuerit, non recedet abe a”.
[3] Rep., liv. II, C. XVII.
[4] E. Dutens, t. VI, p. 65.
[5] Um dicionário de pedagogia enumera mais de dois mil obras de educação publicadas em francês. Buisson, livraria Hachette.
[6] Mons. Berthaud, bispo de Tulle.
[7] Das leis, liv. VII.
[8] No Diálogo de Fédão.
[9] Assembleia nacional, 25 de Setembro de 1791.
[10] Monitor, 22 de Setptenho, 14 de Dezembro 1793.
[11] Projecto de Lepelletier de Saint-Fargeau, retomado e apresentado por Robespierre à Convenção. (Convenção de 15 de Outubro 1793). Micchelet acha este projecto admirável de intenção e em nada quimérico. (História da Revolução Francesa, t. IV, p. 390).

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Perdoar os pecados

5ª Feira - XIII Semana Comum

Conta o Cardeal-Arcebispo Teodósio de Gouveia de Lourenço Marques, Moçambique, 27 de Fevereiro de 1953:

“Este episódio ocorreu recentemente numa das nossas Missões do mato.

Um rapazinho indígena aproximou-se de um missionário católico e disse-lhe:
- Senhor Padre, ando muito triste. Tenho uma grande tristeza no coração. Eu vou à igreja protestante, leio no livro, mas regresso a casa sempre triste.
- E porque andas assim tão triste? – perguntou o missionário.
- É porque tenho um pecado. Os meus companheiros da Missão Católica dizem-me que o padre católico tira o pecado. Mas eu vou à Missão protestante, leio no livro, e volto para casa com o pecado e, por isso, ando muito triste.
- E porque não vais para a Missão católica? – perguntou o missionário.
- Oh! Eu bem queria – respondeu o rapazito – mas não posso. Meu pai e meu avô são pastores protestantes e toda a minha família é protestante. Quando lhes digo que quero ir para a Missão Católica, ameaçam-me com pancada e com a expulsão da família. Senhor Padre, ando muito triste, porque tenho um pecado e não posso tirá-lo do meu coração.

Este pequenino episódio, comovente na sua simplicidade, revela um drama doloroso, o drama de milhões de homens e mulheres que aspiram à reconciliação com Deus para viverem em paz e alegres.”

Tal como no episódio do Evangelho de Hoje, é preciso vencer os obstáculos e aproximar-se de Jesus para que nos liberte dos pecados e nos encha de paz e de alegria.








quarta-feira, 4 de julho de 2012

Visitando Santa Isabel de Portugal


Nos dias 1 e 2 de Abril de 1900 o Pe. Dehon visitou a cidade de Coimbra. Do seu diário destaca a devoção a Santa Isabel de Portugal:

“Eu prefiro antes ir ao túmulo de rainha Santa Isabel.

            A que nós chamamos Santa Isabel de Portugal chama-se lá a rainha santa Isabel. Seria necessário narrar aqui toda a vida desta admirável amiga dos pobres, mas as nossas páginas já se multiplicam e alongam.

            Depois da morte do seu marido, ela vivia no velho convento de Santa Clara, nas margens do Mondego. O velho convento está hoje vergonhosamente abandonado, meio arruinado e sujo pelos aluviões do rio. A Porta das Rosas, onde teve lugar o milagre tradicional da mudança das moedas em rosas, está também ela desprezada. É preciso descer por uma vereda infecta para se aproximar dela.

            O novo convento, construído no alto da colina sucedeu ao antigo. O corpo da rainha santa repousa num relicário de prata sobre um belo mausoléu ogival.

            A jovem rainha D. Maria Amélia teve pena deste grande convento abandonado onde repousava a gloriosa princesa, e chamou para lá as Irmãs de São José de Cluny para formar um coro na Rainha santa. Estas boas irmãs ocupam uma parte do grande convento e fazem algumas obras. Falaram-nos da confiança um tanto supersticiosa das pessoas do povo para com a Rainha santa. Esta boa gente traz à Rainha Santa a oferta de uma galinha branca quando têm necessidade de uma graça. Dão a galinha às boas irmãs que a aceitam como esmola para alimentar os seus idosos e os seus órfãos.

            Esperemos que a rainha Maria Amélia proteja contra a franco-maçonaria reinante esta comunidade que mandou vir.

            Falta referir o tesouro desta igreja. Vêem-se aí ornamentos e vasos sagrados que remontam ao século XIII. Algumas terracotas envernizadas lembram as obras de Della Robbia. A estátua da querida santa tem roupas de reserva que são todas recamadas de pérolas.

Voltei de manhã lá acima para celebrar a missa no altar da Rainha Santa.

            Depois partimos, admirando ainda na estação alguns lindos trajes de camponeses e as carroças de bois com grandes cangas delicadamente esculpidos e ornados de cruzes.”


