quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A mudança de estação


Hoje, 23 de setembro, pelas 01H05, ocorreu o equinócio de outono e dissemos adeus ao verão.

É a mudança de estação

Ou a estação da mudança.

 

1ª reflexão – O outono da vida

O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos.

Porque não terá também o seu Outono a vida?

As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo.

Pe. António Vieira, Sermão da Sexagésima, Pregado na Capela Real, no ano de 1655

 

2ª reflexão – Para tudo há uma estação

Eclesiastes 3,1-13 – Para tudo há um tempo determinado, e para cada assunto debaixo do céu há um tempo certo.

Para tudo há uma estação.

Cada estação verdadeira é feita por Deus. Ele cria e orquestra de alguma forma as estações da nossa vida como faz com as estações do ano. As mudanças na vida acontecem obviamente com a mudança das estações.

A mudança das estações é um convite para reagrupar, lembrar, revisar, relembrar e reinvestir numa prática espiritual que tem significado para nós, ajuda-nos a perceber onde Deus está na nossa vida cotidiana e a expressar a nossa gratidão. Quanto mais oportunidades tivermos para perceber Deus no dia a dia, mais profundo será o nosso relacionamento com Ele.

O nosso interior deve estar pronto para os presentes do outono, pronto para viver o outono da nossa vida.

É preciso estar preparado para o cair da folha.

 

3ª reflexão – Uma tarde de outono

A ladeira leva ao moinho, mas o esforço não leva a nada.

Era uma tarde de outono, quando o céu tem um calor frio, morto, e há nuvens que abafam a luz em cobertores de lentidão.

 

Duas coisas só me deu o Destino: uns livros de contabilidade e o dom de sonhar.

 

Fernando Pessoa (Bernardo Soares) Livro do Desassossego. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.  - 439.

 

4ª Reflexão – No entardecer da terra

 

No entardecer da terra

O sopro do longo Outono

Amareleceu o chão.

Um vago vento erra,

Como um sonho mau num sono,

Na lívida solidão.

 

Soergue as folhas, e pousa

As folhas, e volve, e revolve,

E esvai-se inda outra vez.

Mas a folha não repousa,

E o vento lívido volve

E expira na lividez.

 

Eu já não sou quem era;

O que eu sonhei, morri-o;

E até do que hoje sou

Amanhã direi, quem dera

volver a sê-lo! ... Mais frio

O vento vago voltou.

 

Fernando Pessoa. Poesias (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).  - 91. 1ª publ. in Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.

 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

Em comunhão com o nosso Bispo


Hoje tomou posse da diocese do Algarve o bispo D. Vitorino Soares

Para o bispo emérito Manuel Neto Quintas – a minha gratidão.

 

Para o bispo Vitorino Soares – a minha oração:

Que seja um bom bispo e um bispo bom.

 

Nos trinta e um anos que trabalhei na Madeira, minha terra natal, conheci 2 bispos.

Nos dez anos que trabalhei nos Açores, conheci 3 bispos.

Neste ano que trabalho no Algarve conheci 2 bispos.

 

Santo Inácio de Antioquia assim exortava os seus sacerdotes:

Segui o vosso bispo como Cristo segue o Pai.

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A vida toda aos pés de Jesus


5ª feira – XXIV semana comum

Uma mulher colocou a sua vida toda aos pés de Jesus – seu passado, seu presente e seu futuro.

Jesus abençoou-a e ela foi em paz.

 

Também hoje, quero colocar a minha vida toda aos pés de Jesus:

A humildade do meu passado.

A gratidão do meu presente.

A esperança do meu futuro.

 

Quero ficar aos pés de Jesus:

- Para continuar a confessar o meu pecado passado

- Para continuar a escutar a sua Palavra hoje

- Para continuar a seguir o seu caminho rumo ao futuro.

 

A vida toda e toda a vida aos pés de Jesus.

 

Mais do que Jesus estar aos meus pés,

Prefiro estar aos pés de Jesus.



 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Valha-me Nossa Senhora

 

Memória da Virgem Santa Maria das Dores

Na oitava da Natividade da Virgem Santa Maria

E no dia seguinte à festa da Exaltação da Santa Cruz.

 

Nuesta Señora de Las Angustias
Ayuntamiento de Ayamonte,
vizinho de Vila Real de Santo António

Um só mistério:

O nascimento e o martírio de Maria.

