domingo, 21 de dezembro de 2025

O FIAT silencioso de São José


Ano A – IV domingo do Advento

Falamos frequentemente do Fiat de Maria, e com razão. O seu sim está no centro da história da salvação.

Mas as Escrituras nos dão outro sim, um sim mais silencioso e quase oculto em segundo plano. É o sim de um homem que não recebe um anúncio de um anjo em plena luz do dia, que ouve a Deus não por meio de uma mensagem dirigida a ele pelo nome, mas por meio de um sonho.

José acorda desse sonho e obedece fazendo segundo o que Deus lhe diz.

A vida de José nos mostra que Deus muitas vezes constrói as maiores coisas em silêncio. O Salvador do mundo entra em uma casa guardada por um homem tranquilo que ouve a Deus à noite e se levanta antes do amanhecer para fazer a Sua vontade.

Que possamos aprender a obedecer com a mesma coragem.

Que possamos aprender a amar com a mesma firmeza.

E que a humildade da Encarnação transforme nossa compreensão do que realmente é a força

 

Este é o domingo de São José, como interveniente do Advento e do Natal.

É o dia do seu FIAT – Faça-se.

Juntemos o nosso FIAT ao FIAT de Maria, ao de José, dizendo e fazendo:

FIAT VOLUNTAS TUA, rezando e vivendo a oração do Pai Nosso.

 

Ver também:

Por obra do Espírito Santo

Advento res non verba

Despertando como São José

O sonho comanda a vida

Presença ativa

São José Dormindo

Deus confiou nele

Deus confinou-nos o seu filho

São José Sonhador

Deus tão perto

Tempo de ação

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

Encontrar dinheiro no chão

Algumas vezes, nas minhas caminhadas ao fim da tarde, encontro alguma moeda no chão.

Fico sempre com um misto de alegria e de tristeza.

Alegria porque tive a sorte de encontrar, mesmo um pequeno valor que nem dá para pagar o esforço de me baixar e recolher.

Tristeza porque penso na pessoa que a perdeu e com ela lamento o azar.

Por isso, quando estou só e vejo no chão uma moeda ou até mesmo uma nota, eu nunca apanho. Deixo para os outros. Às vezes com o sapato afasto para um lugar mais exposto para que possa ser vista mesmo pelos mais distraídos.

Quando vou acompanhado, aponto com a biqueira do sapato para que aquele que vai ao meu lado possa ver e recolher.

Assim partilho a alegria com alguém – eu fico com a alegria de encontrar, o outro fica com a alegria de a guardar.

Quando partilhei estas práticas a um amigo, ele identificou-se com elas e ilustrou com uma narração ainda mais sublime.

Contou-me que uma vez encontrou uma nota de 10 euros no caminho. O filho ficou tão feliz e perguntou logo:

- Pai, podemos comprar agora um gelado para nós?

O pai, com toda a seriedade, respondeu:

- Sim, filho, mas não hoje.

- Mas temos o dinheiro e está calor. Porque não hoje?

- Porque alguém está triste, pois perdeu este dinheiro. Não podemos ter uma satisfação à custa da tristeza de alguém. Mais tarde, depois de uma semana essa pessoa já estará habituada e mais conformada ou talvez já tenha esquecido. Nessa altura podemos gastá-lo, mas nunca à custa da tristeza de alguém.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ninguém anda sozinho

Nas minhas caminhadas ao fim da tarde, fui uma vez interpelado por um casal amigo que habitualmente se cruzava comigo:

- O senhor padre anda sempre sozinho. Não é triste andar assim?

- Eu nunca ando só. – Afirmei sorrindo – Às vezes ando com fome, outras ando com sede, por vezes com frio, outras com calor, com sono, com cansaço…

- E com Deus? Não anda?

- Não! – respondi prontamente – Eu não ando com Deus, Ele é que anda comigo.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Por obra do Espírito Santo


Novena de Advento – 18 de dezembro

O Natal é obra do Espírito Santo.

Sem Espírito Santo não haveria Natal.

