sábado, 24 de janeiro de 2026

Calma, Rodrigo! Tem calma!


Embora tente variar a hora e o percurso das minhas caminhadas ao fim da tarde, acabo por conhecer ou reconhecer algumas caras, de cumprimentar alguns habituais nessas paragens, por vezes apenas com um sorriso ou um olhar feliz.

Estas caminhadas não são propriamente iguais à caminhada cristã que exige a imposição do nome próprio, para que ninguém avance anónimo – que nome dais ao vosso filho?...

Parece-me que sou o único a ser cumprimentado, apesar de não ser muito frequente. Alguns ao passarem por mim dizem simplesmente:

- Bom dia, ou boa tarde, senhor Padre.

Talvez não conheçam o meu nome, mas sabem a minha missão e a minha vocação.

Não me atrevo a chamar ou a saudar alguém pelo nome próprio nesses ambientes, porque apesar de estar sempre atento ao que vou ouvindo não quero cometer erros e falsas identificações. Mas um dia não resisti.

Habituei-me, por alguns dias, à presença de alguém que passeava de um lado para o outro, em frente de uma grande superfície comercial à espera, suponho, que a sua mulher saísse do trabalho. Empurrava um carrinho de bebé que berrava com toda a potência dos seus pulmões, chorando como se o estivessem esfolando vivo.

O homem, porém, sem parar, dizia suavemente:

- Calma, Rodrigo! Calma!... Não vai demorar! Sossega e fica bonzinho, Rodrigo!

E assim por diante.

No dia seguinte a mesma cena.

Então uma senhora que ia passando, parou para observar a cena. Admirada, aproximou-se do homem e cheia de compaixão pela criança e de admiração pelo adulto lhe disse:

- Maravilhoso o modo com que você fala com a criança! É muito difícil encontrar um pai tão dedicado, carinhoso e paciente como você, nesta circunstância difícil.

Depois, virando-se para a criança, continuou:

- Chama-se Rodrigo, não é?

- Não, senhora! – respondeu o homem, mais vermelho que um tomate. – Rodrigo sou eu!

Nem reparei na reação da senhora com quem me identificava nas palavras e na atitude.

Eu já tinha pensado dizer a mesma coisa que ela… mas não tive coragem ou o à-vontade suficiente. Por isso fiquei duplamente vermelho.

E aprendi com todos estes ou a elogiar ou a manter a calma.

A partir daí, vejo-me muitas vezes a dizer para mim mesmo:

- Tem calma, David! Tem calma, isto não vai demorar. Sossega, David. Sê bonzinho…

 

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