sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Educação cristã e virtudes da infância (II)


               O que disse da fé e da piedade, quero dizê-lo do afeto e das qualidades do coração; a educação cristã é a mais apropriada para os fazer florir, sobretudo quando é dada por homens consagrados a DEUS. A criança chega ao colégio com um coração largamente aberto. A família e sobretudo a mãe desenvolveram nela esta capacidade de amar. Só deseja poder expandir-se. Toda a arte da educação cristã consistirá em não propor a esta atividade servir objetos legítimos e santos. Quão belo é o coração que só abraça na terra a virtude e a ciência, a Igreja e a pátria, a família e as santas amizades!
               Mas o afeto só se deixa guiar pelo afeto, e para que um mestre possa dirigir o coração da criança, é preciso primeiro que conquiste este coração amando-o como o fazem um pai e uma mãe. Esse afeto, paternal e maternal ao mesmo tempo, onde encontrá-lo, fora da família, mais seguramente a não ser no coração daqueles que bebem diariamente da fonte onde se alimentou um são João apóstolo, um santo Agostinho e um são Francisco de Sales, um são Vicente de Paulo? Quem poderá substituir este fogo sagrado? Será o sentimento do dever que obriga todo o educador a amar? Mas o dever é austero e frio, e as suas obrigações abstratas não podem substituir o calor da caridade. Será o interesse bem entendido que manda o mestre educar bem, isto é educar com afeto as crianças que lhe são confiadas? A criança não saberá distinguir este afeto interessado da inimitável caridade? Será a bondade natural? Será A criança é naturalmente amável. Sim, até à hora do capricho ou da paixão nascente. Pais e mães, encontrareis só nos corações unidos estreitamente ao coração do Redentor alguma coisa que imita e reproduz, diante dos vossos filhos, a paixão da dedicação e do sacrifício que consome os vossos.
               Abramos o nosso livro de ouro e tomemos, a este respeito, esta afeição enobrecida pela fé.
               Estes corações são ardentes, têm afeto suficiente para expandir por sua vez sobre os seus pais, mestres, colegas, sobre os pobres.
               Um, depois do regresso às aulas, escreve à mãe: “Como te peço perdão pelos incómodos que te causei durante as férias! Como me arrependo! Vou esforçar-me por ter boas notas, a fim de te fazer cada vez mais feliz e fazer-te esquecer as minhas faltas. Quando penso nisto, o coração sangra-me. Não podes imaginar como o meu coração se desfaz só ao pensar que te desgostei. Como quereria penitenciar-me por esta loucura momentânea! Como lamento! Lamento sobretudo a tristeza!” – E tratava-se somente de uma ligeira desobediência.
               Outro tinha adquirido o comovedor hábito de nunca ir para a cama sem antes ter recebido a bênção dos seus pais. “Uma noite, conta ele, como a minha mãe, descontente comigo durante o dia, tinha recusado abençoar-me e se tinha furtado às minhas impertinências retirando-se para o quarto, ajoelhei-me à sua porta chorando lágrimas quentes e suplicando que voltasse. Perto das duas horas da manhã, vendo que eu soluçava em vão e sentindo que a minha glândula lacrimal ameaçava secar, recorri, para conseguir que se abrisse a nova Sésamo, a um procedimento pouco vulgar: juntei todas as cadeiras da sala de jantar e, depois de as ter disposto como obstáculos de pista de corrida, entreguei-me a um exercício de ginástica tão barulhento que depois de um quarto de hora de exercício a minha mãe apareceu cheia dum medo que logo se transformou num riso irreprimível. Quem ri, diz o provérbio, já perdoou; pude assim deitar-me às três horas da manhã, com a sua bênção que consegui com o suor do meu rosto, e mudando a sentença: “Mais vale tarde do que nunca”, noutro da minha lavra: “mais vale de madrugada do que nunca.” É um facto, original sem dúvida, mas que revela bem um coração, não é verdade?
               Outro escrevia à irmã mais velha: “Eu esforço-me, sou muito ajuizado, mesmo assim tive notas baixas que bem mereci, mas somente por causa de pequenas misérias. Se isto não causasse tanta pena aos meus pais, eu facilmente me consolaria, mas quando penso que vão sofrer e sentir-se infelizes, não posso deixar de sentir uma profunda aflição. Isto não passou de um descuido, de pouco de distração. Ah! Se eu pudesse receber outro castigo, não importa qual, para evitar este desgosto aos nossos bons pais!... Se eles vão pensar que sou ingrato… Tudo isto me acabrunha, já não aguento mais… Tu vais talvez dizer-me que fico demasiado triste por tão pouco. Sem dúvida que é pouco, e no entanto é tudo, pois causa desgosto aos meus queridos pais”.
               De um outro, leio este simples pormenor: “Nunca deixou sem responder nenhuma das cartas vindas da família durante os sete anos dos seus estudos”.
               Estes são os factos que dizem o que valem os corações. Devo acrescentar, todavia, que estes corações, tão ardentes de amor filial, me pareceriam cristãmente imperfeitos, se não os visse transbordar de um afeto análogo pelos seus mestres.
               Prossigamos a nossa investigação. Cá está um bilhete escrito depois de um dia de mau humor: “Caro professor, como deve ter sofrido hoje! Como fui ingrato para consigo, não é? Desgostei a Nosso Senhor ao mostrar-me tão pouco ajuizado. Mas o divino Mestre é tão bom! Ele já me perdoou, estou certo, as minhas negligências, e ouso dizer… o meu orgulho. Mas depois do perdão do Senhor falta o do professor. Este ser-me-á também concedido, assim espero. Cheio de confiança, atrevo-me a escrever-lhe estas palavras para lhe mostrar que se o desgostei, estou arrependido. Não voltará a repetir-se outro dia, não é?, em que esta má cabeça torne a fazer das suas. Reze por mim, para que o orgulho saia do meu coração e eu seja doravante mais digno do seu afeto”.
               O segredo destes laços, vê-se numa carta de um aluno novato à sua mãe: “Dou graças ao Bom Deus por me ter colocado em tão excelente casa. Os professores não são duros como nos outros colégios: longe de desprezar os alunos, mostram-nos afeto, e até se juntam aos nossos jogos… Asseguro-vos, minha mãe, que me encontro bem, que só tenho pena de estar longe de si”.
               Mas aqui está o que é mais característico; a carta de um estudante de direito em excursão de férias: “Adivinhai, minha mãe, estou quase louco de alegria no momento em que lhe escrevo. Porquê? Dou-lhe cem por cento de tudo o que quiser. Adivinhe? – Não? – Estou muito longe de si, e todavia salto de satisfação. Para não a fazer esperar mais tempo a revelação do enigma, digo-lhe que vou rever o colégio onde fui educado. Esta querida casa que deixei, há já tanto tempo, vou tornar a vê-la daqui a algumas horas. Poderei voltar a passear pelas suas alamedas que foram tantas vezes testemunhas das minhas brincadeiras! Com o coração a palpitar vou ver a sala de estudo onde trabalhei, as salas de aula onde triunfei, a capela onde gozei instantes de uma alegria tão doce e tão pura!”. No dia seguinte, depois de ter aberto o seu coração numa alegre narração, acrescentava: “Fiquei satisfeito não só pelos meus colegas como também pelos meus antigos mestres; todos aqueles que ainda me conheceram mostraram-me o apego mais terno. Ao despedir-me derramei lágrimas. Como gostaria de voltar a fazer esta viagem de tempos a tempos! Parece-me que isto retemperaria a minha alma.”
               Da caridade para com os pobres, direi apenas uma palavra. Só as casas de educação cristã conhecem as associações de caridade com a visita às famílias e os pequenos sacrifícios feitos diariamente em seu favor.
               Pais e mães de família, dizei-me, não gostaríeis de ver os corações dos vossos filhos numa semelhante lista?


