terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Dormir durante o sermão


É Carnaval e ninguém leva a mal

Há um texto dos Atos dos Apóstolos que nunca se lê na igreja.
Qual e porquê?
Talvez porque quem selecionou os textos litúrgicos era pregador e não quis que ninguém seguisse esse exemplo.
Refiro-me a Act 20, 7-12:
“No primeiro dia da semana, (em Tróade) estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que devia partir no dia seguinte, começou a falar com eles e prolongou a sua pregação até à meia-noite. Havia bastantes lâmpadas na sala de cima, onde estávamos reunidos. Ora, um jovem, de nome Eutico, que estava sentado numa janela, adormeceu profundamente, enquanto Paulo se alongava no seu sermão. Dominado pelo sono, caiu do terceiro andar e levantaram-no já morto. Paulo desceu e, lançando-se sobre ele, apertou-o nos baços e disse: Não façais barulho, pois a alma ainda está nele. Depois, voltou para cima, partiu o pão, comeu e falou demoradamente até de madrugada. Só então se retirou. Quanto ao jovem, levaram-no vivo, o que foi motivo de grande consolação.”
 
Eu tiro as seguintes conclusões ou aplicações:
 
1ª - O jovem Eutico bem podia ser declarado o padroeiro dos fiéis que não conseguem ficar acordados durante as pregações.
2ª - Em vez de dizermos que as pessoas dormem durante o sermão, devíamos dizer, com eufemismo, que estão a fazer a mesma experiência de Eutico. Uns são ouvintes, outros são Euticos,
3ª – A fraqueza de dormir durante as pregações é transversal e não apenas dos mais velhos, mas até dos jovens, quer na antiguidade quer na atualidade.
4ª – Dormir durante as pregações, afinal, parece não ser pecado, pois São Paulo ressuscitou quem caiu nessa fraqueza.
5ª – Quem tem a mesma fraqueza de Eutico e não consegue resistir, pelo menos não se sente na janela do terceiro andar, pois nem sempre há um pregador capaz de fazer o milagre de ressuscitá-lo depois da queda.
6ª – Depois da queda do jovem e da sua ressurreição, São Paulo continuou a sua pregação até de madrugada como se nada tivesse acontecido. O jovem aprendeu a lição, mas parece que o pregador não aprendeu a falar menos tempo.
7ª – Se São Paulo, tão santo e grande pregador, não conseguiu evitar que alguém dormisse durante as suas pregações, quem sou eu para conseguir fazer melhor que ele?
8ª – Parece que São Paulo só adormeceu um ouvinte. Eu sou capaz de adormecer muitos mais.
9ª – São Paulo não ficou embaraçado por ter provocado o sono e a queda do jovem Eutico. Eu ficaria talvez envergonhado ou traumatizado. Quando vejo alguém bocejar, já fico alarmado. Não sei distinguir se a culpa é do ouvinte ou do pregador.
10ª – É certo que no tempo de São Paulo ninguém levava relógio para as pregações, mas todos conseguiram ter a noção das horas. Ter um Eutico pela frente, a dormir, é um despertador para avisar ao pregador que já basta. Mesmo que esteja tão concentrado na sua pregação, esta tem de atender sempre às pessoas a quem se dirige. São Paulo não podia estar tão atento à palavra que se esquecesse dos ouvintes. Quanto a mim, às vezes pareço mais atento às pessoas do que à palavra que prego. Há quem seja santo pregador e quem seja pregador pecador.
11ª – O problema não é um ouvinte adormecer. O pior é quando o pregador é que parece ter estacionado ou adormecido. São Paulo na epístola a Timóteo aconselhava-o a proclamar a palavra, insistir a propósito e fora de propósito, ameaçar e exortar com toda a paciência e doutrina. Se nem assim conseguiu manter acordado o jovem Eutico, o que mais se poderá fazer hoje.
12ª – Acho que descobri o cerne desta situação. Diz o narrador do episódio que Paulo depois de ter ressuscitado o jovem, voltou para cima, partiu o pão e comeu… e depois continuou a pregar. O jovem caiu não apenas por causa do sono, mas por fraqueza. Não basta alimentar-se com a palavra. É preciso alimentar-se com o pão, com o pão do corpo e com o pão da Eucaristia.
 
