sábado, 17 de janeiro de 2026

Um grilo na cidade


Nas minhas caminhadas ao fim da tarde já me habituei a escutar pessoas, de todas as idades e em todos os estados, que falam, cantam, brigam, choram… Também me habituei a identificar vários animais a cantar ou a comunicar… cães, gatos, pássaros de muitas espécies… Também não me é estranho o ruído urbano ou rural, motores vários, de carros, motas, barcos, aviões e comboios, e ainda o som do vento, da chuva, dos trovões ou até mesmo da brisa suave...

Um dia, parei no meio do caminho a ouvir um grilo a cantar.

Várias pessoas passaram por mim, fitaram-me com um ar estranho, surpreendidas pela minha atitude invulgar no passeio. Houve até alguém que me perguntou se eu estava a sentir-me mal.

- Estou a sentir-me tão bem ao ouvir um grilo a cantar. – Respondi sorrindo a quem ainda mais desconfiado pela minha integridade física ou mental continuou o seu caminho.

Partilhei esta experiência a um colega da minha idade, rindo-me da situação de ter sido conotado como alguém que não estava ‘bom da cabeça’.

O meu colega contou-me então uma experiência semelhante.

Ele tinha vivido na Índia durante alguns anos e mantinha contacto com alguns amigos locais. Um dia recebeu a visita de um desses amigos. Alojou-o na sua casa, levou-o a visitar várias partes da cidade, monumentos, igrejas, praças e jardins. Quando estavam na praça principal do centro histórico urbano, o amigo indiano disse ao português:

- Estás a ouvir o mesmo que eu?

- Sim, oiço o murmúrio da cidade, do trânsito, dos transeuntes, da música da esplanada, das crianças no parque…

- Não é isso. Estou a ouvir um grilo a cantar.

- De certeza? Como é possível distinguir isso no meio desta agitação?

- Vem comigo…

E levou-o até ao canteiro do centro da praça e juntos puderam confirmar que, de facto, havia um grilo a cantar. O indiano aproxima-se mais e apanhou-o com a mão.

- Eis o grilo que canta no centro da cidade…

- Vós orientais tendes uma sensibilidade especial para identificar um grilo no meio do rumor de uma cidade. Tendes uma sensibilidade muito mais apurada do que nós ocidentais – concluiu o meu amigo português.

- Aí é que estás enganado.

O indiano tirou do bolso umas moedas e, como por descuido, fê-las cair na calçada. Imediatamente quatro ou cinco pessoas voltaram-se para trás, ao ouvirem esse tilintar.

- Vês? – concluiu o indiano – Esta pequenas moedas fizerem um som mais leve do que o grilo. No entanto, viste quantos ocidentais foram sensíveis a isso?

E eu aprendi a lição. O nosso ouvido identifica mais depressa a música de que mais gostamos.

É por isso que Jesus no Evangelho diz:

- Onde estiver o vosso tesouro aí estará o vosso coração.

De facto, todos nós somos mais sensíveis ao que está no nosso coração.

 

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