domingo, 15 de janeiro de 2023

Ecce Agnus Dei...


Ano A – II domingo comum

Jesus é apresentado por João Baptista como o Cordeiro de Deus.

Ele é Pastor que é também Cordeiro.

É Cordeiro que também é Pastor.

 

Jesus é Pastor, quando vai à nossa frente para nos guiar. Deixemo-nos guiar, seguindo-o.

Jesus é Cordeiro, quando vai no meio do rebanho como nosso irmão para se imolar por nós. Deixemo-nos redimir. Que Ele nos limpe dos nossos pecados.

Na igreja onde sou pároco, colocaram à frente do altar uma pequena imagem de São João Baptista, a apontar para o alto.

Tive a tentação de corrigir o artista.

Na verdade, João Baptista apontou para Jesus que vinha ao seu encontro dizendo… Eis o Cordeiro de Deus.

Para onde apontou ele? Para a frente, claro.

Então porque é que o artista apresenta aqui a apontar para o alto?

Perguntei aos presentes a razão disso.

Foram várias as explicações:

- Porque Jesus está na Terra e está co Céu, no alto.

- Porque como voz que clama, está a levantar o dedo, pedindo licença para falar.

- Porque está a apontar o caminho do céu que como precursor ajudou a preparar.

- Porque o seu dedo está em riste como que advertir-nos a converter a nossa vida de pecado.

- Porque está a apontar para o Cordeiro de Deus que vai estar sobre o altar, imolado para nos salvar.

 

A exemplo de João Baptista sejamos ponteiro de Jesus, apontando para o alto, sobretudo apontando para o altar onde o Cordeiro de imola por nós.

 

Ver também:

Sempre presente

Ver, apontar, anunciar

O ponteiro de Deus

 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Ao ver a fé daquela gente


6ª feira – I semana comum

 

Ao ver a fé daquela gente… Jesus curou o paralítico.

A fé não é para ser dita ou falada.

Não é para ser ouvida ou escutada.

Nem para ser escrita ou guardada.

 

A fé é para ser vista.

De facto Jesus viu a fé daquela gente.

A fé abre os olhos, entra pelos olhos dentro.

A fé é tão evidente que deve ser vista.

A fé é tão concreta que pode ser tocada.

A fé é tão real que se torna carne, vida, presença.

 

Pregação visual

Um dia, saindo do convento, Francisco de Assis encontrou Frei Junípero.

Era um frade simples e bom. Francisco disse-lhe:

- Frei Junípero, vem comigo. Vamos à cidade pregar.

O frade respondeu envergonhado:

- Eu tenho pouca instrução. Como posso falar às pessoas?

Mas Francisco insistiu e foram os dois pelas ruas da cidade de Assis, em silêncio. Saudavam os trabalhadores dos campos e das oficinas, sorriam às crianças e sobretudo aos pobres. Eram carinhosos e respeitosos com os animais. Sentavam-se em silêncio junto aos idosos. Ajudaram uma mulher a carregar a bilha de água. Cuidaram de um leproso abandonado.

Passado bastante tempo, quando já se fazia tarde, Francisco disse:

- Frei Junípero, são horas de regressar ao convento.

- E a nossa pregação? – Perguntou o frade.

O santo, sorrindo, disse:

- Já a fizemos.

 

A melhor pregação não é aquilo que as pessoas ouvem, mas aquilo que as pessoas veem.

Se a fé tem de ser vista, então a pregação tem de ser visual, com ações concretas, com o exemplo da vida.

Uma fé vista é uma fé vivida.

Uma fé vivida é uma fé vista.

 

Ver também:

Eu sou muitos

 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Não digas nada a minguém


5ª feira – I semana comum

 

Não digas nada a ninguém… disse Jesus a quem curou da lepra.

Mas afinal, Jesus não quer que falemos das maravilhas e das coisas boas?

Não quer que falemos bem dele, para levar os outros a alegrar-se também?

 

Porque é que Ele pede para não dizer nada a ninguém?

 

1º - Porque Jesus estava a usar a psicologia reversa (quando falamos algo a alguém, esperando que este faça de forma contrária ao que foi dito).

2º - Porque Jesus queria que as pessoas descobrissem por si próprias em vez de serem informadas do que acontecera (Mais vale ver uma vez do que ouvir dez vezes).

3º - Jesus disse para não falar e o curado falou para nos advertir que nos iria dizer para falarmos e nós não iremos falar ou dar testemunho.