Episódios da atualidade:
 
A – De pequenino se torce o pepino
Um dia estava eu a celebrar um batismo na missa dominical. Desde que chegou à igreja o bebé não parou de chorar. Não houve maneira de o calar, nem chucha, nem biberão, nem o colo da mãe, do pai, da avó, nem deitado, nem de pé, nem mudar a fralda, nem o refrescar com um leque, nem brinquedos luminosos ou musicais. Era um autêntico circo. Claro que o sacerdote imperturbável fez todos os rituais que devia, com toda a atenção e paciência, como se não houvesse nada de especial. As leituras quase que não foram ouvidas por ninguém. Respirei fundo antes de começar o meu sermão, consciente de que teria pela minha frente um concorrente, pequenino, mas poderoso. E qual não foi o espanto de todos: Assim que comecei a falar o bebé calou-se imediatamente e começou a dormir em paz para sossego de todos. Não resisti em concluir que aquela criatura, há tão pouco tempo na igreja já tinha aprendido dos mais velhos – dormir durante o sermão. Ou será que deixou de gritar para não acordar quem costumava dormir nessa ocasião? Só sei que consegui ultrapassar o Apóstolo São Paulo. Ele, num longo sermão, conseguiu adormecer um jovem, e eu numa pequena homilia consegui adormecer um bebé irrequieto. Graças a Deus! Aleluia, aleluia!
 
B – Quem dorme por último dorme melhor
Uma mulher queixava-se ao marido:
- Já não sei que fazer para conseguir dormir à noite. É uma insónia continuada. Nem com chá, nem com medicação, de jeito nenhum consigo dormir.
O marido ouviu com toda a paciência e por fim disse:
- Conheço uma maneira eficaz para dormires durante toda a noite.
- Porque é que só agora me dizes isso? Fala depressa…
E muito sério continuou:
- É simples. Grava os sermões do padre da nossa paróquia para ouvires à noite na cama. Não vais resistir… é tiro e queda. O que é que fazes na igreja quando o padre prega? Começas logo a dormir, assim o dizes. Então experimenta ouvi-lo cá em casa e o sono chegará depressa.
- Estás a gozar comigo – lamentou-se a mulher – como é que eu posso gravar os sermões se estou a dormir na igreja?
- Pede à vizinha do lado…
- Impossível! Ela está a dormir também…
- Então pede ao padre que venha pregar aqui de viva voz – gracejou o homem.
- É uma boa ideia, mas não sei se o padre tem insónias para estar acordado a essas horas.
E um milagre aconteceu.
Depois desta conversa a mulher foi para a cama, pegou no sono sem demoras e dormiu toda a noite e até sonhou com o padre a pregar…
Na noite seguinte foi o marido que sofreu de insónias. Cheio de ciúmes não conseguiu dormir ó em pensar que a sua mulher estaria a sonhar com o padre.  
Cá se fazem, cá se pagam.

Conclusão
De facto, não há hora nem lugar mais abençoado para dormir do que na igreja.
Se na cama eu posso rezar, também na igreja posso dormir.
Daqui para a frente terei cuidado para não escrever a metro nem pregar à hora.
 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Margarida vai à fonte


Porque é Carnaval, ninguém leva a mal.

No folclore madeirense há, numa rapsódia, a adaptação da letra e da música de um fado antigo português (1903/04?), chamado Margarida Vai à Fonte. O fado original começa assim:

Margarida vai à fonte (bis)

Vai encher a cantarinha

Brotem lírios pelo monte

Vai sozinha para a fonte

Vai à fonte e vem sozinha.

