sexta-feira, 13 de setembro de 2024

O que deve mudar na Igreja


6ª feira – XXIII semana comum

Hoje somos convidados a examinar-nos antes de julgar os outros:

Sou realmente um cristão tão bom que posso me dar ao luxo de julgar os outros? 

Se não sou capaz de tratar os outros com misericórdia, é melhor não julgar ninguém, trabalhar para melhorar a minha vida antes de me envolver na dos outros.

É fácil perceber os erros dos outros, mas é muito difícil aceitar que não sou perfeito, que ainda tenho um longo caminho a percorrer para ser um cristão completo, como Deus espera de mim.

 

1º exemplo

Um dia perguntaram à Madre Teresa de Calcutá:

- O que você mudaria na Igreja?

Ela sem hesitação respondeu:

- Eu mudaria a mim mesma, mudaria o meu coração.

É assim que se retira a trave da nossa vista para poder mudar o argueiro da vista dos irmãos.

 

2º exemplo

Santo Agostinho in 'Explicação do Sermão da Montanha' (19, 63) pregava assim:

“O Senhor previne-nos contra os juízos temerários e injustos, pois pretende que ajamos com um coração simples, olhando sempre só para Deus. Dado que ignoramos o motivo de muitas ações, seria temerário da nossa parte julgá-las. Os mais dispostos a fazer juízos temerários e a condenar os outros são aqueles que preferem condená-los a corrigi-los e trazê-los ao bem, uma atitude que denota orgulho e mesquinhez.

Por exemplo, um homem peca por cólera, e tu repreende-lo com ódio. Entre a cólera e o ódio vai a mesma distância que separa a palha do argueiro. O ódio é uma cólera inveterada que, com o tempo, assumiu proporções tais, que bem merece o nome de argueiro. Pode acontecer que te encolerizes quando pretendias corrigir, mas não deves nunca deixar-te levar pelo ódio. Afasta primeiro o ódio para longe de ti, e poderás depois corrigir aquele que amas.”

 

Ver também:

Míopes, daltónicos, cegos

Ampliar defeitos alheios

Tal mestre, tal discípulo

Versão doméstica

Não julgueis

Quem é mais cego

Trave e argueiro

A trave e o argueiro

Ter mais que fazer

Fofoca é crime

Não julgar

Cego a guiar cego

Argueiro e trave nos olhos

Corrigir por amor

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Bem-aventurados porquê?


3ª feira – XXIII semana comum

Felizes os que têm fome e sede de justiça.

Felizes porquê?

Têm fome e sede e são felizes?

Será que alguma vez a pobreza é feliz?

Eles não são felizes pelo facto de terem fome e sede, mas porque eles serão saciados.

É aí que está a felicidade – na saciedade, não na fome.

Felizes os que o reino de Deus (os pobres que não tendo nada, têm o Reino)

Felizes os que Deus vai saciar (os que têm fome neste mundo, mas saciados por Deus)

Felizes os que se alegram em Deus (os que choram neste mundo)

Felizes os que são recompensados por Deus (os perseguidos por causa da sua fé)

São felizes não pelo que são ou têm, mas pelo que Deus lhes dá ou faz.

 

Ver também:

Jesus sentou-se e ensinou

O sermão da planície

À procura da felicidade

Bem-aventurados sois vós

Variações em reto tom

Felizes sois vós

Puzzle de Jesus

Os VIPs da igreja

Selfie de Jesus

Via sacra das Bem-aventuranças

Erguendo os olhos

Autorretrato

Bem-aventuranças modernas

Pai nosso das Bem-aventuranças

As Bem-aventuranças

Ser feliz aqui

As oito palavras

Sermão da montanha

 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Contar cordeirinhos à noite


3ª feira – XXIII semana comum

Em geral quando estamos com insónia e não conseguimos dormir sugerem-nos a estratégia de contar ovelhas mentalmente para que o sono chegue.

Como surgiu esse costume?

