sábado, 22 de agosto de 2009

A Alimentação do Pe. Dehon

Leão Dehon, apesar de ser um homem de grande altura (1,92m), sempre se considerou debilitado fisicamente.
A sua alimentação foi cuidada, pois achava-se de estômago delicado.
Bastante novo foi guloso. Durante as suas muitas viagens foi curioso, atrevido/ousado e sobretudo moderado na sua alimentação.

Sempre deu importância à alimentação das pessoas:
- “Os jovens estão um pouco cansados com a comida. Procure variar e melhorar. Há aí um bom cozinheiro? É muito importante para o bom espírito de uma casa” (Carta ao Pe. Kusters, 23/03/1911, Inv 927.37, AD: B74/4).
- Zelai pela mesa. É preciso um bom peixe, algumas vezes café, uma infusão à noite para fazer dormir(Carta ao Pe. Falleur, 28/09/1919, Inv 295.45, AD: B20(4.2)
- “Cuida de ti e cuida da alimentação da comunidade. O bom espírito depende do refeitório (Carta ao Pe. Falleur, 13/02/1923, Inv 279,04, AD: B19/9).

Seguem-se algumas experiências que mostram a sensibilidade e a atenção de um estômago delicado e de um gosto extraordinário.

A Alimentação do Pe. Dehon
1.
Chegou ao Colégio de Hazebrouk em Outubro de 1855:
Comia-se sempre o pão preto e diversos pratos habituais na campanha flamenga, mas pouco apetitosos para estômagos delicados. (NHV I )

2.
No Colégio a idade crítica começou na minha “terceira” classe. A luta foi terrível. Eu era tentado de orgulho, de vaidade e especialmente de sensualidade. Às vezes era guloso...
Mantinha, contudo, todas as minhas práticas religiosas. Era a luta. Travei-a às vezes com coragem. Dormia sobre uma tábua, impunha ao paladar mortificações bem duras, disciplinava-me até ao sangue. Outras vezes fraquejava vergonhosamente. (NHV I)

3.
Em Abril-Junho de 1861 em estadia em Londres para estudar inglês:
Eu gostava de assistir aos pequenos serões do Domingo. Tomávamos o chá como em família
A dieta alimentar tem a sua razão de ser, nesse clima. Os ingleses tomam chá de manhã e à tarde. Comem ao meio-dia carne assada, especialmente de vaca. A sua cerveja é forte. Alegram as refeições com vinhos generosos de Espanha, sobretudo o Jerés. (NHV I)

4.
Na viagem à Escócia, em Abril-Julho de 1862:
Às 6 horas da manhã (depois de termos passado a noite perdidos) chegámos ao Hotel, devorámos uma perna de carneiro fria, tomando chá. Deitámo-nos para depois nos levantarmos sem uma mínima bronquite ou pneumonia. (NHV I)

5.
Alguns dias antes da saída de Londres, ainda em 1862, tive a boa sorte de passar uma tarde com o Cardeal Wiseman, o ilustre arcebispo de Westminster, o autor de Fabíola. Fez-nos um amável acolhimento e convidou-nos a tomar chá. (NHV I)

6.
Em Novembro de 1862, como advogado:
Ia passar todos os dias algumas horas com o Mestre Maza, procurador, na rua S. Ana. É bastante insípida e monótona a vida dos praticantes de tabelião. Todavia o dia tem um momento de alívio em que se se pode divertir e mostrar a aptidão que cada um tem, é a hora do pequeno almoço onde cada um, conversando, come o que teve fantasia de mandar comprar pelo moço, com o pão e o vinho fornecido pelo patrão. (NHV I)