         Brotem lírios pelo monte

         Vai à fonte e vem sozinha.

 

Na versão madeirense há apenas o início adaptado de maneira brejeira explicando por que é que a Margarida vai à fonte. Ela vai à fonte não por interesses pessoais, como imaginam as mentes perversas, para namorar ou para saciar a sua sede, mas por pura caridade, não a pensar em si, mas nos outros, pois reza assim:

Margarida vai à fonte (Bis)

Vai à fonte e logo vem.

Vai buscar um balde de água (bis)

Pra lavar os pés à mãe

Vai buscar um balde de água

Pra lavar os pés à mãe.

 

E no folclore madeirense tudo fica por aqui, pois não há mais nada sobre a Margarida. Mas pensando melhor, a Margarida não é só filha da mãe, mas também filha do pai. Então porque é que não se refere nenhum préstimo ao seu progenitor? Aqui vai uma proposta para colmatar essa discriminação e promover a igualdade de género ou de outra espécie de fonte:

Margarida vai à adega (Bis)

Vai à adega e alegre vai.

Vai buscar um jarro de vinho (Bis)

Pra dar de beber ao pai.

Vai buscar um jarro de vinho

Pra dar de beber ao pai.

 

Assim está melhor, pois vemos bem a dedicação da Margarida quer à mãe, quer ao pai, lavando a garganta a um e os pés à outra. Mas isto não pode ficar por aqui. E para a avó não vai nada, nada, nada? A Margarida sabe cuidar bem de todos, novos e velhos. Eis a prova disso:

         Margarida vai à horta (Bis)

         Vai à horta e não vem só.

         Vai buscar umas couvinhas (Bis)

         Pr’o jantar da sua avó.

         Vai buscar umas couvinhas

          Pr’o jantar da sua avó.

 

A Margarida é de facto uma moça muito prendada. É pena estar solteira. Não é por falta de atributos, como se vê, nem por falta de vontade. Então porque é que ainda não encontrou namorado? Talvez porque não tem procurado no lugar certo. Vejamos:

         Margarida vai à igreja (bis)

         Vai de peito apertado.

         Vai rezar a Santo António (Bis)

         Que lhe dê um namorado.

         Vai rezar a Santo António

         Que lhe dê um namorado.

 

Já que Santo António ainda não atendeu o sonho da Margarida, há aqui alguém que queira dar uma ajudinha? Não é ajudar a ir à fonte, à adega ou à horta, mas ajudá-la a encontrar um noivo. Nem é preciso ir com ela à igreja para rezar. Basta aproximar-se assim:

         Margarida vem aqui (Bis)

         Vem aqui qu’eu não te vejo.

         Aproxima a tua boca (Bis)

         Para me dares um beijo.

         Aproxima a tua boca

         Para me dares um beijo.

 

Quem sabe se a Margarida toma o gosto e haja casamento. Por enquanto não podemos exigir mais da Margarida. É uma moça generosa, mas muito respeitada. Querem continuar esta história? Respeito é uma das poucas coisas que se recebe quanto mais se dá. Fiquemos então por aqui:

         Margarida vai-te embora (Bis)

         Vai-te embora descansar.

         Quem quiser mais de ti (Bis)

Vai ter muito qu’esperar.

         Quem quiser mais de ti

         Vai ter muito qu’esperar.

 

Para ouvir a canção original

Clicar aqui

 

Nenhum sinal vos será dado


2ª feira – VI semana comum
 
Pediram-lhe um sinal do céu.
Jesus disse:
- Não se dará nenhum sinal a esta geração.
- Porque não quereis ver o sinal…
E dito isto, deixou-os, voltou para o barco e foi para a outra margem.
 
