quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Santo reformador da Igreja


Memória de São Carlos Borromeu (+1584)

Os santos são os verdadeiros reformadores da Igreja.

No século XVI, a Igreja viveu uma das mais profundas crises espirituais e morais dos seus dois mil anos de história.

O papado renascentista atravessava um dos seus períodos mais negros, atingindo um ponto crítico durante o pontificado de Alexandre VI (1492–1503). Muitos bispos e abades, agindo mais como príncipes do que como pastores, não residiam nas suas próprias dioceses ou abadias, preferindo a corte papal em Roma ou noutras cidades onde pudessem desfrutar de um estilo de vida mais confortável. Os sacerdotes, carentes de uma formação humana, teológica e espiritual adequada, reduziam muitas vezes a religião a um conjunto de práticas mais próximas da superstição do que da verdadeira fé. …

Em 1517, Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, publicou as suas 95 Teses, que contestavam a prática da venda de indulgências e a corrupção no interior da Igreja. Ao questionarem a autoridade do Papa, estas teses desencadearam a Reforma, provocando uma dolorosa e dramática rutura no tecido tanto da Igreja como da sociedade civil daquela época.

Deus, que na sua providência vela constantemente pela caminhada dos seus filhos ao longo da história, suscitou um despertar das consciências, conduzindo a uma profunda renovação espiritual e moral na Igreja.

O Papa Paulo III (1534–1549) convocou, em 1545, o Concílio de Trento (1545–1563), que visava promover uma reforma profunda da Igreja Católica. É verdadeiramente notável o número de santos que o Espírito Santo suscitou na Igreja durante este período para contribuir para a sua renovação. Entre os mais célebres contam-se Santo Inácio de Loyola, São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, São Filipe Néri e São Carlos Borromeu, considerado um dos maiores reformadores da Igreja.

Carlos Borromeu, oriundo da nobre família Borromeu de Milão, nasceu em 1538. Ordenado sacerdote e consagrado bispo, foi enviado em 1566 com apenas 28 anos de idade pelo seu tio, o Papa Pio IV, à Arquidiocese de Milão.

Repleto do Espírito Santo e de zelo pela Igreja, a Esposa de Cristo, o jovem bispo dedicou toda a sua vida à glória de Deus e à salvação das almas; notavelmente, conseguiu realizar três visitas pastorais completas por um território tão vasto. Preocupou-se profundamente com a formação do clero e com o bem-estar dos fiéis. Fundou seminários, estabeleceu hospitais e casas de acolhimento, ao mesmo tempo que doava todos os seus bens pessoais aos pobres. Reorganizou as estruturas da Igreja, assegurando a sua independência de interferências externas, uma missão que lhe trouxe calúnias, hostilidades e até mesmo uma tentativa de assassinato. Durante a peste que assolou Milão em 1576, enquanto as autoridades civis fugiam da cidade, permaneceu para cuidar pessoalmente dos doentes. Apoiou a criação de vários institutos e fundações religiosas, dedicando todas as suas forças ao seu ministério episcopal, orientado pelo lema que escolheu: "Humilitas" (Humildade). Faleceu a 3 de novembro de 1584, com 46 anos, exausto devido aos seus imensos esforços.

 

À margem

O português Bartolomeu dos Mártires e o italiano Carlos Borromeu foram colegas no episcopado, companheiros no Concílio de Trento, amigos íntimos, conselheiros um do outro e mutuamente reconhecidos como santos.

Em geral os colegas da mesma profissão ou da mesma área de saber fazem questão de manter uma certa distância. Há uma espécie de ciúme ou de inveja. Não abrem muito o jogo um ao outro para não se sentirem ultrapassados. Não querem ficar para trás, para saberem, possuírem ou ter mais poder do que os outros semelhantes.

Entre os santos não é assim. Não há inveja nem ciúme entre eles.

Foi o que aconteceu entre estes dois personagens Carlos e Bartolomeu.

Os santos autênticos conhecem-se mutuamente e tornam-se almas gémeas. Ajudaram-se mutuamente a viver na santidade e integridade de vida.

Podemos confirmar isto com o seguinte facto. Carlos Borromeu sentindo-se bastante atraído pela vida monástica e contemplativa, pensou seriamente em renunciar a seu cargo à frente da arquidiocese. Porém Frei Bartolomeu dos Mártires, então arcebispo de Braga, conseguiu dissuadi-lo dessa ideia. Frei Bartolomeu o ajudou a perceber que, naquele século, repleto de maus exemplos dados pelo alto Clero, seria melhor que Carlos Borromeu, um nobre, vindo de família milionária e sobrinho do Papa, desse um exemplo de vida pobre, humilde e santa como arcebispo. São Carlos Borromeu viu neste conselho a vontade de Deus e acatou, permanecendo arcebispo de Milão.

Os santos ajudam-se mutuamente no mesmo caminho de santidade.

Borromeu considerava o arcebispo bracarense um exemplo vivo de santidade e chegou a afirmar que o tomava como modelo a imitar.

 

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