É a unidade entre a vida e a paixão de Maria,

entre a sua consagração e o seu martírio.

 

Nossa Senhora das Dores

também chamada de Nossa Senhora da Piedade

Nossa Senhora da Soledade

Nossa Senhora das Angústias

Nossa Senhora da Agonia

Nossa Senhora das Lágrimas

Nossa Senhora das Sete Dores

Nossa Senhora do Calvário

Nossa Senhora do Monte Calvário

Mãe Soberana

Nossa Senhora do Pranto

Em latim Beata Maria Virgo Perdolens

Mater Dolorosa

Ou simplesmente Pietà

 

Oração popular Valha-me Nossa Senhora:

 

Em pecado mortal

Não hei de morrer

Que a Virgem Santíssima

Me há de valer.

 

À margem

 

A Senhora da Agonia

Tem um nicho na Igreja.

Mas a dor que me agonia

Não tem ninguém quem a veja.

 

Fernando Pessos, s.d. Quadras ao Gosto Popular. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 76.


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Ad crucem sicut mensam


Festa da exaltação da Santa Cruz

1.

A 14 de setembro de 335 d.C., ocorreu a Dedicação da Basílica de Constantino, que abrigava tanto o Calvário quanto o Santo Sepulcro. Nesta data tinha sido descoberta a vera cruz. E o aniversário é celebrado com tanta solenidade quanto a Páscoa ou a Epifania.

 

2.

Cristo venceu através da sua cruz.

O homem católico carrega uma cruz, não porque espera a derrota, não porque está condenado, não porque deve sofrer, mas porque sabe a quem pertence, em última instância, a vitória.

A Cruz não é punição – é o esvaziamento de si mesmo pelo amor que se humilha tanto que nos eleva.

Quando contemplamos Cristo crucificado, não vemos ver ira, mas compaixão; não condenação, mas convite.

As feridas de Jesus não são marcas de vingança, mas portas abertas de misericórdia.

 

3.

O refeitório dos antigos conventos era presidido por uma grande cruz. De cada lado da qual tradicionalmente eram colocadas duas placas com os dizeres:

- Ad mensam sicut ad crucem

- Ad crucem sicut ad mensam

Traduzindo para português, significam:

- À mesa como à cruz, isto é, vamos com moderação e contemplação.

- À cruz como à mesa, isto é, vamos com alegria e com vontade.

Alimentamo-nos ao mesmo tempo da cruz e da mesa.

O corpo e a alma são nutridos ao mesmo tempo.

 

domingo, 13 de setembro de 2026

Sete perguntas sem sentido


Ano A – XXIV semana comum

Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou:

- Mestre, quantas vezes tenho de perdoar ao meu irmão?

Então Jesus, cheio de paciência, foi dizendo:

- Pedro, que pergunta mais paradoxal! Só responderei a essa pergunta quando me responderes a estas outras perguntas:

 

1ª – Quantas vezes devo amar o meu amigo?

2ª – Quantas vezes devo fazer o bem ao meu próximo?

3ª – Quantas vezes devo respeitar os meus pais?

4ª – Quantas vezes devo ouvir a Palavra de Deus?

5ª – Quantas vezes devo cumprir os mandamentos de Deus?

6ª – Quantas vezes devo rezar a Deus?

7ª – Quantas vezes devo perdoar ao meu irmão?

 

Então Pedro ficou envergonhado e respondeu:

- Senhor, obrigado por me fazeres descobrir que:


A medida do amor é amar sem medida.

A medida do bem é fazer o bem sem medida.

A medida do respeito aos pais é respeitá-los sem medida.

A medida da escuta de Deus é escutá-lo sem medida.

A medida do cumprimento dos mandamentos é cumpri-los sem medida.

A medida da oração é rezar sem medida.

A medida do perdão é perdoar sem medida.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Os óculos do Diabo

 

6ª feira – XXIII semana comum

A parábola do argueiro e da trave.

Temos a tendência de aumentar o mal que vemos nos outros e a diminuir o mal que temos em nós.

É uma tentação demoníaca.

 

Um dia o Diabo fez uma grande invenção: produziu um par de óculos cujas lentes tinham uma dupla propriedade – aumentavam os defeitos que via nos outros, mas diminuam os defeitos que via em si mesmo. Era muito divertido. E muita gente pedia esses óculos ao Diabo para se rir um pouco dos outros.