De facto, Jesus é o sinal para ser visto, mas eles não queriam ver…
Então Jesus retirou-se, isto é, tirou-lhe o sinal para levá-lo para a outra margem.
É como ter um livro na mão para ler, mas querer continuar com os olhos vedados.
Os fariseus queriam que Jesus lhes desse uma prova (um sinal) da sua divindade.
Porque é que faziam isto?
Porque não conseguiram mostrar que ele não era o Messias, então exigiam que ele lhes mostrasse quer era de facto o Messias.
 
Isto faz-me lembrar alguns casos de justiça em que não podendo provar a acusação de alguém, se exige que o acusado prove a sua inocência. Se o não fizer, será condenado. Ou seja, pretende-se condenar alguém de um roubo, não porque temos provas de que roubou, mas porque ele não consegue provar que não roubou.
 
Jesus escusa-se a responder a este pedido.
Jesus não quer provar nada disso, mas quer apenas que os próprios interlocutores descubram esses sinais por si mesmos.
Jesus é o Messias, não apenas porque diz sê-lo, nem porque impõe provas disso.
Ele prefere que os seus ouvintes vejam pela sua ação e pela sua vida e missão que é de facto o Messias, o Filho de Deus enviado a este mundo.
 
Não nos queixemos então da nossa pouca fé naquele que Deus nos enviou.
Se ainda não acreditamos não é por falta de provas de Deus, mas porque ainda não O descobrimos.
 
Ver também:
Discutir só para destruir

 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Falar e ouvir corretamente


6ª feira – V semana comum

 

Imediatamente se abriram os ouvidos do homem,

soltou-se-lhe a prisão da língua

e começou a falar corretamente…

Dos sermões do Santo Cura de Ars (1786-1859):

Que desejável seria, meus irmãos, que se pudesse dizer de cada um de nós o que o Evangelho diz do mudo que Jesus curou: que ele falava bem. Infelizmente, meus irmãos, não poderemos, pelo contrário, ser censurados por falarmos quase sempre mal, sobretudo quando falamos do nosso próximo?

De facto, qual é o comportamento da maior parte dos cristãos de hoje? É criticar, censurar, denegrir, condenar o que o próximo faz e diz; este é o mais comum de todos os vícios, o mais universalmente difundido, e talvez o pior de todos. É um vício que nunca é demais detestar, um vício que tem as consequências mais desastrosas, que traz problemas e desolação por todo o lado.

Quantos males seriam banidos da terra se fosse possível banir os mexericos!

E digo mais: o mal não é só caluniar e difamar, mas também ouvir com prazer a calúnia e a difamação; porque se ninguém ouvisse, não haveria caluniadores. Digamos muitas vezes: Meu Deus, dai-me a graça de falar corretamente, de falar bem. Que eu aprenda a usar a minha língua para rezar a Deus, pedindo o perdão dos meus pecados, cantando os louvores de Deus e ajudando os meus irmãos.

 

Mensagens alternativas:

1ª – A língua do mudo vale mais que a do maldizente. Uma é inofensiva, outra é terrível: e quem há tão privilegiado que se considere seguro de ser respeitado por Ela? (provérbio árabe).

2ª – Os homens sábios falam porque têm alguma coisa para dizer;

os néscios falam porque têm que dizer alguma coisa. (Platão)

3ª – Quem contigo fala mal dos outros

com os outros fala mal de ti.

 

Ver também:

Querer ouvir

 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O sermão de uma cananeia


5ª feira – V semana comum

1 - Logo uma mulher, cuja filha tinha um espírito impuro, veio…

Os problemas dos outros tornam-se os seus problemas.

Por isso, interceder é colocar-se no lugar de alguém.

De facto, a sua necessidade leva-a a pedir a Deus por si, mas o amor leva-a a interceder a Deus pelo outro.

 

2 - Prostrou-se a seus pés e pediu-Lhe que expulsasse o demónio da sua filha.

As contrariedades da vida aproximam-na de Deus.

