quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sermão de Fernando Pessoa


4ª feira de Cinzas


Não mudes de comunidade 

para mudares de vida.

Muda de vida 

para mudares a comunidade.


Iniciamos a Quaresma com um convite a mudar de vida, à conversão e renovação.

No Livro do Desassossego, nº 42, de Bernardo Soares, Fernando Pessoa explica o que significa para ele a conversão:

“Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.

Assim como lavamos o corpo, deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa – não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.

Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento.”

De facto, mudar de vida é uma questão de asseio e de inteligência.

Sem asseio nem inteligência não há conversão.

É por isso que só os seres humanos são capazes de mudar de vida ou de conversão.

 

E no nº 301 da mesma obra:

“A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos – há quanto tempo sabes tu isso sem o saberes? – e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las.

Muda de alma. Como? Descobre-o tu.

Desde que nascemos até morrermos mudamos de alma lentamente, como do corpo. Arranja meio de tornar rápida essa mudança, como em certas doenças, ou certas convalescenças, rapidamente o corpo se nos muda.”

À margem:

Eu preciso de cinzas para quê?

A cinza é sinal de humildade, de purificação, de fertilização.

- Se eu sou orgulhoso, autossuficiente – preciso das cinzas para me devolver a humildade.

- Se eu sou malicioso, hedonistas – preciso das cinzas para me limpar e purificar.

- Se eu sou preguiçoso, estéril – preciso das cinzas para me fertilizar e fortalecer para florir e dar bom fruto.


Ver também:

Quaresma é que nos faz

O tripé da Quaresma

O segredo da Quaresma

A vida na Quaresma

Caminho quaresmal

Escrever com cinza

Jejum ou dieta digital

Do pó ao homem novo

Decálogo do jejum

Jejum

Bênção das cinzas

Como fazer Quaresma

Não te contentes

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Lembra-te ó pó que és homem

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Cinzas

 

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