Um dia, no meio de tanta algazarra, os óculos caíram e as suas lentes desfizeram-se em pó. Veio o vento e levou essa poeira pelo ar de modo que entrou nos olhos de muita gente.

Assim, ainda hoje algumas pessoas ficam afetadas com o pó dessas lentes e veem os defeitos dos outros de forma aumentada enquanto os seus defeitos ficam diminuídos.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A real escola da vida real


Nestes dias em que circulam notícias do Príncipe George, neto do Rei Carlos III da Inglaterra, a dar entrada, aos 13 anos, no colégio particular Eton, lembramos uma breve narração de Fernando Pessoa acerca do mesmo colégio.

OS RAPAZES DE BARROWBY

Crónica humorística por Adolph Moscow (Fernando Pessoa)

Capítulo I

A VILA E A ESCOLA DE BARROWBY


… O segundo rapaz era chinês e tinha só doze anos. A sua cara era mais bonita e fina que geralmente são as fisionomias dos filhos do Império Oriental. Chamava-se Lung-Hi e era filho de um mandarim que o mandava à escola na Europa pois que o destinava à representação do seu país na Inglaterra. Este pequeno era o mais baixo de todos, mas era o mais vivo e mais travesso do bando ali reunido. Nos colégios ingleses nobreza é posta à parte e tratavam-no os professores pelo seu nome simplesmente, e os rapazes por Lung só.

Uma anedota antiga ilustra isto. No reinado de Carlos II, visitou este monarca o colégio de Eton. Mal entrou ergueu-se toda a gente, incluindo o Professor, que era um homem de espírito, o Doutor Busby. Conservou este porém o chapéu na cabeça. Julgando o rei que isto era esquecimento perguntou-lhe por que não se descobria. «Real Senhor», respondeu Busby, «não tiro o chapéu porque me não faz conta que os meus alunos pensem que há alguém maior que eu!» (Histórico.)


1903 – Ficção e Teatro. Fernando Pessoa. (Introdução, organização e notas de António Quadros.) Mem Martins: Europa-América, 1986 - 18.

1ª publ. in Persona, nº9. Porto: Centro de Estudos Pessoanos, Out. 1983

 

domingo, 6 de setembro de 2026

Corrigir os erros sem jugar


Ano A – XXIII domingo comum

No evangelho de hoje Jesus ensina-nos como corrigir um irmão que nos ofende.

Quero hoje prestar mais atenção ao que Jesus ensina com o exemplo do que às suas palavras. Ele ensina o que vive e vive o que ensina.

Diante os irmãos que o ofendiam Jesus mantém a calma, aproxima-se e pergunta:

- Se falei mal diz-me em quê, mas se falei bem porque me bates?

Ou então diante dos algozes, no Calvário Jesus reza por aqueles que o ofendiam:

- Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem.

A melhor maneira de tratar os irmãos que nos ofendem é não julgar nem condenar, mas rezar por eles.

 

Façamos uma demonstração:

Numa igreja havia 5 velas.

Entraram 3 ladrões.

Cada um levou 1 vela.

Quantas velas ficaram?

 

A minha resposta imediata é que ficaram 2 velas.

Mas essa é uma reação negativa de julgamento.

Como são ladrões eu faço o julgamento que cada um levou, isto é, roubou uma vela.

Mas o narrador diz apenas que cada um levou, isto é, levou para a igreja juntando às outras 5 velas.

Se eu julgo negativamente a resposta é 2 velas.

Se eu aprecio sem julgar nem condenar a resposta é 8 velas.

Depende do que o meu coração vê.

Não podemos julgar nem condenar os nossos irmãos, mas corrigir com amor.

 

À margem 1

São Tomás te Aquino aborda a caridade na Summa Teológica dedica uma questão inteira à correção fraterna (q 33 da II-IIae). Desenvolve-a em 8 artigos. Os títulos são apelativos indo diretos ao assunto:

Artigo 1 – Se a correção fraterna é ato de caridade.