Numa lenda bem antiga, um fabulista dedicava-se a contar todas as noites histórias ao seu rei, para que este pudesse adormecer mais facilmente. Porém, segundo reza a história, o rei sofria com insónias, pelo que, cada noite, tinha mais dificuldades em adormecer, e demorava mais tempo para o conseguir. Isto obrigava o narrador a prolongar os seus relatos cada vez mais. Inteligentemente, ocorreu-lhe um conto em que um pastor tinha adquirido bastantes ovelhas, que devia passar de uma margem do rio para a outra, e apenas uma de cada vez. Assim, o relato prolongava-se até que o rei fosse capaz de adormecer, enquanto o narrador contava como passavam as ovelhas, uma de cada vez. Ante o seu êxito, esta lenda começou a tornar-se popular e, como sucedia naqueles tempos, de boca em boca, acabou por chegar até aos nossos dias, na forma de costume popular utilizado para induzir o sono.

E esta técnica resulta ainda hoje, quando as pessoas não estão tão habituadas aos rebanhos? Há alguma explicação científica para essa prática? Sim. Envolver o cérebro numa tarefa relaxante e repetitiva abranda a mente e evita que os nossos pensamentos agitados e o estresse sufocante se apoderem se nós e não nos deixem descansar.

A minha sugestão é diferente. Quando não consigo dormir, em vez de contar ovelhas, ponho-me a falar com o Pastor. Não é para que o sonho venha, mas para aproveitar esse tempo rezando. E nunca me dei mal com isso e assim sigo o exemplo de Jesus que passou a noite em oração.

Conclusão: Não consegues dormir? Não contes ovelhas, nem contes Ave Marias, fala com o Pastor. E na altura certa o Pastor deixar-te-á dormir em paz.

 

Ver também:

Decálogo da vocação

Monte, noite, oração

Os apóstolos de Jesus e o Jesus dos apóstolos

Sou porque somos

Subir ao monte

Rezar toda a noite

Silêncio

No cimo do monte

 

Ver ainda:

Cada apóstolo a sua missão

Jesus é o protagonista

Corresponsabilidade

Apóstolos a postos

Deus é quem escolhe

Seguidores

Escolher

Doze apóstolos

 

domingo, 8 de setembro de 2024

Nascemos com uma missão


Festa da Natividade da Virgem Santa Maria

 

Ao celebrar esta festividade temos uma boa oportunidade de recordar que todos nascemos, não fruto do destino, mas com uma missão a cumprir. Não é o destino que nos dirige a vida, mas a missão que Deus nos designou desde toda a eternidade.

E se continuamos a peregrinar, quer dizer que a nossa missão ainda não terminou por aqui.

Maria nasceu porque tinha uma missão própria:

Ser a Mãe de Deus e Mãe nossa.

 

Demos graças a Deus.

E aprendamos a discernir e a cumprir a nossa própria missão aqui na terra.

 

Ver também:

Assim nasceu a humildade

O Natal da Virgem Maria

A imitação de Maria

Nossa Senhora dos Açores

A Aurora da Salvação

Hoje há festa na terra e no Céu

Parabéns a Maria de Nazaré

Nasce para quê?

 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Odre novo é nosso coração


6ª feira – XXII semana comum

 

Ninguém corta um remendo de um vestido novo, para o deitar num vestido velho…

E ninguém deita vinho novo em odres velhos…

Os tecidos, na antiguidade, eram de fibra natural (lã e linho), que encolhem com a lavagem. Então, para fazer um remendo não se usava tecido novo, pois na lavagem ele iria encolher e a roupa rasgaria novamente. Usava-se sim remendo de tecido velho para pano velho e usava-se remendo de tecido novo para pano novo.

Jesus quer revestir-nos tudo de novo com a sua graça.

 

E ninguém deita vinho novo em odres velhos…

Com o odre, acontecia algo parecido.

Então, odre é uma bolsa de couro curtido de bode ou carneiro para guardar ou transportar líquidos, especialmente o vinho. O vinho novo ainda está fermentando e se expande dentro do recipiente. Se o odre for novo, ele tem elasticidade suficiente para continuar mantendo o vinho no seu interior. Se o odre for velho, já sem elasticidade, o vinho novo na sua fermentação acaba por arrebentá-lo e se derramar.

