domingo, 17 de janeiro de 2016

Paisagens do Céu (20)



















Gato branco a espreitar lá do céu!
Será o mesmo gato que um dia foi à igreja ouvir o meu sermão?
Como o vi tão devoto, não admira que tenha ido diretamente para o céu.
(Conferir in Foi na Serra de Água, Bernardino Trindade e David Quintal, Grafimadeira, Funchal, 2010, página 94-95)

Sermão aos gatos

Estava eu na homilia ou na prática, como se diz na minha terra. O inverno lá fora era agreste. As pessoas encolhidas e bem abafadas nem levantavam a cabeça. A porta meio encostada foi suficiente para deixar passar um intruso. Continuei a minha pregação, mas com os olhos fixos no gato que avançava pelo corredor central da igreja. Os meus ouvintes aperceberam-se e começaram a seguir com um olhar disfarçado. Mesmo à frente do altar, o gato virou-se para o lado do ambão, onde eu pregava. Então parou, deitou-se e devotamente dirigiu a cabeça em direção ao pregador. Um sorriso aflorou no rosto de todos dos presentes. Eu fiquei sem palavras, surpreendido, quer pela ousadia do felino, quer pelo atrevimento do pessoal, que já não me dava ouvidos. Foi então que em voz alta rezei a Santo António:
“Ó Glorioso Santo António, vós pregastes um dia aos peixes, pois que os humanos não vos queriam dar ouvidos, ajudai-me hoje a pregar a este gato, que nos visitou para que os meus ouvintes se possam ver espelhados nesta figura tão familiar, tão doméstica, mas tão edificante… - respirei fundo e continuei, dirigindo-me ao fiel atrasado – Até que enfim, gato atento, abriste os olhos. Não estiveste apenas 9 dias com os olhos fechados depois de nasceres, mas só hoje conseguiste ver o caminho para chegar até aqui. Mais vale tarde do que nunca. E aqui entraste com os olhos abertos e assim os conservas… pois rezar é abrir os olhos da fé.
Mesmo brincalhão e travesso, sabes comportar-te bem na Casa de Deus. É certo que alguém estranha a tua visita, mas, mesmo assim, tiveste a coragem de enfrentar esses preconceitos. Não te importaste com o olhar repreensivo dos presentes para vir até aqui. Nem te contentaste, como muitos, em ficar junto à porta, a acompanhar de longe a celebração, prontos para desandar.
Aproximaste-te do altar do Senhor, com patinhas de lã, sem fazer barulho, sem chamar a atenção, sem incomodar nem perturbar. Vieste para ouvir e o silêncio é uma disposição do espírito.
As tuas orelhas estão altivas lembrando as palavras de Jesus: Quem tem ouvidos para ouvir que oiça!
Como sabes respeitar esse lugar! Aqui não fazes uma corcunda, não ressonas, nem te afagas com a língua, como fazes a torto e a direito na tua casa. Aqui escutas atentamente, olhas devotamente e rezas com todo o corpo. Não precisas de miar ou de usar outra linguagem para rezar. Respiras apenas, pois a oração é a respiração da alma…
Tu nos ensinas que a presença de Deus não precisamos de fugir dos cachorros que nos incomodam, nem precisamos de perseguir os ratos das nossas tentações. Aqui todos somos irmãos e que ninguém tenha medo de nós.
Finalmente, a tua presença aquece o ambiente, anima a comunidade e afugenta a solidão. Quem nos dera sermos todos assim tão amorosos e calorosos, mas sem empatar amigo nem exigir recompensa. Tu apenas roças, tocas ao de leve, acenas que estás perto, tal como nós devemos ser próximos uns dos outros.
Caro irmão gato, caros cristãos, foi este o meu sermão. Deus fará o resto.
Ámen.”
Ao retirar-me para o altar, o piedoso intruso levantou-se e, com toda a calma, dirigiu-se para a porta da igreja, saindo sem hesitações. A comunidade continuava cada vez mais espantada. Ainda tive tempo de comentar:
“O gato veio só para ouvir o padre. Ele agora foi-se porque tem pressa de pôr o sermão em prática. Aliás, como ele está bem informado! Como antigamente, quem ainda não era batizado só estava na celebração até ao final da pregação, pois só podia participar na mesa da Palavra e não na mesa da Eucaristia. Este gato, com certeza, é apenas catecúmeno…”


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