Solenidade da Epifania do Senhor
O refrão do Salmo responsorial de hoje resume o
mistério deste dia:
Virão adorar o Senhor todos os povos da terra.
Tal como os gentios vieram guiados por uma estrela
adorar o Senhor, assim todos os povos são convidados a fazê-lo.
Jesus nasceu não só para os que estavam próximos, mas
também para os que vieram de longe.
Mas este convite não se circunscreve apenas à
geografia, mas também à cronologia e à história.
Virão adorar o Senhor todos os povos de todos os
tempos, de ontem, de hoje e do amanhã.
É por isso que aqui estamos – hoje somos estes povos
todos da terra.
Tornaram-se loucos para serem sábios.
O desígnio de Deus não foi apenas descer à terra, mas
ser nela conhecido; não foi nascer, apenas, mas dar-Se a conhecer. De facto, é
em vista a esse conhecimento que celebramos a Epifania, esse grande dia da sua
manifestação.
Hoje mesmo, de facto, os magos vieram do Oriente em
busca do nascer do Sol da Justiça (Mal 3,20), Esse de Quem se diz: Eis o homem,
cujo nome é Oriente (Za 6,12).
Hoje adoraram o Menino nascido da Virgem, seguindo a
direção traçada por uma nova estrela. Temos, pois, aqui, irmãos, um grande
motivo de alegria, como aliás também nas palavras do apóstolo Paulo: A bondade
de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens foram-nos manifestadas (Tt
3,4).
- Que fazeis, magos, que fazeis? Adorais um Menino de
colo, envolto em faixas miseráveis, num pobre casebre? Será Ele Deus? Mas Deus
mora no seu templo santo, o Senhor tem o seu trono nos céus (Sl 10,4), e vós,
vós procurai-Lo assim num qualquer estábulo, uma criança de colo? Que fazeis?
Porque ofereceis esse ouro? Será este o rei? Mas onde está a sua corte real, o
seu trono, a multidão dos seus cortesãos? Acaso um estábulo é um palácio, acaso
uma manjedoura é um trono, serão Maria e José membros da sua corte? Como podem
os homens ser loucos a ponto de adorar uma simples criança, um ser desprezível,
quer pela sua pouca idade, quer pela evidente pobreza de seus pais?
Loucos, sim, tornaram-se loucos, para serem sábios; o
Espírito Santo ensinou-lhes primeiro o que o apóstolo Paulo mais tarde
proclamou: Aquele que quer ser sábio torne-se louco para ser sábio. Pois já que
o mundo, por meio da sua sabedoria, não conseguiu reconhecer Deus na sua
Sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação
(1 Cor 1,21). Prostraram-se, portanto, diante daquela humilde criança,
prestando-Lhe homenagem como a um rei, adorando-O como um Deus. Aquele que de
longe os guiou através de uma estrela fez brilhar a sua luz no mais fundo dos
seus corações. (CF. Bernardo de Claraval in 1º Sermão para a Epifania)
Como Maria viveu a visita dos Magos
Extratos do diário íntimo de Maria de Nazaré
Um belo dia, quando ainda estávamos em Belém, se
apresentaram em nossa casa, vindos de longe, uns indivíduos misteriosos, que
usavam túnicas de cores vivas e turbantes extravagantes. Houve rebuliço no
bairro e as crianças juntaram-se ao pé da nossa humilde casa para verem os
dromedários e os escravos etíopes que os acompanhavam. Disseram-nos que eram
astrólogos persas e que tinham ficado a saber, perscrutando as estrelas, que o
meu filho era um rei, e que tinham chegado ali seguindo o rasto de um cometa.
Quando chegaram a Jerusalém devem ter ficado
espantados. Ali ninguém sabia de nada e toda a gente parecia muito surpreendida
quando lhe perguntaram pelo novo rei. Só o astuto Herodes se mostrou prestável.
