Embora tente variar a hora e o percurso das
minhas caminhadas ao fim da tarde, acabo por conhecer ou reconhecer algumas
caras, de cumprimentar alguns habituais nessas paragens, por vezes apenas com
um sorriso ou um olhar feliz.
Estas caminhadas não são propriamente iguais
à caminhada cristã que exige a imposição do nome próprio, para que ninguém avance
anónimo – que nome dais ao vosso filho?...
Parece-me que sou o único a ser cumprimentado,
apesar de não ser muito frequente. Alguns ao passarem por mim dizem
simplesmente:
- Bom dia, ou boa tarde, senhor Padre.
Talvez não conheçam o meu nome, mas sabem a
minha missão e a minha vocação.
Não me atrevo a chamar ou a saudar alguém
pelo nome próprio nesses ambientes, porque apesar de estar sempre atento ao que
vou ouvindo não quero cometer erros e falsas identificações. Mas um dia não resisti.
Habituei-me, por alguns dias, à presença de alguém
que passeava de um lado para o outro, em frente de uma grande superfície
comercial à espera, suponho, que a sua mulher saísse do trabalho. Empurrava um
carrinho de bebé que berrava com toda a potência dos seus pulmões, chorando
como se o estivessem esfolando vivo.
O homem, porém, sem parar, dizia suavemente:
- Calma, Rodrigo! Calma!... Não vai demorar!
Sossega e fica bonzinho, Rodrigo!
E assim por diante.
No dia seguinte a mesma cena.
Então uma senhora que ia passando, parou para
observar a cena. Admirada, aproximou-se do homem e cheia de compaixão pela criança
e de admiração pelo adulto lhe disse:
- Maravilhoso o modo com que você fala com a
criança! É muito difícil encontrar um pai tão dedicado, carinhoso e paciente como
você, nesta circunstância difícil.
Depois, virando-se para a criança, continuou:
- Chama-se Rodrigo, não é?
- Não, senhora! – respondeu o homem, mais vermelho
que um tomate. – Rodrigo sou eu!
Nem reparei na reação da senhora com quem me
identificava nas palavras e na atitude.
Eu já tinha pensado dizer a mesma coisa que
ela… mas não tive coragem ou o à-vontade suficiente. Por isso fiquei duplamente
vermelho.
E aprendi com todos estes ou a elogiar ou a manter a calma.
A partir daí, vejo-me muitas vezes a dizer
para mim mesmo:
- Tem calma, David! Tem calma, isto não vai
demorar. Sossega, David. Sê bonzinho…

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