quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

História do Menino Jesus


O Natal dos Poetas (3)

 

Vi Jesus descer à terra

De Fernando Pessoa (1888-1935)

in O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro

Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

 

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

 

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

 

Um dia em que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

 

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão aos ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

 

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

O meu menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

 

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

 

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

 

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

 

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo o universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

 

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.

Porque ele sabe tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

 

Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

 

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

 

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

E para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

 

Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

 


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Do Natal à cruz

 

O Natal dos Poetas (2)


Do Natal à cruz

De João Saraiva (1866-1948)

Numas palhinhas deitado,

Abrindo os olhos à luz,

Loiro, gordinho, rosado,

Nasce o Menino Jesus.

 

Uma vaquinha bafeja

Seu lindo corpo divino

De mansinho, que a não veja

E não se assuste o Menino!

 

Meia-noite. Canta o galo.

Por essa Judeia além

Dorme os que hão de matá-lo

Quando for homem também…

 

E, pensativa, a Mãe Pura

Ouve, fitando Jesus,

Os rouxinóis na espessura

Dum cedro que há de ser cruz!


Comentário pessoal:

Sim, o Natal é lindo, mas eu prefiro a Páscoa!


 

A palavra mais bela


O Natal dos Poetas (1)


A palavra mais bela

de Adolfo Simões Muller  (1909-1989)

Fui ver ao dicionário de sinónimos

A palavra mais bela sem igual

Perfeita como a nave dos Jerónimos…

E o dicionário disse-me NATAL.

 

Perguntei aos poetas que releio:

Gabriela, Régio, Goethe, Poe, Quental,

Lorca, Olegário… e a resposta veio:

Christmas… Noel…  Natividad… Natal…

 

Interroguei o firmamento todo!

Cobras, formigas, pássaros, chacal!

O aço em chispa, o ‘pipe-line’, o lodo!

E a voz das coisas respondeu NATAL.

 

Cânticos, sinos, lágrimas e versos:

Um N, um A, um T, um A, um L…

 

Perguntei a mim próprio e fiquei mudo…

Qual a mais bela das palavras, qual?

Para que perguntar se tudo, tudo

Diz Natal, diz Natal, e diz Natal?!

 


segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Há 800 anos foi assim


Natal (74)

Em Greccio, perto de Assis, em 1223, 15 dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: quero representear o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro. Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do santo.

No dia 25 de dezembro, chegaram a Greccio muitos frades, vindos de vários lados e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco ao chegar encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes.

Depois o sacerdote celebrou a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Presépio significa manjedoura

Em Greccio, naquela ocasião não havia figuras: o presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes.

Assim nasceu a tradição – todos à vota da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério.

 

 


domingo, 24 de dezembro de 2023

Ele veio para ficar...


Natal (73)


Votos de um Natal abençoado para todos!

Que bom, Ele veio para ficar...



sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Magnificat anima mea

 

Novena do Advento – 22 de dezembro

Magnificat anima mea Dominum

 

O Cântico Evangélico de Maria, Lc 1, 46-55, pode resumir-se numa só palavra.

Qual será?

Pode resumir na expressão verbal – MAGNIFICAT.

 

Apesar de há mais de 40 anos rezar todos os dias à hora de vésperas este Cântico, nunca consigo rezar sem olhar para o texto escrito. E se algum dia não conseguir ler, vou repetir vezes sem conta essa mesma palavra e terei rezado todo o Cântico. De facto, a palavra Magnificat resume todo o Cântico.

 

E qual é a melhor tradução dessa palavra Magnificat?

- A liturgia das horas traduz por – Glorifica

- Outras traduções por – Enaltece

- Ou então – Louva

- Há também quem diga – Exalta

- E ainda – Bendiz

- E por último – Engrandece.

 

Qual a melhor expressão para expressar em português o Magnificat?

Magnificat vem do latim Magnum ou Major, isto é grande ou maior.

Então Magnificat significa Engrandecer.

De facto, quem glorifica, enaltece, louva, exalta ou bendiz, outra coisa não faz que Engrandecer.

 

Deus engrandece a nossa alma e a nossa alma engrandece a Deus.

 

Ver também:

Glorificando o Senhor

Maria subiu montanhas

 

Mandar visitas a alguém


Novena de Advento – 21 de dezembro

 

Aprendi aqui nos Açores a dizer – Mandar visitas.

Confesso que nunca tinha ouvido tal expressão que me soava a novidade ou neologismo.

Li depois nalgumas cartas de Júlio Dinis essa mesma expressão e concluí que, afinal, era uma expressão antiga.

Fui então ao dicionário e com clareza fiquei esclarecido. Entre os significados de VISITAS (nome feminino plural) consta: Saudações, cumprimentos, lembranças, saudades.

