sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Memorial Pe. Colombo (12)


Chegada à Madeira

Pelo meio dia do 15 de janeiro de 1947, os dois fundadores da Presença Dehoniana em Portugal, largaram do maravilhoso estuário do Tejo para a sua terra prometida: a Madeira…
Muito antes da primeira claridade do dia 17 de janeiro, já eu estava de pé, pois tinham anunciado a chegada ao Funchal logo para a manhã cedo. Rezei as orações da manhã fiz a meditação, recitei o breviário (pois no navio Carvalho Araújo não havia capela) e… esperei, olhando para o horizonte na monha frene. Mas nada aparecia! Finalmente, no lado poente, lá ao longe, aparecia uma luzinha.
- É a Madeira? – perguntei a um marujo.
- Não! É o farol do Porto santo. Daqui a duas horas estaremos na Madeira!
O mar estava calmo, o céu sereno. A oriente aparecia a claridade suave preanunciando a chegada do grande astro, enquanto, lá no alto, as estrelas desapareciam. Improvisamente, uma meia lua surgia das ondas… foi crescendo… tornando-se redondo… transformando-se em esplendor. Era o sol!
Eu não era poeta… mas naqueles instantes… até me veio à mente a exclamação de um poeta: C’est lui! C’est la vie!
Ainda um pouco e estaremos na Madeira – disse comigo.
Apareceu o farol de S. Lourenço que depois de uma longa meia hora, o dobrámos e entrámos no mar da Madeira.
Agora, já muita gente estava na amurada do lado poente do navio a contemplar a costa madeirense. Eis Machico, a primeira baía visitada pelos descobridores. Eis Santa Cruz. Eis as lombadas de Gaula e as encostas do Caniço. Todos os olhos descansavam na visão verde das bananeiras… dos poios de batata doce… dos bosques de pinheiros e eucaliptos lá ao alto.
Passámos um cabo, um rochão escuro e a pique sobre o mar e eis a baía do Funchal, com o seu casario em anfiteatro subindo do mar até aos bosques da serra, espraiando-se de S. Gonçalo a S. Martinho.
… Com as malas perto de nós, encostámo-nos à amurada de levante, à espera da possibilidade de descer. Era por volta das 10 horas.
Avistámos dois eclesiásticos, que deviam estar à nossa espera porque acenavam e faziam sinais… Um era o Pe. Laurindo Leal Pestana e o outro era, o então seminarista, Agostinho Jardim Gonçalves. Pouco depois subimos para um carro descoberto que nos levou diretamente para a residência do Sr. Bispo, D. António Manuel Pereira Ribeiro que nos acolheu efusivamente, apesar do seu porte de dignidade e gravidade.
Depois fomos celebrar missa à Igreja do Socorro, paróquia do Pe. Laurindo, já passava das onze. À celebração da missa seguiu-se o almoço… um almoço de festa. O anfitrião abriu uma garrafa de vinho Madeira de 1847. Cem anos a festejar a nossa vinda! Que honra!- pensámos nós.
À chegada à Escola de Artes e Ofícios, onde nos íamos alojar, fomos recebidos com uma banda de música… Ainda hoje um espetáculo com teatro e canções.
Já noite fomos saborear uma cama que não baloiçava, consolados e bem impressionados com o bom acolhimento e a festa. Só mais tarde é que viemos a saber que toda aquela festa era para celebrar o aniversário do Pe. Laurindo, que coincidiu com a nossa chegada. E nós a pensar que a festa era para nós!

(Memórias do Pe. Ângelo Colombo, Lisboa, 1994)

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