sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Natal (26)


Lições do Menino Jesus

 
Segundo a obra de D. Leonor de Noronha: “Este livro é do começo da história da nossa redenção, que se fez para consolação dos que não sabem latim” Lisboa 1552.

1. São José olhava para a Virgem Maria, cheio de angústia. Se desejava entregá-la de novo à família, não era por mal, mas sim por se julgar indigno de viver portas adentro com Nossa Senhora, a virgem prometida pelos profetas. O certo é que ambos sofriam. E Nossa Senhora, vendo andar José coidoso, suplicava a Deus que lhe valesse naquela aflição. Deus permitiu que ela sofresse muito.
Por conseguinte também nós havemos aqui de semear lágrimas, para sacar no céu alegrias.

2. Grande foi o conforto da Virgem Maria, quando José lhe contou a aparição do anjo, a explicar-lhe o mistério que tanto o embaraçava: ela era a Mãe de Deus.
Agora sim, que deleitação dos amantes falar nos amados.

3. Uma vez ordenado o recenseamento de todo o império, José e Nossa Senhora meteram-se a caminho de Belém pois dali era a tribo a que pertenciam.
Somos nós tão soberbos e mal ensinados que não queremos obedecer aos senhores e justiças temporais… sem murmurarmos.

4. A Virgem Maria chegou a Belém, desejosa de achar onde se metesse. Os forasteiros eram muitos e pagavam bem as pousadas. Todos respondiam que Nossa Senhora estava para dar à luz e certamente desejaria uma casa toda. E desta forma andaram de porta em porta, como os mendigos.
Quanto a nós, tiremos daqui uma lição: Não queiramos ter pousada no mundo, porque esta vida é caminho! Nele nascemos e nele andamos para a pátria celeste.

5. À meia-noite São José acordou com um grande lume que alumiava a casa. Então viu Nossa Senhora de joelhos e mãos erguidas, e nisto nasceu o Senhor: abaixou-se a Senhora Nossa e tomou-o nas mãos, alevantando-o do chão, e adorou aquele pequenino menino e grande Deus, grande Deus segundo a divindade, pequeno segundo a humanidade, em que era seu filho.
Para ver o grande Deus já não é preciso olhar para o alto, basta olhar em frente.

7. A Virgem Maria envolveu a criança em panos porque fazia muito frio.
Vestido de paninhos baratos e pobres, veio mostrar aos homens que melhor é pobreza que riqueza.

8. Qual é o coração que não se derrete em lágrimas ao ver Deus feito menino e lançado em manjedouras de bestas?
Assim o reclinou Nossa Senhora, porque não achou outro melhor lugar entre os homens.

9. Os anjos foram dar a boa nova aos pastores: nasceu-vos hoje o vosso Salvador.
Grande mistério ter Deus revelado tão altos segredos a tão rudes pastores! E eles conheceram que toava no céu o que viram chorar no presépio.

10. O sinal dos anjos aos pastores para reconhecerem o Menino Jesus foi este: Deitado numa manjedoira! Assim não se enganariam.
Por isso, grande vergonha devem ter os pastores da igreja de terem grandes paços e bem aparamentados pois o sinal que o anjo deu do bom pastor foi que estava posto no presépio embrulhadinho em paninhos.

11. Gaspar, Belchior e Baltasar ofereceram oiro, incenso e mirra. Onde parava São José nessa altura? Talvez tivesse ido buscar cavacos, para aquecer o menino.
A Virgem contou-lhe como vieram ali os Magos e mostrou os dons e ofertas que lhe deixaram, alegrando-se de ter assim o que dar aos pobres.

12. No exílio do Egipto, São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus viviam na cidade chamada Heliópolis talvez em casa alugada. E São José andaria a pedir esmola para pagar a renda, levando consigo a Virgem Maria com o filho ao colo.
Deste modo, aprendeu o Senhor a sofrer necessidades e a doer-se tanto dos pobres que dá o paraíso a quem lhes der um púcaro de água.

CF Mário Martins, in D. Leonor de Noronha e o Menino Jesus, Brotéria, Vol LXXIV, Janeiro de 1962, nº 1, página 57-67
D. Leonor de Noronha, é uma figura da cultura portuguesa do século XVI, tendo nascido, segundo parece em 1488 na cidade de Évora. Era filha de D. Fernando de Meneses e de D. Maria Freire de Andrade que foram os primeiros condes de Alcoutim. Dedicou toda a sua vida aos livros e nunca quis casar. Morreu aos setenta e cinco anos, em Évora a 17 de Fevereiro de 1563.

 

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