De facto, o nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo.

 

Em geral, neste tempo de Advento e de Natal valorizamos e damos os parabéns a vários intervenientes:

- a Deus que é Pai,

- a Jesus que nasceu entre nós,

- à Virgem Maria que é Mãe de Deus,

- a São José que foi colaborador,

- aos anjos que anunciaram

- aos pastores que foram adorar

- aos magos que vieram de longe

- a Isaías que profetizou o nascimento,

- a João Baptista que preparou o caminho…

e parece que esquecemos que Jesus é fruto do Espírito Santo, tal como rezamos no Angelus.

O Espírito Santo é o grande artífice do Natal de Jesus.

 

Que neste próximo Natal o mesmo Espírito Santo nos cubra com a sua sombra para que cada um de nós possa acolher uma vez mais no seu coração a presença de Jesus, Caminho, Verdade e Vida.

 

Ver também:

Advento res non verba

Despertando como São José

O sonho comanda a vida

Presença ativa

São José Dormindo

Deus confiou nele

Deus confiou-nos o seu filho

São José Sonhador

Deus tão perto

Tempo de ação

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Palavra de padre

- Hoje a fé, a esperança e a caridade foram à missa.

- Sim? Como é que as reconheceste?

- Vi-as sobre o altar no Pão, no Vinho e na Água. O vinho é um símbolo de caridade, especialmente da caridade de Cristo que se deu a si mesmo para a salvação do mundo. O pão é um símbolo da fé, pois quem acredita no Pão Vivo tem a vida eterna. E a água é um símbolo da esperança, pois onde há água há vida, onde há vida há esperança.

- E depois para onde foram?

- Foram com cada pessoa que comungou.

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

O terceiro filho da parábola


3 feira – III semana do advento

Na parábola do Evangelho de hoje podemos encontrar um terceiro filho que melhor teria correspondido a Deus que é retratado como pai e dono da vinha.

Seria aquele que diz sim ao Pai e coloca em prática o sim pronunciado, indo trabalhar com alegria na vinha, isto é, na Igreja do Senhor.

Porque é que este terceiro filho não aparece na narração de Jesus?

Eu acho que por uma questão natural – todo o filho que se preze nem precisa de receber o convite ou a ordem do pai para ir trabalhar para a sua vinha. Apresentar-se-á espontaneamente. Não precisa que lhe digam nada, nem necessita de responder nada. Vai trabalhar com toda a naturalidade. Porquê? Porque é filho e isso lhe basta. E faz isso não por amor à vinha, mas por amor ao pai, não por ser um bom trabalhador, mas por ser um bom filho.

Cada um de nós pode rever-se em cada um destes três filhos:

Às vezes dizemos uma coisa e fazemos outra. Mas também às vezes somos capazes de não dizer nada e de fazer o que um filho deve fazer.

 

Ver também:

Melhor que dizer é fazer

Vou, não vou, faço, não faço

Filho vem visitar-me hoje

Palavras e atos

Entrar no Reino

Pedir ajuda

Oh feliz culpa

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A mania de questionar Deus


2ª feira – III domingo do advento

Tal como no episódio do evangelho, quem é que nunca questionou Deus?

Quem é que nunca manifestou o seu descontentamento ou desacordo daquilo que é supostamente a vontade ou autoridade de Deus? Quem é que nunca manifestou pretensão em corrigir Deus?

E também o fazemos através de perguntas:

- Por que é que o Senhor não pune os criminosos?

- Por que é que pessoas de bem adoecem e são mal tratadas?

- Por que é que as crianças inocentes sofrem ou morrem como vítimas?

- Por que é que isto me aconteceu a mim.

Lá no templo, Jesus respondeu com outras perguntas.

Hoje ele faz a mesma coisa. Ele perguntará:

- E tu quando é que vais deixar de querer ser igual a Deus?

- Quando é que vais deixar de murmurar contra Deus, de te queixar ou acusar Deus?