Então mandar visitas é enviar a alguém saudações ou cumprimentos.

 

Tudo isto vem a propósito do Evangelho de hoje em que Maria visita a sua prima Isabel.

Ela não manda visitas, ela vai.

Ela não precisa de intermediários, faz pessoalmente.

Ela não fica à distância, torna-se presente.

 

Palavras cruzadas

Hoje é o Dia Mundial das Palavras Cruzadas. E calha bem porque neste dia o evangelho fala de palavras e de ações cruzadas entre duas mulheres.

Trocam saudações, elogios e louvores a Deus.

Podemos ilustrar essas palavras cruzadas:

Ver também:

E partiu apressadamente

 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Quatro FIATs da revelação


Novena de Advento – 20 de dezembro

A história da criação, bem como a história da encarnação e a da nossa salvação resume-se ao último verbo do trecho do evangelho de hoje – FIAT, isto é, faça-se.

E tal como a palavra FIAT tem 4 letras, também há 4 FIATs na revelação bíblica que são as colunas fundamentais do mundo:

 

- FIAT de Deus criador – Faça-se a luz… É o FIAT da CRIAÇÃO que sai do silêncio e do vazio para a harmonia das criaturas.

- FIAT de Maria com o Espírito Santo – Faça-se segundo a tua palavra… É o FIAT da ENCARNAÇÃO. É o milagre do Verbo de Deus habitar entre a humanidade.

- FIAT de Jesus – Faça-se a tua vontade e não a minha… é o FIAT da REDENÇÃO que se opera na paixão, morte e ressurreição de Jesus. É o centro da criação e redenção.

- FIAT dos cristãos – Faça-se a vossa vontade assim na terra… É o FIAT da nossa salvação, o nosso FIAT. É o centro da vida e da Igreja.

É contemplando o FIAT da Criação, da Encarnação e da Redenção que aprendemos a dizer e a viver o nosso FIAT na oração ou união a Deus.

 

Façamos da nossa vida um FAÇA-SE, FIAT, à imagem e semelhança de Deus Pai, Filho e Espírito Santo a exemplo de Maria.

 

Ver também:

Desceu para fazer subir

 

Zacarias = Deus se lembra


Novena de advento – 19 de dezembro

Zacarias, que significa “Deus se lembra” – porque Deus tem misericórdia.

Deus tem ouvidos atentos – escuta as preces e súplicas

Deus tem os olhos abertos – Deus vê as nossas necessidades porque vê com os olhos do seu coração

Deus tem memória – porque nunca se esquece

Deus tem relógio, nunca se atrasa – nós é que somos apressados

Deus é rico e generoso – dá sempre mais do que nós merecemos ou esperamos. Zacarias pediu na juventude um filho e Deus deu-lhe na velhice mais do que filho, deu-lhe um profeta, um precursor, uma voz que clama do deserto – alguém sem rival entre os filhos nascidos de mulher.

De facto, este episódio do evangelho, mais do que falar de Zacarias, fala do seu Deus que nunca se esquece e que faz jus ao nome de Zacarias – Deus se lembra.

 

À margem

Estava a refletir sobre o velho Zacarias e a resposta ao seu pedido de ter um filho.

Pensava que essas súplicas teriam ocorrido na pujança da sua vida e que depois de uma certa idade teria deixado de pedir, pois a idade já não lhe permitia ter um herdeiro com Isabel sua esposa de idade avançada.

Pensava eu que Deus lhe dera um filho quando ele deixou de pedi-lo. Mas não. Como homem de fé, Zacarias nunca deixou de pedir. Mesmo na velhice continuou a pedir apesar de ter aumentado as hipóteses de não conseguir, pois a Deus nada é impossível.

 

Ver também:

Zacarias ficou mudo

A resposta de Deus

 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Despertando como São José


Novena de advento – 18 de dezembro

Em geral não associamos a figura de São José às personagens típicas do Advento, como Isaías, João Baptista, Maria, ou até mesmo Zacarias… O evangelho deste dia 18, da última etapa do advento, apresenta-nos São José como alguém que se preparou, disponibilizou e colaborou com o projeto de Deus em ordem à vinda do Filho de Deus no mistério do Natal.

Podemos contemplar as suas virtudes principais neste processo para copiarmos na nossa vida enquanto aguardamos a vinda do Senhor:

 

1. Prontidão – A primeira virtude que nasce da fidelidade de São José é a prontidão. Ele está presente e disponível, sem oferecer obstáculos aos projetos divinos, mesmo quando não compreende esse mistério.

2. Paciência – A segunda virtude que se desenvolve com a fidelidade de São José é a paciência. São José é um protótipo do homem forte e silencioso. Ele olha e espera silenciosamente.

