quarta-feira, 22 de abril de 2026

Como é bom estarmos aqui!

Durante as minhas caminhadas ao fim da tarde encontro cada vez mais pessoas conhecidas e não deixo de cumprimentar ou de ser cumprimentado, nem que seja com um olhar, um aceno ou um sorriso.

Em geral a saudação mais inútil é perguntar:

- Então, o senhor padre como está?

E eu, sem disfarçar um sorriso irónico, respondo:

- Cá estou!

Pode parecer pouco, mas basta dizer isso, porque estar é tão bom.

Aprendi a responder assim com o poeta Teixeira de Pascoaes.

Ele recordava uma visita ao Castelo de São Jorge em Lisboa em que se deparou com uma senhora idosa parada a olhar o infinito. Estranhou e perguntou-lhe:

- O que está a senhora a fazer aqui?

E a senhora respondeu:

- Estou aqui.

Pascoaes, apesar de ser poeta, cedeu a perguntar:

- Mas aqui a fazer o quê?

E a resposta veio, avassaladora:

- O senhor acha que é pouco eu estar aqui?!

O poeta, rendido, confessou o imenso estalo espiritual que levou. Aquela mulher tinha acabado de lhe revelar uma verdade maior do que tudo o que tinha lido em Platão e demais filósofos.

Estar aqui é uma grande coisa. É o princípio da sabedoria e um dom da vida.

Estar é mais do que ficar parado, é maravilhar-se, é contemplar a beleza, é meditar e mergulhar no grande mistério.

A palavra meditação vem do verbo mederi, que significa cuidar de, tratar de, prestar atenção a, e está igualmente na origem da palavra medicina.

Meditação e medicina são irmãs, tão inseparáveis quanto aquilo a que se dedicam: a primeira mais ao cuidar da mente, a segunda mais ao cuidar do corpo.

Procuro a companhia destas duas irmãs nas minhas caminhadas diárias.

Cada caminhada é ao mesmo tempo meditação e medicina. E nem preciso de parar para contemplar e para curar.

- Então como estás?

- Estou!

E é tudo, pois estando, eu caminho e contemplando cuido do corpo e do espírito.

Como é bom estarmos aqui, já dizia São Pedro no monte Tabor…

Quero ainda esclarecer que quando fico parado a olhar para o infinito, como aquela senhora no Castelo de São Jorge, tenho a sensação de que mais do que contemplar, eu é que sou contemplado. Mais do que ver, eu é que sou visto não pelos outros ou pelo poeta, mas pelo próprio infinito que me toca e me envolve.



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