4º - Disse para não falar nada a ninguém, para que pudesse mostrar através da vida, do exemplo ou das ações (e hoje nós apenas falamos e esquecemos de mostrar através da vida e da prática).

5º - Disse para não falar do que acontecera para ver se o seu coração estava cheio de gratidão (o coração deve transbordar também pela boca).

6º - Porque Jesus não queria ser conhecido pelos milagres que fazia, mas pela vida que convertia, pelos valores que incutia e pela mensagem que semeava.

7º - Jesus disse-lhe para não falar nada a ninguém, pois o Espírito Santo é que falaria por ele.

8º - Porque Jesus queria confirmar se o curado era egoísta, se queria ter a exclusividade da cura ou se tinha o coração aberto e generoso (Ao contar a sua cura, estava a dar oportunidade de mais alguém vir ao encontro de Jesus para ser também curado).

9º - Porque Jesus estava a falar com ironia como figura de estilo (expressão ou gesto que dá a entender o contrário do que significa).

10º - Jesus pediu para não falar nada a ninguém porque o silêncio é de ouro (O dialeto da alma é o silêncio).

CONCLUSÃO - Não digas nada a ninguém, não fales... escuta somente, escuta a Deus que te fala, escuta o teu irmão que está próximo.


 

À margem:

Não: não digas nada!

Supor o que dirá

A tua boca velada

É ouvi-lo já.

 

É ouvi-lo melhor

Do que o dirias.

O que és não vem à flor

Das frases e dos dias.

 

És melhor do que tu

Não digas nada; sê!

Graça do corpo nu

Que invisível se vê.

 

(Fernando Pessoa, Cancioneiro)

 

Ver também:

Invitatório

 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Um dia bem cheio de curas


4ª feira – I semana comum

 

Jesus foi a casa da sogra de Pedro.

De facto, a casa não era de Pedro, mas da mãe da sua mulher, visto que Pedro era de Betsaida e foi com André, seu irmão, viver com a família para a casa da sua sogra em Cafarnaum.

 

Podemos contemplar este episódio sob 2 pontos de vista diferentes.

 

1º - As curas que precisamos

Em todos os momentos da jornada desta página do Evangelho se operam curas consoante as dimensões ou situações existenciais do ser humano.

 

- Começa com a cura comunitária, em dia de sábado, na sinagoga. Ficou assim curada a alma comunitária, religiosa ou piedosa.

- Depois vem a cura familiar, na figura da sogra de Pedro. De facto, o bem deve começar por casa, em ambiente de intimidade.

- Logo depois sucederam-se as curas individuais da cidade inteira. Não basta ficar em casa, num círculo fechado, ou na sinagoga num ambiente prosélito. É preciso sair ao encontro de quem precisa, seja de que família ou grupo for.

- Temos ainda a cura da alma. Jesus dá o exemplo de se retirar a sós com o Pai numa espécie de reforça de interioridade. Ensina-nos assim a não descurar a cura da nossa interioridade.

- Temos finalmente a cura plena. A cura de alguns tem de ser tornar missionária. Se os outros não são também curados, a minha cura não é total.

2º - Os lugares das nossas curas

Temos neste trecho do Evangelho de hoje 5 lugares ou espaços que correspondem a 5 relações ou a 5 atividades distintas, que resumem as dimensões essenciais de uma pessoa:

 

- A sinagoga – o espaço comunitário, de transcendência, de piedade, celebrativo, religioso. Tudo começa por aqui como pessoa em relação com Deus e com a comunidade.

- A casa familiar – da porta para dentro – o lugar de intimidade e de proximidade. O bem começa por casa, onde cuidamos uns dos outros, onde o serviço é de todos para todos.

- A rua – da porta para fora. À porta da casa vieram todos os doentes e necessitados. É o espaço da pastoral. Precisamos de dar atenção aos companheiros ou ao rebanho ao qual todos pertencemos.

- O descampado – o lugar ermo. É o espaço que facilita a interioridade, o silêncio ou a contemplação. Precisamos deste espaço de deserto e de contacto com a natureza (criação) para nos encontrarmos connosco mesmos e com o nosso Pai através da oração.

- Todo o mundo - o mundo todo. 'Vamos a outros lugares, a fim de  curar aí também... e foi por toda a Galileia.' Todo o mundo é o nosso espaço missionário.

 

Ver também:

Quem é a sogra de Pedro

 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Jesus foi batizado porquê


Festa do Batismo do Senhor

Porque é que Jesus foi batizado?

