terça-feira, 21 de abril de 2026

Sei que não vou por aí!

Uma vez no final da minha caminhada ao fim da tarde encontrei um casal a discutir num cruzamento.

A mulher queria ir por uma rua e o homem insistia em ir por outra. E cada um queria levar a sua avante.

- Por que não queres ir por aqui?

- Hoje eu não vou por aí e ponto final.

E assim continuavam a repetir as mesmas coisas:

- Vamos por aqui…

- Não vou, não vou, não vou – respondia batendo o pé no chão.

Não diziam as razões da recusa, nem outras explicações. Só não queriam ir pelo mesmo caminho.

Seria por ser mais longo ou demoroso? Mas afinal estavam ali a sofrer e a perder o tempo naquele impasse.

Ao fim e ao cabo não queriam ir pelo mesmo caminho, mas não queriam separar-se. 

 

Fiquei a pensar que nunca terei semelhante impasse, pois caminho habitualmente sozinho. Mas mesmo assim às vezes hesito, volto atrás, deito sortes para seguir o caminho certo.

Não sei como ficou resolvida a situação daquele casal, pois apressei-me a chegar a casa para rever o Cântico Negro do poeta José Régio, que abrevio aqui e que pode resumir tal experiência:

“Vem por aqui - dizem-me alguns com olhos doces,

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: vem por aqui!

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,

Por que me repetis: vem por aqui?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

a ir por aí

Ninguém me diga: vem por aqui!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou

Não sei para onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!”

 

De facto, apesar de eu não ter discussões destas, a minha vida é um constante discernimento para saber por onde vou. Mas isso parece de menor importância. Às vezes desvalorizo por onde vou, desde que não perca de vista para onde vou.

O mais importante não é ir por aqui ou por aí, desde que se chegue ao destino ou à meta. É que todos os caminhos vão dar a Roma…



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