sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quantas pedras no sapato


Hoje, na minha caminhada ao fim da tarde, não me saiu da cabeça a letra da canção Casa dos D.A.M.A.

“Quantas pedras trago eu no sapato

Quantas vou tirar logo à tardinha.”

Tantas vezes tive de parar para sacudir os grãos de areia que sentia dentro do sapato.

Chegando a casa, ainda a trautear essa música, relatei esse incómodo aos meus colegas.

Fui logo bombardeado com tantas explicações, cada cabeça sua sentença, por que aparecera tantas pedras no meu sapato:

- Porque eu não usava calçado apropriado (e é verdade, mas tem sido sempre o mesmo).

- Porque as meias deviam ser mais grossas (talvez tenham razão, mas são do mesmo lote).

- Porque as ruas não foram varridas, ou o vento tinha trazido muita areia (obrigado por lembrar que a culpa é sempre dos outros).

- Porque estaria a andar cada vez mais desajeitado (gostei da maneira suave de dizer que estou a ficar ainda mais velho).

Então, para esclarecimento de todos, declarei em abono da verdade:

- Logo na primeira vez que sacudi as pedras do sapato reparei que a sola estava gasta e ostentava um buraco que prometia alargar-se.

Calaram-se todos, um tanto envergonhados por lhes ter escapado uma explicação tão plausível.

Para virar o bico ao prego, alguém quis saber se parei cada vez que senti uma pedra no sapato.

- Claro que sim. Não sou homem para caminhar com uma pedra a incomodar, podendo aliviar essa situação.

- Não tens vocação para mártir, nem para o sacrifício – acusou alguém.

- Só sei que carregar uma pedra no sapato sem a querer tirar é como receber uma provocação, uma injúria ou ofensa, guardar tudo isso, carregá-la, suportando inutilmente o peso e o efeito. É uma maneira de ampliar o mal que encontramos. Convém desfazer-se dessas pedras, por pequenas que sejam para continuar a viagem mais livre e leve. Preferi ter o incómodo de parar várias vezes e tirar as pedras do que suportar o incómodo da pedra que continuava a ferir o meu pé.

- E tiveste tempo e paciência para isso?

- Sim. Não perdi tempo em parar e tirar as pedras do sapato. Ganhei tempo e disposição para avançar mais confortável e seguro. Pior que uma pedra no sapato é andar descalço.

E terminei parafraseando alguém:

- Pedras no meu sapato? Tiro todas, um dia vou construir um castelo.

 

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