1º - para se cumprir a justiça, assim nos diz o próprio Jesus. Para que João Baptista dê testemunho que há outro batismo superior ao seu.

2º - para Jesus nos dar o exemplo e nos ensinar a passar pelo batismo com humildade.

3º - para purificar as águas nas quais depois todos somos batizados. De facto, Jesus não precisava de ser purificado, mas a água sim para nos purificar pelo batismo.

4º - para nos lembrar o nosso próprio batismo e nunca mais o esquecer.

5º - para nos incentivar que depois do batismo começa a nossa vida de dedicação ao Reino dos Céus como aconteceu a Jesus depois do seu batismo.

 

À margem:

São Gregório de Nanzianzo fala das lágrimas como um batismo. Diz que temos cinco batismos:

1º - O batismo alegórico do Mar Vermelho.

É o batismo profético para nos ensinar que todos devemos passar pelas águas.

2º - O batismo penitencial de João

É o batismo exterior, de preparação para outro maior.

3º - O batismo do Espírito Santo

É o batismo que Jesus veio trazer – do Espírito e do fogo que nos transforma interiormente.

4º - O batismo do martírio

É o batismo do sangue, da entrega total da vida nas mãos de Deus que nos purifica e nos dá a palma da vitória. É a consequência mais eloquente do Batismo do Espírito Santo.

5º O batismo das lágrimas.

As lágrimas são aquilo que nos pode tornar santos, depois de termos sido humanos. As lágrimas é um batismo que nos purifica todos os dias com o arrependimento e perdão. É a consequência quotidiana do Batismo do Espírito Santo. Antigamente batizavam-se os convertidos, mas hoje temos de converter os batizados.

 

Ver também:

Uma declaração de amor


domingo, 8 de janeiro de 2023

Jesus está a pedir colo


Despedimo-nos hoje do presépio e da imagem do Menino Jesus nesta quadra natalícia.

Perguntei às crianças da catequese porque é que Jesus está de braços abertos.

De facto, em todos os presépios é assim que está é apresentado na manjedoura.

As respostas foram múltiplas e variadas:

- Porque ele está acordado (está a mexer-se)

- Porque está a abençoar (ou a impor as mãos)

- Porque está a rezar (o padre convida a rezar de mãos braços abertos)

- Porque está feliz (baila com alegria)

- Porque quer oferecer-nos alguma coisa (estende a mão para dar)

- Porque quer receber algo de nós (estende a mão para receber)

- Porque está a pedir colo (a oferecer-se a si mesmo)

 

Sim, acho que é acima de tudo isto. Jesus está a pedir colo, quer que peguemos nele ao colo.

 

E mais uma pergunta:

- E porque é que todos os bebés pedem colo, querem ficar nos nossos braços?

- Porque querem ser acarinhados?

- Porque querem ficar de pé?

- Porque querem passear?

Nada disto.

Os todos os bebés pedem colo porque querem ficar bem perto do nosso coração ou porque pôr o seu coração bem perto dos outros.

 

Guardemos esta mensagem no final destas celebrações natalícias.

Jesus dá-se-nos e pede-nos colo  para o guardarmos junto do nosso coração.

É por isso que está de braços abertos e estendidos para nós.

 

Lições que os Magos dão


Solenidade da Epifania do Senhor

 

Os Magos não só deram 3 presentes ao Deus Menino, como também nos podem dar 3 lições:

1ª – Vieram do Oriente, isto é, de longe.

Não interessa quão longe ou quão perto nós possamos estar para nos encontrarmos com o nosso Deus. Não interessa as dificuldades que temos de ultrapassar, os desertos que vamos atravessar ou as fronteiras que devemos derrubar para nos encontrar com Deus.

2ª – Passaram por Jerusalém, isto é, pela cidade da Paz.

Jerusalém é Jeru-Shalom, cidade da Paz, ou então Jesus-Shalom, Jesus é a nossa Paz. Quem quer chegar perto de Deus tem de passar pela paz, tem de se converter em homens de boa vontade a quem os anjos cantando lhes desejaram a paz.

3ª – Seguiram uma estrela, isto é, deixaram-se guiar.

Quem pensa que já sabe tudo, quem não ouve nem vê os outros, não pode ir longe, não chega à beira de Jesus. Os magos olharam para o alto, deixaram-se iluminar e puseram-se a caminho, avançando guiados pela estrela, por aquilo que Deus semeia neste mundo para levar os homens até Deus.