7.
Agosto- Novembro de 1862:
A mesa na Noruega é frugal: só admite pão de centeio e aveia, leite, batatas, e trutas nos grandes dias. Mais a norte encontra-se presunto de rena, que exigiria dentes de aço para ser bem aproveitado.
Toda esta gente raramente come carne, mas é, todavia, robusta. Vive de leite, de ovos, de pão grosseiro. O peixe, especialmente as trutas, é o que se encontra de mais substancioso.
Nós seguimos este regime durante seis semanas sem prejuízo de saúde, porque o ar puro e o exercício mantinham o nosso vigor. Eu gostaria que, para a saúde da alma e do corpo das nossas populações, elas pudessem voltar a esse regime frugal.
O serviço de mesa na Suécia é o dos russos: petiscos e licor antes da refeição, tomados de pé numa mesa lateral; depois molho açucarado, sopa e assado com fruta cozida. Nós dávamos alguma importância a isto tudo. Viajávamos como turistas e como curiosos….
Chegávamos a Viena no dia 28 de Outubro, desembarcando na sua bela estação de estilo renascença. Meu irmão Henrique viera juntar-se-nos em Munique. Ele faria connosco o resto da viagem. Ele tinha como fim prático, o projecto de estudar na Baviera e na Áustria a indústria da cervejaria. (HNV I)

8.
A partir de 10 de Outubro de 1864:
Iríamos percorrer toda a Grécia, durante seis semanas. Precisámos de organizar toda uma caravana, pois a Grécia não tem nem comboios, nem carruagens, nem mesmo estradas. Tomámos seis cavalos e três homens de serviço: intérprete, cozinheiro e carregador. Não levámos tendas; disseram-nos que poderíamos sempre alojar em casa dos habitantes…
Em Esparta:
Recebemos amável hospitalidade em casa de um antigo magistrado, o sr. Fangoras. Segundo o costume, ele ofereceu-nos um copo de água, o glyko e o café, e pôs à nossa disposição os seus melhores quartos…
Alojámos à noite em Andritsaena. O filho do médico veio visitar-nos, para nos oferecer flores e fruta, e para ensaiar algumas palavras de francês. (NHV II)

9.
26 de Janeiro de 1865 no Alto Egipto:
Os nossos homens compram numa aldeia provisão de cana-de-açúcar e nós tomamos parte na festança
Nas Fontes de Moisés:
O beduíno Jousouf Ibrahim oferece-nos com a melhor graça do mundo as provisões de que dispõe: ovos frescos, leite de cabra, pão quente, lotos e café. A lua e um lindo planeta guiam o nosso regresso a Suez até às 10 horas. (NHV II)

10.
“No dia 19 de Fevereiro (1865) visitámos Kenéh, cidade bastante bem traçada, um pouco modernizada e rodeada de belas palmeiras e sicómoros (no Alto Egipto, perto de Tebas e de Luxor).
A França tem lá um agente consular, um amável e rico copta, o Sr. Bichara, que nos recebeu com uma hospitalidade toda oriental. Mais não teria feito para príncipes de sangue. Ele soube criar no meio das areias… uma graciosa Villa com um jardim encantador plantado de laranjeiras e de quase todas as árvores de fruto europeias. A água do Nilo, vinda de muito longe, operou este milagre.
Fomos mesmo lá, apresentar-lhe as nossas homenagens. Eram cinco horas da tarde, ele reteve-nos para jantar, e a festa prolongou-se pela noite dentro. O nosso anfitrião depressa deu as suas ordens para os preparativos e pôs em acção todo o seu pessoal. A espera foi passada num vasto salão guarnecido de um magnífico tapete de Meca, e rodeado por divãs.
Tivemos de honrar os ricos Chibuck (cachimbos de longos canos) que nos foram apresentados, já bem acesos.
Daí a pouco, entraram músicos vestidos com grandes capas brancas, como as harpistas do sepulcro dos reis. Eles formavam uma pequena banda com um tamboril, a cornamusa, e uma espécie de harpa. Eles cantavam; davam-nos a impressão de menestréis da Idade Média. Um grupo de jovens dançarinos completava o nosso entretenimento.
Entretanto, o jantar ficou pronto. Escravas ajoelhadas apresentavam-nos a água que iam vertendo de ricos jarros. Outros escravos imóveis como cariátides seguraram durante toda a refeição grandes lanternas, nas quais ardiam muitas velas.
Depois da sopa foi-nos servido um perú assado, recheado de arroz, de passas e de avelãs; depois abóboras recheadas, requeijão, carnes frias, pastéis e fruta, tudo isto regado por champanhe, creme de Moka, de aguardente de Dánzica e por duas pequenas chávenas de café.
Nós comíamos com apetite, fazendo de vez em quando brindes ao nosso anfitrião, cuja cara exprimia satisfação. Pouco habituado, acho eu, a se pôr à mesa, ele punha-se por vezes a comer com os dedos, à moda árabe.
Depois do café, novos Cachimbos e música.
Era meia-noite quando dissemos adeus ao nosso anfitrião…
Descrevi aqui esta festa porque revela bem os costumes do oriente. Ela pode ajudar a compreender certas cenas da Bíblia.” (NHV II)