Prostra-se diante de Deus porque as dificuldades tornam-na insignificante e impotente.

Diante de Deus tudo e todos parecem pequeninos.

Se não nos reconhecemos pequenos, Deus não nos pode fazer crescer.

 

3 - Não está certo tirar o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos.

Mas ela insiste, argumenta, esforça-se, respira fundo e dá tudo.

Quem ama não desanima, mas insiste.

Não é por acaso que se trata de uma mãe porque uma mãe percebe quando é o momento da filha nascer ou renascer.

Ela joga tudo porque sente que essa é a hora do milagre da vida.

É preciso não só deixar as coisas acontecer, mas também fazer acontecer as coisas.

 

4 - Senhor, também os cachorrinhos comem debaixo da mesa as migalhas das crianças.

Cheia de humildade e confiança entrega-se nas mãos de Deus:

- Posso não ser tua filha. Podes não ser meu pai. Não posso reivindicar o privilégio de ser uma boa filha, fiel e bem-comportada, mas tu és o meu dono, o meu senhor, e os donos alimentam os seus cachorrinhos.

 

5 - Dizes muito bem. Podes voltar para casa, a tua filha está curada…

A fé honra a Deus e Deus honra a fé.

A fé não é saber que Deus pode, mas que Deus quer.

A fé não é o resultado do milagre, mas o milagre é o resultado da fé.

 

Ver também:

Todos, todos, todos

As lições de uma pagã

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

A Quina de Cristo Jesus


Festa das Cinco Chagas o Senhor

A quina ou os cinco escudos azúis dispostos em cruz representam as Cinco Chagas de Cristo. Cada quina tem cinco moedas de prata que contando duas vezes o escudo central somam 30 moedas com as quais Jesus foi vendido. 

- Onde é que Jesus nos mostra melhor as suas cinco chagas?

- Claro, no seu corpo.

- Mas onde as vemos melhor? No seu corpo na Cruz ou no corpo Ressuscitado e glorioso?

- No seu corpo ressuscitado e glorioso. De facto, Jesus ressuscitou mostra aos seus discípulos as suas cinco chagas, isto é, com as marcas da sua morte.

As chagas de Cristo são o reflexo da sua cruz.

Jesus ressuscitado mostrando as sua chagas está a mostrar a sua cruz.

Então as suas chagas são a imagem ou o reflexo da sua cruz.

Em vez de nos mostrar a sua cruz, Cristo ressuscitado mostra-nos as suas chagas que apontam para a cruz.

 

Conforme o Prefácio da festa de hoje, Cristo mostra-nos as suas chagas para nos tornar:

- Fortalecidos na fé

- Enraizados na caridade

- Firmes na esperança

 

Leituras complementares:

 

1º - Das História de Portugal

Em Portugal, a devoção às Cinco Chagas de Cristo manifestou-se desde cedo, reportando-se aos inícios da nacionalidade. Mas será somente a partir dos séculos XV e XVI que essa devoção será claramente associada à própria fundação do Reino de Portugal e ao seu brasão de armas.

Alguns textos da época, relata-se a aparição de Cristo crucificado a D. Afonso Henriques, na véspera da Batalha de Ourique, na qual as suas tropas defrontariam os exércitos infiéis, liderados por cinco reis mouros:

«Afonso, antes de dar sinal aos soldados, estando ajoelhado a orar, viu o Salvador pendente da Cruz. Era tal a confiança do ânimo real, tal a fé gravada no seu coração que, longe de perturbar-se com tão estupendo milagre, ousou dizer estas palavras: que não era ao homem que crê firmemente que Jesus devia mostrar-se, mas aos hereges e apartados dessa fé ou a ela contrários é que era preciso mostrar-se dessa forma». Mas Cristo afiançou àquele que seria o primeiro Rei de Portugal: «Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito e fundar os princípios do teu Reyno sobre pedra firme».