4ª – A estrela parou sobre o lugar onde estava o Menino.

A estrela baixou do céu à terra para que a Terra pudesse ser o espelho ou reflexo do Céu. É por isso que as estrelas que Deus põe no nosso caminho estão semeadas no caminho que trilhamos. Os outros são estrelas para nós e nós estrelas para eles. Juntos encontraremos o Messias.

5ª – Os magos eram companheiros, isto é, eram comunidade.

Ninguém chega sozinho perto de Jesus. É preciso unir-se aos outros, é preciso formar comunidade.

6ª – Ofereceram presentes – Ouro, incenso, mirra.

Cada um ofereceu estes três presentes. Nós ainda hoje podemos oferecer o oiro do nosso coração, o incenso da nossa oração, a mirra da nossa humildade ou condição humana.

7ª – Depois regressaram à sua terra por outro caminho.

Isto é, regressaram diferentes, melhores e por isso fizeram um caminho diferente. O caminho foi diferente porque eles iam outros, melhores, diferentes, com uma melhor versão de si mesmos.

À margem 1:

Encontra-se em Bolonha na Basílica de Santo Estêvão o que é considerado o presépio mais antigo do mundo, esculpido em madeira de tília e olmo por um escultor desconhecido no século XIII, talvez o Mestre do Crucifixo (1291). As cinco estátuas em tamanho natural retratam a Virgem sentada com o Menino nos seus braços, São José em pé e os três Reis Magos: dois deles com 1,60 m de altura quando estão de pé, enquanto o mais idoso, ajoelhado, com 1,10 m de altura, está sem coroa, para simbolizar que diante da realeza de Deus, a realeza humana cai. O Senhor vem nos visitar e nós podemos visitá-lo. Não há uma idade exata para que isso aconteça, não há distâncias que não possam ser ultrapassadas, não há momentos que não sejam oportunos para se encontrar com o Deus Menino.

 

À margem 2:

Na realidade os Magos são as crianças ou as crianças são os Magos. Elas são os magos, a magia da vida de Deus que nasce num mundo ameaçado, mas onde continua a aparecer magos como Elifaz, Bildad e Sofar (tradição de Job) ou como Belchior, Gaspar e Baltasar (nomes posteriores dos magos). São sábios simples e humildes, não reis guerreiros, não vêm conquistar países, com drones de morte, mas oferecer e expandir os dons da vida, ouro que brilha, incenso que perfuma e mirra que fortalece e cura. Vêm resgatar o menino perseguido, ameaçado de morte: o menino que querem matar, acusado de intruso, de emigrante ameaçador, apesar de recém-nascido.

 

Ver também:

Adorar, confiar, servir

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Os Céus rasgaram-se


6ª feira – Da oitava de Natal à Epifania

 

Jesus foi batizado por João no Rio Jordão.

Ao subir da água viu os céus rasgarem-se

E o Espírito descer sobre Ele.

E dos céus ouviu-se uma voz:

Tu és o meu filho muito amado.

 

Jesus foi batizado não porque precisava de purificação, mas para purificar as águas nas quais todos somos batizados.

Porque é que os céus rasgaram-se?

Alguns traduzem que os Céus abriram-se (temos aqui as mesmas palavras usadas quando o véu do templo se rasgou na sexta-feira santa).

- Rasgou-se porque já não há separação entre Céu e Terra. A sua fronteira foi rasgado, ultrapassada.

- A partir de agora existe uma única morada, a de Deus com os homens. Deus está em toda a parte.

- O Céu prolonga-se na Terra e a Terra prolonga-se no Céu.

- Onde está o Filho está o Pai e onde está o Pai está o Filho.

- Deus fala do Céu e ouve-se na Terra. Jesus é o Verbo de Deus, a Palavra de Deus feita carne.

- Deus já não está escondido ou fechado no Céu, mas foi-nos revelado por seu Filho Jesus. Deus torna-se acessível, Ele quer ficar ao nosso alcance.

- O que era velho passou, rasgou-se. Agora há uma nova criação, um novo Céu e uma nova Terra.

- Os céus estão rasgados, isto é, abertos para poder sair todos os bens de Deus para nós e para que possam subir todas as nossas oração até Deus.

- Estão rasgados os céus e não apenas abertos. Estar aberto é uma condição definitiva, enquanto aberto é transitório. 

 - Céus rasgados como nossa meta. Podemos caminhar para lá pois as entradas continuam rasgadas.