Quando viu que os magos eram gente de posses que vinha de longe numa caravana
de camelos e com uma comitiva de servidores, convidou-os, com um sorriso nos
lábios gorduchos, a hospedarem-se no palácio e concedeu-lhe uma audiência para
se inteirar do motivo da sua estada em Jerusalém, na qual, com a ajuda de
assessores, se falou das profecias que apontavam para Belém.
- Com que então nasceu um rei de reis no meu reino. E
eu sem saber de nada! - Comentou Herodes, ao mesmo tempo que indicava aos
pajens que provassem o vermelho néctar das taças de ouro.
Quando os astrólogos abandonaram a capital voltaram a
orientar-se pela estrela, cujo rasto tinham perdido durante algum tempo, a qual
apontava de facto para Belém. Foi graças a ela que conseguiram encontrar-nos,
já que ninguém na vila fazia a mínima ideia de que em nossa casa pudesse viver
uma pessoa como a que eles procuravam.
Podem, portanto, imaginar a minha surpresa quando os
animais entraram na nossa rua e aqueles estrangeiros bateram à porta da nossa
modesta casa de adobe, que tinha apenas duas exíguas divisões e sempre, sempre,
vasos de flores à janela. Eu limpei as mãos, pois estava a esfregar o chão, e
abri-lhes a porta. Depois pedi a um vizinho que fizesse o favor de ir ao sítio
em que o José estava a trabalhar e o chamasse.
Aqueles homens não eram reis nem comerciantes nem
soldados. Vislumbrei nos seus olhos cansados o olhar perspicaz dos sábios que
durante anos tinham revolvido centenas de papiros e observado movimento dos
planetas e das estrelas. Estes, segundo o que eles me disseram, descrevem nos
céus os caminhos da humanidade. Ainda que no princípio tivessem ficado
espantados por se encontrarem numa morada tão humilde, alguma coisa devem ter
percebido em mim, porque foram amáveis e era evidente que estavam satisfeitos e
convencidos de que Deus tinha agido de alguma forma no nosso lar. Aceitaram um
copo de vinho e alguns frutos secos com hidromel que lhes ofereci. Percebi que
ainda ficaram mais alegres quando foram ver o meu filho. Entretanto os criados
tinham retirado dos poeirentos alforges alguns objetos preciosos. Tratava-se de
recipientes que continham ouro, mirra e incenso.
Eu nem podia acreditar… O que faziam aquelas
personagens no meu quarto, sentadas diante de mim, a mulher de José, o
carpinteiro? Que força interior as conduzia para que fossem capazes de ver para
além das aparências e de descobrir uma criança como o Jesus? O José chegou a
correr, com a roupa engordurada e seja de serradura, preocupado com aquele novo
acontecimento insólito nas nossas vidas. Nem conseguiu recuperar o Fôlego, com
mais aquele sobressalto…
Os sábios disseram-nos que não fora só a informação
que tinham obtido através das suas pesquisas que ali os conduzira, mas também
um secreto impulso do coração, mais forte do que eles, e que estavam
felicíssimos.
Na sua ingenuidade de astrólogos distraídos, para
alguns até um pouco loucos – porque é que são sempre as pessoas inspiradas e
geniais que são tomadas por loucas? -, contaram-nos o seu encontro com o rei da
Judeia e que o tinham informado das suas descobertas e que este lhes tinha dito
que também ele viria prestar homenagem aa este novo rei. Eram muito
inteligentes, mas também muito cândidos, tinham acreditado em tudo como
anjinhos. Lembrei-me então das palavras do anjo, da sua mensagem de luz. ‘Deus,
o Senhor, dar-lhe-á o trono do seu pai David e ele reinará para sempre na casa
de Jacob e o seu reino não terá fim.” Lembrei-me também das palavras do velho
Simeão, que começavam a cumprir-se, quando disse que o menino era um redentor,
a glória do povo de Israel e a luz que havia de iluminar os gentios.
Na aparência a minha vida minha vida não tinha mudado,
mas na minha alma iam poisando estas imagens, que eu saboreava uma e outra vez.
