Nas minhas caminhadas ao fim da tarde já me
habituei a escutar pessoas, de todas as idades e em todos os estados, que falam,
cantam, brigam, choram… Também me habituei a identificar vários animais a
cantar ou a comunicar… cães, gatos, pássaros de muitas espécies… Também não me
é estranho o ruído urbano ou rural, motores vários, de carros, motas, barcos,
aviões e comboios, e ainda o som do vento, da chuva, dos trovões ou até mesmo
da brisa suave...
Um dia, parei no meio do caminho a ouvir um
grilo a cantar.
Várias pessoas passaram por mim, fitaram-me
com um ar estranho, surpreendidas pela minha atitude invulgar no passeio. Houve
até alguém que me perguntou se eu estava a sentir-me mal.
- Estou a sentir-me tão bem ao ouvir um grilo
a cantar. – Respondi sorrindo a quem ainda mais desconfiado pela minha
integridade física ou mental continuou o seu caminho.
Partilhei esta experiência a um colega da
minha idade, rindo-me da situação de ter sido conotado como alguém que não
estava ‘bom da cabeça’.
O meu colega contou-me então uma experiência
semelhante.
Ele tinha vivido na Índia durante alguns anos
e mantinha contacto com alguns amigos locais. Um dia recebeu a visita de um
desses amigos. Alojou-o na sua casa, levou-o a visitar várias partes da cidade,
monumentos, igrejas, praças e jardins. Quando estavam na praça principal do
centro histórico urbano, o amigo indiano disse ao português:
- Estás a ouvir o mesmo que eu?
- Sim, oiço o murmúrio da cidade, do
trânsito, dos transeuntes, da música da esplanada, das crianças no parque…
- Não é isso. Estou a ouvir um grilo a
cantar.
- De certeza? Como é possível distinguir isso
no meio desta agitação?
- Vem comigo…
E levou-o até ao canteiro do centro da praça
e juntos puderam confirmar que, de facto, havia um grilo a cantar. O indiano
aproxima-se mais e apanhou-o com a mão.
- Eis o grilo que canta no centro da cidade…
- Vós orientais tendes uma sensibilidade
especial para identificar um grilo no meio do rumor de uma cidade. Tendes uma
sensibilidade muito mais apurada do que nós ocidentais – concluiu o meu amigo
português.
- Aí é que estás enganado.
O indiano tirou do bolso umas moedas e, como
por descuido, fê-las cair na calçada. Imediatamente quatro ou cinco pessoas
voltaram-se para trás, ao ouvirem esse tilintar.
- Vês? – concluiu o indiano – Esta pequenas
moedas fizerem um som mais leve do que o grilo. No entanto, viste quantos
ocidentais foram sensíveis a isso?
E eu aprendi a lição. O nosso ouvido
identifica mais depressa a música de que mais gostamos.
É por isso que Jesus no Evangelho diz:
- Onde estiver o vosso tesouro aí estará o
vosso coração.
De facto, todos nós somos mais sensíveis ao
que está no nosso coração.

Sem comentários:
Enviar um comentário