11.
Março e Maio na Terra Santa:
Em São Sabas os bons monges de hoje, infelizmente cismáticos, têm a prudência de não abrir a pequena porta de ferro a qualquer um que chega. Eles baixam primeiro do alto dos muros uma cesta na qual os visitantes devem colocar as suas cartas de recomendação. Nós estávamos munidos duma carta do seu patriarca. Abriram-nos graciosamente e ofereceram-nos o “araki” e o café…
Chegámos ao Mosteiro (Carmelo) tomámos o xarope e o café. (NHV II)

12.
Embarque em Beirute para Constantinopla:
A 24 de Maio de 1865 partíamos à noite num navio turco. A 1ª classe estava organizada à europeia; a cozinha era grega. (NHV II)

13.
Excursão com os pais a Pagani, a caminho de Nápoles, no início de 1869:
Os nossos hospedeiros só tinham de bom as suas laranjas, mas tão boas de ultrapassar todas as que eu vira noutras terras. Mas como aí elas eram coisa comum, hesitavam em no-las dar e ofereciam maças como fruta mais distinta. (NHV III)

14.
16 Novembro 1971:
Sendo eu o último vigário de São Quintino, tinha muitas missas tardias: enterros de 5ª classe, casamentos de 4ª classe, missa do meio-dia aos domingos. Jejuava quase um dia sobre dois, mas a minha saúde conservou-se perfeita; pude observar a Quaresma inteirinha, sem nada comer antes do meio-dia. (NHV V)

15.
Assembleia anual dos Círculos, em Paris (1974):
Às 8 horas da noite, um banquete de 200 lugares era oferecido pelo comité de Paris aos seus confrades da província, e os brindes seguidos por aclamações unânimes fizeram vibrar, uma última vez, os corações em uníssono. (NHV VI)

16.
Patronato 1874:
“Mas não julgueis que o dia acabou. Já vos disse que hoje é dia de festa. As crianças do Patronato vão partir, mas os membros do Círculo vão ir jantar e voltarão. Qual é o programa desta noite? Talvez um beberete, organizado pelo director (ao qual tiveram o cuidado de desejar um bom ano), em lugar do beberete e das serenatas, teremos um simples chá com uma conferência de um dos membros do Comité protector (NHV VI).

17.
A Casa de família aumentava.1875:
Os porteiros (família Derniame) tinham até então preparado as refeições da casa de família. Daqui em diante teríamos duas Irmãs, a irmã Verónica e uma outra a tomar conta da cozinha. (NHV VI)

18.
A primeira do ano lectivo 1878/1879 foi a de S. Nicolau, a 6 de Dezembro. Os nossos jovens fizeram uma representação dramática a benefício do Patronato. Representaram graciosamente duas peças: “O surdo ou o Hotel Cheio” e o “Tocador ou os Dois Irmãos”…Durante um intervalo, o Sr. Lefèvre, vestido de S. Nicolau e montado num burro espantadíssimo, atravessava a sala lançando bombons: grande alegria para os nossos pequenos. (NHV VII)

