Hoje,
na minha caminhada ao fim da tarde, não me saiu da cabeça a letra da canção
Casa dos D.A.M.A.
“Quantas
pedras trago eu no sapato
Quantas
vou tirar logo à tardinha.”
Tantas
vezes tive de parar para sacudir os grãos de areia que sentia dentro do sapato.
Chegando
a casa, ainda a trautear essa música, relatei esse incómodo aos meus colegas.
Fui
logo bombardeado com tantas explicações, cada cabeça sua sentença, por que
aparecera tantas pedras no meu sapato:
- Porque
eu não usava calçado apropriado (e é verdade, mas tem sido sempre o mesmo).
- Porque
as meias deviam ser mais grossas (talvez tenham razão, mas são do mesmo lote).
- Porque
as ruas não foram varridas, ou o vento tinha trazido muita areia (obrigado por
lembrar que a culpa é sempre dos outros).
-
Porque estaria a andar cada vez mais desajeitado (gostei da maneira suave de
dizer que estou a ficar ainda mais velho).
Então,
para esclarecimento de todos, declarei em abono da verdade:
-
Logo na primeira vez que sacudi as pedras do sapato reparei que a sola estava
gasta e ostentava um buraco que prometia alargar-se.
Calaram-se
todos, um tanto envergonhados por lhes ter escapado uma explicação tão
plausível.
Para
virar o bico ao prego, alguém quis saber se parei cada vez que senti uma pedra
no sapato.
-
Claro que sim. Não sou homem para caminhar com uma pedra a incomodar, podendo
aliviar essa situação.
-
Não tens vocação para mártir, nem para o sacrifício – acusou alguém.
- Só
sei que carregar uma pedra no sapato sem a querer tirar é como receber uma
provocação, uma injúria ou ofensa, guardar tudo isso, carregá-la, suportando
inutilmente o peso e o efeito. É uma maneira de ampliar o mal que encontramos.
Convém desfazer-se dessas pedras, por pequenas que sejam para continuar a
viagem mais livre e leve. Preferi ter o incómodo de parar várias vezes e tirar
as pedras do que suportar o incómodo da pedra que continuava a ferir o meu pé.
- E
tiveste tempo e paciência para isso?
-
Sim. Não perdi tempo em parar e tirar as pedras do sapato. Ganhei tempo e
disposição para avançar mais confortável e seguro. Pior que uma pedra no sapato é andar descalço.
E terminei
parafraseando alguém:
-
Pedras no meu sapato? Tiro todas, um dia vou construir um castelo.

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