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Educação cristã e virtudes da infância (I)

QUARTO DISCURSO
ACERCA DA EDUCAÇÃO CRISTà
E DAS VIRTUDES DA INFÂNCIA

Discurso pronunciado na distribuição de prémios do Instituto São João, a 4 de Agosto de 1880. V. “A Semana Religiosa da Diocese de Soissons e Laon”, 7º Ano, 1880, p. 556, Distribuição de prémios e pp. 588-589, Instituto São João, de São Quintino. 4º Discurso “Acerca da Educação Cristã e das virtudes da Infância”, in “A Educação e o Ensino Segundo o Ideal Cristão”, pp. 321-335 do IV Volume das Obras Sociais do Pe. Leão Dehon, Edizione CEDAS (Centro Dehoniano Apostolato Stampa) – Andria, 1985.

               Monsenhor,
               Pais e mães de família,
               Meus filhos,

               Todos os anos por esta altura, encontramo-nos reunidos. Se auscultarmos as palpitações do nosso coração, é sempre com uma doce e alegre emoção. A natureza e a graça conspiram harmoniosamente para criar misteriosos laços entre o bispo, os pastores, os pais, os mestres e os alunos. Mais ou menos conscientemente, formamos um todo. Há entre nós atractivos divinos: de um lado a confiança e o amor filial, e do outro ternura, solicitude e bênçãos, doce conjunto em que o afeto é o nó, em que o respeito marca a ordem, e em que a fé, ajudada pelo sentimento da arte, se compraz em contemplar a beleza ideal.
               Nos anos anteriores V. Excia. Revma. estava ausente de corpo, mas presente em espírito e de coração, como se dignou escrever-nos. Este ano, está no meio de nós, por isso a festa não é sem tristeza e a alegria sem reserva.
               Mas, este encontro anual, que objetivos tem? Encontrar-se, faz bem; sentir o bater dos corações em união com os nossos, consola e fortifica; unir as mãos dos pais espirituais com as dos pais segundo a natureza para coroar estas crianças bem-amadas, é bom; mas não é tudo.
               No espaço dum ano, mais do que um golpe foi desferido contra o laço que nos une. O erro e a ignorância tentaram rompê-lo. Este laço encontra toda a sua força, pais e mães, na confiança que depositais no ensino cristão. Quantas vozes em cada ano tendam abalar em vós este sentimento! O ataque é constante na sua energia e variado na sua forma. Nós aproveitamos a ocasião destas festas anuais para dispersar as nuvens que os inimigos ergueram; proclamamos juntos a nossa fé e reanimamos o nosso entusiasmo.
               Há dois anos, a palavra de ordem era: A religião é o obscurantismo. Nós arregaçámos as mangas e dissemos: A religião é a luz das letras, das ciências e das artes.
               O ano passado, a hipocrisia ousava dizer-nos: Vós não sois patriotas. Nós abrimos as páginas da nossa história e dissemos: Vede, a religião na França chama-se Genoveva de Paris, Joana d’Arc, Carlos Martel, Bayard, Duguesclin, Condé; e nestes últimos tempos, os soldados saídos das nossas escolas religiosas não salvaram a honra derramando o seu sangue mais abundantemente que os demais, a quem não negamos, no entanto, o pleno direito de se dizerem patriotas?
               Este ano, não vos parece que uma imprensa nas garras da mentira tentou privar a moral do cristianismo da sua auréola celeste? O logro é grosseiro, sem dúvida, só pode enganar os cegos. Todavia é CRISTO e a Igreja nossa mãe que foram atacados. A título de reparação, exaltemos sob qualquer um destes seus aspetos a santidade cristã. Disse-se até nas altas esferas: A moral cristã é imperfeita e a Educação cristã não forma para a virtude. A provocação não nos apanha desprevenidos, estamos prontos para responder a isso.

