sexta-feira, 18 de agosto de 2023

O amor sobre rodas


6ª feira – XIX semana comum

 

1ª leitura

Deus na nossa história comunitária e pessoal

Ouviu-se o resumo da história do povo de Deus, desde Abraão até Josué.

Deus faz parte dessa história. Deus interveio sempre, apesar de nem sempre tivesse sido reconhecida a sua presença.

Recordamos isso para que tomemos consciência que também na nossa história pessoal o mesmo Deus intervém. Deus também faz parte da nossa história pessoal. Não demoremos tomar consciência dessa presença.

2ª leitura

O amor sobre duas rodas

Tenho um colega sacerdote que diz não gostar de pregar sobre o trecho do evangelho de hoje porque não quer traumatizar ainda mais os casais que viram o seu casamento desfeito.

Pergunto-lhe porque é que fala de todos os mandamentos da Lei de Deus, se grande parte deles não são cumpridos. Ao anunciá-los e incentivá-los também corremos o risco de traumatizar quem não é capaz de os cumprir. E apesar de tudo nós os pregamos.

Acho apenas que devemos valorizar o bem e destacá-lo, já que alguém se encarrega de fazer o mesmo sobre o mal.

A minha reflexão de hoje diz respeito ao último casamento que fiz.

Mostrei uma foto do arranjo de flores que estava à frente do altar.

- Oh, duas rodas no meio das flores?- espantou-se o meu colega.

- Isto é a decoração de um casamento.

- Mas os noivos foram de motorizada para a igreja?

- Sim, por acaso o noivo chegou de motorizada com os seus irmãos e amigos… São alianças que mais se aprecem com rodas ou rodas que se parecem com alianças. Mas foi uma boa mensagem. Assim rezámos para que o seu matrimónio corresse sob rodas.

Sim, estas duas alianças matrimoniais mias parecem duas rodas. O casamento é de facto uma espécie de moto de duas rodas, em que as duas rodas têm de acertar o mesmo ritmo ou velocidade, a mesma direção… Deve manter o equilíbrio e para isso há que pôr-se em movimento. Não podem parar, mas ir em frente.

O mais interessante é que procuramos identificar as duas rodas como a do noivo e a da nova. Mas o mais certo é identificá-las como uma dos noivos e a outra de Deus.

Para que o matrimónio possa andar sobre rodas, ir em frente, manter o equilíbrio etc… há que reconhecer a roda de Deus (a bênção) e a roda dos noivos (o amor).

Se faltar alguma destas rodas, o casamento será um fracasso.

Nunca esqueçamos que no casamento há duas rodas, uma de Deus e a outro dos noivos. De facto, o casamento há duas alianças – a aliança dos noivos entre si e a aliança dos noivos com Deus e vice-versa.

 

Ver também:

Grande mistério do amor

 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Toda a oração exige união


4ª feira – XIX semana comum
 
Na 1ª leitura
Fim da narração da vida e missão de Moisés.
Aos 120 anos adormeceu no Senhor seu Deus.
Apesar de tanta idade a sua vista nunca enfraqueceu.
Porquê?
Porque os olhos que veem a Deus nunca perdem a sua capacidade.
Assim também o nosso coração que sente a Deus nunca envelhece, nunca perde a sua capacidade.
Moisés foi sepultado, mas ninguém ficou a saber onde.
Porquê?
Porque assim nenhuma terra, nenhuma comunidade poderá orgulhar-se de possuir o corpo de Moisés. Ele é de todos, é para todos.
Também nós não podemos fazer aceção de pessoas.
Deus é de todos e para todos, assim como os seus valores, as suas bênçãos.
No Evangelho
Deus atende a oração feita em comunidade.
Quando dois ou três se reúnem em nome de Jesus ele dá a garantia de ficar no meio deles.
De facto o centro da oração é a união. E não é só a união com Deus, mas união connosco mesmo e união com o irmão.
União connosco mesmo, pois devemos rezar com tudo o que somos, com o nosso coração, com a nossa mente, com todas as nossas forças e com todas as nossas capacidades.
União com os irmãos, mesmo que não esteja fisicamente co nosso lado. É preciso unir-se com os demais, ter um só coração e uma só alma com o irmão. Não basta que ele esteja ao nosso lado, é preciso nós estarmos a seu lado, em plena união afetiva e efetiva.
União com Deus. É Deus que nos une aos irmãos, à comunidade. Quem reza une-se a Deus e Deus une-nos à comunidade.
Conclusão:
EU + TU não é EU mais TU
EU + TU significa EU a CRUZ e TU
EU TU = união = oração
Ou então 2 ou + não significa 2 ou mais
2 e + significa 2 e a cruz (Cristo)
2 e = união = oração
 