E assim, tendo vencido a batalha de Ourique, quis D. Afonso Henriques que constassem no seu escudo as armas que ostentaram todos os reis portugueses e que ostenta, atualmente, a bandeira de Portugal: Cinco Quinas, em honra das Cinco Chagas de Cristo, em forma de cruz, tendo cada qual cinco moedas de prata que contando 2 vezes o escudo central somam as 30 moedas com as quais foi vendido o mesmo Jesus.

 

2º - Dos Sermões de S. Bernardo (XII) – Breviário, 4º feira III semana comum.

Onde poderá a nossa fraqueza encontrar um descanso seguro e tranquilo, senão nas chagas do Salvador?

Para mim, o que me falta vou buscá-lo confiadamente ao coração do Senhor, porque é imensa a sua misericórdia e estão abertos os canais que derramam as suas graças: trespassaram as suas mãos e os seus pés e com a lança abriram o seu lado.

O cravo penetrante tornou-se para mim uma chave para me abrir o conhecimento da vontade do Senhor.

Através das feridas do corpo manifestam-se os segredos do seu coração, revela-se o grande mistério de piedade, as entranhas de misericórdia do mosso deus.

Senhor, as vossas chagas foram o meio mais claro de nos mostrar que sois manso, humilde e cheio de misericórdia.

 

3º - Dos Sermões do Pe. António Vieira

As naus portuguesas levavam por lastro os padrões da Igreja e talvez as mesmas igrejas em peças para lá se fabricarem.

Levavam nas bandeiras as chagas de Cristo,

nas antenas a cruz,

na agulha a Fé,

nas âncoras a Esperança,

no leme a Caridade,

no farol a luz do Evangelho,

e em tudo a Salvação.

Desta maneira entraram pelo mar dentro…

 

Ver também:

Olhares cruzados

 

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Todos nós te procuramos


Ano B – V domingo comum

 

Simão e companheiros foram à procura de Jesus e, quando O encontraram, disseram-Lhe – Todos Te procuram.

Procuravam-no os seus contemporâneos na Palestina, procuraram-no as gerações até aos nossos dias, procuramos nós também quianda hoje.

Todo nós procuramos o Senhor.

 

1 - Mas procuramo-lo onde?

2 - E procuramo-lo para quê?

 

1 - Procuremos onde o podemos encontrar. Procuremo-lo em todo o lugar para que possamos encontrá-lo onde estamos (na assembleia, em casa, na rua, na criação, em todo o lugar)

2 - Procuremos não para que nos dê algo, mas para que partilhemos algo com Ele. Procuremo-lo não porque precisamos dele, mas porque Ele precisa de nós (para que nos cure comunitariamente, no interior e no exterior, a nós e aos nossos irmãos).

À margem:

Ai de mim se não anunciar o Evangelho! 

(1Cor 9, 16)

Dizia São Paulo e dizemos nós ainda hoje.

Se Paulo não tivesse anunciado o Evangelho ele ter-se-ia perdido e não também estaríamos perdidos.

Quem não evangeliza condena-se e está a condenar os outros também porque ficam privados dessa salvação.

 

Ver também:

Um dia cheio de curas

Grandes personagens de cama

 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jesus apresentado no Templo


Maria e José levaram o Menino a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor.

Oração ou ato de oblação que os Dehonianos rezam no início deste dia:

 

Pai Santo,

que acolheste dos braços de Maria

o teu Filho apresentado ao templo

como primícias de uma vida inteiramente oferecida.

Acolhe-nos também a nós,

a fim de que, santificados pela sua oblação,

vivamos na tua presença

para salvação dos nossos irmãos.

No Calvário, uniste à paixão do Filho

a compaixão da Mãe

e associaste-a ao seu sacrifício;

aceita a oferta da nossa cruz de cada dia,

o trabalho apostólico e a oração,

como realização em nós

da paixão de Cristo

para redenção do mundo.

Ámen.

