quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Vitorioso em todas as coisas


Solenidade de São Vicente, Diácono e Mártir, +304

Padroeiro do Algarve e do Patriarcado de Lisboa

Neste dia 22 de janeiro, a Igreja celebra a festa de São Vicente, diácono e mártir, uma das figuras mais veneradas do início do cristianismo ocidental. Nascido em Huesca, filho de pais cristãos, na segunda metade do século III, foi ordenado diácono por São Valério, bispo de Saragoça. Distinguiu-se rapidamente pelo seu fervor, inteligência e eloquência, a ponto de se tornar a voz do seu bispo, já idoso. O seu ministério se desenvolveu inicialmente durante um período de relativa paz para a Igreja, fomentado pela reorganização do Império sob Diocleciano e pela consolidação das comunidades cristãs na Hispânia, como evidenciado pelo Concílio de Elvira, realizado pouco antes do ano 300.

 

Essa situação mudou abruptamente com a grande perseguição decretada por Diocleciano e Maximiano a partir de 303. Na Hispânia, o prefeito Dácio ficou encarregado de aplicá-la, percorrendo a península e semeando o terror entre os cristãos. De Saragoça, ele trouxe consigo o bispo Valério e o seu diácono Vicente para Valência. Logo exilou Valério e concentrou toda a sua crueldade em Vicente, tentando forçar a sua apostasia por meio de torturas cada vez mais refinadas: a roda, ganchos, fogo e prisão. Vicente suportou tudo com uma serenidade que surpreendeu até mesmo os seus executores, e morreu na prisão em decorrência dos ferimentos em 304.

 

O relato do seu martírio foi registado muito cedo e amplamente divulgado. Com o tempo, as histórias foram embelezadas com elementos lendários: a luz que iluminou a masmorra na calada da noite, as flores que cobriram o chão, a música celestial, o corvo que guardou o seu corpo abandonado, o mar que devolveu os seus restos mortais à costa. Além desses adornos simbólicos, o núcleo histórico permanece: a firmeza de um diácono que, sustentado pela fé, venceu o medo e a dor.


Santo Agostinho, uma das grandes testemunhas da sua veneração, expressou-a com palavras memoráveis ​​nos seus sermões "na festa de São Vicente do Martírio": "Contemplamos um grande espetáculo com os olhos da fé: o mártir São Vicente, vitorioso em todas as coisas". Para o Bispo de Hipona, a chave dessa vitória não residia na resistência física, mas na graça de Cristo, que lutava dentro dele. "Foi Vicente quem sofreu", diria ele em outro momento, "mas foi Deus quem lhe deu tamanha coragem".

 

Em Portugal é representado de modos diversos: com palma e evangeliário ou, mais habitualmente, com uma barca e um corvo, porque, de acordo com a tradição, quando em 1173 o rei D. Afonso Henriques ordenou que as relíquias do santo fossem trazidas do Cabo de S. Vicente, junto a Sagres, para a cidade de Lisboa, duas daquelas aves velaram o corpo do santo que seguia a bordo da barca - facto a que ainda hoje aludem as armas de Lisboa, sendo S. Vicente o padroeiro da diocese da capital e do Algarve.

 

Ver também:

Vicente, aquele que vence

Vicente, vencedor

 



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