(Pe. L. Dehon, Para além dos Pirinéus, H. & L. Casterman, Éditeur Pontificaux, Paris, Rue Bonaparte, 66, Tournai (Belgique)


Milagre das Rosas Hoje


Segundo a tradição a Rainha Santa Isabel de Portugal levava no seu regaça muitas moedas de ouro e de prata para distribui-las pelos pobres… Foi interceptada pelo marido, o rei:
- Que leva aí no seu regaço?
- São rosas, meu senhor! – e abrindo as pregas do vestido deixou cair no chão rosas de todas as cores e tamanhos…
 
 
Neste tempo de crise, tenho a tentação de pedir a Santa Isabel que faça um milagre oposto: Que transforme as rosas em ouro para quem mais precisa…
Assim continuaria a prestar a sua atenção e auxílio aos mais desprotegidos.
E os outros? Os ricos precisam também de um verdadeiro milagre. Para esse que a Rainha Santa continue a transformar o oiro em rosas para que esses tenham mais sensibilidade, mais humanismo ou mias desprendimento.



Santa Isabel de Portugal

Sermão do Pe. António Vieira em Roma, 1674 sobre a Rainha Santa Isabel:

A Rainha Santa Isabel é a Rainha Santa

- É esta uma rainha coroada 2 vezes:
         . Coroada na Terra e Coroada no Céu
         . Coroada no Tempo e Coroada na Eternidade
         . Coroada em Portugal e Coroada na Igreja Celestial
                       A mais importante foi esta última coroa!

- Cidadã de 4 Reinos:
         . Filha de Rei (Pedro II de Aragão)
         . Esposa de Rei (D. Dinis de Portugal)
         . Mãe de Rei (D. Afonso IV de Portugal)
         . Serva humilde do Rei dos Reis (na Igreja e Reino dos Céus)
                         A maior dignidade foi ser serva de Deus!

- Mais Santa porque Rainha e mais Rainha porque Santa
         .Quão difícil ser rainha e ser santa! Porque os fumos da coroa não sobem para o céu, descem para os olhos…
         . Foi rainha como se não fosse
         . Estava coroada como se não estivesse
         . A sua santidade fê-la rainha na eternidade.
         . A sua verdadeira coroa está no céu
                            Foi nesta terra serva dos servos e por isso hoje está coroada nos céus!



Rainha Santa


Em Estremoz, onde chegara em mais uma missão de paz, D. Isabel sentiu-se indisposta. Apesar disso mostrava-se tão animada que nem quis despir-se e assim permaneceu reclinada sobre o leito, vestida em seu hábito e toucas de Santa Clara.
Mais tarde, D. Afonso, o rei seu filho, ouviu gritar. Entrou logo no quarto da sua mãe e viu-a desfalecer de joelhos no chão. As Damas ali presentes tratavam de levantá-la. D. Beatriz chorando explicou ao Rei, seu marido:
- Ela quis descer da cama para morrer no chão!
E de joelhos adormeceu no Senhor.
Era o dia 4 de Julho de 1336.

Assim a rainha Santa Isabel quis entrar de joelhos na eternidade para nessa atitude permanecer assim orante no céu como intercessora da paz.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Tomé Dídimo

Hoje celebra-se a Festa do Apóstolo São Tomé

1ª Reflexão
São Tomé, o dídimo ou gémeo.
É gémeo de quem? Não sabemos.
Mas se é gémeo deve ser gémeo de cada um de nós, pois somos parecidos com ele quer nas dúvidas quer na profissão de fé.
Já que ele é nosso gémeo, saibamos ser semelhantes a ele, sobretudo na fé.

2ª Reflexão
Felizes os que acreditam sem terem visto.
Santa Teresa de Ávila quis substituir o VER para CRER em CRER para VER. O Espírito vê o que crê porque crê o que vê.
Por vezes Deus tão acessível ao que sabe amar, esconde-se do que não sabe senão compreender. Mais vale um coração que ama do que uma inteligência que apenas sabe pensar.
É preciso amar para crer e crer para ver para que se chegue a ver o que se crê e crer o que se vê.