Ver também:

Dois ou mais

 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Nossa Senhora dos Anjos


Solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria

 

A – Quem gosta mais de quem

Embora o amor não se pode medir, mas humanamente podemos diferenciar, por isso atrevo-me a perguntar:

- Quem é a pessoa que neste mundo mais amou a Jesus?

- E quem é a pessoa que neste mundo Jesus mais amou?

Nesta solenidade da Assunção de Nossa Senhora ou de Nossa Senhora da Assunção queremos dizer que gostamos de quem Jesus mais gosta.

E gostamos de quem mais gosta de Jesus.

É por isso que com orgulho e santa devoção dizemos que gostamos de quem gosta mais gosta de Maria e gostamos de quem Maria mais gosta.

Hoje é o dia de manifestar esse amor a Jesus e a Maria.

B – Nossa Senhora dos Anjos

Hoje fui celebrar a uma paróquia vizinha a festa de Nossa Senhora dos Anjos.

Este é o dia da Assunção da Virgem Maria ou o dia de Nossa Senhora dos Anjos?

Se olharmos bem para o andor de Nossa Senhora dos Anjos podemos ver que ela aponta para a Assunção. Não só pela sua festa ser no dia 15 de agosto, não só por estar rodeada de anjos que a levaram para o céu, não só por estar sobre uma nuvem no céu…

Há outros indícios que mostram, de maneira especial e inequívoca este mistério da Assunção de Nossa Senhora dos Anjos

- 1º - Ela tem o braço esticado apontando para o alto – aponta para onde se dirige na assunção.

- 2º - Com a outra mão aponta para o peito, para o coração. Deus está no céu coração e o seu coração esta em Deus, está no céu. De facto, ela elevou-se ao céu em corpo e alma.

- 3º - Ela tem o braço levantado tal como alguém que está a pedir licença para falar. Ela quer dizer-nos alguma coisa. Na sua assunção ela quer dizer-nos que vai para o céu sem deixar de ficar na terra, que está junto de Deus e dos anjos, sem deixar de acompanhar os homens, porque todos estão no seu coração. Foi para o céu pra tudo alcançar, sem deixar de estar na terra para tudo conceder.

Esta linda imagem de Nossa Senhora dos Anjos é a melhor maneira de nos levar até a Assunção de nossa Senhora. De facto, a melhor representação da Assunção de Nossa Senhora é a imagem de Nossa Senhora dos Anjos.

 

C – Uma viagem de regresso

Assunção de Maria ao céu é o dogma da fé da igreja mais recente, embora sempre tenha acreditado na presença de Maria na glória eterna. Foi declarado em 1950 por Pio XII.

Para a solenidade deste 4º mistério dos mistérios gloriosos do terço a Igreja apresenta-nos o Evangelho Lc 1,39-56.

O que é que isso tem a ver com a Assunção?

Tem tudo a ver:

- 1º - Depois da Anunciação Maria inicia uma grande viagem para nos recordar que na Assunção Maria faz uma outra grande viagem, da terra ao céu. A propósito da viagem de Maria de Nazaré até aos arredores de Jerusalém queremos recordar a sua viagem da terra ao céu.

- 2º - Última frase do evangelho de hoje – Maria regressou à sua casa.

Toda a vida é um regresso, retorno.

O anjo da Anunciação regressou ao Céu.

Maria regressou da casa de Isabel.

Jesus voltou aos Céus.

Nós voltaremos ao lugar donde fomos tirados (não apenas ao pó), o corpo ao pó da terra, a alma á glória eterna.

- 3º - Maria entra na casa de Isabel e de Zacarias para nos recordar que um dia irá entrar na casa paterna.

De facto, só entrará na casa paterna, na eternidade, quem entrar neste mundo, neste tempo na casa do seu irmão.