Ver também:

Uma declaração de amor


 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

A pergunta é uma declaração

 

4ª feira – Da oitava do Natal à Epifania

- Mestre, onde moras?

- Vinde ver!

 

Mais do que uma pergunta, mais do que uma curiosidade, estamos perante uma declaração ou profissão de fé em Jesus Cristo.

Ao perguntar onde morava, estava a declarar que Jesus não veio para fazer turismo, não estava apenas de passagem, precário ou refugiado. Estava a declarar que Jesus veio para ficar, para fixar a sua morada, para se estabelecer por cá.

A pergunta foi uma declaração.

 

Jesus não respondeu que morava na rua tal, número tal, no bairro tal, na cidade tal. Jesus não lhes deu um endereço, mas um convite. Ele pediu que eles descobrissem por si próprios, que respondessem à pergunta experimentado, visitando, acompanhando, vivendo

A resposta foi uma autodescoberta.

 

Mas, afinal onde morava Jesus?

- No meio de nós (O Verbo acampou no meio de nós ou está no meio de 2 ou 3 reunidos em seu nome).

Isto quer dizer que Deus habita na comunidade (no meio do grupo).

Quer dizer também que habita no meio de cada um, isto é, no centro de cada um, ou seja, no coração de cada um de nós.


Ver também:

Vinde, vede e ficai




 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Ovelha perdida no presépio


Um conto de Natal

Talitaki, a ovelha perdida no presépio

 

Era uma vez uma ovelhinha a quem todos chamavam Talitaki.

Ela não parava quieta, estava sempre a afastar-se do rebanho, parecia que andava à procura de alguma coisa ou de alguém, mas nem ela nem ninguém conseguiu saber o quê nem quem.

Numa tarde de inverno, ao recolher o seu rebanho, o pastor Azarias, como sempre, estava à porta do aprisco e cada ovelha foi-se apresentando – Raquel, Énia, Belinha, Vitalina, Fofinha, Dolly etc.

Mas naquele dia faltou uma ovelha, de novo!

Só estavam ali noventa e nove... faltava uma, o suficiente para amargurar o pastor Azarias. Faltava a ovelha Talitaki. O seu nome dizia toda a verdade – estava aqui, estava ali, andava sempre onde não devia andar, como carta fora do baralho.

Contado e recontado, foi confirmada a ausência da Talitaki. O pastor Azarias deu um suspiro de resignação. Teria uma vez mais de deixar o rebanho e procurar a ovelha faltosa… mas nem uma palavra de desagrado, nenhum gesto de impaciência se viu ou ouviu. Pelo menos aquela noite estava calma, com o céu muito estrelado. Era de facto uma noite de paz. Tinha de apressar-se porque os lobos nessa altura do ano estavam famintos e não podiam encontrá-la primeiro do que ele.

Fechou a porta prometendo ao rebanho que voltaria muito em breve…

Quando se viram sós as ovelhas começaram a dar à língua sobre a tresmalhada, a fugitiva, a perdida, a ovelha negra, a desobediente:

- Estás a ver o que aprontou outra vez a nossa amiga Talitaki?

- É uma aventureira que não mede as consequências das suas ações.

- Bem feito que ela se perdeu. Não tenho pena nenhuma dessa irresponsável.

- Os lobos deviam persegui-la desta vez para que sinta na pele o perigo que corre lá fora e aprenda de vez a lição

- Nós é que corremos o perigo aqui, sozinhas, sem o nosso pastor por causa daquela ingrata.

- Ela não presta, só dá trabalho e canseiras ao pastor.

- O pastor devia deixá-la por lá. Se é isso o que ela quer, assim devia ter.

- Se a Talitaki fugiu do nosso rebanho é melhor que não volte para não influenciar mais ninguém com o seu mau exemplo.

- Ela saiu daqui porque não é das nossas. Que procure outro rebanho.

- Alta madrugada lá virá ela, machucada e chorosa aos ombros do pastor. Nunca terá emenda.

E muitos outros comentários foram surgindo cada vez menos abonatórios para a ovelha Talitaki.

A meio da noite, quando o pastor Azarias pedia ajuda aos outros colegas de ofício para encontrar a sua ovelhinha, alguém o advertiu:

- Não vale a pena o esforço. Uma ovelha não vale o trabalho de tanta gente… vai descansar e amanhã encontrá-la-emos de qualquer maneira.