3ª Reflexão
Pregador incrédulo
Disse o Pe. António Vieira, no século XVII, no sermão sobre o Espírito Santo:
"Repreendeu Cristo aos discipulos da ncredulidade e dureza de coração, com que não tinham dado crédito aos que o viram ressuscitado e logo depois os mandou que fossem pregar por todo o mundo.
A São PEro coube-lhe Roma e Itália, a São João a Ásia Menor, a São Tiago a Espanha, a São mateus a Etiópia, a São Simão a Mesopotâmia, a São Judas Tadeu p Egipto, aos outros, outras províncias e finalmentea São Tomé esta parte da América em que estamos, Brasil.
Pergunto eu: E por que nesta repartição coube o Brasil a São Tomé e não a outro apóstolo?
Notam alguns autores que notificou Cristo aos apóstolos a pregação da fé pelo mundo, depois de os repreender da culpa da incredulidade, para que os trabalhos que haviam de padecer na pregação da fé fossem também em satisfação e em penitência da mesma incredulidade e dureza de coração que tiveram em não quererem crer. E como Tomé, entre todos os apóstolos, foi o mais culpado da incredulidade, por isso coube-lhe a missão do Brasil, porque onde fora maior a culpa, era justo que fosse mais pesada a penitência.
Os outros apóstolos, que foram menos cukpados  na incredulidade, vão pregar aos gregos, aos romanos, aos etíopes, aos romanos... mas Tomé que teve a maior culpa, vai pregar aos gentios do Brasil...
Quando os portugueses descobriram o Brasil, acharam as pegadas de São Tomé estampadas em uma pedra, que hoje se vê nas praisa da Baía; mas rasto, nem memória da fé que pregou São Tomé, nenhum acharam nos homens.
Não se podia melhor provar e encarecer a barbárie da gente. Nas pedras, acharam-se rastos do pregados, na gente não se achou rasto da pregação; as pedras conservaram memórias do apóstolo, os corações não conservaram memória da doutrina.
A causa porque as não conservaram...
Não há gentios no mundo que menos repugnem à doutrina da fé, e mais facilmente a aceitem e recebam, que os brasis. É pena, não porque os brasis não creiam com muita facilidade, mas porque essa mesma facilidade com que creêm faz que o seu crer, em certo modo, seja como o não crer. Outros gentios são incrédulos até crer; os brasis, ainda depois de crer, são incrédulos. Em outros gentios a incredulidade é incredulidade, e a fé é fé; nos brasis a mesma fé ou é, ou parece incredulidade.
Tal é a fé dos brasis: é fé que parece incredulidade, e é incredulidade uqe parece fé; é fé, porque creêm sem dúvida e confessam sem repugnância tudo o que lhes ensinam, e parece incredulidade, porque com a mesma facilidade com que aprenderam, desaprendem, e com a mesma facilidade, com que creram, descreêm.
Assim lhe aconteceu a São Tomé com ele. Porque vos parece que passou São Tomé tao brevemente pelo Brasil, sendo uma região tão dilatada e umas terras tão vastas? É que receberam os naturias a fé que o santo lhes pregu com tanta facilidade e tão sem resistência nem impedimento que não foi necessário gastar mais tempo com ele. Mas tanto que o santo apóstolo pôs os pés no mar ou virou as coastas, no mesmo ponto se esqueceram os brasis de tudo quanto lhes tinha ensinado, e começaram a descrer ou a não fazer caso de quanto tinham crido.
Eis aqui a razão por que digo que é mais dificultosa de cultivar esta gentilidade que nenhuma outra do mundo: se os não assistis, perde-se o trabalho, como o perdeu Sao Tomé; e para se aproveitar e lograr o trabalho, há-de ser com outro trabalho maior, que é assisti-los; há-se de assistir e insistir sempre com ele, tornando a trabalhar o já trabalhado e a plantar o já plantado, e a ensinar o já ensinado, não levantando jamias a mão da obra, porque semre está por obrar, ainda depois de obrada.
Assim como Deus está sempre criando o criado, assim os mestes e pregadores hão-de estar sempre ensinando o ensinado, e convertendo o convertido, e fazendo o feito: o feito para que se não desfaça; o convertido, para que se não perverta; o ensinado, para que se não esqueça; e finalmente, ajudando a incredulidade nºao incrédula, para que a fé seja fé não infiel...

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Memorando/Educare

Nesta etiqueta EDUCARE queremos partilhar o pensamento, exemplo e seguimento do Pe. Dehon no que se refere à Educação.
Neste QUINTAL DO VIEIRA já partilhámos alguns documentos sobre este assunto.
Aqui deixamos o memorando:

- Pe. Dehon e Educação, 18/09/2009
- Pe. Dehon e os jovens, 23/11/2009
- Educar, 03/04/2012

EDUCARE


CONFERÊNCIA GERAL SCJ

Neustadt 2012
’Educare’ as jovens gerações,
a partir dos valores dehonianos

O logótipo quer expressar que "a educação vem do coração, a partir da nossa espiritualidade, da nossa maneira prática de educar ou daquilo que nós somos.
O coração é aberto e oferecido como o Coração de Jesus
O trabalho é a semente , os frutos e as folhas são as novas gerações. O resultado do nosso trabalho não é nosso.
A educação é uma forma de " dar sua vida para ter em abundância." Jo 10,10 .