quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Subtilezas da fraternidade


Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde, cruzei-me com um grupo de rapazes na galhofa. Junto de mim sossegaram e um deles cumprimentou-me perguntando:

- O Senhor Padre já está melhor?

Devia conhecer-me da missa da catequese do sábado anterior na qual queixei-me de ter apanhado o fruto da época – nariz a pingar, rouquidão na garganta…

- Só pelo facto de me teres perguntando fiquei perfeito. Obrigado.

E os garotos continuaram o seu caminho cheios de alegria e animação.

E eu agradeci a Deus esta oportunidade que me encheu de otimismo. De facto, não esperava esta atitude solícita vinda de quem veio.

Fiquei com pena não ter a capacidade de me expressar tão bem como Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, nº 24, sobre estas subtilezas da fraternidade ou da simpatia:

“Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E, como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio voltou-se para mim e disse: “Até logo, Sr. Soares, e desejo as melhoras.”

Ao toque de clarim desta frase simples a minha alma aliviou-se como se num céu de nuvens o vento de repente as afastasse. E então reconheci o que nunca claramente reconhecera, que nestes criados de café e de restaurante, nos barbeiros, nos moços de frete das esquinas, eu tenho uma simpatia espontânea, natural, que não posso orgulhar-me de receber dos que privam comigo em maior intimidade, impropriamente dita...

A fraternidade tem subtilezas.

Uns governam o mundo, outros são o mundo. Entre um milionário americano, um César ou Napoleão, ou Lenine, e o chefe socialista da aldeia – não há diferença de qualidade, mas apenas de quantidade. Abaixo destes estamos nós, os amorfos, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes que me fez ontem o recado, eu, o barbeiro que me conta anedotas, o criado que acaba de me fazer a fraternidade de me desejar aquelas melhoras, por eu não ter bebido senão metade do vinho.”

De facto, a fraternidade tem subtilezas.


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