3. Prudência – A terceira virtude erigida sobre o alicerce da fidelidade de São José é a prudência, que consiste no discernimento sábio e cuidadoso que nos permite escolher o caminho certo.

 

Ver também:

São José dormindo

 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

O poeta da noite escura


Memória de São João da Cruz, 1542-1591

Presbítero e Doutor da Igreja

A – São João da Cruz estando preso era livre.

Toledo, 3 de dezembro de 1577. Noite cerrada. Um frade chamado João da Cruz foi levado à força para o convento carmelita. Ele estava com os olhos vendados. Esperam-no oito meses que serão morte e vida para ele. Ali, numa cela de 2,70 por 1,60 metros, sem janela, com duas mantas velhas e o imobiliário reduzido a um banco, pão e água duas vezes ao dia, jejum obrigatório três vezes na semana, açoitado regularmente batido até abrir a carne das costas, nasceu o maior poema de amor de todos os tempos: o Cântico Espiritual. Na prisão esteve livre, por isso escolheu cantar e amar.

 

B – A Chama do Amor Vivo

São João da Cruz escreveu para ensinar a percorrer o caminho de seguimento de Cristo e ultrapassar as dificuldades desse caminho. Na Chama de Amor Vivo descreve as etapas ou fases do amor de Deus em nós:

1- Não basta saber que Deus te ama, é preciso sentir que Deus te ama. É preciso experimentar esse amor.

2- Sabes que te ama sem algum interesse, sem esperar nada em troca, não porque tu o mereces, mas porque ele é bom e generoso.

3- Descobres que o seu amor te une e iguala a ele, faz-te participante na sua vida e glória.

4- Descobres o verdadeiro nome de Deus – Javé – Eu sou para ser teu e para ti e gosto de ser tal como sou por ser teu e para dar-me.

 

 

C – Embora seja noite

Poema de São João da Cruz que a Liturgia das Horas propõe para hino do Ofício de Leitura de sábado do tempo comum.

 

Bem eu sei a fonte que mana e corre

Embora seja noite

 

Aquela eterna fonte não a vê ninguém

E bem sei onde é e donde vem,

Embora seja noite.

 

Não sei a fonte dela, que não há

Mas sei que toda a fonte vem de lá,

Embora seja noite.

 

Não pode haver, eu sei, coisa tão bela

E terra e céus beleza bebem dela,

Embora seja noite.

 

Porque não pode ali o fundo achar,

Sei que ninguém a pode atravessar,

Embora seja noite.

 

A claridade sua não escurece

E sei que toda a luz dela amanhece,

Embora seja noite.

 

Tão caudalosas são suas correntes

Que regam céus, infernos e as gentes,

Embora seja noite.

 

E desta fonte nasce uma corrente  

E bem sei eu que é forte e omnipotente,

Embora seja noite.

 

Das duas a corrente, que procede

Sei que nenhuma delas a precede,

Embora seja noite.

 

E esta eterna fonte está escondida

Em este vivo pão a dar-nos vida,

Embora seja noite.

 

Aqui está a chamar as criaturas

Que bebem desta água e às escuras,

Porque é de noite.

 

Esta viva fonte que desejo,

Em este pão da vida, aí a vejo,

Embora de noite.

 

D – Ver também:

Prisioneiro, mas livre

Santo, Poeta e Místico

 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Deus, o pastor e o rebanho


3ª feira – II semana do advento

Não é da vontade de Deus que se perca um só destes pequeninos.

O povo de Israel aprendeu a reconhecer a Deus vendo o humilde, fatigante e difícil trabalho do pastor, como se expressa no Salmo 22, O Senhor é meu pastor. Observando este antigo protagonista das economias nómadas, compreendeu melhor a gramática da Aliança, aprendeu algo mais da natureza do seu Deus diferente, sem imagens e com nome impronunciável. Não olhou para os reis, os faraós, os homens poderosos do povo; pelo contrário, conheceu Deus olhando para o trabalho humano, observando, até nos mínimos pormenores, a ação de um trabalhador, com o cheiro das ovelhas às cavalitas, empoeirado, analfabeto, pobre de língua. Recorda-nos que aprendemos quem é Deus, observando os homens, porque é precisamente na vida concreta dos seres humanos que Deus se nos revela.

Por isso sempre que não soubermos identificar a Deus, podemos olhar as pessoas que trabalham e aí reconhecer os traços divinos.  Jesus, integrado nesta escola humana e laboral, aponta para a analogia entre a profissão de pastor e o seu Deus. E assim a metáfora do pastor torna-se a imagem de Deus que nunca falta, mesmo quando uma ovelha se encontra perdida.

 

Ver também:

Um pastor perdido de amor

 

 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Mil anos aos olhos de Deus


Ano B – II domingo do Advento

Do Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor”.