Não tínhamos deixado de ser quem éramos, uma família anónima do bairro mais
pobre de Belém, que todos os dias labutava pela subsistência. E, no entanto,
Deus falara de novo comigo através dos rostos tisnados de alguns pastores rudes
e dos olhos penetrantes daqueles pagãos do Oriente, alimentando os segredos do
meu coração. Percebi então claramente aquilo que nunca deixara de pressentir,
que Deus não era propriedade exclusiva dos judeus nem sequer da religião
judaica, que já há muito tempo que também os gentios andavam em busca da
verdade e que o meu filho também era deles, era do mundo inteiro. Apesar de
isto ser uma convicção íntima, não me atrevi a contá-lo a ninguém, pois
parecia-me uma coisa revolucionária. Por que motivo iriam os meus compatriotas
admitir que não eram únicos no mundo? Suspeitas estas que com o tempo se
transformaram em certezas.
Mas ao mesmo tempo, apesar da paz que nunca perdi, as
surpresas e os acontecimentos extraordinários continuavam a inquietar-me. O que
seria do meu filho, que tinha vindo ao mundo no meio de tão estranhos
acontecimentos e era visitado por pessoas como aquelas? O José andava cada vez
mais baralhado, mas também cada vez mais embevecido com o Jesus, que já deixava
perceber que era um bebé muito feliz e muito atento às gracinhas e aos mimos do
mai. Eram estas alegrias que me faziam esquecer os meus pressentimentos e
voltar com gosto à lida da casa entre os choros e os risos do meu filho, que
preenchiam todos os minutos da minha vida, ao compasso dos dias e no sono
reparador das noites, em que sem faltam, antes de me deitar, voltava a dizer o
meu sim, dando graças apenas por ser e comprazendo-me com os milagres
quotidianos que pouca gente tem o costume de apreciar – um novo amanhecer, um
copo de água, um gesto do vizinho, um sorriso do meu filho… -. Tudo voltava a
ser como abrir e fechar a minha janela, como saudar do abismo habitado do meu
silêncio o mundo e as pessoas. A voz rouca do sábio persa ecoava-me nos
ouvidos, dizendo uma e outra vez: Nós vimos a estrela, e fazia-me a superar as
dificuldades.
Se eles tinham empreendido uma viagem tão longa para
verem por alguns instantes o meu menino, o que não deveria sentir eu, que era
mãe dele e o tinha no regaço? Não, eu não seguia, contra ventos e marés, uma
única estrela, eu sentia que era a mãe da luz que faz brilhar todas as estrela,
sentia que era a senhora do firmamento. Porque é que sempre que recordo aqueles
momentos volto a chorar de alegria? Talvez só agora seja capaz de o compreender.
Aqueles foram dias mágicos, com imagens que parecem ter-se imobilizado, para
sempre presas ao presente, como aquele momento em que um dos velhos magos de
compridas barbas brancas, depois de ter beijado o pequenino pé do meu filho, me
disse com lágrimas nos olhos: Senhor, a minha longa vida valeu a pena por este
momento.
A miudagem do bairro seguiu a comitiva dos sábios até
que ela desapareceu por trás das montanhas. Parecia que tinham sido transpostos
de um sonho, porque imediatamente a fugacidade e o peso implacável da rotina
dos dias se impuseram. Desde então, nas noites estreladas, vou para a janela ou
sento-me à porta da casa a contemplar o firmamento e converso com eles. O
universo cabe nu luzeiro e o meu amor unifica num abraço de luz.
(CF. Pedro Miguel Lamet, As Palavras Caladas diário de
Maria de Nazaré)
Ver também:
Magos, peregrinos de esperança
O incenso não é para nós
Magos pregam com atitudes
Lições que os magos dão
Adorar, confiar, servir
Voltaram diferentes
Um camelo para Jesus
O incenso da oração
Os pobres reis magos
Um rei mago chamado Jesus
Afinal eram rainhas
Magos, sacerdotes, profetas e reis
Por outro caminho
Ouro, incenso e mirra
Olhar para o alto
Os presentes dos magos
O exemplo dos reis magos
Duas festas
Epifania
Cantar os reises
Dia de Reis
Ser estrela