I

               A nossa tese é esta: As virtudes da infância encontram na fé e na educação cristã uma base sólida e um crescimento maravilhoso.
               Formulada desta maneira, esta afirmação entra no plano da grande apologia cristã; é como que a primeira página e a mais graciosa. É a verificação na infância e na educação cristã do grande ato da restauração universal por CRISTO. CRISTO engrandeceu tudo: Letras, ciências, artes, pátria, família. Ficaria apenas a infância fora desta exaltação? Não. Contemplai os sublimes quadros que desenvolveram através dos séculos, os mestres do pensamento cristão; chamam-se essas obras capitais “Cidade de DEUS”, “Génio do Cristianismo”, “Defesa da Igreja católica”, “Progresso por CRISTO”, nelas encontrareis sempre aquela cena sedutora que é a infância cristã revestida de amabilidade, pureza, doçura, força, modéstia. É para este retrato que eu quero atrair os vossos olhares. Ele é duplamente atraente, porque é o ideal sob o qual gostais de contemplar estes entes queridos pelos quais os vossos corações de pais e de mães palpitam hoje com tanta emoção.
               Sejamos consequentes para alcançar as convicções. Diremos primeiro aquilo que nos parece ser a perfeição na infância. Veremos depois se os princípios da educação cristã são adequados para a realizar. Procuraremos saber por fim se os factos bem conseguidos são apropriados para provar que esses princípios produziram aquilo que deles se podia esperar.
               Quais são os traços mais acentuados deste ideal de beleza? É bela, não é verdade, a criança prostrada diante de Deus, semelhante ao anjo da oração! É bela perto da sua mãe ou daqueles que partilham com ela o privilégio da ternura e da dedicação, quando o afeto brilha no seu rosto, quando os seus lábios o expressam, quando o seu olhar o pinta e ele transborda do seu coração! É bela a criança que se inclina diante de tudo o que representar DEUS: pai, mãe, educador ou ministro do altar: o respeito na criança, é a ordem, e a ordem é um raio da beleza. É belo o adolescente quando, diante do livro, que contém a ciência que ele ambiciona, a sua cabeça ligeiramente enrugada anuncia o esforço vitorioso do obstáculo! É belo o jovem que traz nos seus traços já viris a marca da energia consciente da sua força! A todos estes traços, acrescentai o da pureza, quer se trate da candura da infância inocente ou do encanto da frescura mantida apesar das lutas até chegar à maturidade.
               Tais são, não é verdade, as principais características desse ideal que procuramos. A piedade, o amor, o respeito, o trabalho, a energia e a pureza são como reflexos ou perfumes desta flor celeste que é a juventude virtuosa preservada do contacto das corrupções da terra.
               São os princípios da educação cristã capazes de realizar este ideal? Para o primeiro traço que descrevemos, a resposta é fácil. Gostamos de ver a criança inclinada diante do seu Criador, oferecer-Lhe, com as suas filiais adorações, as ternas efusões da sua confiante oração e do seu puro afeto. Quem a conduzia melhor do que a educação católica? Ela desenvolve a sua fé ao mesmo tempo que a sua razão. Ela inicia-a bem cedo no seu culto, integra-a nas suas festas, prepara-a para o angélico festim da Eucaristia, e ao mesmo tempo revela-lhe progressivamente os motivos e a razão da sua fé. Ela possui desde o princípio, e sem disso ter consciência, as riquezas da razão e da fé postas ao seu alcance pela educação cristã. A sua razão, desenvolvendo-se, ilumina o ensino que recebeu e justifica a autoridade que lho deu. A sua inteligência coloca novamente, e desta vez com plena liberdade, a sua alma aos pés do seu Deus. A sua fé sente-se apoiada na fé deste mundo de almas que começaram pelo grupo dos Apóstolos e que abarca hoje os dois hemisférios. Ouve atrás de si o testemunho de quinze milhões de mártires; verifica que a afirmação da sua mãe e dos seus mestres está em conformidade com a afirmação da ciência e do génio, com a afirmação dos Agostinhos, dos Jerónimos, dos Anselmos, dos Tomás de Aquino, dos Bossuet e dos Fénelon que se sucedem desde há vinte séculos. Remonta até à afirmação divina dada pelo Verbo de DEUS confirmada pelas suas obras e que desce novamente do Verbo de Deus aos seus mestres e à sua mãe pela sucessão dos pontífices e pela hierarquia da Igreja. Nunca duvidou, não duvidará jamais, e a sua fé é eminentemente razoável. E o seu amor vive desta fé, e a sua vida é uma comunhão sublime com o seu Deus.
               Correspondem os factos aos princípios? Encontramos de facto nas casas de educação francamente cristãs estes anjos da terra cuja piedade sincera é um traço desta beleza ideal que nos encanta? É preciso descer da teoria à história. Temos nós dados que nos forneçam argumentos sérios? Seja-me permitido antes de mais nada observar que um princípio de conduta proposto a inteligências livres e a corações apaixonados, nunca será posto em prática em toda a sua plenitude nem por todos aqueles a quem foi revelado. A Igreja, para justificar a santidade e a fecundidade da sua moral, apenas precisa de provar que o seu ensino só produz santos, mas apenas que os produz sempre, e que cada época pode mostrar aqueles que, souberam elevar-se a um grau heroico se as virtudes que a maioria pratica menos perfeitamente e que alguns até desconhecem. Não provou a sua santidade, quando nos apresentou por exemplo os seus Francisco Xavier, levando aos reinos de um outro continente a civilização cristã; as suas Teresas e as suas Joanas de Chantal, fazendo transbordar a virtude dos seus claustros até à sociedade mundana, à nobreza e à corte; e os Vicente de Paulo, levando ajuda a todas as misérias e a todas as indigências? A Igreja tem esta honra e não a partilha com nenhuma outra doutrina. Nem as igrejas separadas, nem o livre-pensamento escreveram a vida dos seus santos, o que nos leva a crer que não contam com um grande número deles.
               Temos nós algum testemunho análogo para provar a influência da educação cristã nas virtudes próprias da infância? Eu creio e quero que julgueis.
               Não há nenhuma das nossas casas de ensino, eclesiásticas ou religiosas, que não tenha o que se poderia chamar o seu livro de ouro onde estão registados esses gloriosos testemunhos de virtude, e eis como. – Todas as casas de educação têm por vezes a dor de perder alguma das suas crianças, prematuramente apanhada pela morte, desde logo o segredo destas vidas colhidas em flor pertence por assim dizer à história. Se essa vida foi semeada de virtudes mais que ordinárias, e se os mestres dessa casa prezam a edificação dos seus discípulos, vem-lhes à ideia recolher estas recordações amáveis que imortalizam assim essas vidas que a morte quis truncar. Quis colecionar aquilo que chamarei as flores de gracioso canteiro da infância. Contam-se por centenas as variedades, não só esparsas em curtas biografias, como também reunidas em volumes. Pois bem! Devo confessar que não as encontrei fora das casas cristãs, tal como também não encontrei vidas de santos fora da Igreja católica. Para mim, este testemunho está acima de qualquer contestação. E se encontro nestas informações o perfume destas virtudes que procuro, sinto-me autorizado a concluir que estas virtudes reinam nestas casas, e que é só lá, ou lá principalmente, que se deve procurá-las. Façamos uma aplicação imediata. Eu disse que os princípios da educação cristã são capazes de produzir nas crianças esta primeira manifestação da virtude que é a piedade para com Deus e pergunto se a prática corresponde à teoria. Bem! As notícias a que me refiro estão cheias de testemunhos como este (Estas passagens são extraídas das notícias publicadas pelos colégios eclesiásticos ou de Congregações de Besançon, Nîmes, Toulouse, St.-Acheul, Poitiers, etc.): “Admirei muito a sua piedade, e penso nunca ter encontrado uma criança que soubesse rezar melhor; a sua atitude era já uma oração”. – “A sua piedade era sincera, sem sombra de afetação; mais de uma vez, aqueles que tinham cada dia debaixo dos olhos este espetáculo, foram surpreendidos pelo seu porte modesto, e pela sua atitude recolhida”. – “Observei muito este jovem na capela: tínhamos lá um santo”. – “Ele era piedoso, mas sem ostentação, nem sombra de respeito humano. Eu vejo-o ainda de braços em cruz, os olhos docemente baixos, respondendo às orações com sua voz nítida e pausada”. – “Muitos asseguraram que junto dele na igreja, nunca deixaram de ser tocados pelo seu recolhimento e pelo seu fervor.”
               Vós pensais que só descrevi uma destas crianças de elite; é um erro. Nestas poucas linhas, fiz passar diante dos vossos olhos cinco, e se fosse necessário uma centena, encontrá-la-ia. Mas este assunto, penso eu, é menos contestado; Vamos em frente.

