Solenidade de São Vicente, Diácono e Mártir, +304
Padroeiro do Algarve e do Patriarcado de Lisboa
Neste dia 22 de janeiro, a Igreja celebra a festa de
São Vicente, diácono e mártir, uma das figuras mais veneradas do início do
cristianismo ocidental. Nascido em Huesca, filho de pais cristãos, na segunda
metade do século III, foi ordenado diácono por São Valério, bispo de Saragoça.
Distinguiu-se rapidamente pelo seu fervor, inteligência e eloquência, a ponto
de se tornar a voz do seu bispo, já idoso. O seu ministério se desenvolveu
inicialmente durante um período de relativa paz para a Igreja, fomentado pela
reorganização do Império sob Diocleciano e pela consolidação das comunidades
cristãs na Hispânia, como evidenciado pelo Concílio de Elvira, realizado pouco
antes do ano 300.
Essa situação mudou abruptamente com a grande
perseguição decretada por Diocleciano e Maximiano a partir de 303. Na Hispânia,
o prefeito Dácio ficou encarregado de aplicá-la, percorrendo a península e
semeando o terror entre os cristãos. De Saragoça, ele trouxe consigo o bispo
Valério e o seu diácono Vicente para Valência. Logo exilou Valério e concentrou
toda a sua crueldade em Vicente, tentando forçar a sua apostasia por meio de
torturas cada vez mais refinadas: a roda, ganchos, fogo e prisão. Vicente suportou
tudo com uma serenidade que surpreendeu até mesmo os seus executores, e morreu na
prisão em decorrência dos ferimentos em 304.
O relato do seu martírio foi registado muito cedo e
amplamente divulgado. Com o tempo, as histórias foram embelezadas com elementos
lendários: a luz que iluminou a masmorra na calada da noite, as flores que
cobriram o chão, a música celestial, o corvo que guardou o seu corpo abandonado,
o mar que devolveu os seus restos mortais à costa. Além desses adornos simbólicos,
o núcleo histórico permanece: a firmeza de um diácono que, sustentado pela fé,
venceu o medo e a dor.
Santo Agostinho, uma das grandes testemunhas da sua
veneração, expressou-a com palavras memoráveis nos seus sermões "na
festa de São Vicente do Martírio": "Contemplamos um grande espetáculo
com os olhos da fé: o mártir São Vicente, vitorioso em todas as coisas".
Para o Bispo de Hipona, a chave dessa vitória não residia na resistência física,
mas na graça de Cristo, que lutava dentro dele. "Foi Vicente quem
sofreu", diria ele em outro momento, "mas foi Deus quem lhe deu
tamanha coragem".
Em Portugal é representado de modos diversos: com
palma e evangeliário ou, mais habitualmente, com uma barca e um corvo, porque,
de acordo com a tradição, quando em 1173 o rei D. Afonso Henriques ordenou que
as relíquias do santo fossem trazidas do Cabo de S. Vicente, junto a Sagres,
para a cidade de Lisboa, duas daquelas aves velaram o corpo do santo que seguia
a bordo da barca - facto a que ainda hoje aludem as armas de Lisboa, sendo S.
Vicente o padroeiro da diocese da capital e do Algarve.
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