Quinto Capítulo da Primeira Biografia do Pe. Dehon em Português
Uma Obra de Deus
Um homem de 34 anos pode fundar uma
Congregação?
Quando este homem tem uma formação,
sob todos os aspetos, completa, e uma tão eloquente realização de obras, como o
Cónego Dehon (desde o ano 1876, o seu Bispo tinha-o nomeado Cónego honorário da
Sé de Soissons); quando este homem tem uma vontade assim pura e tão firme
(“Nada de humano entrou na minha decisão” (Diário)., quando sobretudo é Deus
que fala por meio dos seus servos e pela boca da Autoridade, embora de 34 anos,
um homem pode encarar com confiança o futuro ao qual inúmeros filhos iram
trazer, com veneração, aos lábios, esta palavra: Pai!
E o Cónego Dehon será pai, ou melhor
Padre (no sentido latino) Dehon do S. Coração de Jesus, desde o dia em que
iniciará o seu Noviciado, 16 de julho de 1877, depois da concessão do seu Bispo
que lhe tinha predito: “Vós quereis recoltar Padres e eu desejo um Colégio em
Saint Quentin. Podereis começar a vossa Obra, abrindo um Colégio”. E escrevia a
13 de julho: “O projeto da ‘Sociedade0 tem toda a minha simpatia; eu
ajudar-vos-ei com o auxílio que eu julgue ser da vontade de Deus; desejo que
sejais Vós quem presida à sua realização”.
D. Bosco, em Paris, assegurava-lhe: “A
vossa Obra é de Deus!”
No dia mais terrível da sua vida,
quando tudo lhe parece por terra, quando, apesar de ser Obra de Deus, a nova
Congregação dir-se-ia que encontrara a morte ainda que momentaneamente, por um
decreto do Tribunal do S. Ofício: o Fundador escreverá a Mons. Tibeaudier, seu
Bispo: “Vossa Excelência sabe que eu fundei o Instituto dos Oblatos do S.
Coração de Jesus, com o fim único de procurar a Glória de Deus. Eu só queria
alargar o Reino de Nosso Senhor, propagando a Devoção ao S. Coração e
oferecendo-lhe as Reparações que Ele pedia à sua Serva Margarida Maria.
Circunstâncias providenciais que seria longo demais, revelar aqui, fizeram-me
julgar este desejo como um chamamento de Deus. Vós sabeis quanto me animaram
homens de Deus a quem pedi conselho. Submeti o projeto a Vossa Excelência. V.
Exª. Escreveu-me a 13 de julho de 1877: “Este projeto tem toda a minha
simpatia; ajudar-vos-ei com tudo que eu julgar ser a vontade de Deus”. Comecei.
Sabe como me entreguei, todo, a esta Obra. A divina Providência enviou-me, pouco
a pouco, uns 15 sacerdotes e outros tantos Seminaristas e muitos moços que se
preparavam para as Ordens sacras. Muitos não responderam ao chamamento divino,
senão à custa de grandes sacrifícios. Eu julguei reconhecer de mil modos a
confirmação da vontade divina, tanto pelas repetidas provas que passaram por
mim e por muitos outros meus irmãos, como pelas graças extraordinárias de que
fui testemunha, e pelos encorajamentos que recebi de pessoas muito consideradas
pela ciência e pela piedade” (Diário).
Abençoado pelas autoridades, seguido
pelas orações e íntimos oferecimentos de almas santas, Pe. Dehon, finalmente,
podia começar. Juntamente a um Instituto de S. João, que ocupou tanto da sua
atividade e do seu coração, e no qual as gerações novas cresciam “à luz
resplandecente da fé, a atmosfera das virtudes cristãs e no nobre meio da
cultura tradicional” (Card. Binet, ser. Fun.), com esta sua a atividade
predileta, também a Congregação dos Oblatos do S. Coração de Jesus desabrocha
para a vida. Em 28 de junho de 1878 Pe. Dehon fazia Votos Religiosos, aos quais
juntava um especial “Pacto de Amor” que em seguida vamos reproduzir.
Em 24 de setembro do mesmo ano
inaugura-se a primeira casa do Noviciado: “Casa do S. Coração”. Muitos anos
mais tarde Pe. Dehon escreverá, lembrando este dia “Entrámos lá e celebrámos a
primeira Missa em 14 de setembro, dia da Exaltação da S. Cruz. A divina
Providência tem destas coincidências luminosas. Não era necessário que uma Obra
de Reparação se baseasse na Cruz? Quanto padeci, de todos os modos, como me foi
predito! Humilhações, doenças, pobreza, contradições… e depois perseguições,
expulsões. Fiat!” (Diário).
Mas os princípios são cheios de graças
sensíveis. Vive-se numa autêntica “atmosfera de graças, qualquer coisa que
comove a alma como os eflúvios cálidos e perfumados dos trópicos impressionam
os sentidos” (Diário). O divino e ativo silêncio de Belém e de Nazaré; a
intimidade de Betânia; a confiança e as reparações do Cenáculo. Assim se vive
numa casa onde o programa se encerra nesta aspiração: Glória, Amor, Reparação
ao S. Coração de Jesus! Assim se formam “corações que ainda não se deram e que
estejam pronto a sacrificar tudo, até a própria vida, se for preciso, para a
glória de Deus, pelo amor do seu S. Coração e pela salvação das almas; corações
que, de preferência, pertençam ao seu divino Coração, que se dediquem
inteiramente ao seu serviço, à sua vontade, ao seu amor e aos seus interesses;
que procurem poupar-Lhe qualquer desonra, qualquer ultraje e ofensa e que, pelo
menos, façam todos os esforços para consola-lo e dar-lhe satisfação” (Diário).
Agora, mais do que nunca, e primeiro
que entre todos, o Pe. Fundador poderá repetir: “Ecce Venio”: estou
pronto, Senhor para cumprir o que for de vosso agrado, estou pronto para
sacrificar tudo por vosso Amor” (Diário).
(Continua)
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