transbordar o amor

5ª feira – XXIII semana comum

A explicação do evangelho de hoje é feita por duas santas homónimas, ambas carmelitas, ambas místicas, ambas doutoras da Igreja: Teresa de Ávila e Teresinha do Menino Jesus.

a) Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam…
Citando Chersterton, Teresinha do Menino Jesus lembra que Deus nos manda amar o nosso próximo e o nosso inimigo porque, na maior parte das vezes, são uma e a mesma pessoa.
Também Teresa de Ávila dava graças a Deus a ter livrado de si mesma… pois achava-se a pior inimiga de si mesma.

b) Se amais aqueles que vos amam, que agradecimento mereceis?...
Explica Teresinha do Menino Jesus: E não basta amar, é preciso prova-lo.
Não há alegria comparável à que saboreia o verdadeiro pobre de espírito.
Deixai também a capa àquele que vos quiser ficar com a túnica.
Deixar a capa é, parece-me, renunciar aos seus últimos direitos, é considerar-se como a serva, como a escrava dos outros. Quando se deixa a capa é mais fácil andar, correr; por isso Jesus acrescenta: se alguém vos obrigar a andar mil passos andai com ele mais dois mil.
Assim, não basta dar a todo aquele que me pede, é preciso ir ao encontro dos desejos, mostrar-se muito reconhecida e muito honrada por prestar um serviço; e, se levam uma coisa do meu uso, não devo mostrar que o lamento, mas pelo contrário, parecer contente por me ver livre dela.

c) A medida que usardes com os outros será usada também convosco: deitar-vos-ão uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar.
Eu reparo apenas que a medida de amor tem 4 atributos:
É uma boa medida, isto é, cheia de bondade
Medida calcada, isto é, completa e bem preparada
Medida sacudida, isto é, generosa e gratuita
Medida a transbordar, isto é, inesgotável e eficaz


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Erguendo os olhos



4ª feira – XXIII semana comum

Naquele tempo, Jesus, erguendo os olhos para os discípulos, disse: Bem-aventurados vós…

Não é por acaso que o evangelista diz que Jesus ergueu os olhos para os discípulos quando proclamou as bem-aventuranças. Jesus fez isso não apenas por, segundo a tradição, estar sentado e os discípulos à sua volta…

Então que quer isto dizer?

- Quer dizer que Jesus olha para quem fala. Ele dirige a sua palavra a pessoas concretas, a quem fixa o seu olhar. Ele não fala para gente anónima, sem rosto… Fala sim para gente concreta. A sua palavra é direcionada às pessoas que .
- Jesus ergue os olhos para os seus discípulos… Ele primeiro olha e depois fala. Fala porque viu antes. A primeira pregação é através do olhar. Jesus prende a si primeiro através do olhar.
- Jesus olha os seus discípulos nos olhos, pois os olhos são as janelas da alma. Ao olhar está a abrir a sua alma ao outro e está a abrir para si as almas dos outros.
- Jesus olha os seus discípulos porque conhece-os bem. Ele fala de uma realidade íntima, de algo profundo, pessoal. Ele olha porque confia, porque abandona-se ao outro, olhos nos olhos com toda a franqueza.
- Finalmente Ele olha porque quer ver as duas imagens que cada um ostenta: a imagem da sua situação (bem-aventurado os pobres, os que choram…) e também o futuro ou aquilo que Deus quer que sejam (porque terão o reino dos céus, porque alegrar-se-ão…). São as duas imagens: uma do desígnio de Deus ou da sua vontade e a outra a da realidade concreta e existencial de cada um.

Não nos esqueçamos que Jesus também olha para nós:
- porque nos fala como pessoas concretas
- porque aprendemos melhor com os olhos
- porque através dos olhos entramos na alma
- porque somos seus amigos íntimos
- porque quer que façamos coincidir as duas imagens: da sua vontade e da nossa situação concreta.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sou porque somos


3ª feira - XXIII semana comum

Jesus escolhe 12 apóstolos: todos iguais, todos diferentes.
Uns casados, outros solteiros.
Um pronto para trair, outro para negar.
Uns pescadores, outro cobrador de impostos ou médico letrado.
Um impetuoso, outro passivo.
Uns eram irmãos, outros primos.
Uns bruscos como filhos de trovão, outro carinhoso.
Uns fugiram, outros esqueceram.
Um zelota, outro guerreiro...
Mas todos com vontade de colaborar.
Ninguém mais importante do que ninguém.

Ainda hoje é assim:
Deus escolhe cada peça!
O importante não é o que cada um é individualmente, mas o que todos juntos compõem .