 

Cântico de Simeão que os consagrados da Igreja rezam no fim do dia, na Hora de Completas:

 

Agora, Senhor, segundo a vossa palavra,

Deixareis ir em paz o vosso servo.

Porque meus olhos viram a salvação

Que oferecestes a todos os povos,

Luz para se revelar às nações

E glória de Israel, vosso povo.

 

Ver também:

Vestir-se de Cristo

Formas de vida consagrada

Recebeu-o em seus braços

Nossa Senhora da Estrela

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Ninguém é enviado sozinho


5ª feira – IV semana comum

Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois… com indicações do que deveriam levar, fazer ou dizer. Começou e nunca mais acabou de enviar.
O principal está no envio dois a dois.
Porquê?
 
1) Tal como o tango
Evangelizar é como dançar o tango, são precisos dois.

2) Ninguém está sozinho
Então porque é que Deus enviou apenas um pároco para a minha igreja?
Pensando bem, eu nunca estou sozinho.
E não estou sozinho com Deus, como diz o povo.
Estou comigo mesmo, e estou com Deus.
Se eu estou comigo mesmo, já somos dois e assim estamos com Deus, porque Deus está no nosso meio (onde 2 ou 3 estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles)
 
3) Homem prevenido vale por dois.
Cada apóstolo vale por dois e muito mais porque prevenido pela fé naquele que o envia.

4) No cair de um, outro se levanta.
Quando tombou o arauto, a Palavra se ergueu para se fazer ouvir, cai João, ergue-se Jesus.
Cai Jesus, caminham os Apóstolos.
Caem os Apóstolos um a um, seguem-se os primeiros cristãos.
E depois destes, uma segunda geração.
E depois desta, outra, e uma outra, e outra até nós.
Morre um santo aqui, algum nascerá do outro lado da montanha.
Soçobra um modo de evangelizar, outro arrebita.
Calam aqui uma voz, além irrompe outro arauto.
Rompem-se uns odres, algures outros se cosem.
Cai um missionário, outro se alevanta.
E assim, sucessivamente, repetidamente, até ao fim da história. Sem parar.

 

5) No filme A Missão

É precisamente isto que se vê no final do filme A Missão, com o martírio de um missionário: irados e raivosos contra o humanismo e a fé flamejantes na missão, circundam-na os feros conquistadores europeus e acabam incendiando-a apesar da legítima, mas inglória defesa que os Guaranis, entretanto, empreendem. Nada deterá os cristianíssimos europeus, se não a redução a cinzas da missão! Mas eis senão quando o segundo missionário que também cairá, enfrenta os ignóbeis conquistadores. Saindo da missão ao encontro dos arcabuzes, vem rodeado de crianças mansas e mulheres índias com meninos de peito. Nas mãos porta mansamente uma custódia sagrada com o Santíssimo Sacramento. E assim caminham juntos para o martírio que, óbvio, sucederá, sob uma rude saraivada de fogo dos rifles europeus. Logo muitos meninos e mulheres tombam à sua volta, até que também ele cai com uma bala no peito. E por sua vez, cai-lhe a custódia aos pés, pelo que também Cristo morde o pó! Porém, quando tudo parece perdido naquele inglório abatimento, quando a humilhação de Cristo parece definitivamente consumada, eis que, sem medo, uma mulher guarani se agacha, toma a custódia em suas mãos jovens e, alevantando-se, segue em frente, emulando o gesto manso do missionário! Sim, sim, tinha acabado de cair um manso portador de Cristo, mas prontamente outro – no caso, outra – se alevantara, porque o Reino de Deus não pode parar mesmo quando pareça que cai o último dos seus fiéis servos. (CF. Boletim de Espiritualidade dos Carmelitas Descalços, Frei João Costa)

É por isso que Jesus fez questão em enviar os seus apóstolos dois a dois.

 

6) Ver também:

Para aprender a dialogar