segunda-feira, 12 de março de 2018

Três milagres num só


2ª feira – IV semana da quaresma

A página do Evangelho de hoje apresenta três milagres num só:
- A cura de um filho com febre
- A cura de um pai ausente
- A conversão de uma família

A cura do filho com febre
Foi uma cura à distância.
A distância não foi problema, Jesus estava em Caná da Galileia e o doente em Cafarnarum.
Na hora de acreditar e de curar não há distâncias.
A generosidade e a fé saem do coração e ultrapassam fronteiras.
Este foi o milagre: não precisar de ver para crer, mas crer para ver.
Foi o milagre da distância que que transformou em proximidade e presença.

A cura de um pai ausente
O narrador sagrado usa progressivamente 3 identificações para apresentar esta personagem que foi junto de Jesus interceder por alguém:
- Havia um funcionário real – Jo 4, 46
- O homem acreditou – Jo 4, 50
- O pai verificou (viu) – Jo 4, 53
O milagre veio repor a qualidade de pai, àquele homem que era funcionário real. Primeiro era visto como como funcionário, depois passou a ser apresentado como homem que acredita e depois é considerado como verdadeiro pai. Como funcionário ouvia, como homem passou a acreditar e como pai passou a ver.
Este foi o milagre da reposição: passar do ouvir ao crer e do crer ao ver e passar de funcionário a homem, e de homem a pai.

A cura de uma família
É a conclusão do episódio – Ele e todos os da sua casa acreditaram.
A fé contagia sempre, a fé é sempre plural, comunitária.
Ninguém pode dizer que tem a sua fé. A fé tem de ser vivida em família, em comunidade, em igreja.
Foi este o milagre, isto é, o sinal da ação de Jesus na comunidade.
Tudo isto aconteceu para que uma família se reencontrasse e partilhasse os mesmos valores e toda a comunidade dos crentes vivesse unida a mesma fé e a mesma adesão a Jesus Cristo.






domingo, 11 de março de 2018

Tempo de obras



















Ano B – IV domingo da quaresma

Nós fazemos boas obras na quaresma
A quaresma faz boas obras em nós

As obras que fazemos
Nós fazemos quaresma
. Ir em frente (resistir às tentações)
. Ir em frente e elevar-se para participar na transfiguração (Tabor)
. Ir em frente, elevar-se e purificar o coração (como templo de Deus)
. Ir em frente, elevar-se, purificar o coração e fazer boas obras (evangelho de hoje)

Somos o que fazemos.
Boas obras quaresmais:
Jejum, oração e esmola.
Só há 2 dias em que não se faz estas obras:
Ontem, porque já não podemos
E amanhã, porque ainda não podemos.

As obras é que nos fazem
A quaresma é que nos faz
Nós somos obras de Deus (2ª leitura)
Rigorosamente não fazemos jejum, nem oração nem boas obras de caridade.
Essas obras é que nos fazem, nos aperfeiçoam, nos modelam.




quinta-feira, 8 de março de 2018

Entre as mulheres



Divagando no Dia Internacional da Mulher

Unicamente entre as mulheres Jesus não teve inimigos, é a conclusão a que chega Ermes Ronchi, da Ordem dos Servos de Maria, na sua obra “As inquietantes perguntas do Evangelho.

De facto Jesus teve inimigos entre todas as classes e grupos sociais, exceto entre as mulheres e as crianças.
Até mesmo entre os seus familiares havia adversários, pois uma vez foram procurá-lo para o levar para casa com a desculpa de estar fora de si.
Entre as autoridades políticas, religiosas e académicas não faltavam inimigos. Em todas as classes sociais, desde o povo até aos sacerdotes, escribas, rabis, fariseus, saduceus, judeus ou romanos sempre houve quem se afirmava seu adversário.
Até mesmo entre o seu grupo mais chegado, os discípulos que faziam escola com ele, proliferaram inimigos seus: um apóstolo traiu-o, outro negou-o três vezes e todos os outros fugiram.
Concluímos então que Jesus só não teve inimigos no grupo das mulheres.
Podemos até afirmar que as mulheres eram quem mais amava Jesus.
Aliás, a pessoa que mais gostava dele era uma mulher. Ninguém terá dificuldade em aceitar que Maria, Mãe de Jesus, é a pessoa que mais gosta de Jesus e de quem Jesus mais gosta.

Parabéns às mulheres que são as pessoas mais amigas de Jesus… que elas possam contagiar toda a gente nesse amor.