 

Ver também:

Coroa de 12 estrelas

 

domingo, 13 de agosto de 2023

O padroeiro dos surfistas


Ano A – XIX domingo comum

 

Não sei se os surfistas têm um santo padroeiro, mas acho que deveria ser São Pedro.

De facto, este apóstolo tinha uma tendência para se atirar à água. Foi no episódio do evangelho de hoje e foi depois da pesca milagrosa após a ressurreição do Senhor.

Fazer surf é transformar uma onda em oportunidade de ir em frente.

Jesus e Pedro, ao andarem sobre as ondas alterosas de uma tempestade, mostram que qualquer dificuldade, mesmo uma onda de 30 metros de altura, pode transformar-se em oportunidade. Isto é surf.

Há 8 dias atrás, em Lisboa, o Papa Francisco falou que é preciso cavalgar as ondas do amor e da caridade. Ultrapassando as enormes ondas de obstáculos, podemos aprender a cavalgar as ondas do bem sendo surfistas do amor.

Hoje não quero admirar Pedro a andar sobre as águas, mas quero contemplar Pedro a afundar-se.

Porque é que pedro começou a afundar-se?

O que aconteceu com ele acontece com todos, e o que acontece connosco acontece com ele.

 

Ele começou a afundar-se porque:

- Começou a afundar-se porque começou a duvidar, pois era pouca a sua fé.

Quando nós começamos a duvidar, começamos a desanimar. Quando duvidamos ou vamos perdendo a fé, começamos a afundar-nos.

- Começou a afundar-se porque não foi persistente nos seus intentos.

Não basta começar uma coisa, é preciso perseverança. Pela constância nos salvaremos. Tal acontece também connosco.

- Começou a afundar-se porque começou a orgulhar-se. Os outros viram-no a andar sobre a água e começaram a ter inveja e ele começou a sentir vaidade. Ficou então mais pesado e começou a ir ao fundo. Nós somos iguais e ele ou ele igual a nós.

- Começou a afundar-se ao ver a força do fundo e ao esquecer-se da força de Deus.

Não basta dizer a Deus que temos uma grande tormenta. É preciso dizer à tormenta que temos um grande Deus. Quando Pedro olhou mais para as ondas do que para Jesus foi subjugado pela tempestade. É tal e qual o que acontece connosco também.

- Começou a afundar-se quando começou a olhar para baixo. Deixou de olhar para o alto e começar a olhar para o chão, para o fundo e foi atraído por ele. Nós também afundamo-nos ou tornamo-nos pequenos e fracos quando deixamos de olhar para o alto.

- Por fim, Jesus deixou que Pedro começasse a afundar-se para que ele pudesse suplicar a sua ajuda – Salva-me, Senhor. Se não estivesse a afundar-se nunca gritaria pela ajuda e Jesus não teria oportunidade de estender-lhe a mão. Também connosco é assim. Às vezes é preciso começar a ir ao fundo para nos lembrar-nos que Deus nos pode ajudar e que a sua mão está sempre estendida para nós.

 

Ver também:

Com Jesus ninguém se afunda

 

À margem para sorrir:

O nosso filho quando crescer vai ensinar os homens a surfar.


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

De Clara a claríssima

 
Memória de Santa Clara de Assis

Foi Clara de seu nome
Foi mais clara na sua vida
Foi muito clara na sua consagração
Foi claríssima na sua santidade.
Ela foi sempre clara, foi sempre brilhante.
Que ela nos ajude a clarear a nossa vida.
Hoje como em todas as sextas-feiras, fizemos uma hora de adoração.
Também como de costume, foi posto um quadro da santa do dia - Santa Clara com uma custódia na mão a abençoar ou a derrotar os Sarracenos ou Mouros que queriam invadir o mosteiro de Assis.
Durante a bênção do Santíssimo tive uma distração: Olhava para o lado e via a figura de Santa Clara tal como eu com uma custódia na mão. 
Olhava para cima e via pintado no teto da capela-mor um anjo também com uma custódia na mão a abençoar desde o alto.
Com quem é que eu mais me identificava?
Com a santa, com o anjo ou com mais alguém?
Não me identificava com os santos nem com os anjos, mas com os pecadores.
Simplesmente eu revia-me mais nos Mouros ou Sarracenos.
Eu tinha a custódia na mão para expulsar os meus inimigos, adversários interiores ou invasores. 
Que o Santíssimo Sacramento ilumine o meu coração para que possa abandonar as obras do maligno e viver em plena caridade e claridade. Ámen.