O vinho novo é Jesus Cristo que é a Boa Notícia ou o Evangelho. É alegria, festa e renovação. É o vinho da nova Aliança.

O odre é o nosso coração

Para poder suportar o vinho novo (Jesus Cristo) é preciso ter um coração maleável e não endurecido. É preciso ter um coração novo para acompanhar a novidade de Jesus Cristo

Jesus, Vinho Novo, requer um Coração Novo como novo odre.

 

Ver também:

Festa é festa, jejum é jejum

O vinho e os odres

Retalhos

Vinho novo

Odres novos

 

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Mestra do amor ao próximo


Memória de Santa Teresa de Calcutá

Um menino da rua pergunta à Madre Teresa de Calcutá:

- Madre, a senhora está ocupada?

- Ui, há tanta coisa para fazer! Mas por que é que queres saber?

E com simplicidade e confiança o menino faz-lhe um pedido:

- Quer saltar à corda comigo?

E a Madre Teresa com o coração a transbordar de caridade:

- E por que não? Vamos! Comecemos por aí.

 

Madre Teresa, quem és tu?

Assim se definiu:

- Sou albanesa de sangue; de cidadania, Índia. Quando se trata de fé, sou uma freira católica. Pela minha vocação, pertenço ao mundo. No que diz respeito ao meu coração, pertenço totalmente ao Coração de Jesus.

 

De pequena estatura, firme na fé como uma rocha, Madre Teresa de Calcutá foi incumbida da missão de proclamar a sede de amor de Deus à humanidade, especialmente aos mais pobres entre os pobres. “Deus ainda ama o mundo e envia-nos para sermos o seu amor e compaixão pelos pobres.”

 

Vida e obra de Santa Teresa de Calcutá

Era uma alma inflamada de amor a Cristo e ardendo por um único desejo: “saciar a sede de amor e de almas”.

A vida de Ganxhe Bojaxhiu (nome de batismo de Madre Teresa) começou numa família católica albanesa em 26 de agosto de 1910.

Ela aprendeu a rezar com sua mãe, uma mulher de profunda fé.

“Eu não tinha nem 12 anos quando senti o desejo de ser missionária”. 

Aos 18 anos saiu de casa para ir para a Irlanda, com as Irmãs de Loreto.

Poucos meses depois foi enviada à Índia, onde completou o noviciado. Professou em 1931.

“De acordo com as constituições da congregação de Loreto, tive que mudar de nome. Optei por me chamar de Teresa, em homenagem a Santa Teresa de Lisieux”. 

Durante 20 anos dedicou-se ao ensino de história e geografia na escola Santa Maria, em Calcutá, onde frequentavam meninas indianas de classe alta. Logo ela também começou a lecionar em uma escola para meninas pobres. Como era diretora do Santa Maria, ela ia e vinha, trabalhando dia e noite.  Ela foi encarregada de dirigir a formação das Filhas de Santa Ana, freiras que viviam segundo os costumes bengalis. Eles usavam o sari indiano tecido de algodão pobre. Comiam sentados no chão, como nas aldeias de onde vieram. Eles oravam e trabalhavam sentados em esteiras. Ela absorveu em grande parte o estilo das freiras bengalis e o transmitiu às suas freiras anos depois, quando criou as Missionárias da Caridade. 

A reviravolta da sua vida ocorreu “em 10 de setembro de 1946, durante a viagem de comboio que me levou ao convento de Darjeeling para fazer os exercícios espirituais. Senti um apelo – tinha que deixar o meu convento e entregar-me ao serviço dos mais pobres, vivendo entre eles. 

Naquele dia, a sede de amor e de alma tomou conta do seu coração e o desejo de saciar a sede de Jesus tornou-se o motor de toda a sua vida. Essa iluminação interior causou-lhe inúmeras complicações durante mais de dois anos, até que em 1948 pôde vestir pela primeira vez o sári branco debruado de azul e atravessou as portas do seu querido convento de Loreto para entrar no mundo dos mais pobres.