Endemoninhado e mudo



5ª feira – III semana da quaresma

Logo que o demónio saiu, o mudo falou.

Era um demónio mudo.
É o demónio da impureza e da desonestidade, isto é, todos os pecados contra o 6º e o 9º mandamento, as más ações, os maus olhares, os maus desejos, as malícias e a infidelidade matrimonial.
É demónio mudo porque os pecados da impureza são praticados na calada, no segredo ou no íntimo e porque são calados na confissão.
A malícia fecha-nos a boca, isto é, torna-nos mudos em relação a Deus, na oração e no testemunho. A oração torna-se difícil numa pessoa maliciosa, dominada pelo demónio mudo.
Além disso, torna-nos mudos porque não usamos da palavra para confessar e pedir perdão desses pecados.
Finalmente a malícia é demónio mudo porque nós mesmos não nos podemos corrigir, pois somos como cães mudos quando calamos a voz da nossa consciência.
Santo Agostinho dizia que, assim como a soberba povoou o inferno de anjos maus, a desonestidade e a malícia enche-o de homens.
E Santo Afonso acrescentava que todos os cristãos que são condenados, o são por cauda da malícia, ou pelo menos, nunca sem ela.
O Pe. António Vieira pregava que todo o pecado tem duas portas para entrar, e uma só para sair que é a confissão.
Pecar é abrir as portas ao demónio para que entre na alma. Pecar é emudecer, é calar. É abrir-lhe as portas para que entre e cerrar-lhe a porta para que não possa sair.
… Era um homem endemoninhado e mudo.
Endemoninhado porque abriu as portas do pecado; mudo porque fechou a porta da confissão.





terça-feira, 6 de março de 2018

Perdoar para ser perdoado



3ª feira – III semana da quaresma

“Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro como eu tive compaixão de ti?”

É preciso perdoar não apenas 7 vezes, mas 70 vezes 7, isto é, sempre – tantas vezes quantas as que eu preciso também de ser perdoado.

É perdoando que se é perdoado. 
Ou para ser perdoado é preciso perdoar.

Eu não sou perdoado quando apenas peço perdão.
Sou perdoado só quando também perdoo ao meu irmão.
O meu arrependimento não se manifesta apenas quando peço perdão, mas quando eu mudo o meu coração e perdoo ao meu irmão.






segunda-feira, 5 de março de 2018

Sem olhar a quem


2ª feira – III semana da quaresma

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra
Como se não pregasse a mesma verdade em toda a parte.

Santos da casa não fazem milagres
Como se não fosse só Deus a fazer milagres.

Ninguém é juiz em causa própria
Como se o profeta falasse por conta própria.

A galinha da vizinha é melhor que a minha
Como se não fosse igual às outras.

Para os de fora mel, para os de dentro fel.
Como se os de fora merecessem mais.

Ninguém é médico na sua rua
Como se fosse mau médico só por ser nosso vizinho.

O mais importante é receber o bem sem olhar donde vem.
O mais importante é ouvir a verdade sem olhar quem a prega.

Quem recusa ouvir um profeta está a recusar ouvir a Deus que fala através do profeta.
Quem recusa um profeta por ser da sua terra está a valorizar mais o pregador do que a pregação.

Uma senhora idosa muito pobre ligou para uma rádio cristã pedindo ajuda desesperada, pois estava em dificuldade.
Um ateu que ouvia a emissão no carro, decidiu provocar a fé da senhora: apontou o endereço dela e pediu à sua secretária que fosse entregar um cesto cheio de alimentos na residência da velhinha instruindo a funcionária de que quando a senhora perguntasse quem tinha enviado aquilo, ela deveria responder “foi o diabo”.
A secretária foi a casa da senhora e entregou o cesto. Como a senhora, visivelmente alegre, não dizia nada, a funcionária perguntou: “não quer saber quem enviou isto?”. Calmamente, a senhora idosa respondeu: “não importa quem foi, menina. Quando Deus manda, até o diabo obedece! …"
(Li esta anedota no Banquete da Palavra do Pe. José Luís Rodrigues)

Devemos fazer o bem sem olhar a quem tal como devemos valorizar o bem sem olhar donde vem.





sexta-feira, 2 de março de 2018

O homem dos sonhos



6ª feira – II semana da quaresma

José é apresentado como o homem dos sonhos.