Ver também:




quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Humor com humor se paga


Festa de São Lourenço, Diácono e Mártir


São Lourenço foi martirizado numa grelha (+258). A meio desse processo dirigiu-se aos seus algozes nestes termos: "Podem virar-me porque deste lado já estou bem passado".

Contagiado por este humor sagrado, atrevo-me a perguntar:

- Sabem quem foi o primeiro santo a ser cremado?

- São Lourenço. Ele foi cremado vivo.

Assim aprendemos com São Lourenço a pagar o mal com o humor.

Os pobres são tesouros, as virgens são pérolas e as viúvas são pedras preciosas.

São Lourenço era diácono em Roma e os perseguidores da Igreja pediram-lhe que entregasse os tesouros da Igreja.

Ele disse-lhes que sim: "Tragam-me várias carroças onde eu possa levar-vos os tesouros da Igreja" Trouxeram-lhas; ele encheu-as de pobres e enviou-lhos, dizendo: "Eis os tesouros da Igreja".

- Por que é que os pobres são os tesouros da Igreja?

- Porque os tesouros de Deus são os pobres!

- E por que é que os pobres são os tesouros de Deus?

- Por três motivos:

1º - porque são suas criaturas, fetos à sua imagem e semelhança – são homens, batizados, filhos da Igreja, filhos de Deus nos quais Ele põe todo o seu enlevo.

2º - Porque cada um foi salvo pelo sangue de Cristo. Cada um tem o valor do sangue de Cristo que o redimiu – Se os pobres foram redimidos pelo sangue de Cristo, o sangue de Cristo tem um valor infinito então cada um tem um valor infinito.

3º - porque Cristo identificou-se com os pobres fazendo igual a eles e mostrou que os pobres se identificam com ele – tudo o que fizeres aos mais pobres a mim o fazeis.


Ver também:

Sementes de São Lourenço

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Seis pontas de uma estrela


Festa de Santa Teresa Benedita da Cruz

Edith Stein (+1942)

Virgem e Mártir

Padroeira da Europa

 

De origem judia, professora de filosofia, converteu-se ao cristianismo e professou como monja Carmelita. Durante a perseguição nazi foi enviada para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau destinado ao genocídio do povo judeu.  Aí foi cruelmente morta nas câmaras de gás no dia 9 de agosto de 1942.

Uma estrela de seis pontas

Os seis pontas de uma estrela

Mais do que a identificação de quem era judeu, podemos ver em cada uma das pontas desta estrela uma luz da sua conversão. Cada ponta desta estrela mostra um aspeto brilhante da sua vida de conversão e de santidade.

 

1ª – A família

Edith Stein era de uma inteligência fora de série. A sua mãe ensinava-lhe aquilo que nunca mais s esqueceria – “É mais importante ser boa do que ser inteligente porque ser inteligente é um simples dom da natureza, mas ser virtuosa e boa é fruto do esforço humano e da graça de Deus.”

 

2ª – A cruz

O seu amigo Adolf Reinach faleceu na Primeira Guerra Mundial e convidaram-na a ocupar a cátedra universitária. Sentiu-se feliz pelo cargo, mas temia encontrar-se com a sua viúva, porque não sabia o que dizer-lhe. No entanto, em lugar de uma mulher desesperada foi encontrar uma pessoa cheia de paz e de esperança. A jovem viúva deixou Edith muito pensativa quando lhe explicou que tirava forças da fé em Cristo crucificado que ressuscitou dos mortos. Nesse momento, concluiu mais tarde “a minha incredulidade derreteu-se e eu vislumbrei pela primeira vez a força da cruz.”

 

3ª – A verdade

Resumia o seu caminho até à conversão dizendo – “Quem busca a verdade, consciente ou inconscientemente, busca Deus.”