Comentário da Venerável Irmã Wilson:
"Olhai para a vossa mãe: nenhum dedo é igual, mas todos têm a sua utilidade; o do meio parece maior, mas não se vangloria de o ser; outro parece ter mais honra, porque recebe o anel ou a aliança, mas não é por isso mais útil. Só todos juntos fazem a mão perfeita. Assim devemos ser todos juntos sem nos gloriarmos de sermos maiores, porque sem o auxílio dos outros nada podemos fazer."

Jesus chamou os seus apóstolos para quê?
Para darem a sua vida pela sua causa.
Eis o martírio de cada um dos 12 apóstolos, segundo a tradição:
1. Mateus - morto à espada na Etiópia.
2. Marcos - arrastado pelas ruas de Alexandria até morrer.
3. Lucas - enforcado numa oliveira na Grécia.
4. Tiago, o maior - foi degolado em Jerusalém.
5. Tiago, o menor - foi lançado do pináculo do templo abaixo.
6. Filipe - foi enforcado num pilar em Hierópolis, na Frígia.
7. Bartolomeu - foi esfolado vivo por ordem de um rei bárbaro.
8. André - crucificado em forma de X na Escítia.
9. Pedro - morreu crucificado de cabeça para baixo, em Roma.
10. Judas Tadeu - foi crucificado e atravessado por lanças.
11. Judas Iscariotes - enforcou-se e Matias que o substituiu, morreu apedrejado.
12. João - o único que teve morte natural, morrendo de velhice, o que não deixa de ser uma maneira eloquente de dar a vida por Cristo Jesus.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Hoje há festa na terra e no céu


Hoje é o aniversário do nascimento de Maria de Nazaré.

Duas mensagens:

A)
Quando Maria de Nazaré nasceu, ninguém disse que ela era parecida nem com os seus pais, mas sim com o seu Filho.
De facto, quando nós nascemos somos parecidos com os nossos pais. Maria de Nazaré imaculada e isenta de toda a mácula, isto é, nasceu parecida com o Filho que dela um dia iria nascer.
Ela nasceu parecido com o seu filho para que nós vivamos parecidos com ela.

B)
Dizia o Cardeal Fulton Sheen (1895-1978) que Deus tem duas imagens de cada pessoa: A imagem que sonhou para elas e a imagem do que elas são na realidade.
Sim, Deus tem duas imagens de cada pessoa exceto de Maria de Nazaré.
Dela Deus tem apenas uma imagem porque as duas figuras coincidem plenamente.
Toda a sua vida foi fazer coincidir a sua vontade com a de Deus, de modo que o desígnio de Deus sobrepõe-se perfeitamente numa mesma imagem.
Faça-se em mim segundo a tua palavra! Disse ela.
Ela ofereceu a sua vontade a Deus para que nós aprendamos a aceitar a vontade de Deus na nossa vida.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Dia internacional da caridade


Memória da Madre Teresa de Calcutá

Na recordação do aniversário da morte da Irmã Teresa de Calcutá, a Assembleia Geral das Nações Unidas escolheu 5 de setembro como o Dia Internacional da Caridade.

Ela é um ícone da CARIDADE: viveu, rezou, exerceu, contagiou, ensinou e pregou a caridade.

Dizia:
A falta de amor é a maior de todas as pobrezas... e é tão fácil resolver isso porque o amor é uma fruta de todas as estações

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Declaração de fé

Quem é Jesus?

Jesus veio para salvar e não para acusar ou condenar ninguém.
Ele coloca na boca de cada um aquilo que ele próprio poderia declarar e assim atribui-nos o mérito e o fruto.
Pedro faz a sua profissão de fé perante Jesus.
Para mim esta declaração é mais bonita do que a anterior em que dizia: Tu és o Cristo!...
Agora Pedro diz muito simplesmente: Afasta-te de mim que sou um homem pecador!...
Com isto ele quer dizer que Cristo é alguém diante de quem todos se sentem pecadores, pobres, pequenos.
Jesus é de facto alguém diante de quem nós nos sentimos impuros, limitados… e com vontade de nos purificarmos e de nos tornarmos melhores.

E eu olho para mim mesmo: será que também quando me aproximo de Jesus reconheço o quanto pecador, pequeno e limitado sou?
Será que também junto dele sinto vontade de me tornar melhor e a ser como ele?

Obrigado, Pedro, por esta proclamação de fé!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Crónica da guerra (2)



Diário de setembro de 1914
Hoje começa o Conclave??? Uno as minhas orações às da Igreja.
Dia 1, dia de tristeza e incerteza. Os feridos e os mortos recolhidos no campo de batalha continuam a afluir. Nós damos o nosso apoio a uma ambulância da Cruz. Todas as ambulâncias ficam cheias. Muitas notícias falsas se propagam na cidade, sobretudo as notícias alarmantes.
Torna-se difícil alimentar-se. Faltam provisões.
Releio as vidas de almas vítimas do Coração de Jesus: Maria de Jesus, Maria Steiner, Maria Brotel. Que belos exemplo de vida interior, de união com Nosso Senhor, de abandono e imolação!
Dia 2. Segundo dia do Conclave? Aniversário de Sedan.
Os nossos Oficiais vão embora. Estiveram aqui três dias e não tivemos nada a reclamar deles. Eles esperam estar em breve em Paris...
Dia 3. O tempo está ótimo, mas todas as mentes estão inquietas e tristes. A justiça de Deus passa, a sua misericórdia continuará.
Não ouvimos mais os canhões. Muitos feridos padecem nas nossas ambulâncias. Deus concederá a sua graça quando expiação for suficiente.
Dia 4. O silêncio de uma cidade ocupada é doloroso para as nossas mentes ávidas de notícias.
Esta é a primeira sexta-feira do mês. Retiro, leituras piedosas, confiança no Coração de Jesus. Apesar de todas as nossas faltas, Nosso Senhor terá misericórdia de nós.
Releio a vida da Irmã Teresa do Menino Jesus e da piedosa Maria Brotel, desejo este espírito de simplicidade e de infância espiritual que tanto agrada ao Nosso Senhor.
Dia 5 e 6. A mesma situação. Leio as vidas dos santos, rezo, escrevo apontamentos sobre o Coração de Jesus.
Dia 7. Vou à cidade, que espetáculo! As pessoas do povo desempregadas e miseráveis, feridos transportados daqui para ali, a pé, de carro, mas os chefes em automóveis. As casas estão fechadas. A ira de Deus passa, o povo não parece compreender bem isso.
Dia 8. Bonita festa da Natividade de Maria. Peço à boa Mãe para restaurar a paz no mundo cristão.