2 – se a correção fraterna é preceito

3 – se pertence só aos prelados

4 – se alguém está obrigado a corrigir o seu prelado

5 – se o pecador deve corrigir o delinquente

6 – se devemos cessar a correção fraterna por temermos que o pecador fique pior

7 – se, na correção fraterna, deve, por força do preceito, a advertência secreta preceder a pública

8 – se a apresentação de testemunhas deve preceder a advertência pública.

São Tomás não tem dúvidas: a correção fraterna não deve configurar simplesmente um ato de justiça, mas deve ser, si, uma expressão da caridade. Seria um ato de justiça se a nossa única preocupação fossem aqueles que são vítimas dos erros ou dos pecados do pecador. Mas torna-se uma obra de misericórdia porque nos preocupamos com o pecador em si mesmo, ajudando-o a reconciliar-se com Deus. Percebemos assim o silogismo: corrigir o que erra é esmola espiritual. Ora, a esmola é ato de caridade, logo a correção fraterna é ato de caridade. É tentar libertar e não julgar ou condenar.

 

À margem 2

- O senhor padre faz ideia qual é a obra de misericórdia mais praticada?

- Não faço ideia. É uma das obras de misericórdia corporais ou espirituais?

- É a 3ª obra de misericórdia espiritual.

- Já sei – é corrigir os que erram.

De facto, é o que estamos constantemente a fazer, muitas vezes, até sem nos apercebermos. Em qualquer lugar, seja com quem for, temos a tendência para corrigir, mostrar e corrigir os erros dos outros.

Não nos podemos esquecer que qualquer correção deve ser um ato de amor e uma obra de caridade ou de misericórdia.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

S. Gregório cantai por nós


Memória de São Gregório Magno (+604)

Papa e Doutor da Igreja

O Espírito Santo a cantar ao ouvido de São Gregório Magno inspirando-lhe as suas composições musicais. Assim também quem canta está a rezar ao ouvido de Deus Pai.


1 – O Papa que ensinou a igreja a rezar… cantando.

Assim nasceu o canto gregoriano.

São Gregório Magno, cantai por nós!

 

2 – O Papa que ao evangelizar era evangelizado.

Ele declarava: Muitas coisas da Sagrada Escritura só fui capaz de as perceber quando tive de as comunicar aos outros.

 

3 – O Papa que pregava com medida.

Alguns pregadores pregam de vez em quando e outros estão sempre a pregar. Estes dois extremos não são bons.  Dizia São Gregório Magno – A pregação, se escassa, não é suficiente, se demasiada, pouco será apreciada. Há que pregar com medida. A chuva útil não é nem escassa nem contínua.

 

À margem:

Sabem qual foi o primeiro pensamento de São Gregório ao ser eleito papa? Fugir!

Ainda bem que ele desistiu da ideia, pois foi considerado um dos papas mais influentes de todos os tempos.

Perto do final do século VI, a Igreja Católica precisava de um “bom pastor”. Muitos bispos e clérigos eram corruptos e a Europa estava dividida após o colapso do Império Romano.

Quando o Papa Pelágio II morreu de peste, o povo de Roma sabia exatamente quem eles queriam como o próximo papa.

Gregório era conhecido por sua simplicidade. Ele era o abade de um mosteiro local. Aos 50 anos, tinha uma vida de contemplação e passava os dias no silêncio de sua cela.

No entanto, esse sonho de vida desabou quando o povo e o clero de Roma bateram à sua porta. Eles lhe contaram sobre o plano de elegê-lo como papa. Gregório imediatamente recusou. Ele até escreveu ao imperador, dizendo que não seria o próximo papa.

Há até uma história que ilustra seu desejo de fugir de Roma para não desempenhar o cargo máximo da Igreja:

Gregório tentou fugir de Roma, mas não conseguiu, porque o observavam dia e noite nos portões da cidade. Por fim, mudou de roupa e convenceu alguns comerciantes a escondê-lo em um barril de vinho e tirá-lo da cidade numa carroça. Quando chegaram a uma floresta, ele se escondeu nas cavernas por três dias. Fizeram uma busca incansável e eis que uma coluna de luz brilhou do céu e apareceu sobre o local onde ele se escondera: um certo eremita viu anjos descendo e subindo nesse raio. Descoberto levaram-no de volta a Roma e o consagraram como Sumo Pontífice. Finalmente aceitou a ideia e dedicou-se de corpo e alma à sua missão, de modo que o progresso dos fiéis era a sua alegria.