O que tinha que fazer era ir aos bairros mais miseráveis. Visitou famílias, lavou as feridas de algumas crianças, cuidou de um velho doente que estava caído na rua e cuidou de uma mulher que morria de fome e tuberculose. Começou a recolher os moribundos nas ruas e a carregá-los às costas para um lugar onde pudessem morrer em paz e com dignidade.

Também abriu um orfanato e deu aulas para crianças, usando as calçadas como carteiras e o chão como quadro negro. 

Ela começava cada dia entrando em comunhão com Jesus na Eucaristia e saindo de casa com o rosário na mão, para encontrar e servir Jesus “nos indesejados, nos não amados, naqueles com quem ninguém se importa”.

Viveu em Calcutá, na Índia, e em 1949 solicitou e obteve a nacionalidade deste país.

Aos poucos, outras mulheres se juntaram a ela, de modo que em 1950 recebeu aprovação oficial para fundar uma congregação de freiras, as Missionárias da Caridade, que se dedicariam a servir os mais pobres entre os pobres.

Na década de 60 abriu outras casas em diferentes cidades da Índia e, a partir de 1965, também em outros países: Venezuela, Itália, Tanzânia, Estados Unidos, Rússia, China, Albânia, Cuba...

Madre Teresa de Calcutá morreu a 5 de setembro de 1997.

Hoje as suas filhas são cerca de 4.000, espalhadas por 120 países ao redor do mundo.

Foi beatificada em 2003 e canonizada em 2016.

A sua festa é celebrada a 5 de setembro, aniversário de sua morte.

Em sua homenagem as Nações Unidas declararam o dia 5 de setembro como o Dia Internacional a Caridade.

 

Ver também:

Teresa no céu

Santa Madre

Dia internacional da Caridade

Teresa de Calcutá

Imagem de Deus

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

E a sogra mudou de posição


4ª feira – XXII semana comum

 

Jesus aproximou-se da sua cabeceira… 

e a febre deixou-a.

Ela levantou-se e começou logo a servi-los.

A sogra de Pedro levantou-se, isto é, mudou de posição.

Dizemos que quem está doente, não há posição que nos aguente, ou seja, não suportamos nenhuma posição.

A sogra de Pedro dá-nos uma lição de mudança de posição.

- Ela mudou de posição, não só porque estava deitada e ficou de pé.

- Mudou de posição não só porque estava doente e ficou sã.

- Mudou de posição porque deixou de pensar em si e na sua doença e passou a pensar nos outros, servindo-os.

 

Assim também nós, com a proximidade de Jesus, mudamos sempre de posição.

Às vezes estamos mal, estamos doentes.

Se nos aproximarmos de Jesus mudamos sempre de posição:

- Ou ficamos curados, pela sua ação libertadora.

- Ou esquecemos o sofrimento porque só pensamos no seu amor.

- Ou mudamos a maneira de encarar a doença, aceitando-a ou santificando-a.

Quando Jesus se aproxima, mudamos sempre de posição.

 

Ver também:

Grandes personagens de cama

Um dia cheio de curas

Quem é a sogra de Simão

Num lugar deserto

A nossa febre

Em todo o lugar

A sogra de Pedro

Paciência, caridade e humildade

A febre e a oração

Ser mão

In-firmus

Um dia em cheio

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Hoje já não faço anos, duro


Em dia de aniversário natalício agradeço a Deus que me deu a graça de terminar mais uma volta completa ao sol. Que eu nunca me canse de dar cada dia uma volta em mim mesmo, e este ano foram 366 vezes. Agradeço também a quem quis festejar comigo esta data.

Partilho 3 poemas:

 

1º - o salmo 138 (139) que pode ser considerado o mais apropriado para o dia de aniversário. É o que a Igreja sugere para o dia ao nascimento de São João Baptista.

 

Refrão: Eu Vos dou graças, Senhor,

porque maravilhosamente me criastes.

 

Senhor, Vós conheceis o íntimo do meu ser:

sabeis quando me sento e quando me levanto.

De longe penetrais o meu pensamento:

Vós me vedes quando caminho e quando descanso,

Vós observais todos os meus passos.

 

Vós formastes as entranhas do meu corpo

e me criastes no seio de minha mãe.