 

4ª – Fé como relação

Ao ler, por coincidência ou por Providência, o livro da vida, escrito por Teresa de Ávila, concluiu – “Aqui está o que eu estava à procura. Aqui está a verdade.” Até então tinha pensado que a verdade era um problema intelectual, agora descobriu que era uma questão relacional. Encontrou-se com o Deus vivo e pessoal, bom e misericordioso que a procurava e a convidava à amizade.

 

5ª – Exame de admissão

Toda a vida estudou, prestou provas, pesquisou, fez exames. Esta atitude é transversal a toda a sua vida. Ao converter-se ao catolicismo, comprou um catecismo, um missal e alguns outros livros da igreja. Depois de os ter estudado com afinco apresentou-se a um sacerdote para lhe pedir que a batizasse. O padre conhecia bem aquela mulher famosa no mundo universitário, filósofa, escritora, conferencista e também como todos sabia que era ela era judia. Disse-lhe que antes do batismo devia preparar-se para conhecer religiosamente os conteúdos da fé. Ela simplesmente pediu – Pergunte-me agora. O sacerdote não parou de se espantar pelas respostas de Edith que mostrava saber mais catecismo e mais teologia do que ele próprio. Aos 30 anos de idade, em janeiro de 1922 foi batizada com o nome de Teresa.

 

6 – A paz

O Padre Rafael Walzer, abade beneditino de Beuron, foi seu amigo e diretor espiritual desde a conversão até à sua morte. Ele definiu Edith Stein com 3 expressões: uma mulher com “uma vida interior de extraordinária simplicidade, de grande profundidade e de rara serenidade.

 

A sua consagração como monja carmelita fez brilhar de modo ainda mais intenso todas estas 6 pontas da estrela da sua vida, como lâmpada humilde nas mãos de uma Virgem Prudente.

 

Ver também:

A quase doutora da Igreja

 

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Como rezava São Domingos


3ª feira – XVIII semana comum

Memória de São Domingos de Gusmão (+1221)

Presbítero e fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos)

Cegos espirituais

O cego sente o que não vê, mas os que veem sãos cegos ao que sentem.

Há cegos do corpo e cegos do Espírito e se horrível é a cegueira do corpo, mil vezes pior é a do Espírito.

Entretanto, bem difícil, ou quase impossível é encontrar-se um cego a guiar outro fisicamente falando.

Ao passo que, no que se refere as coisas do Espírito, por toda a parte cegos guiam cegos.

Era um espetáculo ver São Domingos a rezar.

Com a sua oração ele exercitava a alma com os membros do corpo para se dirigir mais intensamente a Deus.

Encorajava a devoção alternadamente da alma para o corpo e do corpo para a alma:

- Às vezes curvava-se diante do altar e assim permanecia em adoração prolongada.

- Outras vezes orava estendido no chão, de braços abertos e rosto por terra, regando o pó com as suas lágrimas.

- Em certas ocasiões olhando fixamente para o Sacrário dobrava os joelhos repetidas vezes até mais de cem.

- De vez em quando orava mantendo-se de pé sem se apoiar ou encostar a nada com as mãos abertas diante do peito como se fosse um livro.

- Ou rezava com as mãos e os braços estendidos em forma de cruz, mantendo sempre o equilíbrio.

- Por vezes de joelhos e as mãos sobre a cabeça, juntas e ligeiramente abertas de palmas para o alto como se fosse receber algo de cima.

- Ou então sentado em silêncio com um livro na mão a ler ou com os olhos fechados como se o livro é que o lesse a ele.

 

Conclusão:

São Domingos rezava com todo o corpo, com toda a alma e com toda a vida.

Até mesmo na estrada ou em qualquer lugar, transformava um simples gesto em oração e de união a Deus. Por exemplo para afastar as moscas do seu rosto, a poeira ou o fumo dos seus olhos ele fazia apenas o sinal da cruz quantas vezes fosse necessário. Qualquer pequeno gesto, movimento ou ação da sua vida era transformada em oração. Ele não vivia, rezava. Ele não rezava, vivia.

 

Ver também:

Míopes, daltónicos e cegos

Cego a guiar cego

 

Ver ainda:

São Domingos de Gusmão

Ordem dos pregadores

 

domingo, 6 de agosto de 2023

Os degraus do Monte Tabor


Ano A - Solenidade da Transfiguração o Senhor Jesus

Deus vê as coisas
doutro ponto de vista:
Vê-as de cima!


