Hoje,
na minha caminhada ao fim da tarde, cruzei-me com um grupo de rapazes na
galhofa. Junto de mim sossegaram e um deles cumprimentou-me perguntando:
- O
Senhor Padre já está melhor?
Devia
conhecer-me da missa da catequese do sábado anterior na qual queixei-me de ter
apanhado o fruto da época – nariz a pingar, rouquidão na garganta…
- Só
pelo facto de me teres perguntando fiquei perfeito. Obrigado.
E os
garotos continuaram o seu caminho cheios de alegria e animação.
E eu
agradeci a Deus esta oportunidade que me encheu de otimismo. De facto, não
esperava esta atitude solícita vinda de quem veio.
Fiquei
com pena não ter a capacidade de me expressar tão bem como Fernando Pessoa, no
Livro do Desassossego, nº 24, sobre estas subtilezas da fraternidade ou da
simpatia:
“Hoje,
como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes
extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto,
em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair
eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para
mim e disse: “Até logo, Sr. Soares, e desejo as melhoras.”
Ao
toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de
nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca
claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos
barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea,
natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior
intimidade, impropriamente dita...
A
fraternidade tem subtilezas.
Uns
governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César
ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de
qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o
dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o
vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o
barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade
de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.”
De
facto, a fraternidade tem subtilezas.

Sem comentários:
Enviar um comentário