De facto, tantas vezes queremos que Deus seja à nossa imagem e semelhança, um Deus à nossa medida, que pense e aja igual a nós.

É uma tentação querer que Deus seja, faça ou pense igual a mim.

Devia ser o contrário: eu é que devo ser mais parecido com ele.

 

Em Rm 14,10 e Tg 4,12 São Paulo e São Tiago deixaram o lembrete:

- Mas quem és tu para julgar o teu irmão?

Jesus bem pode lembrar-nos também:

- Mas quem és tu para pretender julgar a Deus?

 

sábado, 13 de dezembro de 2025

A alegria e o sorriso

 

Ano A – III domingo do advento, Gaudete

Domingo Rosa, da alegria e do sorriso


Rosas Heroicas, Paul Klee,1938

1ª leitura: Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores coo o narciso, exulte com brados de alegria.

Alguém comentou com William James:

- Tu és a única pessoa feliz que conheço: tens sempre um sorriso nos lábios, mesmo diante das maiores dificuldades.

- Eu não vivo sorrindo porque sou feliz – respondeu William James – Eu sou feliz porque vivo sorrindo.

 

2ª leitura: Esperai com paciência a vinda do Senhor. Vede como o agricultor espera pacientemente o precioso fruto da terra. Sede vós também pacientes.

O cineasta Frederico Fellini tinha o hábito de chegar a qualquer encontro um bom bocado antes da hora aprazada, fosse a uma reunião de trabalho ou a um jantar de amigos. Chegava a esse sítio e ponha-se a fazer tempo, caminhando prazenteiramente e sem dar sinais de agitação alguma al longo da rua, para lá e para ca. Quando os amigos o surpreendiam nisto e lhe perguntavam porque não tinha toado à porta imediatamente, a sua resposta era: O prazer de esperar. Precisamos de dizer a nós próprios e uns aos outros que que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. É reconhecer o seu tempo., o tempo necessário para ser, é tomar o tempo para si, como lugar de maturação, como oportunidade reencontrada, é perceber o tempo não apenas como enquadramento do sentido, as como formulação em si mesma significativa. Quem não esperar pacientemente pelas sementes que lançar jamais provará a alegria de vê-las florir. (CF. Tolentino Mendonça)

 

Evangelho: Ide contar a João o que vedes e ouvis.

À pergunta de João se Jesus era o Messias, este respondeu não com palavras, mas com ações.

Uma vez alguém me perguntou:

- O senhor padre é feliz?

E eu respondi:

- É preciso perguntar? Não vês que sou feliz? As minhas ações, os meus gestos e atitudes não mostram que sou feliz?

 

Ver também

Que devemos fazer

Dia da rosa e da alegria

Esperando com alegria

Ser ou estar alegre

A fonte da alegria

Alegrai-vos

Haja alegria

O evangelho da alegria

 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Cãominhada sem cão

Ao fim da tarde, quando faço a minha caminhada pela cidade onde moro, encontro tanta gente, tantos amigos a passear com o seu cão – os cães sempre felizes, os donos nem por isso.

Alguns perguntam-me pelo meu cão. E eu respondo:

- Não tenho cão, estou a passear-me a mim mesmo.

Eles sorriem pensando que eu sou o meu cão.

E eu também sorrio e declaro-me mais feliz do que eles porque estou ali não por obrigação ou pelo dever de tratar um animal. Eu caminho ou passeio por pura liberdade e felicidade.

Eles pensam que levam o seu cão a passear, mas é o contrário: afinal eles é que são levados pelo cão, enquanto eu levo-me a mim mesmo.

 

Ver também:

Adeus Bolinha

Cãopensador

Cão frio

Descãotracão

Devocão

Cão à janela

Cão Bolinha

Admiracão

Conversacão

Cão saudade

Os cachorrinhos

Dois amigos

Cão de guarda

Lição dos cachorrinhos

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Violência ou agressividade


5ª feira – II semana do advento

 

Jesus no trecho do evangelho de hoje lembra que são os violentos que se apoderam do Reino dos Céus.