Os três degraus do Tabor ou do monte da transfiguração

1º degrau - Subir/esforçar-se

Jesus convida a ir mais além, mas também a ir mais acima.

Custa-nos subir porque é difícil, exige muitas energias, desapegar-se de algo, separar-se ou deixar o comodismo.

Subindo transpiramos, elevamo-nos, purificamo-nos.

Foram 3 os discípulos a subir com Jesus. É a comunidade.

Quando alguém se eleva, eleva toda a comunidade.

Jesus convida-nos para subirmos para que que mostremos o nosso esforço.

Ele valoriza apenas o nosso esforço e não os nossos resultados.

2º degrau - Ver/escutar

Depois de uma ascese, os nossos olhos e o nosso coração ficam diferentes e são capazes de ver e de sentir de maneira diferente.

Não basta ver, é preciso escutar. Aliás os olhos e os ouvidos estão ao mesmo nível no nosso rosto para nos lembrar que o ver tem de ser acompanhado pelo escutar, ao mesmo nível, em igualdade de circunstâncias.

A vantagem de subir, de se esforçar é que só assim nós vemos a nós mesmos, os outros e tudo o mais de outro ponto de vista. Vimos de cima, não de maneira superior aos outros. Vemos as coisas da perspetiva de Deus, vemos como Deus nos vê.

Quando a vida não nos sorrir, é preciso subir de nível para vê-la como Deus a vê.

3º degrau - Testemunhar

É preciso subir/esforçar-se para ver/escutar do mesmo jeito de Deus. Tudo isto para que cada um possa testemunhar como os testemunhas do Monte Tabor.

Foram 5 as testemunhas oculares da Transfiguração. Representam as 5 dimensões da nossa vida e do nosso testemunho

- Com Pedro (o crente) damos testemunho da fé.

- Com Tiago (o mártir) o testemunho do nosso sacrifício.

- Com João (o contemplativo) o testemunho da nossa adoração.

- Com Moisés (as tábuas da Lei) o testemunho do cumprimento da vontade de Deus.

- Com Elias (o profeta) o testemunho da palavra que anuncia e denuncia.

Ninguém sobe ao monte para ficar para sempre lá. É preciso descer para testemunhar, para fazer eco do que experimentamos na subida ao monte dos desafios ou dos sonhos de Deus.

 

Ver também:

As estrelas da transfiguração

O nosso Monte Tabor é… a Eucaristia.

Na pregação de hoje recordei a minha visita ao Monte Tabor, na Galileia, em 2009. Para mim também foi uma bênção ter ido lá… mas terminei a lembrança dizendo que não tinha saudades de lá. Porquê?

Porque na eucaristia que celebro todos os dias, a experiência do Tabor é renovada e ampliada.

O nosso Tabor é a celebração da Eucaristia:

No Tabor os discípulos acolherem o convite de Jesus:

Sobe, Escuta e Olha

- Levantamos a Deus na Consagração, recebemo-lo na comunhão… Fazemos um esforço para estar à altura do mistério.

- Também escutamos a Palavra de Jesus…

- Também o vemos a ser-nos entregue… transfigurado.

A nossa experiência dominical é muito melhor do que a experiência dos discípulos no Tabor.

A Eucaristia é o nosso Tabor.

 

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Fez da igreja a sua casa

Memória de São João Maria Vianney, 

o Santo Cura de Ars

 

Tudo, todos, sempre, em toda a parte

Jesus percorria todas as cidades e aldeia, ensinando por todos os lados, pregando sempre e curando a todos.

Jesus veio para sempre, para ir a todo o lugar, para ensinar tudo a todos…

Ele envolve-nos nessa dinâmica.

Também podemos ir a todos os lugares, sempre, partilhando tudo e unidos a todos.

 

Serviços diversificados

A messe é grande… os serviços são diversificados, mas todos concorrem para a mesma missão.

Uns semearam, outros regaram, aqueles mondaram, estes cuidaram, aqueles, ceifaram, alguns apoiaram, transportaram, debulharam nas eiras, joeiraram…

E alguns apenas distribuíram água por estes trabalhadores. Prestaram um excelente serviço e terão a recompensa como todos os trabalhadores da seara.