Bento XV
Recebo hoje a notícia da nomeação do novo Papa, Bento XV. É o cardeal Della Chiesa, arcebispo de Bolonha, que é um dos nossos amigos. Era o confidente e auxiliar de Leão XIII e do Cardeal Rampolla.
Dias 9 e 10. Dias de espera, sem notícias. Leio e escrevo sobre o Coração de Jesus.
Dia 12. Festa do Santo Nome de Maria. Esta festa lembra a proteção conferida por Maria às nações católicas...esperemos.

Aniversário
Dia 14. Exaltação da Santa Cruz. Há 36 anos que esta casa do Coração de Jesus foi fundada sobre a Cruz. Quanto sofri lá de todas as maneiras, como isso me foi proveitoso! Humilhações, doenças, pobreza, contradições... depois a perseguição, as expulsões, e hoje a guerra! Fiat!
Mas também, eu tive muitas graças: graças sensíveis especialmente no início, e quantas obras saídas daqui e abençoados pela Providência.
É um dia de arrependimento e gratidão. Tenho a impressão que Nosso Senhor quer ainda hoje tudo perdoar.
Os canhões rugem ainda, é provavelmente o início de uma nova série de combates terríveis.
Estando nós mais numerosos em casa desde que a guerra começou, retomámos o costume de bênção diária do Santíssimo Sacramento. É uma grande consolação nesta confusão.
Dia 15. Bombardeamentos distantes.
Dia 16. Bombardeamentos muito próximos e intensos na parte da tarde pelas 4 horas. É tudo perto da cidade e esperamos a entrada do exército aliado. Oração e confiança na Providência.
Dia 17. Continua a falta de notícias. Nem uma publicada desde há três semanas. Continuam os bombardeamentos e tiroteios ao longe.
Delicio-me na leitura de um pequeno livro sobre a comunhão espiritual do meu santo amigo Pe. Francisco de Vouillé. É uma pequena brochura a divulgar. Podemos facilmente usar este método de comunhão espiritual nas nossa práticas de união com os mistérios de Nosso Senhor, nas diversas horas do dia.
Dia 18. Devíamos estar em retiro e na véspera do Capítulo. Esta guerra é uma grande prova para a nossa Congregação, e provavelmente vai durar também muito tempo. Que o Divino Coração de Jesus e Maria Mãe de Misericórdia venham em nosso auxílio!

La Salette
Dias 19-20. Aniversário de La Salette. 1846 é a data à qual remontam as minhas mais antigas recordações. Eu era pequeno: três anos e meio. A minha mãe e as minhas tias estavam a conversar sobre a aparição da Virgem de La Salette, com lágrimas, com medo de castigo para a França.
O castigo veio várias vezes. Mas as lágrimas de Maria suscitaram um florescimento de obras de penitência e reparação. Várias comunidades nasceram desta mentalidade criada por Nossa Senhora de La Salette. A nossa também é-o também inspirada em parte. Possa a medida da reparação ser em breve suficiente, para que Nosso Senhor nos conceda a graça por intercessão de Maria!
Entretanto, continuamos retidos em São Quintino. É o 23º dia e os ocupantes tornam-se mais duros.

A comunhão espiritual
Dias 21-22-23. Ainda a reclusão. A comunhão espiritual. De manhã, rezo a Santa Maria e a São José para me emprestar o Menino Jesus, como eles O emprestaram a Santa Gertrudes, a Margarida Maria, Santo António de Pádua, Santo Estanislau, São Caetano de Thiene. Às três da tarde viro-me para a ferida do lado de Jesus, como Santa Maria e São João no Calvário, como São Francisco e São Paulo da Cruz. Na adoração da tarde como na Ação de Graças da manhã, tento descansar a minha cabeça sobre o Coração de Jesus, como o Apóstolo São João e os santos do Coração de Jesus.
Dia de emoção, os ocupantes desejam levar todos os homens dos 18 aos 48 anos. Três dos nossos foram tomados. À noite, Nossa Senhora da Misericórdia deu uma ajudinha e surgiu uma contraordem.
No dia 25 tivemos de alojar cinco franciscanos de Vestefália, um padre e quatro irmãos, gente boa com boa conduta. Eles vêm fazer o serviço de enfermagem. Eles conhecem as nossas obras da Alemanha.
Dia26. A batalha aproxima-se. Ouvem-se os canhões nos dois lados da cidade. Trazem muitos prisioneiros e feridos.

Despertar da fé
Todas as pessoas rezam um pouco. Pedem medalhas, acendem círios a Nossa Senhora dos Exércitos. Há aqui um pouco de fé, um pouco de superstição e um instinto natural: o homem é um animal religioso. Deus é infinitamente misericordioso, contentar-se-á talvez um pouco. Ao lado disto há almas tão boas, que rezam muito sinceramente. 
O ministério nomeou o Sr. De Mun. Se esta gente nos quer dar uma república livre, uma república liberal, Deus perdoar-lhes-á a sua ignorância e a França tornar-se-á habitável.
As escolas sem Deus encheram a nossa cidade de uma série de gente não exemplar. As moças sobretudo são desprezíveis. Elas correm atrás dos soldados de todas as nações. São como os cães. Façam uma escola obrigatória, mas com a catequese e a educação cristã.
Dias 27-28-29. Ainda há tiros, mas nada significativos. As nossas ambulâncias estão congestionadas. Os feridos foram levados para a praça do liceu e para as avenidas, esperando poder removê-los ou acomodá-los. É um espetáculo constrangedor. Assim o quiseram os Impérios Centrais que declararam a guerra.
Dias 29-30. São Miguel não nos trouxe a nossa libertação. Já não ouvimos os canhões, a luta distancia-se. Paciência! São Quintino tem quatro a cinco mil feridos. Que carnificina em toda a frente de batalha!



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Crónica da guerra (1)



O Pe. Dehon viveu no centro do cenário da I Guerra Mundial. Como é seu costume, nunca deixou de registar, quase diariamente, as suas vivências pessoais bem como o que se passava à sua volta.