Também Jesus sempre ensinou por palavras e por gestos a não-violência.

Então parece-me que a palavra violência não está bem aplicada ou bem traduzida aqui.

Em vez de violência devíamos ler agressividade.

Perguntei à IA a diferença entre agressividade e a violência.

Eis a sua resposta:

A agressividade é uma força vital de autoafirmação e combate, essencial para defender direitos e objetivos, enquanto a violência é o uso dessa energia ou de força para ferir, destruir ou controlar o outro, resultando em dano físico, psicológico ou privação, sendo a agressividade a energia e a violência a sua manifestação destrutiva e inadequada. Em resumo, agressividade pode ser construtiva (assertividade), mas quando descontrolada ou mal direcionada, torna-se violência, um comportamento que causa danos reais, diferentemente da agressividade "pura" que busca afirmação.

Agressividade

Definição: Energia natural, força vital para autoafirmação, combate e defesa de limites.

Função: Impulsiona a ação, a liderança e a busca por sucesso.

Exemplo: Ser assertivo numa reunião, defender uma ideia, praticar um esporte de contato.

Diferença da Violência: Pode ser construtiva e não visa machucar o outro intencionalmente.

Violência

Definição: Uso intencional de força ou poder (física, verbal, psicológica) para ferir, controlar ou destruir.

Função: Causar sofrimento, dano ou privação, rompendo o bem-estar do outro.

Exemplo: Bater, insultar, humilhar, abusar psicologicamente, causar danos materiais.

Relação com Agressividade: É a agressividade mal direcionada, descontrolada ou com a intenção de prejudicar.

Pontos-chave

Agressividade vs. Raiva: Sentir raiva é normal; o problema surge quando essa raiva se torna um comportamento agressivo ou violento que magoa.

Controle: Agressividade não controlada pode levar a problemas psicológicos e comportamentos violentos.

Agressividade Não-Violenta: É possível usar a energia da agressividade (força de ação) para defender direitos e mobilizar ações potentes sem ser violento, através da assertividade e da busca por soluções construtivas.

 

Conclusão:

Jesus lembra-nos que o Reino dos Céus sofre violência, isto é, é alvo de esforço, de luta ou dedicação para ser alcançado. É preciso lutar por esse ideal. Se não formos agressivos não o alcançaremos.

Além disso é preciso fazer pressão sobre este mundo para alcançar o Reino de Deus.

É preciso também suportar a pressão que o mundo faz sobre nós, cidadãos do Reino dos Céus. 

Procurar mudar o mundo e não deixemos que o mundo nos mude a nós.

 

Ver também:

Ternura e coragem

Deus é um pai babado

Violentos

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Mansidão não é fraqueza


4ª feira – II semana do advento

 

Jesus manso e humilde de coração

Não há força mais dominante do que a da mansidão; porque conquista a alma e subjuga a vontade.

Quando encontramos raiva online, a mansidão oferece uma alternativa – uma chance de dissipar a raiva e transformar corações através da gentileza (a gentileza gera gentileza).

Podemos comparar os mansos a uma brisa refrescante e à chuva suave que penetra até às raízes.

A sua força tranquila pode derreter até mesmo vontades endurecidas.

Os barulhentos e tempestuosos podem temporariamente dominar os outros através do volume absoluto, mas são os mansos que, em última análise, conquistam as pessoas de maneira duradoura.

Onde há amargura, os mansos oferecem doçura.

Onde há gritos, eles respondem com respostas suaves.

Eles vencem o mal com o bem, enfrentando os insultos e a injustiça com o perdão e a caridade.

A mansidão não é fraqueza.

Jesus apresentou-se a si mesmo como manso e humilde de coração.

(C.F. Don Dolindo)

 

Ver também:

As virtudes de um coração

Contratador de cansados

Missão impossível

O saber ocupa lugar

Manso e humilde

Pregação telegráfica

Aprender

Um jogo leve

Sem fadiga

Vinde a mim

A cruz leve

Aprendei de mim