Um dia, um frade foi ter com o seu mestre:
- Abençoai-me, padre, porque pequei.
- Confessa então o teu pecado.
- Padre, eu gosto de sonhar…
- Sonhaste muito ou pouco?
- Não muito.
- Se sonhas pouco é perigoso. A solução não é sonhar menos, é sonhar mais.

O sonho comanda a vida, já dizia o poeta.
É preciso sonhar, ter um ideal, lutar por um objetivo, querer alcançar metas…
Quem sonha pouco não tem um ideal na vida nem a determinação de o conquistar.

Conheço outro José que também foi apresentado como o homem dos sonhos. O noivo da Maria de Nazaré, por duas vezes, teve em sonhos o discernimento da vontade de Deus a respeito do Projeto Divino. E quando despertou do sono José fez como o Senhor lhe ordenara.

Se não tens sonhos, como hás de realizá-los?
Sonha, sonha muito…
Se não puderes fazer tudo, faz tudo o que puderes.





quinta-feira, 1 de março de 2018

Aquecer o coração



Resumo da mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2018
“Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos” (Mt 24, 12).
A Quaresma é o sinal sacramental da nossa conversão…
Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado.
Interroguemo-nos: como se resfria o amor em nós?
O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação nele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.
A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor porque envenenada por resíduos, mares poluídos, céus com instrumentos de morte…
E o amor resfria-se também nas nossas comunidades. Os seus sinais são a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar em guerras fratricidas, a mentalidade mundana, a redução do ardor missionário.
Que fazer? Dedicar mais tempo à oração, praticar a esmola para ajudar o nosso irmão, fazer jejum que tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Ouvir a palavra do Senhor e alimentar-se do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.
Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus.
No lume novo da Páscoa acendamos e aqueçamos o nosso coração.

A minha conclusão:
O Papa baseia a sua mensagem no esquema de VER, JULGAR e AGIR.
Se nós nos queixamos do frio do corpo, façamos tudo para que Deus nunca se queixe do frio da nossa alma e do nosso coração.
É preciso acompanhar a Jesus, para que, quais discípulos de Emaús, também digamos - Bem nos ardia o nosso coração…



A pobreza do rico



5ª feira – II semana da quaresma























A pobreza do rico

e a riqueza do pobre

Meus irmãos, aqui os ricos são pobres; 
é bom que o rico descubra a sua pobreza.
Julga-se repleto? 
Isso é inchaço e não plenitude.
Que reconheça o seu vazio a fim de poder ser cumulado.
Que possui ele? Ouro.
Que lhe falta? A vida eterna.
Que olhe bem para o que tem e para o que lhe falta.
Que dê o que possui, a fim de receber o que não tem.
(Cf. Santo Agostinho (354-430)  Discurso sobre o salmo 121)




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O elogio da humildade



4ª feira – II semana da quaresma

Quem quiser tornar-se grande seja vosso servo
e quem quiser ser o primeiro seja vosso escravo.


A humildade do serviço
e o serviço da humildade.

O serviço é sempre humilde
e a humildade é sempre serviçal.




quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Pastor e Mestre


Festa da Cadeira de São Pedro

A cadeira de São Pedro não é um trono, mas uma cátedra de professor, de mestre…























Perguntaram ao Papa Francisco:
- Deseja mesmo reformar a Igreja?
A sua resposta foi simples:
- Não. Só quero colocar Cristo cada vez mais no centro da Igreja. Será Ele a fazer as reformas.

Que o Papa continue a nos ensinar a guardar a fé como Mestre e nos conduza como nosso Pastor.


























quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Jonas, sinal de Cristo



4ª feira – I semana da quaresma

Aquela geração pedia um sinal.
Mas Jesus era o próprio sinal que estava no meio deles e que ninguém queria ver. Queria ver para crer em vez de crer para ver.
Então lembrou-lhes o sinal de Jonas:
Tal como este profeta foi um sinal de arrependimento para os ninivitas, assim também Jesus era um sinal de arrependimento e de conversão acessível a todos, sinal da misericórdia divina.
Tal como Jonas, Jesus apresenta-se como alguém que veio chamar os pecadores à conversão.
Tinham dúvidas da fé, queriam um sinal, um milagre ou uma prova…
Jesus queria perdoar-lhes para se desfazerem essas mesmas dúvidas.
Para um coração puro mil objeções não bastam para formar uma dúvida.
Para um coração duro mil provas não chegam para constituir uma certeza.
Conta o Pe. António Queiroz que certa vez um estudante o procurou querendo resolver algumas dúvidas de fé.
O sacerdote levou-o até à sala de atendimento. Logo que se sentaram o padre perguntou:
- Há quanto tempo não te confessas?
- Padre, eu quero mesmo é esclarecer algumas dúvidas de fé – lembrou o rapaz.
- Sim – respondeu o padre – mas seria melhor que te confessasses antes… Depois falaremos dessas dúvidas.
E a muito custo lá o convenceu a confessar-se ali mesmo.
Depois de uma longa confissão o padre pediu-lhe:
- Agora sim podes apresentar as tuas dúvidas para juntos esclarecermos.
- Padre, agora já não tenho mais dúvidas. Sinto-me plenamente feliz e esclarecido. Obrigado!
De facto só os puros de coração verão a Deus.