Diário de agosto de 1914
No dia 2 foi ordenada a mobilização geral. São os dias maus de 1870 que regressam. A guerra de então chegava depois do Concílio, esta chega depois do Congresso Lourdes. Quais são os desígnios da Providência? A minha Congregação é dizimada: trinta e cinco dos meus franceses e outro tanto dos alemães são mobilizados.
Depois do Concílio, Deus permitiu a guerra para evitar um cisma. Não é este o mesmo caso?
Nossa Senhora de Lourdes vai tirar proveito da guerra para renovar a Europa e a França.
Os oficiais franceses são geralmente religiosos, isso deve-se aos colégios jesuítas e outros colégios da igreja. Nesta guerra existem dois fatores sobrenaturais que o mundo ignora: Nossa Senhora de Lourdes e a Companhia de Jesus.
Primeiras proezas das armas: resistência de Liège e tomada Mulhouse. Tomada de várias passagens em Vosges.
A Rússia promete autonomia à Polônia, é um grande fato histórico. É um grande reino católico que se erguerá.
Este é um momento de ansiedade para mim. Medo pela família, pelo país, pela Congregação. Tenho muitos dos meus filhos espirituais na guerra! Faltam os recursos. Os benfeitores reservam-se. É preciso uma confiança cega na Providência.
No dia 21 envio os meus jovens italianos para Bolonha. O noviciado está deveras prejudicado, há angústias por todos os lados.
Pio X morreu. Ele era nosso amigo, nosso benfeitor. Ele deu-nos a aprovação. Era um santo. Rezo por ele e invoco-o. Como era bom, simples e familiar, quando ia vê-lo! Ele não permitirá que São Pedro me receba mal lá no céu.

A guerra: angústias
Bruxelas está ocupada. As minhas angústias aumentam. O que acontecerá às minhas casas de Lovaina e de Ixelles?
O Pe. Wernz também morreu. Eu conhecia-o bem. Tenho no céu uma legião de amigos. Possam eles alcançar a minha conversão!
No dia 25 aos combates aproximam-se de nós. O perigo começa. Ofereço a minha vida pelo reino do Coração de Jesus, pela minha obra, pela Igreja: que Nosso Senhor me perdoe todas as minhas tão numerosas faltas. Eu amo-o assim mesmo e acima de tudo.
Dias de angústia. Ofereço a Deus todas as reparações de Nosso Senhor e dos santos. Os nossos sofrimentos quotidianos juntam-se aos méritos infinitos do Salvador.
Dia 27. Ouvimos os canhões durante todo o dia. A cidade está desorganizada: sem comboios, sem correio. É o pânico. Os Ingleses acompanham-nos com a sua compostura e confiança. A região vizinha está devastada. Caudry, Catry, Estrées, etc. etc, tudo está queimado e bombardeado. A população fugiu perturbada. O Pároco de Maissemy traz-nos o seu cibório cheio hóstias sagradas.

A ocupação
Dia 28. Santo Agostinho. Ouve-se o ruído dos canhões. Depois os tiros crepitam, sentimos o pó. Fiat!
Todas as nossas casas estão muito afetadas. Luxemburgo, Louvaina, Bruxelas, Mons, Quévy, por todo o lado a invasão e a guerra. Esta é precisamente a nossa missão reparadora.
Eu leio a vida de Mary Brotel, uma vítima e alma reparadora. Inspiro-me nos seus sentimentos.
É o aniversário da morte da Irmã Maria de Jesus, vítima de amor e de reparação. Conto bastante com suas orações. Trago o relicário de Santo André usado pelo Padre André, ele protege-me.
À noite a cidade é invadida, após dois dias de violentos combates. Deixemos que Nosso Senhor cumpra os Seus desígnios sobre as nações...
Dia 29. A ocupação da cidade é bastante tranquila. Os canhões rugem ao longe, a batalha continua a alguns quilómetros daqui.
Estes canhões que retumbam como a tempestade são assustadores, eles provocam terror. Quantas vidas são ceifadas nestes dias! Ofereço sem cessar as expiações e os méritos de Nosso Senhor e dos santos pelos que morrem e pelos que morreram. Repito os três nomes abençoados de Jesus, Maria, José.
A batalha situa-se agora a leste de São Quintino, no lado de La Fère. Os canhões retumbam mais fortes ainda que nos dias anteriores.
Invoco São João Batista cuja decapitação comemoramos. É um grande protetor da Igreja. Ele nos ajudará.
Há horas terríveis quando o tiroteio é tão violento que o sistema nervoso fica todo abalado. Foi-nos ordenado alojamento para os soldados inimigos, no entanto não vieram. O Coração de Jesus protege realmente a sua casa.
Dia 30. Domingo cinzento. Ninguém se atreve a sair das suas casas, os sinos calam-se. Há pouca gente nas igrejas. E, no entanto, é preciso rezar muito, orar sem cessar. Para a cristandade é um período tão grave!
Durante todo o dia os canhões rugem ainda, pelo menos até às 3 horas. Este é o 4º dia de batalha. Muitos feridos chegam à cidade.
Dia 31. Hoje será aberto o Conclave. Nós não sabemos nada sobre as coisas do exterior.
Dia de relativa calma: movimentos de tropas. Não se ouve a artilharia.
A batalha foi muito violenta durante quatro dias, especialmente no sábado. Hoje removem-se os mortos e os feridos, que são muitos. À noite temos de alojar três médicos oficiais alemães. Eles são católicos e bem-educados.
À noite os soldados aparecem para roubar, mas nossos oficiais metem-nos em ordem.