19.
Eis-nos em Valado (Portugal), onde deixámos o caminho-de-ferro para nos aventurarmos pelo campo. O que lá se chama um omnibus, ou melhor uma carripana, nos conduziu a Alcobaça. Lá uma pequena pensão rural deu-nos hospitalidade para a noite. Pela minha parte, tive um quarto com três camas. Gostaria mais que tivesse apenas uma e que parecesse menos uma prancha, para repousar das fadigas da viagem. Serviram-nos uma sopa de azeite, bacalhau e uma omoleta intragável. Entretanto à nossa frente um viajante português ou um hóspede, que constituía connosco toda a clientela do hotel, devorou tudo como quatro pessoas e pareceu deliciar-se perfeitamente. Mas tudo isto se esquece, quando se vêem belas coisas. (Para além dos Pirinéus, Por L. Dehon, Superior dos Sacerdotes do Coração de Jesus, H. & L. Casterman, Éditeur Pontificaux, Paris, Rue Bonaparte, 66, Tournai (Belgique) O Padre Dehon chegou a Lisboa no dia 26 de Março de 1900 e permaneceu em Portugal até 3 de Abril)

20.
A terceira escala é Lisboa. Revejo com agrado a Bizâncio ocidental, que visitei há seis anos:
Uma volta de trém permite-nos admirar a praça do Rossio com o pavimento ondulado e a bela Avenida da liberdade. O museu do Carmo parece-nos bastante modesto. Almoçámos no hotel de Paris e depois temos que partir. (Leon Dehon, Mille lieues dans l’Amerique du Sud: Brésil, Uruguay, Argentine, (1909) Início de Setembro de 1906, mais precisamente no dia 3)

21.
Os Portugueses não nos deixam uma impressão favorável. São pretensiosos e de grande apetite. Os doces desapareceram da sua mesa ainda antes que tenha chegado o momento de tocar-lhes. (Leon Dehon, Mille lieues dans l’Amerique du Sud: Brésil, Uruguay, Argentine, (1909), pag 62).

22.
O prato fundamental das mesas brasileiras, a feijoada, que é apreciada também pelos portugueses, é uma mistura um pouco atabalhoada de mandioca, feijão preto e arroz, com carne seca (Leon Dehon, Mille lieues dans l’Amerique du Sud: Brésil, Uruguay, Argentine, (1909), pad 240-250).

23.
Na Viagem à volta do mundo, em 1910-1911, escreve nas suas notas quotidianas:
No buffet nós almoçámos e depois fomos para casa. No buffet, serve-se à moda europeia e à japonesa. Eu quis tentar os pauzinhos para comer. É pouco cómodo, mas o tempo ajudará…
Eu comi… com resignação, fatigado sobretudo pela posição incómoda que me davam cãibras nas pernas. O meu companheiro achou o jantar muito pouco ao seu gosto. Ele saiu com fome e foi comprar um pedaço de pão para se alimentar.
À noite, visita ao mercado… Eu compro Kakemonos, estes rolos de seda e de papel, ornados com figuras ou de paisagens, para servir de cortinas nas salas.
…De manhã, oferece-nos o pequeno-almoço regulamentar, arroz naturalmente. Ninguém tem apetite. Eu, esvaziei corajosamente a minha taça de arroz com ajuda dos meus dois pauzinhos.

24.
Um dia numa casa da Itália, em época de grande carestia, o Pe. Dehon estava cansado e com a saúde combalida. Os tempos eram difíceis. Tanto isto é verdade que se comia muito pouco. O Fundador calava-se, mas o seu estômago dava sinais evidentes de carência. Um dia, saindo para o jardim com o reitor e com o ecónomo, reparou numa vaca muito magra que pastava por lá. Olhando de soslaio o Pe. Dehon declarou:
- Olhem só a coitadinha da vaca. Está a olhar atravessado para nós porque pensa que queremos comer a sua ração…
(Cf. Giuseppe Manzoni, Leon Dehon y su mensajem, Madrid 1995, pág. 644, José Fernandes de Oliveira, Por Causa de um Certo Reino, S. Paulo, 1978, pág. 186).

1 comentário:

Quintal Vieira disse...

Pe. Dehon escreveu ao Pe. Philippe a 22/03/1920, inv 466.04, AD: B22/12 = Uma boa alimentação é um elemento de bom espírito numa casa.