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Sem palavras


3ª feira – I semana da quaresma

Quando rezardes não useis muitas palavras.
Rezai assim: Pai Nosso…

Sempre que nós rezamos o Pai Nosso estamos a cumprir este duplo mandato de Jesus:
- Primeiro rezamos assim, tal como ele nos ensinou
- Segundo não usamos nenhumas palavras… nem uma palavra nossa, mas todas as que o mesmo Jesus nos ensinou.

Por coincidência este ano cai nesta terça-feira da primeira semana da quaresma a memória facultativa dos Santos Francisco e Jacinta Marto, Pastorinhos videntes de Fátima.
Eles são uma prova inequívoca de que de facto a oração não deve ser feita com muitas palavras, mas sobretudo com o coração e a atitude.
Contam que estas crianças quando tinham muita pressa ou para brincar, ou para trabalhar ou para regressar a casa, rezavam o terço de uma maneira abreviada.
Um dizia apenas AVÉ MARIA.
E o outro respondia a segunda parte apenas SANTA MARIA.
- AVÉ MARIA.
- SANTA MARIA.
E assim sucessivamente... chegando depressa ao fim.
Pode parecer uma brincadeira infantil, uma ingenuidade ou inocência…
Eles tornaram-se santos também através deste jeito de rezar.
Afinal estavam a cumprir a recomendação de Jesus: Quando rezardes não useis muitas palavras… Sim, porque a oração é mais do que palavras bonitas, longas ou repetitivas. Rezar é sobretudo uma atitude do coração.
As poucas palavras na oração não são sinónimo de oração breve, mas de oração profunda e sincera. A oração destes santos pastorinhos é a prova desta oração simples, de poucas palavras e sobretudo de contemplação do coração, isto é, sem palavras.






domingo, 18 de fevereiro de 2018

Interiorizar o deserto



Ano B – I domingo da quaresma
















Jesus esteve no deserto quarenta dias…

A quaresma é um deserto
e o deserto é uma quaresma

Não basta que entres no deserto… 
                 deixa que o deserto entre em ti.
Não basta que vás à igreja… 
                 deixa que a igreja entre em ti.
Não basta que faças quaresma… 
                 deixa que a quaresma te faça a ti.
Não és tu que estás no lugar… 
                o lugar é que está em ti.

O deserto faz parte das nossas vidas como:
- espaço de silêncio,
- lugar de busca
- local de despojamento
- lugar que nos faz tomar consciência das coisas essenciais que dão sentido à nossa existência
- ambiente privilegiado para o encontro com o Deus
- lugar onde habitam os demónios e onde os podemos combater
- vivência da espiritualidade do êxodo
- tempo de quarentena
- escola do coração
- antecâmara do infinito























sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Decálogo do jejum



6ª feira depois das cinzas


Jejum não é apenas uma dieta,
é sobretudo uma conversão.

Jejum não é apenas uma questão de estômago,
é sobretudo uma questão de coração.

Jejum não é apenas sentir fome de pão,
é sobretudo sentir fome de Deus.

Jejum não é apenas abster-se de alimentos,
é sobretudo abster-se do pecado.

Jejum não é apenas privar-se do supérfluo,
é sobretudo encher-se do essencial.

Jejum não é apenas castigar o corpo,
é sobretudo coroar a alma.

Jejum não é apenas uma prática exterior,
é sobretudo uma atitude interior.

Jejum não é apenas um exercício de paciência,
é sobretudo um poder da vontade.

Jejum não é apenas fechar a boca,
é sobretudo abrir as mãos e o coração.

Enfim, não somos nós a fazer jejum,
o jejum é que nos faz.