Pequenas coisas

Memória do martírio de João Batista
A - Ele foi o precursor de Jesus.
Precursor no nascimento, na missão e na morte.
Este é o lugar de João.
E o nosso lugar qual é?
Ao contemplarmos João precursor, saibamos assumir a nossa condição de seguidores.
Ele foi o precursor do Senhor para que nós possamos ser seguidores do mesmo Senhor.
Este é o nosso lugar: seguidores na vida, na missão e no testemunho.
B - Ganha-se ou perde-se por ninharias
João perdeu a cabeça porque antes Herodes, sua mulher e tantos outros já tinham perdido a cabeça com insignificâncias, tais como uma palavra, um gesto, uma dança, um momento...
Também nós ganhamo-nos ou perdemo-nos por pequenas coisas. Perdemos a cabeça, perdemos a paciência, perdemos a dignidade por ninharias, por uma palavra, por um gesto impensado, por um descuido... sempre por pequenas coisas.
Estas pequenas coisas podem tornar-nos pequenos ou grandes, consoante o que temos no nosso coração.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Tarde vos amei

Oração-poema que resume a vida de Santo Agostinho

Tarde Vos amei,
ó beleza tão antiga e tão nova,
tarde Vos amei!
Vós estáveis dentro de mim,
mas eu estava fora,
e fora de mim Vos procurava;
com o meu espírito deformado,
precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes.
Estáveis comigo e eu não estava convosco.
Retinha-me longe de Vós
aquilo que não existiria, se não existisse em Vós.
Chamastes-me, clamastes e rompestes a minha surdez.
Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira.
Exalastes sobre mim o vosso perfume:
aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós.
Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós.
Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz.

(Confissões, X, 27-38)



quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Lições de uma santa esposa e mãe

Memória de Santa Mónica

Ela tinha um mau marido e um mau filho.
A sua paciência, lágrimas, orações e perseverança fizeram com que tanto o marido, como o filho e ainda a sogra se convertessem.
(Saibamos nós também convertermo-nos para converter quem está mais perto de nós…)

Ela tinha um segredo para a harmonia familiar.
“Quando o meu marido está de mau génio, eu esforço-me por estar de bom génio. Quando grita, eu calo-me. E como para lutar são precisos 2, e eu não aceito a luta… então não lutamos..”
(Aprendamos a construir uma sã convivência. Esta depende de todos, mas sobretudo dos mais fortes…)

O seu filho Agostinho reconheceu que a sua mãe o tinha gerado na sua carne para que visse a luz do tempo como também o gerou com o seu coração para que nascesse à luz da eternidade.
Pois quando uma mãe se ajoelha em preces, um filho se levanta.
(Ajoelhemos e rezemos e à nossa volta o milagre acontecerá…)

Quando se preparava para regressar à sua terra natal no Norte de África, caiu doente.
As suas amigas lamentaram-se:
- Que pena morrer longe da sua casa…
- Não há sítio que esteja longe de Deus, de maneira que não tenho que temer. Deus encontrará o meu corpo para o ressuscitar em qualquer lugar.
(Não há lugar em que fiquemos longe de Deus, pois Ele encontra-se sempre perto de nós…)

O seu filho Agostinho, diz que apenas chorou uma hora pela morte de quem tinha chorado anos a fio pela sua conversão.
- Considero uma ofensa chorar por quem morre tão santamente. Saudade sim, tristeza não!
(Choremos antes pelos nossos pecados e a nossa alegria será completa…)


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Regressar a casa

Assunção da Virgem Santa Maria


O Evangelho da solenidade de hoje termina dizendo:

“Maria ficou junto de Isabel… 
e depois regressou a sua casa.”

É este o mistério que celebramos hoje.
Tal como Maria regressou a sua casa, depois da Visitação; assim também regressou a sua casa na Assunção.
De facto nós não temos aqui morada permanente.
A nossa casa, a nossa pátria está nos céus.

Ao contemplar Maria a regressar a sua casa, não esqueçamos que também um dia havemos de regressar à nossa casa pois não somos daqui.

E é tão bom regressar à nossa casa, ao aconchego do nosso lar.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Parábola matemática


3ª Feira - XIX Semana Comum

A Parábola da Ovelha Perdida em linguagem matemática














Agradeço ao anónimo que partilhou comigo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O dia do Santo Cura


O Santo do dia
o Dia do Santo

O dia-a-dia do santo Cura de Ars

Desde os primeiros dias, o santo pároco começou a vir para a igreja, antes de amanhecer. De cada vez mais cedo, de forma que terminou por entrar na Igreja pela meia-noite ou uma da manhã.
Pouco a pouco, as mulheres da aldeia, depois, os peregrinos, afluíram desde essa hora para se confessarem. O Santo passava toda a noite no confessionário; só saía para dizer missa, pelas 6 ou 7 da manhã. Depois da ação de graças, ia imediatamente confessar homens, a não se nos períodos em que aceitava tomar um frugal pequeno-almoço. Depois pelas 10 horas rezava o breviário. Às 11 horas subia ao púlpito para a explicação do catecismo na igreja paroquial.
Depois de uma refeição despachada em poucos minutos, voltava para o confessionário a não ser que tivesse de visitar algum doente.
Pelas 7,30 ou 8 horas da tarde, rezava as orações da noite com o povo.
Ia depois para o quarto onde recebia sacerdotes e religiosos. Rezava matinas e laudes; tomava a disciplina e repousava na cama 2 ou 3 horas.

A partir do dia em que os peregrinos começaram a afluir, o Santo viveu encerrado no confessionário 12 ou 14 horas no inverno, 16 ou 18 no verão. E isto durante 30 anos. Nos últimos anos, calcula-se o número de peregrinos de 90.000. Esperavam por vezes durante 30, e às vezes até 70 horas.
E o santo ali ficava a ouvir o interminável estendal de misérias humanas, assentado no confessionário duro, abafadiço. “Algumas horas de confessionário, escreve Mons. Couvert, bastam para arrasar o padre mais robusto; sai dali com as pernas entorpecidas, a cabeça congestionada, sem quase poder pensar.

Na 6ª feira, dia 29 de Julho de 1859, o Santo pároco saiu para o confessionário, como era seu costume, pela 1 hora da manhã. O calor era sufocante, e o santo sufocava, Sentia-se abrasado pela febre. Facto sem precedente; por várias vezes teve de sair do confessionário para tomar ar. Às 11 horas ainda explicou o catecismo; ninguém lhe percebia palavra; só lhe viam as lágrimas que corriam pelo rosto, voltado para o sacrário. À noite veio o médico. O santo recolhera-se à cama, e não se levantou mais. Por fim, a 4 de Agosto de 1859, pelas 2 da manhã, enquanto uma trovoada desabava sobre Ars, o Santo Pároco expirou.
(CF A.R. in Mensageiro do Coração de Jesus, nº 828, braga, Agosto 1952, página 576 ss.)