Eu Vos dou graças

por me terdes feito tão maravilhosamente:

admiráveis são as vossas obras.

 

Vós conhecíeis já a minha alma

e nada do meu ser Vos era oculto,

quando secretamente era formado,

modelado nas profundidades da terra.

 

2º - o salmo 89 (90) que pode ser considerado o mais apropriado para a velhice ou a terceira idade.

 

Senhor, tendes sido o nosso refúgio, *

de geração em geração.

Antes de se formarem as montanhas †

e nascer a terra e o mundo, *

desde toda a eternidade Vós sois Deus.

 

Vós reduzis o homem ao pó da terra *

e dizeis: «Voltai, filhos de Adão».

Mil anos a vossos olhos *

são como o dia de ontem que passou †

e como uma vigília da noite.

 

Vós os arrebatais como um sonho, *

como a erva que de manhã reverdece,

de manhã floresce e viceja, *

à tarde é cortada e seca.

 

Sentimo-nos desfalecer com a vossa ira, *

estamos aterrados com a vossa indignação.

Colocastes as nossas culpas na vossa presença, *

o nosso íntimo à luz da vossa face.

 

Todos os nossos dias decorreram sob a vossa ira, *

acabámos os nossos anos como um suspiro.

Os dias da nossa vida andam pelos setenta anos *

e, se robustos, por uns oitenta:

a maior parte são trabalho e desilusão, *

passam depressa e nós partimos.

Quem avalia a força da vossa ira *

e mede o temor da vossa indignação?

 

Ensinai-nos a contar os nossos dias, *

para chegarmos à sabedoria do coração.

Voltai, Senhor! Até quando?... *

Tende piedade dos vossos servos.

 

Saciai-nos, desde a manhã, com a vossa bondade, *

para nos alegrarmos e exultarmos todos os dias.

Compensai em alegria os dias de aflição, *

os anos em que sentimos a desgraça.

 

Manifestai a vossa obra aos vossos servos *

e aos seus filhos a vossa majestade.

Desça sobre nós a graça do Senhor nosso Deus! *

Confirmai em nosso favor a obra das nossas mãos, †

confirmai a obra das nossas mãos.

 

Reflexão – O versículo 12: Ensina-nos a contar os nossos dias...  Tradicionalmente este texto é usado em festividades de aniversário – e não está errado, mas prefiro rezá-lo na velhice – mas aqui quero me dá a liberdade de trabalhar com o significado do termo usado na nossa tradução, atribuindo-lhe significados:

CONTAR pode significa numerar.  O salmo instrui a numerar os nossos dias, saber quantos são para que tenhamos consciência da nossa finitude e fragilidade.  Numerar os dias também aponta para a urgência da nossa vida, o tempo está passando e com ele a nossa existência aqui.  É mais um dia ou menos um dia. Por isso, contando o passar do tempo vamos tomando também consciência de que nos resta pouco tempo e por isso devemos aproveitá-lo da melhor maneira possível – creio que este é o sentido mais preciso do que o salmista tinha em mente.

Consideramos ainda que esta numeração dos dias deve fazer comparar a finitude humana com a eternidade divina.  Vejamos que enquanto um dia para o Senhor é como mil anos. A nossa vida passa depressa e nós voamos (no mesmo Salmo 90, nos versos quatro e dez respetivamente).

Mas CONTAR também, em língua portuguesa, pode induzir a pensar em narrar.  Assim o conselho do salmista seria no sentido de que devemos aprender a narrar a nossa vida e todas as experiências que temos na vivência com Deus.  Este é o único meio de conhecê-lo!  Por isso precisamos desta vivência para que a vida em Cristo faça sentido.  Narrando a vida com Deus reafirmamos a nossa fé e a certeza da companhia e do cumprimento das promessas feitas em Cristo Jesus.

 

3º - um poema de Fernando Pessoa, que pode ser o meio de unir as duas realidades


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

 

Para, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

(CF. 15-10-1929, Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). 1ª publ. in Presença, nº 27. Coimbra: Jun.-Jul. 1930)

 

Ver também:

Uma graça de Deus