É a mensagem do Profeta Isaías (Is 40, 3-4) que se faz eco em todos os evangelistas – Mt 3, 1-3; Mc 1, 1.4; Lc 3, 3-6; Jo 1,19-23.

O Evangelho segundo São marcos começa precisamente com este apelo, o que mostra a importância que era dada à profecia de Isaías. Advento é tempo de expetativa e de preparação para a vinda do Senhor. E tempo de esperança e de conversão.

 

Como segunda leitura tivemos 2Pe 3, 8-9:

“Há uma coisa, caríssimos, que não deveis esquecer: um dia para o Senhor é como mil anos e mil anos, como um só dia. Não é que Senhor Tarde em cumprir a sua promessa, mas simplesmente usa de paciência para convosco…”

 

De facto, Deus chegou ao mundo, pacientemente, por meio de Maria.

Ele podia chegar de improviso, assim de repente apresentar-se de imediato aos homens. Preferiu nascer na plenitude dos tempos…

Não é Deus que se atrasa, nós é que somos impaciente.

Então neste Advento espera, mas não fiques só à espera. Espera, mas não fiques parado. Que o teu tempo seja tempo seja tempo de Deus.

As contas de Deus

Façamos então as contas da Sagrada Escritura:

1 dia (24 horas) = 1000 anos (portanto cada ano aqui na terra corresponderá a 365.000 anos para Deus).

1 hora = 42 anos (portanto cada 1 minuto corresponderá cerca de 1 ano e meio aos olhos de Deus).

 

Se eu faço 1 hora de adoração, para Deus corresponde a 42 anos.

Se eu rezar durante 5 minutos, para Deus corresponde a 7 anos.

 

As contas da nossa vida

Fazendo as contas ao contrário:

Deus deu-me já 65 anos de vida aqui na terra, portanto, aos olhos de Deus tem o valor de 23.725.000 anos.

 

As contas da criação

6 dias levou Deus a criar o mundo e ao sétimo descansou.

Mas cada dia de Deus é como mil anos.

Deus criou o mundo em 6 mil anos.

 

As contas dos Salmos

“Mil anos a vossos olhos

São como o dia de ontem que passou

E como uma vigília da noite.” (Sl 89,4)

 

Um dia em vossos átrios

Vale por mais de mil.

Antes quero ficar no vestíbulo da casa do meu Deus

Do que habitar nas tendas dos pecadores.” (Sl 83, 11)

 

Ver também:

Uma história de Advento

Preparados e prevenidos

 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Aprovação definitiva


Memória histórica dos dehonianos

5 de dezembro de 1923

Aprovação definitiva das Constituições SCJ

Foram aprovadas definitivamente as nossas Constituições, adaptadas ao novo Direito Canónico, promulgado por Bento XV, como consta nas Atas do Conselho Geral de 24 de julho de 1923. Faltava apenas a assinatura do Papa Pio XI. Tal aconteceu a 5 de dezembro de 1923.

As Constituições foram impressas em 1924, em Lovaina, e promulgadas a 27 de junho de 1924, festa do Sagrado Coração de Jesus.

Anota o Pe. Dehon no seu Diário: “5 de dezembro: o Santo Padre assinou a aprovação definitiva das nossas Constituições. É o resultado de 45 anos de esforços e de trabalho no meio de mil dificuldades e contradições” (NQ 44/136).

E em maio de 1924 escreve: “As nossas Constituições estão impressas, e vou promulgá-las. São o resultado de quase meio século de trabalho para organizar a Congregação. Foi Nosso Senhor que fez tudo para a obra; eu fui sobretudo um obstáculo e várias vezes pus tudo em perigo. Todos os dias rezo o “Miserere” (NQ 44/144).

Pensamento do Pe. Dehon: “As nossas novas Constituições vão entrar em vigor. A Santa Sé nada mudou nas primeiras páginas que indicam o fim e o espírito da obra. É que a Igreja pensa que o fundador recebeu a graça de determinar essas coisas. Recebeu de Nosso Senhor as luzes necessárias. A fundação faz-se por inspiração divina” (NQ 44/146).


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

O sonho do profeta Isaías


2ª feira – I semana do advento

Da 1ª leitura:

Converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices.

Eu pensava que o sonho de Isaías fosse dar cabo das espadas e das lanças, destruir todas as armas, eliminar os guerreiros e vencer os adversários.

Mas não.

Para haver paz é preciso transformar e não eliminar.

Isto é conversão, transformação, mudança de vida.

Do Evangelho:

A humildade e a fé do Centurião.

Ter fé é ser humilde.

A fé faz crescer a humildade.

A humildade é filha da fé.

Onde há fé há humildade.

E onde há humildade há fé.

A fé é mãe da humildade.

 

Ver também:

Batendo à minha porta

Uma palavra e serei salvo

Profecia de Isaías