terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

O primeiro santo português


Memória de São Teotónio, presbítero, 1082-1162

Teotónio significa
consagrado a Deus
Ou pertença de Deus

O primeiro santo português

Teotónio nasceu em Valença, em 1082, tendo sido criado pelo seu tio-avô e Bispo de Coimbra, D. Crescónio. Formado em Teologia e Filosofia em Coimbra e Viseu, tornar-se-ia Prior da Sé desta cidade em 1112.

Peregrinou por duas vezes à Terra Santa. Quando regressou da primeira, foi-lhe oferecido o Bispado de Viseu, que recusou. Ao voltar da segunda, em 1131, fundou com outros dez homens de grande virtude o Mosteiro de Santa Cruz, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, em Coimbra, tornando-se o seu primeiro Prior, revelando-se um membro eminente e muito admirado, nomeadamente por São Bernardo de Claraval.

Em 1153 o Papa Adriano IV quis fazer de São Teotónio Bispo de Coimbra, seguindo o legado do seu tio-avô, mas o santo recusou.

São Teotónio é descrito pelos textos hagiográficos e pelas crónicas de Santa Cruz como um homem espiritual por excelência: homem de oração intensa, amigo dos pobres e humildes, austero na vida, conciliador na sociedade e operador de ações prodigiosas.

No momento da sua morte de Teotónio foi visto um globo luminoso a descer e a subir sobre o claustro do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

É por isso que na sua representação iconográfica consta um globo sobre o livro da regra de Santa Cruz que segura na mão. Na outra mão tem o báculo de prior ou o bastão de peregrino. Ainda é costume colocar aos seus pés uma mitra, aludindo a sua múltipla recusa em aceitar o convite para ser bispo.

Portugal tinha apenas 20 anos quando recebeu a canonização do seu primeiro santo.

 

Amigo e aliado de D. Afonso Henriques

São Teotónio foi o conselheiro e guia espiritual de D. Afonso Henriques. E se um foi o primeiro rei de Portugal, o outro foi o primeiro santo. Nasceram portucalenses, morreram portugueses. Poder temporal e poder espiritual, a espada e a cruz.

São Teotónio assumir-se-ia desde cedo como um fervoroso apoiante da independência portuguesa, sendo inclusive conselheiro de D. Afonso Henriques. Tido como homem muito respeitado e de grande valor, terá sido ele a convencer o Rei a libertar milhares de moçárabes que tinham sido feitos cativos na sequência da guerra de Reconquista realizada pelas tropas portuguesas.

São Teotónio foi um importante participante no processo político-religioso que culminaria com o reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa Alexandre III em 1179, com a bula “Manifestis Probatum”, 17 anos após a morte de Teotónio.

Afonso Henriques e Teotónio – um santo apoiado por um rei, um rei abençoado por um santo. O que aconteceu primeiro? Afonso Henriques desejando honrar a memória do pai e consumar a independência que sonhou para Portucale? Ou a fação mais reformista da Igreja portucalense que fez dele o seu candidato a rei-fundador de um novo reino cristão? As duas coisas aconteceram. As vontades pessoais e as políticas. A espada e a cruz iam andar empunhadas pelas mesmas mãos. Monges e guerreiros lutariam na mesma guerra, fariam a mesma oração.

 

Disciplinador de D. Teresa

Enfrentou D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, pois D. Henrique de Borgonha morreu precocemente aos 46 anos, deixando viúva a mulher de 32 anos. A sua relação com Fernão Peres de Trava, fidalgo galego, aproximava Portucale com a Galiza. Outro irmão Bermudo mantinha também relação com Teresa. Era pecado ser mulher de dois irmãos. Teotónio corrigia-a.

Estando D. Teresa por Viseu mandou dizer a Teotónio que tinha pressa e que se despachasse a celebrar a missa. Em resposta, o prior fez saber que havia no céu rainha muito mais importante do que ela e que, em sua honra a missa seria celebrada com toda a reverência e bem devagar. Dessa vez Teresa deu-se por culpada: assistiu serenamente à eucaristia e, no final, em privado, ajoelhou-se aos pés de Teotónio, chorando pedindo-lhe que rogasse por ela a Deus.

Outro vez apareceu Teresa na Sé de Viseu para assistir à missa na companhia de Fernão com quem não era casada. O prior dedicou-lhes o sermão, um discurso cruel, sem nomes, acerca daqueles que viviam mal casados. Teresa e Fernão resistiram alguns minutos, mas depois entreolharam-se, levantaram-se e abandonaram a igreja por entre uma multidão que não sabia se deveria desviar respeitosamente o olhar ou aplaudir.

Não temia dizer a verdade aos poderosos para que estes temessem e seguissem a verdade.

Nunca deixou de ser cidadão só por ser padre, nem deixou de ser padre para ser cidadão.

 

À margem 1:

No Canto VIII, estância 19 de Os Lusíadas, Camões escreveu sobre São Teotónio:

         Um Sacerdote vê, brandindo a espada

         Contra Arronches, que toma, por vingança

         De Leiria, que de antes foi tomada

         Por quem por Mafamede enresta a lança:

         É Teotónio Prior. Mas vê cercada

         Santarém. E verás a segurança

         Da figura nos muros que, primeira

         Subindo, ergueu das Quinas a bandeira.

 

À margem 2:

Também Fernando Pessoa, no seu livro Mensagem, alude a São Teotónio, ao apresentar D. Afonso Henriques. Os dois formam uma aliança perfeita – um representa a bênção e o outro a espada.

 

D. Afonso Henriques

 

Pai, foste cavaleiro.

Hoje a vigília é nossa.

Dá-nos o exemplo inteiro

E a tua inteira força!

 

Dá, contra a hora em que, errada,

Novos infiéis vençam,

A bênção como espada,

A espada como bênção!

 

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