Ainda ele falava quando um clarão de luz pairou sobre as suas cabeças. Ficaram todos sem respiração. O pastor Azarias só teve tempo de pensar:

- Que mais irá me acontecer nesta noite?! Eu, Azarias, sou mesmo azarado!

Um Anjo do Senhor aproximou-se deles e tiveram grande medo. Disse-lhes o Anjo:

- Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura.

Imediatamente juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus, dizendo:

- Glória a Deus nas alturas e paz na terra.

Quando os Anjos se afastaram em direção ao Céu, começaram os pastores a dizer uns aos outros:

- Vamos a Belém, para vermos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer.

O pastor Azarias só pensava no seu íntimo:

- Quem me dera encontrar pelo caminho a minha Talitaki. Seria sorte demais… Quem sabe?! Se ela não tivesse desaparecido, eu não estaria agora aqui e não teria recebido esta boa notícia. Grande Talitaki!

Para lá se dirigiram apressadamente e encontraram Maria e José e o menino deitado na manjedoura.

Os pastores ajoelharam-se diante daquela cena, mas só um enxugava as suas lágrimas. Era o pastor Azarias que partira à procura da sua ovelha perdida.

Nem queria acreditar no que via – O menino sorrindo para ele, José inclinando a cabeça para o cumprimentar com delicadeza e paciência e Maria, cheia de ternura, olhando para o seu filho e afagando uma ovelhinha.

- Que faz aqui a minha Talitaki? – Pensou o pastor Azarias. – Afinal, sou um homem cheio de sorte.

A ovelhinha Talitaki aproximou-se da manjedoura, não para manjar, mas para se entregar ao seu novo pastor.

O pastor Azarias percebeu logo. Afinal outro pastor, o Bom Pastor, tinha encontrado primeiro a sua ovelha perdida. A partir daquele momento pertencia àquele Menino. Ele nascera para ser o Bom Pastor, e quem revelou isso em primeira mão foi a Talitaki, a ovelha perdida ou incompreendida do seu rebanho.

Maria sorria e conservava todas estas coisas no seu coração.

Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto.

Quando o pastor Azarias chegou ao seu redil, já o sol ia bem alto, as ovelhas ficaram mudas ao verem que voltava sem a ovelha Talitaki. Todas baixaram a cabeça porque não queriam ver a tristeza do seu pastor. Mas algo de maravilhoso aconteceu. O pastor pôs-se a dançar no meio das ovelhas. Porque estaria ele assim tão feliz? Que acontecera à ovelha Talitaki? Teria escapado da boca dos Lobos? Onde estaria então? Continuava perdida? Ou então o pastor teria bebido demais para consolar a sua frustração?

E Azarias contou-lhes tudo o que tinha acontecido desde que saíra à procura da Talitaki até onde a foi encontrar.

E todas as ovelhas se admiraram do que o pastor lhes contava. E diziam umas às outras:

- A nossa amiga Talitaki sempre foi uma ovelha de grandes ideais.

- Eu sempre soube que ela era diferente, que era capaz de realizar grandes coisas.

- Ainda bem que o pastor Azarias foi à procura dela e que nos trouxe estas boas notícias.

- A nossa querida Talitaki vai fazer-nos muita falta. Já tenho saudades dela.

- Só mesma a Talitaki para trazer tanta alegria ao nosso pastor. É uma santa!

E o pastor Azarias concluiu:

- Vamos ser a partir de agora um rebanho unido, um grande rebanho, de cem ovelhas… unidas e felizes.

- Ó pastor Azarias, afinal somos apenas noventa e nove ovelhas, pois a Talitaki passou a pertencer a outro Pastor, como nos contou.

- Sim. Não apenas ela lhe pertence como todos nós também lhe pertencemos. Eu juntamente convosco formamos um rebanho que tem Jesus como seu Pastor. A partir de agora haverá um só rebanho e um só Pastor. E quem se perder será encontrado por Ele que veio salvar o que estava perdido.

Foi assim que aconteceu.

Talitaki, a ovelha perdida, foi a primeira a ser encontrada por Jesus e a primeira a conhecê-lo como  Bom Pastor.

E a partir desse dia nada foi como antes.

Nota explicativa do nome Talitaki

Mc 5,41 – Tomando a mão da criança disse-lhe: "talítha kum" – o que significa: "menina, eu te digo, levanta-te". Kum quer dizer levanta-te, Talitha quer dizer cordeirinha (taleh=cordeiro). Era a expressão carinhosa que os pais usavam para chamar as suas filhas como cordeirinhas.