O Cardeal, Fr. Raniero Cantalamessa, pregador oficial da Casa Pontifícia, deu o seguinte testemunho na última quaresma:

Tenho continuado a exercer por toda a vida o único encargo que fazia desde criança. Os meus avós maternos cultivavam um vasto terreno numa colina. Em junho ou julho, havia a colheita, toda manual, com a foice, encurvados sob o sol. Era uma fadiga enorme. Eu e meus primos éramos encarregados de levar água continuamente aos ceifeiros. É isso que tenho continuado a fazer pelo resto da vida. Os ceifeiros mudaram. Agora são os operários da vinha do Senhor, e mudou a água, que agora é a Palavra de Deus. Um encargo, o meu, muito menos fatigoso, para dizer a verdade, daquele dos trabalhadores do campo, mas também esse, espero, útil e de algum modo necessário.

O que interessa é que todos façam o que lhes está reservado na grande messe do Senhor, para que tudo concorra para o bem de todos e glória de Deus.

 

Igreja como morada

O Cura de Ars ele escolheu a igreja como sua casa. Ele entrava na igreja antes do amanhecer e só saia depois do Angelus da noite. Lá ele deveria ser procurado sempre que necessário.

A missa significava tudo para ele. Todas as boas obras, tomadas em conjunto, não equivalem ao sacrifício da Missa – ele dizia – já que são obras humanas, enquanto a Santa Missa é obra de Deus. Intimamente ligado à Eucaristia está o Sacramento da Confissão. Passando longas horas na igreja diante do sacrário, ele inspirou os fiéis a imitá-lo, vindo visitar Jesus com a certeza de que seu pároco estaria lá, pronto para ouvir e oferecer perdão.

O Cura de Ars fez da Igreja a sua casa para nos ensinar a fazer da nossa casa uma igreja doméstica.

 

Ver também:

O avesso do Evangelho

 

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

O tesouro que nos enche


4ª feira – XVII semana comum

Diz São João da Cruz que o nosso coração tem capacidade infinita. Por isso não se enche com mais nada a não ser com Deus.

Podemos ter todos os bens deste mundo, mas sentir-nos-emos vazios, se faltar Jesus.

Pode faltar-nos tudo o resto, mas se tivermos Jesus, estaremos cheios.

Que grande mistério – Só Deus é o nosso tesouro, só Ele nos pode encher.

O nosso coração é do tamanho desse tesouro.

 

Ver também:

O tesouro é que me tem

 

 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

De amigo para amigo


3ª feira – XVII semana comum

 

O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com um amigo.

Eu sempre pensei que era o contrário, que Moisés falava com Deus face a face, como quem fala com um amigo.

Deus não faz aceção de pessoas.

Ele continua a falar com cada um de nós face a face, taco a taco, olhos nos olhos, como amigo a amigo.

Ele faz isso para que nós não tenhamos medo de falar com Ele da mesma forma.

Deus falou a Moisés como um amigo fala com um amigo para que nós possamos a falar com Deus face a face, como amigo com um amigo.


Ver também:

Luzes e sombras

 

 

O jovem Leão Dehon (7)

O jovem Dehon em aventuras na Terra Santa

Os grandes dias da semana santa em Jerusalém  são mais emocionantes do que se possa dizer. 

Na quarta-feira (12 de abril de 1865) passamos a manhã em ocupações todas profanas, para fazer um favor ao vice-cônsul. Ele tinha nos braços uma questão litigiosa entre um árabe argelino e um cónego do Santo Sepulcro. 

O bom cónego acabara de morrer. Tinha emprestado, estando em vida, 4.000 francos a este argelino ao juro de 10%. Esse juro é normal neste país. O argelino pretendia pagar os juros e reembolsar 800 francos de capital.

O vice-cônsul pediu-nos que formássemos com o cônsul da Espanha um tribunal arbitral, que foi aceite pelas duas partes. Eu presidia.

Achei um começo de provas escritas quanto ao pagamento dos juros. Aceitei o juramento do devedor. Ele ficou livre dos juros, mas teve de pagar o inteiro capital. Resignou-se facilmente, pois não o tínhamos carregado excessivamente.

(Cf. NHV, 1864)