Regressando a casa, depois da minha caminhada
ao fim da tarde, encontrei um amigo, que ao saber donde eu vinha, se predispôs
a ensinar-me novos percursos e trilhos. A cada sugestão fui dizendo:
- Já fiz, também conheço, já experimentei, já
caminhei por aí etc.
Então reconheceu com humildade estar a querer
ensinar o Padre Nosso ao vigário, ou seja, ensinar algo a quem já domina o
assunto.
Lembrei-me que também já tinha feito algo
semelhante:
Uma vez chamei a atenção a um colega mais velho
sobre o que era mais aconselhado comer ou beber, quando, quanto e como. Ouviu-me
com paciência e depois disse-me:
- Tu queres ensinar-me a comer, a mim que já
tenho 90 anos? Se cheguei a esta idade é porque sei alguma coisa desse assunto.
E a conversa ficou por aqui pois também eu
pretendia ensinar o Padre Nosso ao Vigário.
Aprendi em Angola a versão africana deste provérbio.
O povo fanque assim diz – Não se ensinam os caminhos da floresta a um gorila
velho.
Porquê?
- Não se ensinam porque ele já conhece melhor
que nós.
- Porque ele é que nos deve ensinar a nós.
- Porque já não precisa de conhecer novos
caminhos.
- Só se o gorila que quer ensinar for ainda
mais velho.
- Porque os burros velhos não aprendem línguas.
- Não ensinamos nem a gorilas novos nem a
velhos porque na floresta os caminhos estão sempre a mudar.
- Não se ensinam porque os gorilhas velhos já
não querem viajar, nem podem deslocar-se.
- Porque os gorilas velhos querem ficar onde
estão.
- Ninguém ensina porque ninguém sabe a idade
uns dos outros gorilas.
- Entre os gorilas não há nem mestres nem aprendizes,
são todos iguais.
- Os caminhos não são para serem ensinados,
mas para serem percorridos.
- Não se ensinam caminhos porque cada um tem
de aprender por si mesmo e fazer o seu próprio caminho.
- Enfim, porque um gorila velho não usa GPS.
E poderíamos continuar a lista das ilações e
das aplicações deste provérbio…
Conclusão: Tal como um gorila
"velho" conhece a floresta melhor do que ninguém, as pessoas mais
vividas já dominam a sua própria arte e terreno.
Também nas nossas caminhadas ninguém ensina
ninguém. Cada um tem de descobrir por si mesmo o seu itinerário, consoante a
sua realidade.

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